Neil Gaiman e Dave McKean – A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch (The tragical comedy or comical tragedy of Mr. Punch: a romance)


The Tragical Comedy or Comical Tragedy of Mr. PunchFala moçada, como vocês estão hoje? Legal que as pessoas estão aderindo ao desafio, em breve vou postar a lista. E você, já decidiu o autor que vai ler esse ano? Decide aí e manda pra gente, choque.

“Ih, alá o Yuri, vim aqui querendo ler resenha de livro e encontrei resenha de quadrinho, que manezão!”, alguém diria. E eu respondo com um pedala Robinho e digo que a linha editorial do Livrada! não prevê quadrinhos, a menos que eles sejam muito bons e/ou originais ao extremo. E é o caso dessa graphic novel, que, já disse, é “banda desenhada” ou “história em quadrinho” no cultês. Então vamos aproveitar que hoje é domingo e você não tem nenhuma responsabilidade nos próximos minutos e abramos a cabeça um pouco para outros gêneros literários.

A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean é um daqueles livros que você vê e pensa “meu Deus, olhaí uma dupla de zé ruela pagando de gênio atormentado”. Bom, amigo, fazer o quê se é assim que os caras se expressam. Dave McKean, o barbudinho que parece um torcedor do Fluminense, é o cara responsável pelos desenhos e fotografias doentias que você encontra dentro desse livro, e Neil Gaiman, o que parece da família do Stephen Rea, é o cara que escreve a história das coisas doentias do tricolor supracitado. Gaiman conta uma história de fundo autobiográfico, de quando foi passar um verão (verão na Inglaterra, vocês sabem, é só força de expressão) na casa dos avós, que moram no litoral. Lá ele conhece o teatrinho de Mr. Punch, um popular show de fantoches que rola por lá desde a idade média, que é basicamente o seguinte: Mr. Punch é um homem casado com uma mulher chamada Judy, e eles tem um bebê também. Só que ele é meio detestável (e existe algum fantoche que não seja?), então todo mundo meio que odeia ele. Aí ele mata a esposa, o bebê, e todo mundo que vem pra matar ele acaba morrendo também, inclusive o capiroto em pessoa. Bom, é isso. Um show de fantoche com um monte de personagem morrendo, e que mostra que a pessoa, mesmo sendo desprezível, pode ser muito sagaz pra sobreviver na base da malandragem.

Acontece que, como qualquer criança cercada de gente velha e coisas da época do guaraná de rolha, o pequeno Neil fica muito impressionado e tudo parece muito estranho, assustador e fascinante ao mesmo tempo. Ora, você, quando era criança, nunca se pegou assustado pela pele, que mais parecia bola de basquete ou, com sorte, frango cru? Então você sabe do que eu tô falando. E aí ele conhece diversas figuraças que participam da vida cultural mixa do litoral, que sim, é sempre mixa (e se você acha trio elétrico legal, sai do meu blog. Ooopa, brincadeira!), entre elas um velho chamado Swatchell, responsável por realizar o show de Punch e Judy. Swatchell é um cara meio obscuro, com um passado desconhecido, meio criminoso, meio assassino, quem sabe? Fato é que esses tipos são colírios para as crianças. Ou você nunca ficou fascinado quando descobriu que seu tio matou um cara? Nessas, o fedelho inglês fica impressionadíssimo com o show de Punch e Judy (a julgar pelas fotos, é um nightmare fuel aditivado pra encher o seu tanque) e aquilo fica cozinhando na sua cabeça impúbere por todo o resto das férias, e idealiza Mr. Punch como uma espécie de obsessor que suga a vida dos que o colocam na mão.

Basicamente o que o autor faz aqui é mexer com aquele velho fascínio que as pessoas sentem por bonecos mega expressivos. Será que tem vida, será que não tem vida, será que é assassino, será que é bonzinho, etc. Algo já visto em todas as escalas de terror, de Goosebumps a Chucky-me-dá-um-abraço, e em alguns outros filmes, como aquele Dummy, com o Adrian Brody, que eu vi no ônibus indo pro Rio uma vez. Vem cá, quem não odeia filme de ônibus aqui? Da última vez que voltei de São Paulo, passou Dr. Dolittle 4 e Homens de Preto 2. Olha, que raiva eu passei com aquele som alto, querendo concentrar na minha leitura. Mas onde é que eu estava? Ah sim, falando do fascínio por bonecos. O medo que a gente tem de boneco é basicamente o mesmo medo que Deus sente da gente, se é verdade o que os católicos dizem sobre imagem e semelhança. Ver uma coisa que parece outra coisa que você já conhece é meio assustador, mas os hipsters adoram: uma caneca que tem o formato de lente Canon, um relógio em formato de caneca, um prato em forma de relógio, um disco em forma de prato, uma bolsa em forma de disco, um boné em forma de bolsa, enfim, malditos hipsters, vão gastar seus dinheiros com coisas úteis pra variar.

