Haruki Murakami – Do que eu falo quando eu falo de corrida (What I talk about when I talk about running)


What I talk about when I talk abour runningHoje é domingo, e ninguém quer saber de literatura hoje, êêê! Ainda assim, o rapazote aqui cisma em soltar uma resenha nesse dia em que nem Deus trabalha. Mas tá maneiro, vamos lá.

“Oba, literatura japonesa”, pensou o leitor desavisado que não sabe que Haruki Murakami é o japa menos japa da face da terra. Sim, ele é japonês, edokko da gema, mas não faz nada que de longe nos remeta àquela musiquinha “tan tan tan tan tan BUOOONG” que vem na sua cabeça quando você pensa em Japão. E, pra piorar, vamos falar de um livro que, por si só, já é distanciado de toda a literatura produzida pelo rapazote. Trata-se de Do que eu falo quando eu falo de corrida, um livro que reúne pequenos ensaios sobre o ato de correr, aquela coisa sofrida de que ninguém gosta, mas faz por um estranho desejo de se machucar e por uma mais estranha ainda vontade de ouvir o doce som das suas coxas flácidas batendo uma na outra.

Antes de tudo, um breve resumo da ópera (ó como eu sou legal, gente! Vocês podem sair daqui mentindo pra todo mundo que leram um livro): Murakami tinha um barzim de jazz em tóqui, fumava como um Humphrey Bogart de olho puxado e tava encostadão na vida, até que teve a ideia maluquete de escrever um livro, e começou. Deu certo, conseguiu ser publicado e resolveu viver disso. Passou o ponto da birosca e pensou: “tá, vou ficar aqui o dia inteiro com o rabo sentado nessa cadeira botando letra no papel. Preciso fazer alguma coisa para não virar um primo distante do Jabba”, e resolveu começar a correr. Bom, sei lá, eeeeeeeeeu prefiro algo menos agressivo como pedalar ou andar de skate, mas o fato é que ele começou a dar umas carreirinhas aqui, outras lá e, um ano depois, o sujeito tava correndo nada mais, nada menos que a maratona original, da cidade de Maratona até Atenas! Bom, não poderíamos esperar outra coisa, afinal, há, muito bem inculcado no nosso insconsciente coletivo, o estereótipo do japa baixinho maluco e, bem, Murakami não parece um primor de altura. A partir daí, faz um programa de corrida diária e participa de pelo menos uma maratona por ano. Entre uma corridinha e outra, escreve um livro, um ensaio (como os desse livro) e traduz para o japonês a obra do escritor Henry James.

No livro então, o autor esclarece a nós, sedentários convictos, questões cruciais como “o que passa na cabeça de uma pessoa enquanto ela está correndo?” e “o que leva alguém a correr uma maratona?” e outras lições simples do que ele aprendeu em sua vivência como corredor. E quando eu falo em lições, não espere nada do tipo Minutos de Sabedoria do Dalai-Lama, ou A Arte Cavalheiresca do Arqueiro-Zen, ou A Arte da Guerra. O cara não se acha até altas horas pra ficar te cagando regra, amigão.

Algumas coisas me impressionaram muito nesse livro. A primeira é de ver como o japa é um senhor atualizado e modernoso. Que tipo de sexagenário (que ele é, ok? Não se deixe enganar pela cara de pêssego) corre todos os dias e coloca no mp3 player coisas como Gorilaz, Beck e outras paradinhas descoladas da galera sarada? Tudo bem que na maior parte do tempo ele só ouve Lovin’ Spoonful, uma banda muito da furreca que tocava nos anos 60 e cujo maior sucesso ouvi uma vez numa dessas coletâneas de banca de jornal, mas o título me foge agora. Ainda assim, é admirável. Outra coisa que me impressionou foi ele ter corrido uma ultramaratona — cem quilômetros em um dia, amizade. CEM! Aposto que agora o estereótipo do japa baixinho maluco está começando a se tornar mais claro, né? É pra botar os bofes pra fora ou não é correr tudo isso num dia? E, por último, me impressionou o fato de eu ter me interessado tanto por um livro que fala sobre corrida quando eu mesmo não gosto de correr. Acho que isso é um mérito inegável pro escritor: fazer você gostar de um assunto que você não gosta. E, apesar de ser uma escrita altamente simples, sem floreios, sem frufru, sem ui ui ui ai ai ai, é altamente cativante (talvez até por causa disso, mas eu geralmente não curto esse tipo de simplicidade).

