Thomas Bernhard – Extinção (Auslöschung – Ein Zerfall)


Auslöschung - Ein ZerfallVocê provavelmente já ouviu falar de Thomas Bernhard. Não? Bom, o austríaco nascido na Holanda parece desfrutar de grande popularidade em meio a alguns círculos específicos de pessoas interessadas numa literatura mais “cabeça”. Coloco aqui a gíria entre aspas não por ser gíria, mas por sua pretensa intelectualidade ser extremamente duvidosa ao meu gosto e ao pouco que conheço de sua obra. Ele tem alguns livros publicados aqui no Brasil, todos pela Companhia das Letras, e desses alguns, poucos são romances – a maioria são contos, e eu acho que conhecer um autor por seus contos é meio que fazer um retrato falado de alguém virado de costas pra ela. A menos, é claro, que o sujeito esteja no olimpo dos contistas, com sangue de contista na veia e troféus de contos por livros de contos, e todo mundo aqui conhece um exemplo ou outro de escritor assim.

Pois bem, peguei Extinção pra ler. Seu calhamaço de letrinha miúda não me intimida, mas vou aqui fazer uma breve explanação do livro e explicar porque, na minha opinião, esse romance merece um “meh” de minha parte. E digo opinião porque sei que pipocam dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre esse cara, mas, amigo, sinceramente, tô cagando pras análises sobre a obra do sujeito. A mim, interessa sobretudo o que o livro consegue passar como valor absoluto, e posso viajar o quanto eu quiser e atribuir significados ocultos que podem ser ou não as reais intenções do autor na produção do livro, ainda vale o que tá lá e o que pode ser ou não ser.

Bom, Extinção é narrado em primeira pessoa e fala de um tal Franz-Joseph Murau, um professor austríaco que mora na Itália e é tipo a ovelha negra de uma família tradicionalíssima de algum buraco negro e depressivo do interior da Áustria. De repente, o cara recebe um telegrama falando que seu pai, sua mãe e seu irmão mais novo, todo mundo morreu num acidente terrível de carro, e suas duas irmãs, que se vestem iguais e só fazem palhaçada, o convoca para o funeral. Aí bate o desespero no sujeito de ter que voltar pro buraco de onde veio, e começa um longo monólogo em que ele se propõe a meter o malho na família morta por mais de 400 páginas. O sujeito não para, e o livro segue basicamente nessa toada, com um pequeno plot-twist lá pras tantas do romance que não me cabe dizer porque é muita sacanagem da minha parte estragar pra vocês a única coisa que acontece no livro.

Thomas BernhardCerto. Temos aqui um austríaco esquisitão, que sofreu de tuberculose e foi internado num hospício falando mal da Áustria em um romance longo sobre desagregação familiar – em alemão, é lógico. Ora, meus amigos, quem disser que nunca viu isso antes, que acha que taí uma coisa original, tá precisando se inteirar mais na literatura germanofônica (se é que existe essa palavra). A Áustria, a Alemanha e a Suíça estão cheios de Nestbeschmutzer, como os chucrutes gostam de chamar o povo que caga no prato que come. Aliás, me apresente um escritor austríaco, um escritor que seja, de alcance internacional, que não fale mal da Áustria. E me mostre um escritor de língua alemã que não tenha escrito um livro onde o protagonista se dedica a reclamar da vida e da família. Amigo, isso é a coisa mais normal do mundo por lá! E quantos desses não foram internados em hospícios ou sofreram de doenças ao longo da vida? Vish, esse cara é uma colagem do escritor alemão ideal. E, pô, vamos falar a real, né? Malhar a família deve ser o passatempo nacional desses países, pra chegar no ponto do sujeito precisar inventar uma família fictícia pra falar mal dela. Todo mundo é caipirão, pseudo-intelectual, idiota de nascença, cheio de dedos com os outros, e por aí vai. 400 páginas disso. Não chega a ser necessariamente chato, mas fique ciente desde já do que você vai encontrar nessas páginas.Talvez essa seja a sinopse mais curta da história, mas não tem muito mais além disso. O cara fala mal da família inteira dele, só poupa o tio Georg, que é sangue bão justamente porque odeia a família que nem ele. Ele fala boa parte das coisas pro aluno dele, um tal Gambetti, por quem ele nutre um carinho meio estranho, mas deixemos isso para os outros, porque bem se sabe que o Bernhard era um cara esquisito tipo o Coetzee… ninguém sabia direito qual era a dele.

O projeto gráfico do livro, por outro lado, é excelente. Um cuidado na fonte e na capa estritamente gráfica, e a carona do Bernhard no verso, pra matar de medo quem te vê lendo ele. Legal que a capa é meio que uma orelha do livro, embora os textos não coincidam, sem falar que é de um pretão absoluto de dar medo, que também ajuda na impressão de que você está lendo algo muito sério. Papel pólen, fonte Electra miudinha e uma encadernação de brochura de dar inveja nos maconheiros, de tão prensadinha que ela tá.

Comentário final: 480 páginas em papel pólen. Traumatismo ucraniano… ou austríaco.

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11 Respostas para “Thomas Bernhard – Extinção (Auslöschung – Ein Zerfall)

  1. Nunca havia ouvido sobre Benhard e sua pseudo intelectualidade. Infelizmente estamos cheios de outros autores que são posicionados da mesma forma. Pelo menos de um já poderei fugir, hahahah. Gostei muito da forma simples como o post foi escrito. Obrigado pela dica.

