J.M. Coetzee – Verão (Summertime)


Que semana! O Saramago morreu, e ao mesmo tempo, a copa do mundo está rolando. Foda isso, tem que parar de morrer gente legal em copa do mundo. Vez passada foi o Bussunda (cuja biografia saiu agora) e dessa vez, foi o portuga. Fiquei com peninha dele, é claro, mas vou confessar que fiquei com pena mesmo foi do João Marques Lopes, o biógrafo mais azarado do universo que lança uma biografia de gente viva uns seis meses antes do biografado morrer. Ô zica! Por essa o senhor não esperava, hein? Aliás, deveria esperar. Que pressa é essa de lançar biografia de velhinhos com um pé na cova, afinal? Faz igual o Fernando Morais. Aposto que já já ele lança uma biografia do ACM.

E aí a gente fica naquela: puxamos a sardinha pra copa do mundo e falamos de algum livro relacionado ao assuntou ou damos destaque ao Saramago, se aproveitando da necessidade das pessoas em tomar conhecimento de novos defuntos. Já viu? Pronto, de um dia pro outro, todo mundo é especialista em Saramago. Sandy, Luciano Huck, Ana Maria Braga, ninguém fala em outra coisa, como se passasse a vida inteira lendo o gajo ao invés de serem os bucetões que a gente sabe que são. Bom, pra ir na contramão desse pessoal, numa vibe mais publicitária, que sabe aproveitar bem o momento (é, publicitário, se você passou incólume à Copa do Mundo e não fez um anúncio colocando futebol no meio ou zoando argentino, tem algo de errado com você), vamos meter aqui o sul africano all-mighty Coetzee, que, afinal, é um dos dois escritores do país que ganharam o prêmio Nobel (a outra é a Nadime Gordimer). E, pra aproveitar mais o momento, de seu novíssimo livro: Verão.

Ia falar de Verão aqui muito antes, mas fui deixando, deixando, e ele foi perdendo o charme da novidade pras pessoas. Agora é só um livro lançado a dois meses atrás: tempo demais para ser considerado novidade e tempo de menos pra ser considerado objeto de lembrança e estudos. Mas aí, na moral? Foda-se, tô afim de falar desse livro hoje.

Verão é a terceira parte da trilogia Cenas da Vida na Província, que retrata alguns períodos da vida do autor. Vou contar que, embora o livro seja fodasso, esperava outra coisa, sei lá, algo no estilo dos outros dois mas falando da vida de escritor badalado, etc. Bom, quem sabe ele não lança ainda, né? O caso é que em Verão ele resolveu arregaçar a bagaça de vez. Sente só: no livro, que cronologicamente se passa a uns dois ou três anos atrás, Coetzee está morto e um biógrafo coleta entrevistas de pessoas próximas a ele para uma biografia póstuma (aprende aí, João Marques Lopes). Os entrevistados são: um colega de faculdade e quatro mulheres com quem rolou uma tensãozinha sexual (entre elas uma brasileira), ou algo mais até. Não dá pra chamar de namoradas, ainda assim. E o que elas fazem? Simplesmente destroem a imagem do escritor, colocam ele como um tipo esquisito, magrelo, feio, ruim de jogo e ruim de cama. Por um momento, até dá pra esquecer que foi o próprio Coetzee, que está vivinho, quem escreveu aquelas duras críticas a si próprio.

A grande sacada da série Cenas da Vida na Província é esse lance dele referir a si próprio na terceira pessoa. Além de agradar a crítica pelo recurso estilístico pouco comum, guarda aí uma grande vantagem para o escritor: a possibilidade de meter o malho em si. Ora, faça aí você uma experiência. Tente se autoesculachar num texto em primeira pessoa e num em terceira pessoa, como se fosse outra pessoa e não você. Mais fácil do segundo jeito, né? Quero ver quem é que vai ser macho o bastante pra se autodepreciar em primeira pessoa. Ah, e não vale ser judeu!

