Enrique Vila-Matas – Suicídios Exemplares (Suicidios ejemplares)

Suicídios exemplaresEis que, no fim do mês passado, bem naquele período de apertar o cinto, quando sobra mês pro salário, a Cosacnaify, editora que adoro e admiro, resolveu fazer uma vileza com todos nós: colocou em sua loja virtual uma promoção de 24 horas com livros caríssimos pela metade do preço. Era Moby Dick saindo a 55 reais, trilogia do Górki a um galo, ensaio do Levi-Strauss saindo mais barato que cd do Calipso. Enfim, bate aquela sensação de que o mundo inteiro está se divertindo e você aí, na pior. Eis que minha mãe surge para livrar-me da dor de ver e não ter e disse “escolhe dois aí de presente de dia do amigo”! Gente, que mãe legal! Sem pestanejar, escolhi dois livros do espanhol Enrique Vila-Matas. Li um deles e agora estou aqui para comentar com vocês, queridos leitores, a genialidade desse rapazote no livro Suicidios Exemplares.

Deus sabe que não gosto de livro de contos. Dos contos sim, gosto muito, e leio com prazer. Mas livros de contos — vai vendo — são cansativos a dar com pau: o desgaste de entrar no clima de uma história para logo sair dela é um ônus do costume de ler romances. Quando eu lia só contos, achava tranquilo. Mas aí é que tá, camaradinhas: não experimentei esse cansaço nos contos do barcelonês. Talvez, por todos eles serem permeados pelo mesmo tema: o suicídio.

A ideia de um suicídio exemplar é doidona, tá ligado. Aliás, suicídio é um conceito com muitas limitações de caracterização: não pode ser ideal, não pode ser exemplar, e por aí vai. Mas o que Vila-Matas fez, de maneira diabólica (e Vila-Matas ao contrário é Satam Alive, né?) foi explorar o tema e quase esgotá-lo em narrativas eletrizantes. Nelas, o suicídio não só o desfecho lógico como também a justificativa para a própria literatura. Já diziam esses sujeitos emos tipo Cioran, que o suicídio é um ato de afirmação. A morte é a verdade do amor e o amor é a verdade da morte, diz o espanhol lá em dado momento. E a afirmação de Vila-Matas na literatura é justamente a do sumiço, é ou não é? De Bartleby e Companhia, que trata do ofício de desistir de escrever, passando por Doutor Pasavento, que aborda o desejo de desaparecer, o suicídio também pode ser essa saída à francesa, quando não é aquele escarcéu de pobre de “aaaaaargh, eu vô pulááááá”. Talvez seja esse o exemplo dos suicídios do livro afinal: não incomodam ninguém, e são sabidos apenas dias depois.

Enrique Vila-MatasEntre os contos, dois são excepcionais: “As noites da íris negra”, um conto que desafia sua capacidade de largar a leitura no meio da história. Fala do mistério que envolve a morte do pai de uma gatinha que o narrador tava a fim de carcar, e falar mais do que isso é um crime ao conto. E “Pedem que eu diga quem eu sou”, onde o autor vira personagem e trava um diálogo sensacional com um pintor metido a sabichão, considerado o último dos realistas por pintar placidamente um povo “verdadeiramente diabólico”. Esses dois contos — trocadilho prego — dão conta de exemplificar o poder da narrativa de Vila-Matas, seja qual for o aspecto principal da narração, o diálogo ou a descrição. Em descrição, aliás, o penúltimo conto, “O colecionador de tempestades” descreve um ambiente tão sombrio quanto engraçado, e fecha o livro com uma ideia: todo suicídio acaba sendo um espetáculo. Digo penúltimo porque o último mesmo é um trecho de uma carta do gordinho Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa antes de seu suicídio, lhe informando da chegada da estricnina. O título, que abre o excerto da carta, “Mas não façamos literatura”, é um capítulo a parte, uma resenha a parte, que nem eu nem você iremos fazer.

Acho que comentar o projeto gráfico da Cosacnaify é dispensável, né? Os livros são todos sensacionais. Essa coleção do Vila-Matas principalmente. Com essas fotos da Corbis e essa preparação da capa, a gente tem a certeza de que fez um negócio da China por comprar o livro pela metade do preço. Aliás, sugiro entrar ali no blog da editora para ver as capas alternativas a esse livro. Acham que ficaria melhor? Eu, particularmente, não acho. Essa foto matou a pau.

Ô velho, esse cara é a cara do Ney Latorraca ou não é?

Comentário final: 205 páginas em papel pólen soft. Pouca coisa, seu fresco! Toma mais!

