Cristóvão Tezza – Juliano Pavollini


Juliano PavolliniFala meu povo.  Hoje é quarta feira, mas para quem emendou o feriadão, é segunda. Ê, que beleza: todo mundo com cara de bunda no escritório, cheio de sono e com o mundo pra organizar. Deixa disso e vem se alienar aqui no Livrada!, porque o livro de hoje é bacaninha.

Eis que, semana passada, lá estava eu na insípida bienal do livro de Curitiba. Todo mundo sabe que Bienal já é uma coisa chata, aqui em Curitiba então, nem se fala. Estande da Cosac Naify, da Companhia das Letras? Que nada, era só Editora do Fim do Mundo, Grupo Editorial Onde O Judas Perdeu as Botas, Editora das Faculdades Odair José, etc.

Cena de lá: Um cara me aborda e me pergunta: “Oi, você já fala inglês e espanhol?”, “Já”, “Really?” (o cara começou a falar inglês comigo pra me testar). Eu, com uma cara de poucos amigos, respondi ainda: “Really”. O sujeito insiste: “How much?”, mas eu corto: “Enough”. Ele se rende “Ok, então, obrigado!” e me deixa ir embora como se não tivesse tentado me estuprar moralmente.

Outra cena: Outro cara me aborda: “Está gostando da Bienal?” “Acabei de chegar.” “O que você faz da vida?” “Sou jornalista” “Ah, jornalista precisa ler bastante, certo?” “Acho que sim, Captão Óbvio” “E o que você diria se eu lhe dissesse que é possível ler um livro de duzentas páginas em vinte minutos com total compreensão?” “Hum… eu acho que prefiro do meu jeito”. Depois reclamam que a Bienal é um fracasso, olha o naipe dos párias que eles deixam montar acampamento!

Enfim, tava eu lá para prestigiar a mesa do José Castello e do Cristóvão Tezza, e descobri que havia uma nova edição revista, pela editora Record, de Juliano Pavollini. Resolvi comprar sem pensar muito, o que é uma raridade. Levei lá para aquele autógrafo maroto, bati aquele papo rápido de elevador (gente, o Tezza conhece o J.M. Coetzee, jantou na casa dele e o escambau!) e cheguei em casa para começar a ler o livro, que terminei no domingo. Vim aqui então, contar para vocês sobre ele.

Juliano Pavollini é um romance de formação, aquele tipo de romance que mostra a transformação do personagem. O Juliano em questão é um menino lá do interior do Paraná que, após a morte do pai, foge para Curitiba e é hospedado num bordel ali do Centro Histórico da cidade. Ali ele começa a desenvolver o começo de sua vida adulta e, não se sabe até o seu final, a história é narrada para uma psicóloga de um presídio. Sim, Juliano já começa como habitante do país das calças bege. Mas aí vamos vendo como sua vida vai descambando no bàs-fond curitibano, mesmo ele sendo um rapazinho literato e tímido. Um bandidinho beletrista de 17 anos me cativa, me identifico muito com Juliano na época em que me mudei pra cá. Não que eu fosse bandido, só era meio ogro para certas coisas, que agora não vem ao caso. Enfim, nessas histórias de adolescência, Catcher in the Rye style, todo mundo acaba puxando a sardinha um pouco pro seu lado. Culpa da Sincronicidade Artificial, Manipulação de Linguagem, Kundalini e as Fronteiras da Realidade (sério, se você tiver disposição, depois leia tudo, e tente não ficar maluco. O link para essa teoria da conspiração está aqui.) É uma fórmula muito boa se você quer fazer sucesso, mas não é tão fácil quanto parece, tem que ser bambambã.

Ah sim, a história tem um certo paralelo com a vida do autor, no sentido de que ele veio de Lages para Curitiba após a morte do seu pai, quando ele ainda era pequeno. Mas isso é muito querer achar pêlo em ovo e não é algo que gente decente mencione. Depois do Código Da Vinci, todo mundo ficou mais paranóico.

TezzaTenho uma pequena crítica ao livro, mas é só porque eu sou chatão: embora a gente não saiba com quantos anos Juliano Pavollini narra sua história, é meio incrível que um detento tenha essa prosa-arte, essa prosa-resultado, essa prosa-marota do Tezza. É o grande paradoxo do escritor, afinal: fazer com que seus personagens não tenham uma voz consonante com a sua própria. Complicado, cabrón, complicado de fato, e quando o cabra é safo nessas de letras, como é o caso do Tezza, o problema fica mais evidente. Ainda assim, é algo que só se nota quem quiser, e quem não quer, que se divirta.

