Philip Roth – A humilhação (The Humbling)

Ia falar hoje de outro livro do Philip Roth (no caso, O complexo de Portnoy), mas acabou que viajei aqui para a terrinha e só sobrou para resenhar o único livro que eu tinha em mãos, que terminei de ler no voo, graças ao meu vexaminoso – e primeiro – no-show e a escala forçada em Congonhas: A humilhação, do estadunidense Philip Roth.

Preciso admitir que a crítica, quando a gente liga pro que o crítico pensa, pesa sim sobre nosso julgamento final da obra, principalmente quando o comentário não é bom. Pois bem, tinha lido no blog do Irinêo (esse sim é um blog sério e compromissado) que a Humilhação é um livro, vamos dizer assim, tosco. Quem quiser leia lá o post do ano passado, quando ele leu o livro ainda em inglês, mas o caso é que eu fui ler esperando pior. E a verdade é que, por manter a expectativa baixa, o livro até me surpreendeu positivamente. A história é excelente, e isso por si só é algo grandioso nos dias de hoje, com suas punhetas literárias, poetas marginais e escritores wanna-bes que acham que literatura é só juntar um monte de palavra bonita. Entretanto, como assassinato em cadeia que nunca tem um só autor, dou aqui também minha apunhalada na obra, que, já adianto, vai causar faniquito nos guardiães do velhaco: A humilhação é um livro meio mal escrito (ooooohh!!). Explico o porquê.

Tenho a opinião meio fixa que tá difícil de ser mudada, que é a de que literatura de língua inglesa é naturalmente sem estilo. Não é culpa deles. O inglês é uma língua feia, é o McDonalds dos idiomas: rápida, com poucas opções de construções, falta de formas verbais que facilitam a vida, enfim, falta muita coisa que torna a profissão de escritor de língua inglesa um trabalho ingrato pra cacete. Por isso, tirando Shakespeare e outros ministros da boa escrita inglesa, o grosso da literatura nesse idioma baseia-se principalmente no poder da narrativa e nas análises psicológicas, descritivas, etc. Chega de falar bonito.

Até então, os livros que eu tinha lido do Philip Roth (parente do novo técnico do Vasco) eram primores nesse tipo de literatura que fez a reputação dos livros em inglês. Mas esse não. Muita vontade de analisar tudo. O sujeito leva a namorada pra cortar o cabelo, acha ela muito frágil ali e começa a questionar a independência dela; Depois fica analisando o que a moça tá fazendo com um cacetão de plástico que viado põe no cu e questiona sua fraqueza. Ou seja: forçassão de barra até não poder mais. Isso fica muito mais evidente em um livro curtinho como esse. A vontade louca de colocar importância em todo acontecimento da história tira dela qualquer carga dramática que quer se mostrar autêntica. Afinal, assim como toda música é feita de pausas, toda história necessita de suas lacunas, para serem preenchidas por nós, os leitores. Se eu quisesse ler tudo mastigado eu lia, sei lá, Danielle Steel. Eu disse que ia parar de falar bonito, né?

Mas a história, como eu disse, é muito boa. Um ator velhaco que tenta se matar por não conseguir mais representar se mete num relacionamento meio doentio com uma quarentona lésbica, com quem ele gasta dinheiro como se não houvesse o amanhã. Os pais da moça, outros velhacos, desaprovam o namoro por serem velhos (sic) conhecidos. A explanação sobre a dor da velhice em Roth é cruel, acachapante, fodástica e não recomendada para quem tem essa preocupação em mente. Aliás, Philip Roth não veio a esse mundo pra deixar ninguém feliz, e ponto. O sujeito gosta de uma tristeza, e ai de quem estiver feliz aí com a sua “melhor idade”.

De qualquer jeito, o conteúdo do livro, analisado bem grosseiramente, é uma variação do mesmo tema encontrado em outros livros seus, como A marca humana e O animal agonizante. Gente que se fode tentando passar por cima das próprias impotências e esquisitices pra se dar bem com a galerinha. Pensem em um cara rancoroso.

O projeto gráfico desse livro é o pitéu que é a coleção do autor. Dispensaria o roxo que tem na capa, mas é uma escolha do artista, e nisso ninguém pode meter o bedelho (aimeudeusdocéunummexenasminhascoisasmininu). No mais, tudo padronizado: logo do autor, fonte Electra, papel pólen de alta gramatura (pro livro parecer maior do que é), etc. Uma coisa curiosa desse livro é que ele tem capítulos! Gente, há quanto tempo vocês não viam um livro do Philip Roth dividido em capítulos? Isso, e mais a economia de papel que ele tá fazendo na própria literatura, só mostra o quanto ele tem uma certa razão em reclamar de ser velho. Bem que ele queria mais viço pra produzir os tijolões de outrora, mas ei, cara, não esquenta, os livros ainda estão bons. Ainda.

Só mais uma coisa: O título original em inglês é The Humbling, e tá traduzido certo, tudo bem. Mas Humbling tá escrito com letra maiúscula, pelo menos na ficha técnica do livro. Alguma intenção do autor nessa escolha de caixa alta que a editora não respeitou ou tá tranquilo?

E um ps: Essa semana o livrada completa 2 meses. Não prometo, mas vou tentar fazer uma resenha no dia 8 em comemoração.

Comentário final: 101 páginas em pólen. Pra bater é que não serve.

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