Philip Roth – A Marca Humana (The Human Stain)


Conheci Philip Roth por indicação do Irinêo, lá do caderno G (dentre as várias indicações que peguei por lá), e assim que li o primeiro livro do sujeito — no caso, o Animal Agonizante — voei em cima de outros títulos o suficiente para acumular suas obras em uma estantezinha. Hoje Philip Roth está entre meus autores favoritos FÁCIL, amigo (atrás, é claro, do all-mighty Coetzee). E a Marca Humana, embora não tenha sido uma de minhas primeiras leituras do autor (foi o quarto livro dele que eu li), é a obra que mais me chamou a atenção pela orelha.

Trata-se da história de Coleman Silk, um professor sexagenário que, após uma longa vida dedicada à universidade, se vê em desgraça por causa de um mal entendido. É acusado de racismo por chamar dois alunos de spooks (assombração ou, sei lá, algo ofensivo como crioulo), sem saber que eles eram negros. Só falou isso porque os dois nunca apareciam nas suas aulas, mas estavam na lista de chamada, como assombrações (vai lá entender humor de professor universitário). Aí todo mundo cai de pau em cima dele e o sujeito é afastado de seu cargo. Todo tristonho e sem ter o que fazer, o professor começa a comer a faxineira da universidade, que é uma mulher que se finge de analfabeta pra ganhar a pena das pessoas e tem um casamento conturbadíssimo com um veterano da guerra do Vietnã todo sequelado. A história é contada em parte por Nathan Zuckerman, personagem de outros livros de Roth, como o Fantasma Sai de Cena (só consigo me lembrar desse agora).

O livro é grande como eram os livros de Philip Roth quando ele tinha vigor. Hoje em dia só publica livrinho de cento e poucas páginas. A Marca Humana faz parte de uma trilogia que compõe Pastoral Americana e Casei com um Comunista, e até agora, foi o único a virar filme (parece queestão fazendo um filme de Pastoral também). Só que o filme é uma merda completa, a começar pelo elenco. Quem iria botar fé que a Nicole Kidman seria uma faxineira analfabeta? Sei lá, eu vi o filme lá pelos meus doze anos, mas defendo que meu juízo naquela época era bom também. Veja só: eu assisti City Hall com 6 anos e achei uma bosta. Assisti de novo com 20 e também achei uma bosta. Em compensação, assisti Darkman com 5 anos e achei o máximo. Assisti de novo com 22 e achei demais também. Então, tudo bem né? Eu tenho meus critérios…

O livro em si tem uns pontos que não tem pegada, e o ritmo se quebra. O uso da narrativa não-linear, entretanto, deixa o livro bem interessante e a história do passado do professor Silk é foda. Mas, o mais foda do livro, na minha modesta opinião, é a neurose de Lester, o marido da faxineira, que se esforça para não odiar os vietnamitas, indo a um restaurante de comida oriental com um grupo de apoio e tudo mais. Vale muito a pena ler essas cenas.

A edição da Companhia das Letras para esse livro é um pitéu, cara. Tudo que um autor gostaria de ter, eu acho. Se eu fosse escritor, queria umas edições bonitas assim nos meus livros, com logo de assinatura e o caralho a quatro. Papel pólen soft, fonte Electra e capa com fosco e brilhante para fazer efeito. Quer mais o quê?

Eu sei, a resenha de hoje não é das melhores. Embora goste muito dele, não estou muito inspirado para escrever hoje. Hum, leia a anterior, tá bem legal…

Comentário Final: 454 páginas aaaah, hoje é sexta feira!!!

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10 Respostas para “Philip Roth – A Marca Humana (The Human Stain)

  1. Gostei muito dessa sua “ausência de inspiração”. Roth e Coetzee são dissecados de forma tão pedantes que muita gente nem se aproxima dos dois. Você, com simplicidade, jeito de quem está escrevendo com uma preguiça dos diabos, fez pelos autores muito mais do muito “erudito”.
    Não deixe de ler o Desonra do Coetzee, e parta agora pra o Humilhação, do Roth. Nada grandioso como a Pastoral ou o Marca Humana, mas de uma singeleza comovente. Precisamente por isso: impiedade. Se há uma palavra que me persegue quando quero qualificar Roth e Coetzee é esta: Impiedade.