Além do fascínio por bonecos, o trabalho que deixa o livro realmente interessante é de Dave McKean, do clube “tantas” vezes campeão. Com um domínio extremo de imagem e fotografia, ele compõe os quadros do quadrinho mesclando os formatos, usando panos, plantas e outros objetos que saltam da imagem, como um quadrinho 3D. Bom, não exatamente 3D, mas, digamos 2½D. Os desenhos são pintados, ao que me parece, com uma brocha em cima de madeira compensada, e as linhas do que seria nanquim são feitas no computador. É um trabalho muito interessante mesmo, embora todo mundo tenha mais ou menos a mesma cara. Ah sim, ele também conseguiu arrumar o Mr. Punch mais assustador da história, de olhos arregalados e dentinho no meio, Nosferatu-Chico-Bento-style. Palmas pra ele então.

O projeto gráfico desse livro, lançado pela editora Conrad, que eu considero uma das melhores editoras de quadrinho do Brasil, é primorosa. Capa dura, papel couché de excelente qualidade e um lettering (as letras usadas nos quadrinhos) feito, me parece, a partir da caligrafia de um dos autores. Fibou muito bom. Acho que eles deram um formato ao livro que permite que a gente aprecie os detalhes de cada quadro, cada fotografia, melhor, e a capa, que não foge à original, também tá irada. Enfim, projeto gráfico de quadrinho tem muita coisa pra analisar, melhor parar por aqui pra não me estender muito. Ah, não tem paginação (é moda isso agora? Os últimos quadrinhos que eu li não tiveram também), então não sei quantas páginas o livro tem porque não vou ficar igual bocó contando as páginas da bagaça.

Comentário final: Já dançou com uma velhinha de churrascaria rodízio sob a luz do luar?

 

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9 Respostas para “Neil Gaiman e Dave McKean – A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch (The tragical comedy or comical tragedy of Mr. Punch: a romance)

  1. Belas referências no meio do texto!

    Ainda não li o Mr Punch, só Morte, Morte a Festa, Dead Boy Detectives e Stardust (aliás, quando vai resenhar? Quero ver se mais alguém concorda que o filme é melhor). De Sandman só o primeiro reeditado pela Pixel Media (ainda não comprei o novo da Panini).

    Graphic novel por graphic novel, recomendo The Boys, do gênio Garth Ennis (Preacher).

    • Ahahaha de quais referências você gostou, Bruno, pra eu buscar mais?
      Ah, tinha certeza que você ia dar as caras por aqui com esse livro. 😉 Não tenho toda essa leitura de Neil Gaiman, mas depois você pode ler esse livro e ver se eu falei muita merda, blz? E não tô ligada nessa The Boys, mas se quiser me emprestar pra eu fazer uma resenha, conversamos!
      Abraço!

  2. Outro exemplo do trabalho gráfico do McKean é Batman Arkham Asylum. Assim como no caso do Mr. Punch, para essa história o artista conseguiu criar provavelmente o Coringa mais assustador e o Batman mais atormentado que que existem. E o enredo do Grant Morrisson também é excelente, meio lisérgico, e muito cativante.

    Ah, e ótima a sua resenha. Já havia lido o quadrinho, mas o texto me esclareceu muita coisa.

    • Oi Nicholle. obrigado pela visita, apareça sempre!
      Olha, vou te falar que pesquisei aqui sobre esse livro do Bátima e fiquei curioso pra ler. Justo eu, curioso pra ler um quadrinho do Batman… O trabalho dele é mesmo fascinante. Pra quem eu peço esse livro agora?
      Abraço!

  3. Neil Gaiman é um super ídolo. Conheci na faculdade através do Sandman, comprei toda a coleção encadernada da Conrad, mas não li as obras literárias dele. Peguei os filhos de Ananci emprestada com meu namorado e começarei em breve.
    Gostei da resenha e dos comentários sobre o trabalho gráfico, espero encontrar mais sobre graphic novels aqui.

    abs

    • Oi Isabelle,
      aahahaha QUE comentários sobre o trabalho gráfico? Não fiz nada… Mas legal que você gostou. Não é sempre que a gente coloca “graphic novels”, mas vez ou outra se abre uma exceção. 🙂
      Abraço!

      • Sobre trabalho gráfico quis dizer os desenhos. Não tem como analisar um quadrinho sem falar dos desenhos, mas acho complicado analisá-los profundamente – eu não saberia fazer. Estilo, falar sobre os movimentos, os balões, a arte diferenciada dos quadros, etc. Mas você resumiu bem e me deixou com vontade de ler quando falou sobre a qualidade dos desenhos e que possuem um efeito bacana estilo 3d. Fiquei intrigada sobre todos terem a mesma cara e acabei comprando impulsivamente o Mr. Punch :~~

        Enfim, achei bacana espero que você abra várias excessões esse ano.

        abs!

  4. quando eu li mr. punch eu pensava muito nos duendes do chapolim, num episódio em que ele encolhe e tem uns fantochezinhos do mal realmente assustadores. aqueles monstros nunca saíram da minha cabeça e, lendo mr.punch, tudo foi relembrado.

    • Ahahaha to ligado nesse episódio. Era realmente muito assustador, principalmente aquela parte em que todos aparecem juntos. E o pior é que tinha um fantoche de diabo também. Quem sabe um daqueles era um Mr. Punch e a gente não sabia?
      Abraço, v.!

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