Edward Bunker – Educação de um bandido (Education of a felon)


Uau, essa semana o Livrada! está extremamente light com os livros escolhidos. Muitos policiais, leituras fáceis, quadrinhos, literatura jovem, tudo muito bom, tudo muito bem. Semana que vem vou ter que fazer um intensivo de literatura de culhão pra ver se balanceio. Mas, enquanto ainda é sexta feira e o mês ainda não acabou, vamos falar de uma das obras mais cativantes que já li dentro do gênero de autobiografias: Educação de um bandido, de Edward Bunker. Sim, o próprio, o Mr. Blue de Cães de Aluguel. Seu papel mais famoso no cinema, quem diria, foram cinco minutos em uma abertura. Talvez por se tratar de Quentin Tarantino, ou talvez por ser um filme com poucos atores, mas o fato é que, fora Resevoir Dogs, Bunker já incorporou atores inúteis em várias outras películas.

Mas, para quem não sabe, Edward Bunker passou dezoito anos de sua vida encarcerado, e não só isso: entrou para o Guiness (não entrou? Pois deveria ter entrado) como o prisioneiro mais jovem a ser enviado a San Quentin, a prisão de segurança máxima mais famosa dos Estados Unidos — tinha dezessete anos. Uma juventude rebelde, um vício em heroína que foi uma verdadeira praga na sua vida, muitas surras de colegas de cela: esses são os elementos de sua narrativa. Quando saiu de lá e começou a se dedicar ao cinema — graças a ajuda de uma certa família influente — lançou-se também como escritor de romances, embora já obtivesse algum prestígio com os livros que escrevera no xilindró. Interessante notar como seus livros não são tão emocionantes como sua autobiografia — O romance O Menino (Little boy blue) é extremamente parecido com a infância de Bunker, sendo Educação de bandido algo similar a um compêndio das aventuras narradas como ficção por ele.

Vai saber se tudo o que ele diz em Educação de um bandido é verdade ou não. Melhor acreditar que sim. Dois indícios, porém, advogam a favor de sua honestidade: o primeiro é que ele de fato ficou preso um tempão, isso não há como negar. E para ficar preso por muito tempo nos Estados Unidos, você sabe, é preciso fazer merdinhas. O segundo indício é que ele tinha a cara toda retalhada quando saiu da prisão, ponto positivo para as histórias em que ele conta que apanha pra caralho só pra depois levantar e tentar dar o troco. Isso é algo meio incrível em suas histórias, a capacidade que o bicho tem pra aguentar porrada.

Outros pontos interessantes valem ser ressaltados em seu livro. Por exemplo: a fatalidade com que trata a vida bandida. Para Bunker, que foi bandido de verdade e ganhou a vida principalmente roubando jóias e falsificando cheques e cartões de crédito, a vida do crime é praticamente um caminho sem volta. Tirando a sorte que ele deu (e seu amigo, o ator Dany Trejo, que conheceu em Folsom), o sujeito que rouba e mata está fadado a morrer fazendo isso. Principalmente porque, segundo ponto, os bandidos sempre dão um jeito de chamar os outros bandidos de volta para a vida do crime. Também é interessante notar sua dificuldade para deixar o vício da heroína, uma droga que, de tão famosa por sua exposição em clássicos do cinema como Trainspotting, tem hoje alguns poucos adeptos. E por último, observar o gosto de Bunker pelos livros, ainda na prisão. Ler cinco livros por semana é uma proeza que já consegui durante uns dois meses na minha vida e que hoje em dia só é possível mesmo com uma vida de presidiário.

O livro foi editado aqui pela editora Barracuda, uma editora um tanto modesta (tem um catálogo de apenas três páginas em seu site), mas com alguns títulos supimpas que vale a pena conferir. A coleção de Bunker está quase completa (faltando talvez seu último livro Stark), e é sensacional em suas capas. Só faço minhas queixas em relação à falta de orelhas de seus livros, que, se não cuidar, detonam muito fácil. Educação de um bandido é o único livro de Bunker com orelhas, mas veja isso: em compensação, condensaram sua história em uma fonte minúscula! Quase precisa-se de lupa para ler. E poxa, publicar livro em fonte Helvetica até dá se você não tem um tostão no bolso, mas é dose! Bom, podia ser pior, podiam publicar em Times… O livro não tem muita margem e é um blocão de letrinhas miúdas, mas tem um cabeço charmoso junto à paginação. A foto da capa também é sensacional, a única que destoa do resto da coleção. E o melhor: mugshots de Bunker ao começo e ao final do livro (primeiro bem jovem e depois, velho detonado). Ainda assim, palmas para a editora Barracuda que publicou esse livro bacanérrimo. E palmas para mim que cheguei ao fim do mês com vinte posts diários (começou dia 8 e, como cristão, respeitamos os domingos). Que venha maio!

Comentário final: 381 páginas de papel pólen soft 80g/m². O que nós não daríamos por um pouco mais de gramatura, hein?

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8 Respostas para “Edward Bunker – Educação de um bandido (Education of a felon)

  1. Bom, agora entendo porque gostei tanto dos posts dessa semana. Hunf, tavo-me achando intelectual. Droga de realidade.
    Parabéns pelos vinte dias,
    e para béns pra mim por comentar com tanta humildade.
    =)

    • Hahahaha seus comentários humildes são sempre bem vindos, Maurício. E obrigado pelos parabéns, seu intelectual de fachada! 😛
      Grande abraço!

    • Ahahahah não Sava, é justamente o contrário: crítica literária sem faniquitos intelectualóides. Agora, quanto á sua segunda pergunta, precisaria saber ao que você está se referindo…
      Grande abraço e visite mais vezes!

  2. Conheci o Bunker por indicação tua. Não lembro qual foi o livro que tu me emprestou. Depois comprei quase todos. Menos esse. Odeio biografias. =D

    Parabéns pelo blog, garato. E continue com os livros light. Entretenimento é isso.

    • Eu te emprestei o Cão Come Cão, Murilo, tenho quase certeza! Uma excelente história que em breve resenharei aqui!
      Os livros aqui são, de maneira geral, bem lights. Só não são muito conhecidos ou muito lidos. Aliás, quero fazer uma ficha técnica com estrelinhas (algo bem escroto) dizendo a dificuldade do livro e avaliando outros aspectos…
      Obrigado pelo elogio e apareça sempre! Grande abraço!

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