Juliano Pavollini é um dos melhores livros do autor que eu já li, junto com os clássicos Trapo e o Filho Eterno e os meus favoritos, como Uma Noite em Curitiba e o Fantasma da Infância que, aliás, guarda em si uma suposta continuação da saga de Juliano. A editora Record caprichou nessa coleção, mas, como já mencionei-a quando falei do Fantasma da Infância, encerremos por aqui.

Vamos mandar fotos da estante ou não vamos? Colé, pega essa câmera fotográfica, tira uma foto dos seus livrinhos e manda pra cá! bloglivrada@gmail.com

Comentário final: 240 páginas em pólen soft. Pimba nas pistoleiras!

 

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14 Respostas para “Cristóvão Tezza – Juliano Pavollini

  1. Isso de romance de formação é uma complicação sem tamanho. A coisa toda começa lá com o Goethe. Aí você diz; “Já começou com o pé no peito”. Mas não parou aí. Tem James Joyce, tem Dylan Thomas brincando de James Joyce e por aí vai a ciranda. Eu, que não sou nada de nada, acredito que é extremamente difícil fazer a escrita avançar conforme a idade do personagem, principalmente com uma linearidade literária tão complexa. A questão do autor muito presente é uma coisa que tenho pensado muito ultimamente. Pessoas extremamente eruditas acabam tornando tudo erudito e muitas vezes destoa de todo contexto ou estória. Enfim, gostemos do Tezza por ser de casa.
    Abraço.

    • Oi Lucas,
      Realmente esse gênero de escrita não é coisa de criança. O Tezza até não é tão erudito, mas tem uma prosa muito singular, que, obviamente, acaba transmitindo-a para a voz de seus personagens. Talvez esse seja um problema sem solução, afinal. Mas sim, o Tezza é da casa e temos orgulho dele.
      Abraço!

  2. Fala Yuri!

    Não sabia dessa intimidade do Tezza com o Coetzze. A unica coisa que conheço do Tezza é O filho eterno e por tudo que foi incensado em cima dele achei-o apenas bom, nada além disso, talvez precise ler mais cosias dele.

    Abraço!

    • Oi Raphael, como está?
      O Tezza foi convidado pelo Coetzee para participar daquele evento literário que ele organiza na Austrália, ele aí conheceu-o, jantou na casa dele e me disse que ele é tudo aquilo mesmo: misantropo, esquisitão, vegetariano e de poucas palavras. Mas ainda assim é o cara. O Filho Eterno realmente é um bom livro, mas não está entre os meus favoritos dele. Talvez tenha se feito uma campanha excessiva do livro pelas causas erradas (a possível interpretação de auto-ajuda, por exemplo). Recomendo o Trapo, esse Juliano e, depois, o Fantasma da Infância.
      Abraço!

  3. é meio incrível que um detento tenha essa prosa-arte, essa prosa-resultado, essa prosa-marota

    Verdade verdadeira. Mas há exemplos reais, fora da ficção: Jean Genet foi descoberto por Sartre, que se impressionou com o vigor e a imaginação das cartas de leitor que lhe enviava da prisão, comentando livros e artigos seus. Norman Mailer, nos EUA, é outro exemplo.

    É possível que o Tezza tenha se inspirado no caso Genet para criar esse seu personagem, se é que já não estou também achar pelo em ovo.

    • Oi Jarobas!
      Realmente acredito que haja escritores descobertos ao acaso, mas, não acho que o Juliano Pavollini tenha sido pensado como um prodígio na época em que foi escrito. Se bem que depois, no Fantasma da Infância, ele supostamente é um escritor que já foi razoavelmente badalado, então, pode ser que a impressão errônea tenha sido corrigida ou amenizada nesse livro. O que acha?
      Abraço!

  4. Yuri,meu caro, uma pergunta pertinente para você: por que livros premiados do Tezza (fotografo, luz e sombra) ficaram de fora dessa reedição da record? Isso faz sentido?
    Abraço,Wande

  5. Pingback: Edney Silvestre – Se Eu Fechar Os Olhos Agora « Livrada!

  6. Olá! Sou estudante de Letras e discutimos bastante esse livro na disciplina de Literatura Brasileira Contemporânea. Acabamos por pensar que, a prisão que Juliano se refere, não é realmente um presídio, mas sim uma clínica de tratamento psicológico (hospício?), uma vez que ele dá indícios de distúrbios emocionais durante todo o livro e dificilmente ele teria acompanhamento psicológico em um presídio. Concorda?

    Sobre a prosa dele dificilmente corresponder a de um presidiário – ou ainda, a de uma pessoa com problemas psíquicos -, penso que é difícil avaliar. Afinal, ele teria lido diversos livros dos 16 aos 18 anos, e durante toda sua narrativa ele faz referências aos textos que escreve. Não é totalmente sem sentido o fato dele escrever com um tom artístico, penso eu.

    Adorei o post e o blog. Um beijo. :*

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