Esse livro foi o último do autor a ser lançado pela editora Alfaguara, que geralmente costuma ser arbitrária nas capas de seus autores mas que, no entanto, parece ter um projeto de imagens de capa muito específico para o Haruki queridão. Sim, falo desses raios de “sol nascente”, a única coisa do livro que faz tocar na sua cabeça o “tan tan tan tan tan BUOOONG”. Só que, pra esse livro, escolheram raios pretos e brancos que podem ser vistos até o seu centro, onde aparece a silhueta de um homem correndo. Ou seja, é psicodélico demais, e se você girar esse livro na frente de alguém, se prepara para pegar a vítima no ar, porque o desmaio é quase certo. Eu mesmo recebi esse livro num dia fatídico em que me descobri com uma dessas viroses de inverno que fazem você encher o tênis a qualquer hora, e eu, já meio grogue, de pressão baixa e fortemente desidratado, achei que essa capa pareceu a porta do apocalipse se abrindo na minha frente. Foi maneiríssimo. Fora isso, é aquele padrãozão da Alfaguara que já estamos carecas de saber: um livro bom, bonito e relativamente barato. Ah, tem uma foto do Haruki Murakami correndo logo nas primeiras páginas, uma foto da década de 80 com a câmera posicionada no chão, o que dá um efeito de Rocky, um Lutador na terra do tokusatsu. Enfim, recomendo pra quem é adepto desse tipo de masoquismo, ok? Bom domingo pra todo mundo.

Comentário final: 152 páginas em papel pólen soft. Corra para as montanhas! (Mentira, nem corre, o livro é inofensivo)

 

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13 Respostas para “Haruki Murakami – Do que eu falo quando eu falo de corrida (What I talk about when I talk about running)

  1. creio que o sucesso do lovin’ spoonful seja “do you believe in magic?” que é a única música deles que eu já ouvi.
    essa semana li “minha querida sputinik”, meu primeiro livro do muramaki. eu gostei bastante, achei uma leitura leve, rápida, divertida e interessante. amigos que leram outros dele disseram coisa semelhante e o pessoal do goodreads diz que é mais ou menos assim sempre, que às vezes chega a cansar de ler sempre o mesmo livro do cara.
    mas esse deve ser bem diferente dos romances dele. você fez o livro parecer bem interessante, mesmo se tratando de um assunto tão lastimável quanto correr.
    não vou dizer que vou correr pra ler esse livro, mas certamente me interessou.

    • E aí v., tranquilidade?
      Na verdade, vi depois, a música do Lovin’ Spoonful que eu tinha ouvido na coletânea era “Did you ever had to make up your mind”, uma música muito da vagabunda que veio nesse cd aqui, que ainda assim fez a minha cabeça quando eu era criança http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-157160054-steppenwolf-beach-boys-jimi-hendrix-hot-rocks-cd-anos-60-_JM
      Não li o minha querida sputnik, mas minha namorada o tem e já leu, disse que é bacana também, embora nada demais. O livro aqui em questão é um livro de ensaios, então vai ficar um pouco afastado mesmo do que ele já escreveu, mas vale a pena com certeza. Uma hora que tiver de bobeira, pegue para ler, não é muito grande mesmo…
      Abraço!

  2. pára de fazer drama que a gente acompanha as tuas resenhas, seja domingo ou quarta feira tá? a resenha tá muito boa, taí um autor que vc me torna acessível! gde abraço e boa semana.

    • Oi Daniela, o drama do começo ali é só pra valorizar o passe mesmo, ok? Não esquente que não sou melodramático ahahaha
      Se você ler esse livro, não deixe de passar aqui depois para deixar suas impressões.
      Abraço!

  3. O wordpress me boicotou ontem!
    O Murakami é bem pouco – ou quase nada – oriental. Também li “Minha querida Sputnik”… muito influenciado pela cultura pop dos EUA. Mas é bem bacana, gostei dele. Leitura fácil, tocante…

    Beijo!

  4. Fala Yuri, blz?
    Cara vc tem falado de autores que estão na minha lista há uns tempos! Murakami é um deles. Faz tempo que estou parar ler Kafka à beira mar e ainda não consegui. Este ano na Bienal até peguei este que vc resenhou mas não levei. Vou lê-lo depois.

    Abraço!

    • Fala Raphael, tranquilo?
      Como disse aí em cima, gostei muito desse livro, foi uma das grandes leituras que fiz esse ano. Não sei dos outros, mas posso falar por esse: recomendo! 😀
      Abraço!

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