Herman Melville – Bartleby, o Escrivão (Bartleby, The Scrivener)

Oi Yuri, como você está? Eu estou bem, gentileza sua perguntar. Como foi a banca da monografia? Ótima, amigo, nota dez pra refrescar a cabeça depois de ano e meio de trabalho. E agora, bola pra frente e taca carvão nessa máquina massacrante de literatura que é o Livrada!

Meus amigos, em verdade vos digo: às vezes é um pouco trabalhoso conseguir ter alguma parte da cultura coletiva instalada na sua cachola. Claro que muita gente já ouviu falar de Moby Dick, mas você sabe de verdade quem já leu? Pouquíssimas pessoas. A mesma coisa com Dom Quixote. Se você quiser bater no peito e falar que leu a obra-prima do Cervantes, vá lá, mas prepare-se para centenas de páginas para serem vencidas, caso contrário, a única coisa que você vai saber sobre o engenhoso fidalgo é que ele, durante umas duas páginas, fala de uns tais moinhos de vento. E aí se prepara para os pescotapas e os amigos te zuando de leitor de orelha e afins. Agora, existem livros menores e mais fáceis de serem lidos, entendidos e utilizados em suas conversas de boteco. Pra isso, o papai aqui dá a dica: Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville.

Mais por desencargo de consciência — acredito que a maioria dos meus leitores já deve ter lido esse livro — a história fala de um advogado de Wall Street que contrata um copista pra ajudar nas tarefas, que só aumentam. O sujeitinho é estranho, não conversa, não come e não lê nada. Mas enfim, era o começo daquela falta de interesse na vida alheia que assola a modernidade desde que instituíram a bisbilhotice como coisa típica de gente da roça. Então ele vai deixando passar. Até que um dia, Bartleby se recusa a fazer a tarefa que lhe é conferida. E a partir daí, não faz absolutamente mais nada, sempre respondendo com o seu inigualável bordão: “Acho melhor não”. Tá, não contei absolutamente nada de novo pra vocês, né?

Primeira consideração sobre esse livro: Claro que o personagem de Bartleby é cativante (menos naquela montagem teatral que fizeram da peça. Sem querer ser machista, mas acho que igualdade de sexos não serve na hora de interpretar papéis masculinos), uma análise mais fria (e simplista) da história pode mostrar que o Bartleby é só um obstáculo, uma parede em um beco sem saída na qual o narrador advogado bate constantemente, a cada tentativa de gesto de boa vontade por parte dele. O advogado, esse sim, é o mérito do conto de Melville. Na narração em primeira pessoa, a primeira frase do segundo parágrafo justifica o livro inteiro: a ideia sustentada por ele de que a vida mais confortável é a melhor. E o que é mais confortável do que ignorar a existência de um problema, como ele faz? A construção desse personagem é que é o barato do livro, e vocês hão de concordar que muitos de nós não agiríamos diferente do narrador, em prol da civilidade que neguinho brada aos quatro ventos.

Segunda consideração: Melville antecipou em uns 80 anos o tipo de suicídio social que a gente vê hoje, a vagabundagem por opção. Claro que ninguém nunca ficou sabendo por que Bartleby deixou de viver, e nem era a intenção explicar isso. Sabe, né? Mesma coisa da prevaricação da Capitu, o buraco que o autor deixa pra fazer a obra perdurar em debates bestas de professorinhas de literatura que organizam tribunais na sala, dividindo em acusação e defesa da cigana os mancebos, que, a essa altura, só estão querendo saber mesmo é de ir pra casa fazer negócios escusos. De qualquer jeito, essa vagabundagem por opção, essa decisão por não fazer mais nada é algo que instiga tanto todo mundo como se ninguém nunca tivesse preferido não fazer alguma coisa. De Enrique Villa-Matas, que usou o nome do copista para fazer um livro sobre os escritores que deixaram de escrever (aliás, alguém aí já leu Villa Matas? Qual livro deles recomendam?), a Homer Simpson, que já dizia que se algo é muito difícil então não vale a pena ser feito, todas as vontades passam pelo filtro de nosso juízo, que analisa cada situação e vê se a gente não vai dar com os burros n’água. Viram isso que eu escrevi? Um péssimo jeito de terminar um parágrafo. Anotem e aprendam como não fazer.

