Entrevista com Cristovão Tezza – Um erro emocional


É agora, hein? Quem nunca deu bola pra esse blog estúpido vai começar a dar. Trouxe para vocês hoje, meus amigos, uma entrevista com o escritor e ex-professor meu, Cristovão Tezza. Pra quem dormiu no ponto da literatura nos últimos 20 anos, Tezza é de Lages, aquela cidade enooorme da bela e Santa Catarina onde tem a tradicional Festa do Pinhão, quando a colonada se encontra pra encher a cara de teleco-teco, praianinha, água da serra, oncinha, Branford, vodca Raiska e Black Tie, além de comer comidinhas horrorosas. Mas isso não importa muito porque ele mora desde de criança aqui em Curitiba, e gosta da cidade, parece. Porque é em Curitiba que se passam seus livros. Tem aí pouco mais de uma dúzia de livros publicados, fora os didáticos e os de não ficção.

Tem seus sucessos de público, como Trapo e o Filho Eterno, e os de crítica, como O Fotógrafo, Breve Espaço entre Cor e Sombra e, de novo, o Filho Eterno. Agora, lança pela Record seu último livro, Um erro emocional, um livro em que ele mostra que é um malabarista da narrativa, um equilibrista dos diálogos e um trapezista da linguagem. Enfim, um tapa na sua cara. É, você aí, que não sabe nem usar cujo e acha que Cujo é um bom nome pra um São Bernardo em filme de terror. Na entrevista que segue, Tezza, muito na humilda, responde minhas perguntas sobre seu novo livro, que conta uma história de amor entre um escritor e sua revisora. Ch-ch-ch-ch-check it out:

Esse é o primeiro livro que você escreve dedicando-se exclusivamente à literatura e o primeiro depois de seu maior sucesso editorial. O momento de Um erro emocional dentro de sua trajetória literária pesou em algum aspecto na concepção da obra?

 

Não, de modo algum. Tenho projetos que vêm se desenvolvendo há muitos anos, e os contos com a personagem Beatriz (antigamente Alice) são exemplos. Um dos contos acabou se transformando no romance Um erro emocional. Depois que o livro ficou pronto, aí sim, me deu um certo frio na barriga, esperando a recepção dos leitores e da crítica depois do sucesso de O filho eterno. Mas o livro já estava terminado. Quando escrevo, entro num processo meio autista. Não penso em nada fora da página escrita.

 

O estilo de escrita desse livro se aproxima em muitos aspectos de O Fotógrafo, outro livro importante de sua carreira, mas que é estilisticamente um pouco afastado de seus outros livros. Acredita que tenha chegado à sua voz definitiva de escritor com Um erro emocional?

 

Não acredito em “voz definitiva”. Sinto o meu trabalho como uma perpétua transformação, em função de diferentes momentos da minha vida. Todos os meus romances, desde O ensaio da paixão, acrescentam aspectos técnicos e temáticos à minha literatura. De fato, Um erro emocional tem um parentesco estilístico com O fotógrafo – de certa forma, radicaliza algumas técnicas que eu experimentei nesse romance, mas o “exercício de intimidade” que significou escrever O filho eterno foi outro fator marcante.

 

Paulo Donetti é um dos raros personagens fictícios na sua obra que é escritor mas não escreve o livro que estamos lendo. Na sua obra, a narrativa em primeira pessoa ‘justifica’ a existência do livro. Sendo assim, o que o levou a criar mais um protagonista escritor? Você prefere escrever em primeira ou terceira pessoa?

 

O Donetti é uma espécie de “arquétipo” de escritor que vem me perseguindo desde sempre. Curiosamente, há um Antônio Donetti, escritor, em Ensaio da Paixão. Talvez seja tio do Paulo… O tema de alguém que escreve sempre me interessou – a escrita cria necessariamente um mundo paralelo que é onde se movem tanto o escritor como o leitor. Tentar entender como funciona essa máquina é um processo fascinante. O Matozo, de A suavidade do vento, é escritor, mas também não escreve o livro. Não dou nenhuma importância ao ponto de vista, se é em primeira ou terceira pessoa, porque são detalhes puramente gramaticais. A primeira pessoa, direta, tende a dar uma ilusão de realidade maior, ou quem sabe de verossimilhança (criando algumas exigências específicas, como em Uma noite em Curitiba ou Juliano Pavollini), mas tudo isso é muito vago. Ultimamente, tenho me dado bem com esse falso narrador em terceira pessoa, que está presente nos meus três últimos livros.

