John Fante – 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year)


Nada melhor para terminar a tal da semaninha light com um livro RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRASO. Eu poderia colocar um livro beatnik, mas seria óbvio demais. Poderia colocar Pergunte ao Pó, de John Fante, mas também seria muito óbvio. Então, por que não pegar um lado B desse autor que foi o precursor dos beats (segundo o papa-beat Charles Bukowski) e que, ao mesmo, do meu ponto de vista, resume toda sua obra como nenhum outro livro seria capaz de fazê-lo. Sim, porque John Fante sabe escrever sobre uma coisa só: ele mesmo e sua família de italianos pobres.

1933 foi um ano ruim é uma dessas histórias tristes e que, assim como a sua quadrilogia (da qual Pergunte ao Pó é a terceira parte), trata das frustrações de um jovem chamado Dominic Molise, de 17 anos, que tem um sonho apenas: ser um grande jogador de baseball. Talento não lhe falta. Tem um daqueles braços campeões, que no livro, é inclusive um personagem a parte — volta e meia Dominic descreve os comportamentos autônomos de seu Braço (assim, chamado com letra maiúscula).

(Aliás, um parêntese: eu particularmente odeio esses filmes americanos de baseball em que o menino taca uma bola forte e o treinador fala “Santa Maria mãe de Deus, olha só o braço daquele garoto! Ei, filho, o que acha de jogar na liga?” “Não vou te decepcionar, treinador” brrrrrrr)

Como eu dizia, Dominic trata seu braço melhor do que trataria a um filho. O mantém aquecido com um unguento e atende aos anseios do membro (peraí que é o braço mesmo) mais rapidamente que os seus próprios. Mas Dominic é pobre, filho de imigrantes italianos paupérrimos que moram no gélido estado do Colorado. E por isso, precisa ajudar o pai, cujo maior patrimônio é uma betoneira. A saga de Dominic, que tenta escapar de sua rotina massacrante para ir para a Califórnia tentar ser alguém é dolorosa e bate fundo no peito. Qualquer frustração dessas de abrir mão dos próprios sonhos descrita num livro, de Anne Frank a Holden Caulfield, arrebanha multidões de leitores que sofrem junto (nunca vi esse povo, hein?). E Fante sacou isso antes de todo mundo, porque explorou essa mesma dor em quase todos os seus livros. Acho difícil alguém ler o livro e não chegar à última página com um aperto no peito. Final dramático, sem essas palhaçadas de beatnik de terminar o livro com frases esdrúxulas como “fumei o cigarro e olhei o mar”. Final tem que ser final mesmo, porra!

Muito embora já tenha passado da idade de ler literatura beat, guardo muitas boas recordações desse livro, pelo qual tenho um carinho. Inclusive o indico pra qualquer Zé Mané que insiste nessa literatura pobre de ideias e estilo. Aliás, acabei de incorrer no erro de chamar John Fante de beat. Tudo bem mesmo, afinal, não fossem os beats para divulgar sua literatura, Fante passaria despercebido aos olhos dessa garotada que só gosta de música, sendo ele um beat honorário, como um tiozão que joga bola com a molecada. Mas reconheço que sua obra, além de curta, é repetitiva. A foto também é repetitiva. Não aguento mais aquela foto horrorosa que tem ele de lado com o cabelo meio despenteado, por isso peguei uma foto bem escrota dele com um cachorro pra mostrar que qualquer coisa é melhor do que aquilo. Sério, que imbecil tira uma foto naquele ângulo? No mínimo, um anão incompetente com a câmera.

A edição do livro que eu li é aquela pocket da editora L&PM (que, segundo o Chico, são de alguns parentes distantes dele. Tô acreditando, hein, Chico?), que é o formato favorito para publicar beatniks (olhaí, falei de novo). E, convenhamos, a intenção de uma editora pocket não é fazer algo muito produzido. É, antes de tudo, divulgar o conteúdo. E por isso a capa do livro tem uma diagramação péssima, uma foto escrotérrima (provavelmente tirada pelo mesmo anão incompetente), e inclusive, propaganda de outros livros da editora no final. Se liguem, porra, ninguém de respeito faz mais isso desde 1980! E no começo, na parte de leituras afins, adivinha: só dá Bukowski e Jack Kerouac. O tiozão tá mesmo enturmado com a garotada. Não bastasse, papel offset pra tirar a gente do sério. Sorte da editora que eu não era o fresco que eu sou hoje pra livro na época que eu li 1933. Eu, seguindo o nome, realmente guardava o livro no bolso das minhas calças de mano. É, sorte deles.

Comentário Final: 135 páginas offset formato de bolso. Xi, marquim…

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13 Respostas para “John Fante – 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year)

  1. Rapaz, não fiquei com a mínima vontade de ler o livro, mas gostei da resenha. Falando que a literatura dele é repetitiva, você me fez lembrar do Dalton Trevisan. Ele repete vários personagens e vários contos, ou eu estou falando bobabem?

    \o/

    • Realmente Miluse, tem coisa melhor pra se ler por aí. O Dalton Trevisan repete muito sim os personagens e temas dele, mas isso faz parte da proposta que ele elaborou para si, então, a nós, só nos resta gostar ou não.
      Abraço!

  2. Esses livros pocket que não atendem mais o requisito de serem pocket são paradoxais. Se eu não posso colocar o livro no meu bolso, por que ele é chamado de livro de bolso? Se só conseguimos colocá-los em calças de mano, tinham que se chamar livro de calça bag ou livro de calça de mano.

    Os beats influenciaram uma geração (à parte). Se não fosse eles, a irmã do Doug Funny seria apenas mais uma irmã mais velha.

    • Hahahaha muito boa a lembrança, Bruno! Realmente, a Judith (era esse o nome, né?), irmã do Doug, era uma beatnik inconsolável.
      Quanto ao nome “livro de bolso”, na verdade não é o conceito do livro que se desvirtuou. É, antes de tudo, o conceito de bolso. Experimente por um destes em um bolso interno de um paletó ou sobretudo que funcionará perfeitamente, mas experimente enfiar três moedinhas sequer no bolso de uma calça jeans…
      Abraço!

    • Verdade, Carlinha. O que reforça a ideia de que, só porque uma coisa só pode ser bem aproveitada quando se é jovem, não quer dizer que ela seja necessariamente ruim.

    • Ahahaha não Caio, nunca disse que essa era a realidade. O que acontece aqui é apenas um esforço de memória sobre minhas leituras passadas. O meu ritmo de leitura atual, inclusive, é bem menos intenso do que era dois meses atrás, e o livro que estou lendo no momento pode ser verificado em um pequeno texto no canto inferior direito do blog. Passe mais vezes! Grande abraço!

  3. Não posso concordar com a crítica. John Fante não é um escritor esplendoroso, mas é um bom escritor. Ele criou um personagem e o mantém, mas não exatamente sobre a mesma coisa. Ele escreve sim, dentro de um universo particular, mas qual escritor conseguiu fugir a isso? Se formos pensar assim, vários escritores seriam repetitivos. o Dalton não é só repetitivo, é baboseira gratuita na maioria dos seus trabalhos, embora eu goste de dois ou três livros dele, quando ele consegue sair da casinha. Não entendo a tua insistência em chamá-lo de beat. Pode ter uma ou outra semelhança, mas os acho completamente diferente. Inclusive os beats, chamados por você de fraca literatura pra zé mané que não aprendeu a ler coisas melhores, foram muito importantes pra época e produziram coisas muito boas sim. Ler com os olhos de hoje é anacronismo, inclusive ler posições sobre foto.

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