E chega de papo, vamos falar desse projeto gráfico da Cosacnaify. Já me dei conta que a editora está mesmo no ramo da arte, e juntar a arte de fazer um livro com a arte da literatura. Essa edição maravilhosa vem toda costurada artesanalmente, e, para começar a ler o livro, você precisa descosturar a capa e abrir (de preferência com um estilete ou um abridor de correspondências; eu usei minha inseparável balisong) cada par de páginas. Para isso, eles fornecem um marcador transparente, que não é exatamente a ferramenta ideal, mas é bonito e serve como um marcador mesmo, para a VIDA. Só fiquei um pouco triste porque a capa é de couro verde, e, devido às condições insalubres do meu apartamento, ela acabou mofando e desbotando em algumas partes. Mas tudo bem. Ah, comprei esse livro por R$1,50 porque a Saraiva tava fazendo uma promoção com ele a R$16,50, valor do qual abati quinze reais com meu cartão fidelidade (cartão fidelidade, aliás, é um conceito muito agressivo. Pensar que alguém é fiel a uma loja é rebaixar a dignidade humana a uma subserviência comerciária. Desprezível *ptuu* cospe no chão). Tudo isso para você ser ainda mais ativo ao ler o livro e, ao contrário de Bartleby, achar melhor sim, abrir cada página do livro pra saber o que acontece. O livro vem embalado no plástico que traz o bordão de Bartebly estampado, uma provocação pra você ler o livro. Aliás, “Acho melhor não” é a tradução que melhor cai aos ouvidos, da expressão original “I rather not”. Traduzir ao pé da letra — o “prefiro não” da peça já mencionada e da edição publicada da L&PM realmente não desce redondo. Assim como utilizar a palavra “Escrivão”, ao invés de “Escrituário” das outras edições também ficou melhor, na minha singela opinião. Ah, esqueci de dizer que o posfácio é assinado pelo Modesto Carone, o homem-Kafka, que, obviamente, não deixa de citar o escritor tcheco. Fico imaginando se, ao invés do Caetano, o pessoal do Segundo Caderno entrevistasse o Carone. “E aí, Sr. Carone, o que o senhor acha dos discos lançados apenas na internet?”, “Ah, veja bem, Kafka…” (Brincadeira, hein, Modesto).

Comentário final: 46 páginas offset. Se for bater em alguém com Melville, ainda é melhor usar o Moby Dick.

Stendhal – O vermelho e o negro (Le Rouge et le noir)

É hoje que eu arrumo um inimigo nesta joça! Preparem-se, crianças, hoje acordei com o pé esquerdo, preciso ir lá na Reitoria entregar minha monografia e tô me sentindo muito Shiva, por isso quero destruir alguma coisa. E vou destruir logo esse clássico da literatura (tá na tag!) que é o vermelho e o negro, do nosso amigo Get up, Stendhal (sempre achei que o Bob Marley cantava isso!).

Fala sério, hein? Se isso não fizer o gordinho se revirar no túmulo, eu não sei o que pode fazê-lo — bom, talvez uma descarga elétrica. Mas coloque-se no lugar de Henri-Marie Beyle, o homem por trás do pseudônimo: você escreve um livro que é comentado mais de duzentos anos depois de sua morte, considerado um clássico da literatura (TAG!), e aí vem um moleque metido a besta falar que seu livro é um lixo. Nããããooooooooo!!!! Sim, meu cumpádi, é agora que o cão vai comer uma mariola.

Breve resumo pra vocês, ó preguiçosos: sujeitinho desprezível do interior chamado Julien Sorel, pobrezinho, não nasceu em berço de ouro, e tem um pôster do Napoleão no quarto dele (assim como eu tenho um pôster do Néstor Kirchner no meu). O sonho do rapazote era ser um Napoleão, mas existem dois agravantes: o primeiro é que ele, como vamos descobrindo conforme a leitura, não tem a envergadura moral para tal; o segundo é que ninguém daquela época queria saber mais de Napoleão, nem fantasiado de Lady Gaga dançando Rebolation. Todo mundo escaldado com a derrocada do baixinho que andavam por aí enterrando anão sem motivo. Mas o bicho é teimoso: e aí se mete a ser seminarista, e no meio da sua trajetória, rolam umas tensõezinhas sexuais com mulheres insatisfeitas à beira de um ataque de nervos (afinal de contas, ninguém toma banho na França e, naquela época, catupiry significava outra coisa).