  2. 1: nem todos os livros dele são publicados pela Companhia das Letras; alguns saíram pela Rocco, e ainda estão em catálogo. A Companhia sonha em tirar esses livros dela, mas ainda não conseguiu.
    2. Achei uma bela bosta esse seu comentário desmerecendo o gênero Conto. Ao menos foi o que me pareceu. Quer dizer que se o cara não escrever um romance ele não é digno de nota “ao menos que ele esteja no Olimpo dos contistas”? E quem coloca esses autores nesse Olimpo. Ah, faça-me a gentileza… O que dizer de Alice Munro (que só escreveu contos a vida inteira!), Ali Smith, Lydia Davis, Rubem Fonseca, Murilo Rubião? Ah, estes estão no tal “olimpo”? Pois é, mas fizeram por onde merecer. E não precisaram escrever romance pra isso. Até escreveram, mas seus contos falam por si.
    3. Também estou cagando para trabalhos acadêmicos que tomem por base obras desse e daquele. Curto MUITO as tuas resenhas, mas ninguém acerta sempre (ainda bem).

      • Aí a gente entra numa discussão meio esquisita. Quer dizer que o escritor não pode ser um bom romancista E contista? Que se o cara – ou a “coroa” – que escreve romance e quiser escrever conto é um aventureiro? Pois volto a dizer: leiam Ali Smith – que se garante nos dois, Lydia Davis – idem, Rubem Fonseca, idem (pode-se até não gostar do que ele faz hoje, fico calado. Mas ele tem tantos bons romances quanto contos, e isto é fato). E pra mim soou meio estranho a suposta pseudointelectualidade do Thomas Bernhard ser criticada, e ele vir dizer que ninguém conhece um autor pelos seus contos a menos que o tal escritor tenha “sangue de contista nas veias”. Isso, pra mim, é querer colocar o escritor num quadradrinho, saca? Se sair dele, ah, que bosta, não presta, só se meta com o que você sabe fazer – e neste caso seria ou romance, ou conto. Tolice. Há, sim, quem seja bom – aliás, MUITO bom – nos dois.

      • Marco, concordo contigo. Só penso que o texto não desmereceu o gênero. Há grandes escritores que focaram nos contos, há os que arrebentam nos dois (quer mais cânone que o Guimarães Rosa), mas alguns só se mostram por inteiro nos romances.

      • Ah é, isso sim, sem dúvida. Só não vale dizer que ninguém conhece um escritor pelos seus contos, como fez Yuri em sua resenha… Que ideia pequena. Tsc, tsc.

      • Cara, eu geralmente deixo meus leitores comentarem o que quiserem aqui, mas tô começando a me sentir meio Jesus Cristo com você se esforçando tão insistentemente pra distorcer minhas palavras.
        A única coisa que quis dizer quando falei sobre o conto é que, pra mim, é mais fácil conhecer a obra de um autor que escreve contos e romances pelos romances. Isso porque, salvo raras exceções de uma unidade temática nas coletâneas, os contos podem abranger uma infinidade de preocupações e estilos que, no final, só vai me deixar mais confuso quanto ao trabalho do autor. Além disso, os contos surgem nas mais diversas circunstâncias. Podem ser frutos de uma experiência do autor completamente desconexa com sua realidade literária, pode ser um experimento, uma versão beta de um romance, ou simplesmente algo que ele queria escrever sem maiores propósitos. Ao passo que o romance é quase um atestado de obsessão do autor por aquele tema, pelo tempo que ele dedica aos escritos e por seu isolamento literário de outros textos, e justamente por essa razão ler um romance ajuda muito a entender as preocupações literárias de um autor quando esse autor é inédito pra mim. Mas essa é a minha opinião e o meu método de abordagem de novos autores. Como você já percebeu ao discordar veementemente de uma frase que você achou que entendeu, este blog não dita verdades absolutas, ok?
        E claro, contistas consagrados como o Rubem Fonseca, Lydia Davis, Dalton Trevisan e outros que você citou são consagrados justamente por encerrarem sua literatura num universo definido de temas e personagens, e nesse caso, não há mal nenhum pra mim começar pelos contos.

      • Deixar algumas coisas claras aqui:

        Eu curto pra caramba este blog. Se usei a linguagem que usei, é porque o espaço me parece informal. Eu não tenho a intenção de estar distorcendo nem desconstruindo teu discurso.

        Não vou entrar na discussão do que um pensa que entendeu e do que o outro pensa que escreveu, porque uma briguinha besta aqui não leva a nada. Volto a dizer: eu curto MUITO este blog; tanto assim o é, que associei-o ao meu, pra sempre saber quando você o atualiza.

        O que você me respondeu tem a ver com o que o Leonardo escreveu, o que prova que ele entendeu o que você gostaria, eu não. Os textos escritos têm por natureza esta característica, uma vez que não se ouve a fala, nem tom de voz. E a interpretação vai de cada um. Paciência.

        Não fique puto da vida. Acabei tratando o espaço mais como um “fórum”, e não um espaço desses programas vespertinos.

        É isso.

  3. Tenho este livro na minha fila de espera, pois nunca li nada dele e para mim ,depois de tua resenha ,será um desafio lê-lo.Pretendo ler também Asco Thomas Benhard En San Salvador de Horacio castellanos Moya.Isto tudo se eu conseguir sobreviver até lá.Saudações gremistas.

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