 

Um erro emocional trata da história de amor entre duas pessoas já carregadas de histórias pessoais e, naturalmente, calejadas por elas. Além disso, Donetti tem em seu passado uma carreira literária sólida. O quanto o passado pesa para os personagens de seus livros nas ações tomadas por eles? (como Juliano Pavollini/André Devine, Professor Rennon, etc?)

 

Faulkner dizia que o passado não está morto; aliás, nem passado é – uma observação maravilhosa que cito agora de memória; é algo assim. Bem, acho que todo instante presente existe apenas em função de seu passado, aquilo que de fato cria o tempo, o peso da lembrança.

 

O narrador onisciente da obra transita entre os diálogos e os pensamentos dos dois protagonistas. Qual foi, para você, o maior desafio envolvendo esse movimento?

 

Esse “falso narrador” em terceira pessoa, como eu disse, foi surgindo naturalmente no meu texto. Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, por eu ter uma formação acadêmica, ter sido professor e escrever eventualmente crítica literária, que tenho uma consciência nítida e clara do meu processo de escrever. É um engano. Quando se analisa uma obra, como crítico, a obra já é um objeto pronto. Mas quando se escreve ficção, nada está pronto em lugar algum. Estamos completamente no escuro ao escrever. Assim, a intuição tem um peso muito grande. Eu sempre me surpreendo com a direção que meus livros tomam durante a escrita.

 

Os diálogos não-ditos, aqueles que permanecem na intenção, são parte importantíssima da história, e dão abertura a uma infinidade de finais para o livro. Como foi para você encontrar o tom certo do diálogo, sabendo de suas ‘edições’ por parte dos personagens, para que o desfecho da história não lhe fugisse?

 

Foi uma sequência intuitiva. Terminei o livro sem saber que ele estava terminado. No outro dia, ao tentar prosseguir – quando Paulo vai tocar Beatriz – senti que não havia mais nada a dizer. Eu destroçaria todo o trabalho se tentasse “fechar” alguma coisa. E acho que essa suspensão deu uma unidade para o livro, é a correspondência exata de sua “respiração”, por assim dizer.

 

Você compararia essa edição dos diálogos ao processo de edição realizada pelo escritor (fictício ou não) e sua revisora?

 

Sou um editor feroz de meus próprios textos. A mais simples crônica publicada passa por dez leituras, cortes, acréscimos, momentos de insegurança, até eu sentir que o texto está pronto. Nos textos literários, esse processo chega a ser angustiante, às vezes. Nunca escrevi com facilidade. Mas veja que na escrita de Um erro emocional, como de todos os meus livros, a intuição exerce um grande papel. Eu vou cortando e acrescentando mais “pelo faro” do que por uma racionalização do texto. Mas, é claro, sabemos que a literatura não é uma arte ingênua: a experiência de trinta anos pesa bastante quando você escreve. Como se em muitos momentos a mão soubesse mais que a cabeça e achasse o caminho sem a ajuda do escritor.

 

PS: repararam na nova ordem editorial, especialmente para entrevistas?

PS2: Bora agradecer ao Tezza por essa entrevista supimpa?

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24 Respostas para “Entrevista com Cristovão Tezza – Um erro emocional

  1. Pô Yuri, parabéns! “Entrevistaça!” Todas as que eu li quando foi lançado o Um erro emocional tinha ligação com O filho eterno, dai achava meio cansativa. Gostei mesmo. O livro já está aqui na pilha desde o natal, ainda não comecei, mas será o próximo!

    Abraços!

