Rosa Montero – História do Rei Transparente (Historia del Rey Transparente)


E começou as postagens do meio da semana. Agora é assim. Tá cansado de ter que esperar o domingão, o único dia que você tem pra passar longe de um livro, ou o único dia que você tem pra LER um livro, pra ler uma resenha ixperta aqui nesse blog horroroso (esteticamente falando)? Tudo bem, agora tem postagem quarta feira também, maluco!

Vixe, demorou pra esse livro ser a bola da vez aqui, hein? Rosa Montero é a minha escritora espanhola favorita (até porque nem sei se eu conheço mais escritores espanhóis — e Cervantes não vale né, porra?), e a Historia do Rei Transparente foi o primeiro livro dela que eu li. E digo mais: li no original, em ER-PA-NIOL. Éééééé cumpádi, tá pensando o quê? Aqui não tem filho de pai assustado não! E que satisfação ler um livro tão bom no original. Dá a sensação de que, se alguma coisa se perdeu na tradução, você não deixou passar.

Bom, esse livro é também, de longe, o maior sucesso editorial da Rosa. Ela tem uma santíssima trindade dos seus livros: pra quem curte uma história mais fantasiosa, a História do Rei Transparente não tem pra ninguém. Pra quem curte algo um pouco mais pé no chão e ainda assim, igualmente boladão, o livro certo é a Filha do Canibal. E, finalmente, pros cabeçudos e pseudo-cabeçudos que curtem um ensaiozinho assim, de leve, mel na chupeta, A Louca da Casa é o que há. Espero falar de todos, mas hoje, nos interessa aqui o primeiro, o fantasioso bolado, LESKE (ih, quem não é do Rio boiou agora).

A História do Rei Transparente é o resultado de uma grande pesquisa da autora sobre o período medieval — as cruzadas, mais especificamente. Se passa na frança rural e conta a história de Leola, uma mocinha roceira daquelas de dênti pôdi que dá na festa junina que, um belo dia, se vê órfã no mundo por causa dos cavaleiros que passaram ali e mataram todo mundo. Como não bastasse, o namoradinho, Jacques, se manda pra lutar pela causa, arrastado contra sua vontade. Sem ter muito o que fazer, ela se veste com a armadura de um homem morto e se passa por homem para sobreviver em um mundo de homens. E não é isso que a mulherada (não todas, só as que tem juízo) anda fazendo nos dias de hoje?

Aventurando-se pelo mundo, ela conhece Dhuoda (gente, desculpa se os nomes são outros na versão traduzida, ok?), uma bruxa que não é bruxa mas sim, antes de tudo, uma mulher de razão e conhecimento, a bruxaria da época (deixa só eles saberem que ser bruxa hoje é ser gordinha de batom preto, cabelo bom e escutar Tristania). Juntas, as duas vão, aos poucos, arrebanhando um exército de desajustados, ou melhor, de desqualificados para a época. Anão, gente com síndrome de down, enfim, tudo com o que o Todd Solondz poderia fazer uma piada só está ali, é a sua trupe.

A História do Rei Transparente é, antes de tudo, um romance sobre a intolerância e sobre a inadequação ao mundo — algo que todos nós (não todos, só os que têm juízo) já experimentamos uma vez ou outra. Sabe aquelas merdas que falam sobre os clássicos da literatura que é um livro que, embora se passe em outra época, é atual e blá blá blá whiskas sachê? Mentira, amigo. Tô lendo Anna Kariênina e nunca aquilo ali vai ser algo atual depois dos anos 60. Tá ali um livro que cheira a museu, rapaziada (tá certo, alguns podem ser de fato atuaizassos, mas a grande maioria vai só na aba dessa mesma justificativa que, acredite, não se encaixa em todos os clássicos). Esse livro sim é atual. Tá certo, foi escrito em 2005, mas é atual na alegoria de algo antigo que se faz atual (Ah, não vem não, que você entendeu). Por isso, é um clássico da literatura. Como que eu sei? Tá com a tag “clássico da literatura”. Tá ali, pode ver, é clássico sim.

E que personagens memoráveis, amigos. Que narrativa fluída (mesmo em erpaniol), que sagas emocionantes, que história cativante. Fico boladão como a galera não tá tão ligada nesse livro quanto deveria estar. Candidato a ser livro favorito de muita gente. Quero ver engolir o choro lendo esse livro, quero ver! Quem não leu tem que ler e quem já leu tá ligado na missão. Ó, tô recomendando, hein? Não é todo dia que eu recomendo livro aqui, só limito-me a comentá-los, mas tô recomendando esse.