Verão é um livro que é difícil largar de lado, de tão cativante. Tá certo que eu sou suspeito pra falar do autor, mas, excepcionalmente este está demais, demais. Apesar de ser um livro de língua inglesa, é extremamente prazeroso lê-lo, não como é prazeroso ler outros livros do mesmo idioma, com o consumo desenfreado de informação e o deleite da escrita sem floreios, que, acredite, às vezes é necessário. Ler Verão é legal porque te dá a nítida sensação de conhecer Coetzee como a um primo seu, ou mesmo um amigo de longa data. Parece mesmo que ele não deixou passar nada sobre suas ideias e seu estilo de vida durante o período em que viveu na África. E aí a gente vê o que é um sujeito com vergonha de sua origem, e a vontade que ele tem de viver em um lugar como o Brasil, onde o racismo não chega a níveis absurdos como lá, a ponto de uma pessoa branca não poder dar bom dia pra uma negra. É, amigo, e você achando que jogador de futebol chamando o outro de macaco é pesado. Aliás, ninguém prendeu o cara que colocou o apelido no Grafite? Ou deram esse apelido porque ele sempre gostou mais de lapiseira do que de lápis?

Esse projeto da Companhia das Letras pra esse livro é o que há. Embora tenha ficado um pouco triste por eles não resolverem manter o padrão da arte em todos os livros, já não tinha mais esperança de que voltassem a fazê-lo depois do Diário de um ano ruim. De qualquer jeito, essa capa é bem, mas bem melhor do que a do supracitado último livro lançado. A foto não deixa perceber muito, mas essa fita vermelha realmente é uma cinta que colocaram sobre a capa do livro, que não possui nome do autor nem nada. Minha única ressalva é essa lateral branca, porque já tenho muito livro dessa cor aí nas bandas. De qualquer jeito, é demais. Tradução do mestre José Rubens Siqueira (sério, nunca vi esse cara na vida, mas o sujeito é bom, dá pra perceber claramente pelo inglês que eu domino), papel pólen soft, fonte Electra e tudo nos conformes pra mais um livro desse monstro da literatura.

Tenho ainda muitas considerações a fazer sobre esse livro, mas como post grande ninguém lê, vamos parando por aqui antes que alguém desista e vá ver vídeo de gatinho no Youtube.

Sobre a promoção: Ainda está de pé. O comentário de número 500 leva o Plataforma do Michel Houellebecq.

Um Ps: A partir dessa semana, vou começar a postar também nas quartas-feiras. Enquanto a de Domingo é a postagem lado A, na quarta eu faço uma postagem lado B, espaço que também posso abrir para críticos de plantão, ok?

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. JAAAABULLAAAAAAAANI!!!

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5 Respostas para “J.M. Coetzee – Verão (Summertime)

  1. Interessante o recurso literário, mas não vira melação? Do tipo; “ó, que pobre vida eu tenho!”. Não sei, estou curioso. Não li e provavelmente eu vá lê-lo, mas não agora. E é impressão minha ou você está cedendo ao criticismo literário mais fino? Deve ser impressão minha mesmo…
    Ps: Estou lendo o Bolaño, primeiro dos cinco já foi, vamos ver quanto tempo leva o resto.
    Abraço.

    • Hum… Até que não, Lucas. Ele se enaltece também em algumas vezes, dizendo na voz de uma das entrevistas coisas como “Bom, ele não ganhou o Nobel à toa, afinal”, e etc. Mas ele é, de fato, uma pessoa isolada, e tem fama de misantropo, então pode ser que ele esteja querendo se justificar dizendo “olha, vocês não tão perdendo nada por não me conhecerem”.
      Às vezes acontece de eu não ter tanta palhaçada pra dizer aqui e o fato de eu querer dizer algo mais específico sobre o livro, e aí a resenha não fica tão engraçada. Me avise se começar a ficar muito fino que a gente baixa o nível…
      Boa sorte com o Bolaño! Abraço!

  2. Pingback: J. M. Coetzee – Desonra (Disgrace) | Livrada!

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