    • E aí Raphael,
      Vou te falar que tive um cuidado ao não ficar falando do Filho Eterno nessa entrevista, pra não dar a entender pro leitor que não conhece o Tezza que o escritor é um one-hit wonder. A obra dele tá cheia de coisa sensacional e nada a ver ficar restringindo o prestígio dele a esse livro. Que bom que curtiu!
      Abraço

  2. Poxa, entrevista muito boa! Final do ano passado eu olhei para a capa de “um erro emocional” e quase levei comigo. fiquei bastante interessado, mas a realidade me veio com um tapa na cara dizendo que eu tinha que ter calma porque a lista de leitura está maior que o tempo e que paciência é necessária. mas, definitivamente, esse ano leio Tezza.

    • Oi V., valeu o elogio. Sabe que esse negócio de pilha pra ler e compulsão por comprar livro é algo mais comum do que eu imaginava. Vou fazer um texto sobre isso qualquer hora!
      Abraço!

  3. Muito legal, Yuri!
    Esse livro é muito bom. Deu pena de terminá-lo. A sensação era de que o próximo lido não seria tão bom quanto ele.

    E quanto ao Tezza, já falamos por aqui, excelente cara.

    Abraço!

  4. Opa! Uma boa entrevista, sem dúvida. Alguém que não conhecesse a obra do nosso caro Tezza teria caído em perguntas óbvias. Ainda bem que não é o caso! Hehehe

    Forte abraço!

    • Fala Miluse,
      É cara, por enquanto tenho dado a sorte de entrevistar autores cuja obra já conheço um pouco, vamos ver como eu me saio quando não for o caso!
      Abração!

  5. Bom Yuri, considerando que meus ultimos comentarios em seu blog navegaram ao redor desse,que é meu escritor preferido, da pra imaginar minha alegria em ler seu bate-papo. Legal sentir que Tezza curte seu ofício. Lembro de minha frustração ao ler livros e entrevistas de outros idolos, como Woody Allen e Veríssimo,onde eles demonstravam um ar blasé em relaçao a obra que eles produziam..Enfim, gostei do erro emocional, tb tive a sensação saudosa ao final, pelo término da obra. Gostei também porque me incomodava um pouco em muitos outros livros do Tezza a presença de assassinatos, crimes, suicidios, gestos meio de psicopatas. Na deliciosa toada de seus enredos, seus dialogos e sua ambientação urbana, esses eventos bruscos por vezes me soavam meio ectópicas ao perfil dos personagens que protagonizavam os livros. Acho que nesse livro, o enredo totalmente envolvido nas relações humanas, emocionais, suas histórias e paixões urbanas casaram melhor ao clima do jogo e do Tezza, esse cara tão talentoso. Abração

    • E aí Wande, valeu cara. Imaginei que você fosse gostar hehehe
      Olha, essas coisas que rolam nos livros do Tezza e que a gente não vê todo dia, tipo assassinatos e suicídios não é algo para se incomodar não. A carga dramática de um livro sempre é muito mais intensa do que o mundo real, e até por isso os livros existem. Além disso, o Tezza é (me parece) fortemente inspirado por romances policiais, ainda que muito pouco disso transpareça na sua literatura. Quanto a um livro só calcado em relações humanas, acho que o mérito de um Erro emocional é ter colocado em palavras muitos dos nossos pensamentos que não conseguimos descrever nesse caso, então acho que vale.
      Abraço!

  6. Já há vários comentários de teor parecido, mas eu não poderia deixar de dar os parabéns pela entrevista. Acho fascinante que um dos melhores escritores em atividade hoje no Brasil seja um cara tão normal e acessível, aqui na nossa cidadezinha – “normal” aqui não significa, de modo, algum medícre. Achei excelente você trazer a entrevista para o blog, ao lado das resenhas. Espero ver mais coisas assim por aqui…

    • Valeu, Suelen! Também acho o Tezza um cara super gente boa e acessível. Agora, pra ter mais desse tipo de material no blog, sabe que depende muito mais dos escritores do que de mim, né? hehehe
      Beijo!

  7. Yuri,
    Parabéns pela entrevista. Enfim, me deparo com uma abordagem inteligente que absorve tanto a obra quanto a ideia do autor a respeito de sua produção de forma interessante e convidativa.
    O Tezza merece entrevistas como essas e nós, criticos literários do seu calibre.
    Beijos.

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