Boa notícia pra quem gosta de erpaniol: Dá pra achar esse livro no original, numa belíssima edição da Alfaguara. Talvez na Fnac. Senão, o jeito é ler a versão em português, da Ediouro, numa edição bonita também, mas não tão bonita quanto essa da Alfaguara. Por isso, as duas editoras levam as tags de hoje. No começo do livro ainda tem, como é peculiar dos livros medievais, um mapinha, inclusive com a suposta indicação da ilha de Avalon. Isso, aquela mesma que aparece na revista dos famosos… Animal!

Ah, e o que é a História do Rei Transparente? Por que esse livro tem esse título? Eu é que não vou contar, tenho amor à vida.

Comentário final: 574 páginas pólen soft. Sabe aquela cena do extintor de incêndio em Irreversível? Dá pra trocar o extintor por esse livro.

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12 Respostas para “Rosa Montero – História do Rei Transparente (Historia del Rey Transparente)

  1. Aaaah, é o meu livro favorito. Tenho um projeto de ler esse livro uma vez por ano. Muito melhor e mais rico do que ouvir conselhos de gente que pensa que sabe tudo.
    Esse livro é lindo, lindo, lindo. Fico emocionada só de lembrar…

    Beijos.

  2. Pingback: Tweets that mention Rosa Montero – História do Rei Transparente (Historia del Rey Transparente) « Livrada! -- Topsy.com

  3. Eu gosto da forma que você escreve, acho que você tem umas tiradas muito engraçadas (falar “tiradas” é coisa de velho) e realmente acho bons os seus comentários sobre os livros. Mas rapá, fala assim não dos queridos clássicos. Os meninos foram transformados de substantivo para adjetivo, não faz isso não! Tá, eu sei que eu sou um velho chato querendo defender os outros velhinhos, mas é um pouco verdade Yuri, o pacto ficcional é mais forte na época em que o livro foi escrito e publicado pela primeira vez, mas acredito que há algo de essência humana que perpassa – ao menos nos bons – os tempos.
    Quanto ao livro indicado, puxa, para de escrever resenha que minha lista já está cheia. Vou cometer suicídio e escrever na carta de despedida; “por impossibilidade de ser um leitor…”
    Parabéns pela resenha.
    Ps: Se quiser bater um papo no sábado, lá na federal, manda um e-mail.
    Abraço.

    • Hahahaha sabia que você não ia gostar desse meu comentário, Lucas. Na real, vou te falar a minha verdadeira bronca: Eu acho que os tais clássicos podem seguir dois caminhos: ou sustentam sua posição de clássico pela relevância atemporal da parada, ou têm essa mesma posição sustentada pela academia quando ele deixa de fazer sentido, ou mesmo de ser lido pelas novas gerações. Grandes exemplos nesse sentido são os livros do Almeida Garret e do Xavier de Maistre. Não fosse uns doidos lá de letras insistirem em estudá-los, ninguém ia saber desses autores, por mais que tenham sido clássicos para uma geração posterior a deles. Tem horas que é preciso deixar as coisas seguirem seu rumo, eu acho. (tá, podem vir de machado depois dessa).
      Leia esse livro sim, se você tiver tempo, vale muito a pena! Ah, e vou estar lá na Reitoria amanhã para uma deliciosa prova de alemão: Treenbare Verben e Modal Verben tão nos tópicos. Diliça!
      Abraço!

  4. Depois de ler a resenha o primeiro sentimento é de correr à livraria mais próxima e comprar o Rei Transparante. Quanto à crítica dos clássicos que não são mais assim tão clássicos, foi um desabafo, algo corajoso de se dizer.

    Por definição, um clássico seria uma obra atemporal / que resiste ao tempo, como Shakespeare, por exemplo. Já Anna Karenina…

    Quanto a Almeida Garret, pessoalmente gosto dele. Para mim, pelo menos o Viagens na Minha Terra, ele parece um demolidor, um Nietzche da literatura. Mas é preciso saber contextualizá-lo, compreender o momento em que o autor viveu.

    • Oi Juvenal. Se você ler esse livro, vou considerar meu trabalho com essa resenha concluído. Realmente vale a pena ler. E obrigado por ter entendido meu desabafo. Realmente, foi isso, um desabafo.
      É, eu posso ser um pouco ranzinza com o Almeida Garret e o Xavier de Maistre, e posso não entender muito do contexto em que foram escritos, embora tenha estudado a obra deles no contexto. Sei lá, pra mim não colou. E a gente sabe que um livro não é mais considerado um clássico por uma geração quando a única edição que você encontra dele para vender é da Martin Claret. hehehehe
      Abraços!

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  6. Pingback: Rosa Montero – A Filha do Canibal (La Hija del Caníbal) « Livrada!

  7. Puta que pariu, tu é o rei em falar de livros que quero ler há muito tempo. Tem mais ou menos uma hora que tô fuçando os posts antigos e pelas minhas contas já são onze livros que quero passar-na-frente das leituras planejadas. Comofas?

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