Jouralbo e Allan Sieber – Ninguém me convidou


Quando entrevistei Allan Sieber em 2009, ele me contou que um de seus últimos projetos (entre as milhares de coisas que ele faz ao mesmo tempo) era escrever um livro de memórias de seu pai, que trabalhou como desenhista na década de 50, a partir de entrevistas que estava fazendo com ele desde então. Disse-me que já havia não sei quantas cacetadas de horas de entrevistas, mas o que ele não me disse (ou se disse não lembro. Dois anos se passaram e eu, ultimamente, não ando nem lembrando o que eu comi no almoço. E olha que eu só almoço dois tipos de comida) é que o livro seria desenhado pelo pai dele, o Sr. Jouralbo Sieber.

Pois bem, cá estou eu aqui, suave na nave, de leve na neve, susse no musse, quando de repente me chega a notícia de que o tal livro saiu mesmo. Tão legal isso, né? Hoje em dia o que tem de cabra metido a artista que diz que vai fazer e acontecer, acaba não fazendo lhufas e vive, como diz o slogan de um certo banco que vai perder um cliente dentro de muito pouco tempo, no “valor das ideias”, olha, não tá no gibi. O Sieber, ao que me consta, fez tudo o que disse que ia fazer com relação a seus projetos audiovisuais, gráficos, etc. Menos o documentário Pereio eu Te Odeio, mas este, ao que parece, agora tá saindo. Veremos. Bom, botei as mãos num exemplar graças à Mitie da Itiban Comic Shop — que se você mora nessa cidade bucólica e gosta de quadrinhos, acho difícil não conhecer (propaganda para os amigos é de graça, hein?), e comecei a ler. E agora vos falo sobre esta peça.

Em primeiro lugar, vamos combinar que pelo menos eu nunca vi um livro de memórias que seja roteirizado pelo filho e desenhado pelo pai (tem o Maus, mas nesse o Spiegelman faz tudo). Mas a coisa deu certo. Jouralbo conta o início de sua vida como artista publicitário nas agências e editoras de Porto Alegre na época do Guaraná de rolha, e o que mais fosse interessante compartilhar. Allan faz o filtro, roteiriza a história e faz um storyboard que repassa para seu Jouralbo fazer a arte. Voilà (nem é chique ficar falando francês, hein? Pode parar com a palhaçada), temos aí um livro interessante em sua forma e processo.

E o conteúdo? Olha cara, se você tá esperando por um quadrinho com o humor do Allan Sieber, esquece. A vida dos outros não serve pra você sentar aí e ficar dando risada com os perrengues alheios. Mas é, sim, um livro divertido e curioso, principalmente pra você que não sabe o que é um mundo sem internet. Claro que, como Allan organizou as informações, deu mais relevância para essa estória do que aquela, passa muito para as páginas de Ninguém me Convidou uma misantropia branda, que não se sabe ao certo se veio do filho ou se é de família mesmo, além de outros elementos mais sutis que permeiam a obra do quadrinista. Mas vamos combinar também que é complicado fazer quadrinho com a palavra dos outros (mesmo que a arte final seja do Jouralbo), ainda mais quando as palavras em questão são do próprio pai. Veja só o que o Crumb fez com o Gênesis, por exemplo (o livro, não a banda horrível). Por isso, é bem admirável o trabalho dos dois nesse sentido, e o resultado está a contento.

Allan também já estava pegando raça nesse lance de quadrinho de não-ficção graças às reportagens que fez para a Playboy e sei lá quantos outros veículos mais. Seus relatos sobre o passeio turístico na favela e sobre a aula de sedução que teve com um instrutor profissionalizado da arte que, como tudo o que é bizarro, veio daqui de Curitiba (z. B. Oil Man, Maior Trapézio de Curitiba, Francine de Curitiba, etc, etc. e falar alemão também é coisa de mané) são dignos de um Joe Sacco brasileiro. Belo sobrenome, aliás. Além disso, advoga a seu favor uma discreta carreira como documentarista audiovisual que desenvolveu com sua produtora. Quer dizer, o cara não era exatamente um novato na meia-cancha quando começou essa empreitada.

Esse projeto gráfico da editora Conrad (falando em Conrad, por onde será que anda o Conrado, que derretia corações na época em que eu comia cola?) tá bonito também, e o traço do Jouralbo colaborou. O desenho dele é o desenho-arte, o desenho-maroto, o traço profissa feito, ao que parece, quase no piloto automático. Atalhos de quem já desenhou até o dedo cair. A capa do livro tem um autorretrato do Sr. Jouralbo num fundo azul coberto de curvas francesas em cor de burro quando foge. O conteúdo segue com várias histórias em quadrinhos e uma última seção de histórias meramente ilustradas. Por último, uma pequena amostra de todo o vasto trabalho do pai nesses anos todos trabalhando nessa indústria vital, além de algumas fotos. Enfim, é um livro de memórias, tem que ter foto mesmo que tenha quadrinho a dar com pau. Nas fotos we trust. Vish, a madrugada tá batendo, já não to falando coisa com coisa. Vou embora.

Ps: Meu blog estava concorrendo com o do Sieber ao The Bob’s. Esperei a votação terminar para falar desse livro, sendo assim, um bom perdedor que sabe partilhar a derrota. Xi, não tô fazendo sentido mesmo.

Comentário final: Tô dormindo há três dias sem cortina. Os primeiros raios de sol da manhã me despertam, o que mostra que tudo o que parece romântico e poético é, na maioria das vezes, uma aporrinhação sem fim. Ah, eu quero minha cortina de volta.

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Uma resposta para “Jouralbo e Allan Sieber – Ninguém me convidou

  1. Entrevistar o Sieber foi bem legal e os desenhos do Sr. Jouralbo são bem bonitos.

    E, para constar, Maus é um dos livros mais incríveis e bonitos que já li.

    Beijo.
    P.S.: Quando o Conrado derretia corações? Só derreteu o da Sorvetão, hahaha!

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