Bom, mas, afinal, por que eu não gostei desse livro? Vários motivos, meu amigo, e quem leu sabe. Primeiro, e talvez o mais importante: esse livro é um livro covarde (ouviram aí um “bump” no caixão do Stendhal?). Veja bem, Stendhal escreveu o vermelho e o negro (olha, a quantidade de neguinho imbecil que perguntou “é sobre o Flamengo?”… Não fode a minha vida, Ruy Castro) em uma época em que a burguesia Francesa estava por cima, mas não estava, necessariamente, com tudo. Tremendo de medinho do que as forças acima de sua cabeça poderiam fazer com a sua cabeça de cima, escreveu sem a cabeça de baixo e fez uma história, no mínimo, xoxa. Pode ver que, para cada ideia minimamente polêmica que ele coloca no livro, são duas páginas tentando se desculpar. Isso quando não acontece dele simplesmente omitir a discussão polêmica que está rolando entre os personagens, pro seu desespero, que a essa altura do campeonato, quer ver sair um tiroteio de qualquer página.

Aliás, dessas desculpinhas pelas polêmicas saiu a grande sacada do livro, considerada por alguns teóricos, como Walter Benjamin naquele seu textículo esquerdo “O Narrador”. É, o lance do espelho: que o livro é como a carroça que passa com um espelho, refletindo toda a paisagem. Se, eventualmente, refletir algum lamaçal, tem culpa eu? O espelho só reflete, né não? Só que, na moral, Stendhal, não mete essa. NÃO METE ESSA! Se o cara quer causar, quer matar a cobra e mostrar o pau, quer chutar o balde, então faz, mas depois não vem com desculpas do tipo “eu estava bêbado”, “eu precisava extravasar” e “o espelho só reflete o lamaçal”. Pra cima de moi, xará?

Outra coisa irritante sobre o livro: é tudo falso, como aquela música do Skylab. O vermelho e o negro poderia muito bem ser uma novela de época das 6. Os amores arrebatadores, a vontade de ganhar o mundo, a gana de impressionar, a tensão sexual velada entre a madame e o empregadinho, tudo isso é só reflexo daquela época, nada que pudesse ser sustentado se a sociedade descrita não fosse tão empata-foda. Mulheres leitoras deste blog, imaginem que vocês moram num fim de mundo (pior que, sei lá, Pato Branco), cidadezinha de mil habitantes, esposa do único homem pra quem você deu, um cara importante, junto do qual você precisa passar o ano inteiro fazendo pose e vivendo em um mundinho de aparências. Eis que surge um jovenzinho borbulhando hormônios, doido pra ser alguém na vida sem nunca ter conhecido mulher. Acabou, amigo, taí a ruína do teu estilo de vida. Agora, acreditar que isso aí que os dois vão sentir vai ser amor, ou mesmo uma paixão dessas de embaçar vidro… Again, não mete essa, Stendhal!

Por fim, o livro é extremamente longo pra historieta que conta. Não longo o bastante pra os pederastas beletristas colocarem debaixo do braço como o Caminho de Swan ou o Moby Dick, apenas longo o bastante pra você perceber que poderia estar fazendo outras coisas e que você pode viver sem ler esse livro, que ninguém vai te recriminar por isso. Não, a patrulha intelectual não desconta três pontos na sua habilitação de inteligência se você não ler Stendhal, relaxe.

Agora, se tem uma coisa que esse livro tem de bom é o projeto gráfico. Cosac e  Naify, seus turcos maravilhosos, quero pagar um sorvete pra vocês qualquer dia! Fala sério, não bastasse a capa dura coberta pela capa de papel, a fonte Bembo (alguém já ouviu falar dessa fonte?), o papel chamois fine dumas de 80g/m² (qualquer editora mais mão de vaca colocaria no máximo 50g/m² em um livro de mais de quinhentas páginas), tem essa imagem maravilhosa, que dá vontade de fazer um pôster desse quadro e ficar olhando o dia inteiro. “Napoleão após a abdicação”, de Paul Delaroche, é o nome da peça. Olha a cara desse Napoleão, galera! Quem me dera ter pintado um quadro desse? Aposto que essa seria a cara que ele faria depois de ler O vermelho e o negro. Ah, e falando em pintura, o prefácio é da Tarsila do Amaral, o que mostra que essa tendência de colocar artista pra dar pitaco nas coisas não é de hoje. No mais, é ter coragem e disposição. Mais coragem do que um irmão Coragem e mais disposição do que para dançar o creu.

Mais uma vez, o título original, Rouge, em letra maiúscula.  Será que é alguma coisa? Será que Stendhal curtia um Ragatanga?

Ah, a promoção ainda está rolando. O comentário de número 500 ganha o Plataforma do Michel Houellebecq.

Comentário final: 572 páginas chamois fine com capa dura. “Mas que mulher indigesta, merece um vermelho e o negro na testa”