    Abração

    • Fala, Augusto! Cacete, seu comentário me pegou de surpresa. De todas as resenhas que eu escrevi aqui, essa era a última que eu esperava receber qualquer tipo de feedback positivo. Fico muito feliz com seu comentário e fico feliz que alguém goste de críticas literárias mais escrachadas… E realmente a preguiça estava muito grande!
      Já li o Desonra do Coetzee, espero resenhá-lo em breve aqui, e o Humilhação já está na fila, acho que vou lê-lo depois de terminar o Verão, também do Coetzee.
      Obrigado pela visita, apareça sempre!
      Abraço

  2. Roth: “Acho que é só uma questão de anos para que a literatura se acabe – pelo menos nos Estados Unidos. Não demora para que a literatura se transforme num fenômeno cult. Claro que sempre haverá bibliotecas e livros, mas os dias da literatura com significado social estão contados. O Prêmio Nobel continuará a ser concedido, mas a literatura terá a mesma relevância que a criação de cães airedale. No fundo isso não é uma catástrofe – airedales chegam a ser um fenômeno cultural marginal, mas muitos os amam sinceramente”.

    É por considerar essa declaração de Roth que fiquei felicíssimo com seu comentário. Além disso, com o fato de você amar tanto essa doidice de literatura. Fosse eu, tudo bem. Sou um jurássico Colleman Silk+David Lurie+Paul Rayment+etc e tal. Morro de alegria ao ver que mr. Roth (e gagás como eu) pode estar a falar, de modo antecipado demais, sobre esse esse fim da literatura. Se preocupe não. Continuarei te perSeguindo.

    Grande abraço.

    • Oi Augusto! Acho que o Roth é pessimista desse jeito porque ele mora num país de gente bem imbecil, afinal. Mas acho que a realidade é bem distante disso. A molecada (eu incluso) hoje lê bastante (embora não leia muita coisa que preste, vamos concordar). É só questão de tempo até algo de qualidade cair nas mãos e aí o monstro já está criado.
      Ah, e Paul Rayment é o máximo!
      Abraços!
      PS: De onde você é? Montevideo?

      • Não de Montevideo.
        Vila Mariana, São paulo. Copacabana, Rio de Janeiro. Anjos, Lisboa. Pombal, Paraíba. Sea Point, Cape Town. Imbiribeira, Recife. Abolição, Fortaleza. E sei lá mais o quê. Nao me lembro.
        Senti falta de você ainda não ter dito nada sobre o senhor Swede Levov.
        Acho que o sr. Roth fez um pacto bobo (compreensível): deliberadamente contrariar tudo o que é jovem. Não porque deteste essas coisas, mas como meio de tentar parar de contaminar-se. Ao não dar muitas perspectivas à juventude, ele pensa que não vai desejá-la. Repudiando seus gostos e modos, ele imagina-se livre da tentação de misturar-se aos jovens, de experimentar suas vidas, de comparar a miséria da velhice com a vaga promessa da juventude. E, se experimentar, ele sabe que será tocado definitivamente pelo viço. (Como Tadzio fez a Aschenbach). Portanto, negar de modo tão peremptório não deixa de ser uma saida. Para ele.
        Êi, Yuri, fale sobre DeLillo. Acho que vai gostar ou já gostou de White Noise. Tem por aqui e é bem traduzido, Paulo Henriques Britto.

        Grande abraço

  3. Oi Augusto, legal você passar aqui de novo.
    Não falei do Swede Levov porque não li o Pastoral Americana ainda, embora já tenha o livro, ou seja (está na fila). Mas estou lendo a Humilhação como você sugeriu (e como você pode confirmar vendo o campo “Estou Lendo” no canto inferior direito do blog.
    Entendo a posição do Philip Roth, e ninguém fica bravo com ele, ele tá no seu direito. Mas nesses livros de velhice dele ele tá se isolando mesmo. Acho que pra um escritor isso é ruim. O Cristóvão Tezza e o Coetzee dizem que o contato com os universitários no papel de professor é de grande ajuda na percepção da evolução da linguagem. É ponto, hein?
    Vou te falar que eu sou meio rato de livraria mas até então nunca tinha nem visto nem ouvido falar desse Don Delillo, mas já dei uma procurada por aqui e já achei esse livro, Ruído Branco, né? Vou ler, mas não agora porque ele custa 58 reais e minha vida de estudante eternamente duro não permite essa extravagância pelos próximos meses. Valeu MUITO a indicação!
    Abraços!

    • Importante que v. sa. leia DeLillo. E Thomas Pyntchon. Algo me diz que você tem mais cara de Pyntchon que de DeLillo. Legal que esteja lendo o Humilhação. O que disse sobre Roth é verdade. Ok, period. Legal que esteja lendo Humilhação.

      P.s.: E Updike? O velhinho era bom!!!

      Grande abraço

      • Lê-lo-ei com certeza, cara! Thomas Pyntchon também e Updike também. Tenho uma deficiência com autores de lígua inglesa que estou suprindo aos poucos. Obrigado por me ajudar a supri-la, by the way!
        Abraços. Espero que esteja lendo os outros posts também!

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