Philip Roth – Pastoral Americana (American Pastoral)

Pastoral AmericanaFinalmente chegou a hora. Pastoral Americana, de Philip Roth, o livro da categoria 15 do Desafio Livrada! 2015. Esse livro me tomou muito tempo de leitura, não só porque é grandão, mas também porque tive que parar de lê-lo várias vezes para dar conta de outros compromissos literários. Mas não estou aqui para ficar de mimimi, embora essa abertura talvez justifique muito bem a superficialidade dessa resenha (até porque com a Camila escrevendo sobre Philip Roth por aí, a gente até desanima de tentar com mais força).

Bom, fiquei sabendo que muita gente que leu o Pastoral para o Desafio não gostou do livro, achou chato. Devo dizer que 1- até entendo suas razões mas 2- vocês estão equivocados. Pastoral Americana é Philip Roth na sua melhor forma. Denso, crítico, cheio de contexto, cheio de tessituras, cheio do puro suco da voz sem estilo (isso é um elogio, acredite). Esse é o primeiro livro da Trilogia Americana, que tem ainda Casei com um Comunista (que ainda não li) e A Marca Humana. A trilogia serve pra acabar com a vida perfeitinha dos estadunidenses, então pode não significar muito pra gente que cresceu odiando os Estados Unidos, a Disney e seus patetas, mas lembre-se de que esse é um povo que abana bandeirinha pra assassinato de terrorista e que qualquer crítica interna já é motivo pra banir do coletivo fem… do Facebook.

O livro gira em torno da vida do “Sueco” Levov, um judeu prodígio de uma pequena comunidade judaica em Nova Jersey. O fascínio que o talento para o esportes de Levov desperta na comunidade chega até o narrador, ele, o mito, Nathan Zuckerman, que já fica todo feliz de ser colega do irmão menor do Sueco, Jerry. Quando Zuckerman encontra Jerry num desses encontros de trocentos anos da turma de mil novecentos e guaraná de rolha, descobre que o Sueco, com quem tinha se encontrado alguns dias antes com o pedido de que escrevesse sobre a vida de seu pai e de sua fábrica de luvas, morre de um câncer terminal que lhe escondeu durante o encontro, e que sua filha, Merry, era uma terrorista acusada de botar uma bomba numa agência-de-correio-barra-mercadinho e de matar um médico como resultado. Isso abala muito o narrador e escritor de sucesso, que tinha a vida do Sueco como o ideal máximo da vida americana assimilada pela cultura judaica. Os judeus, que sempre se sentiam pouco à vontade na América, tinham em Levov uma inspiração, Zuckerman dá a entender. Descobrir que a vida dele não era essa pastoral americana toda faz o escritor mergulhar em suposições de como deve ter sido esses perrengues da vida do Sueco, esse que na verdade agora lhe parecia um covardão para quem nada importava mais do que a vida certinha.
Philip RothE é aí que a história começa. Da cabeça de um escritor que imagina uma vida adulta para um ídolo de infância. A coisa tem um fundo incestuoso, uma fuga da realidade, diálogos imaginários (ainda mais imaginários) com Angela Davis (aquela, dos Panteras Negras) e com Audrey Hepburn, chantagem pesada com uma suposta amiga de Merry e ainda um caso que sua esposa Dawn, começa a manter com um grã-fino. Enfim, a vida do cara vira uma maluquice que só, e nesse processo, ele começa a desconstruir a vidinha americana e contextualizar aquilo. Sim, amigos, pois a coisa toda se passa durante a guerra do Vietnã, esse monolito na história dos Estados Unidos. Merry se revolta com a guerra, com o presidente, com a autoimolação dos monges em protesto e resolve trazer a guerra e o caos para dentro do país. Pior, para dentro do pacato vilarejo de Old Rimrock, lar do Sueco e de sua família, onde coloca a tal bomba. Os protestos e a questão racial também entram em pauta, já que os trabalhadores negros da fábrica de luvas do pai do Sueco aparentemente são uns mal agradecidos pelo acolhimento, dada a incontestável incompetência da mão-de-obra com a palma branca, segundo o próprio Levov. Entram aí Angela Davis e os Panteras Negras, e os Weathermen também, afinal.

Para entender Pastoral Americana, é preciso entender o que o escritor está colocando em jogo. O desencanto com o american way of life, que para você pode ser só mais uma mentira, mas que para os habitantes do país era um ideal a ser alcançado e para os imigrantes judeus, uma porrada de promessa. Uma promessa assim como o Sueco. A vida do Sueco conforme imaginada por Zuckerman é o desmantelamento dessa sociedade utópica, mas o fato dela ter sido quase toda imaginada pelo narrador faz com que o peso seja só simbólico, projetada em vidas que ele considerava adequadas e habilitadas para esse ideal. O fato de ninguém conseguir entender de fato o que se passa no coração de outra pessoa, a tecla martelada no romance, é também o que se pretende aceitar ao aceitar o fracasso do país em manter todo o caos para longe de suas fronteiras. Levov é um mistério para Zuckerman, e é dessa relação, mais os sentimentos do escritor com o momento histórico dos Estados Unidos que nasce sua história. E aí está a genialidade de Pastoral Americana. Se Zuckerman não tivesse inventado os detalhes da vida e do pensamento do Sueco, a história seria meramente metafórica e fabulária dentro do espectro do romance de Roth, mas ao invés disso, Zuckerman faz o oposto: se utiliza de uma vida destruída e de um país claramente zoado para compor uma metáfora dentro do espectro do romance de Zuckerman. Distanciar os acontecimentos do leitor que está lendo Pastoral Americana potencializa o drama americano para além do que poderia ser uma cagação panfletária qualquer e o transforma em uma sinédoque da realidade de todos daquela época, inclusive do então jovem e promissor autor Philip Roth.

Esse livro foi publicado pela Companhia das Letras, e é um dos vários que eu tenho (quem quiser me dar algum de presente, anota aí os que faltam lançados pela editora: Casei com um Comunista, O Teatro de Sabbath, Fantasma Sai de Cena, Adeus Columbus e Operação Shylock), e um dos melhores que eu li. A fonte é pequenininha e meio apagada (pelo menos no meu exemplar) e a página é aquele papel pólen gostoso. Tem a versão de bolso também, mas a minha é aquela old school. A capa não segue o projeto gráfico que depois se criou para dar identidade aos livros do autor, mas pra mim, tudo bem J

Comentário final: 480 páginas. Acorda sangue bão, aqui é Capão Redondo, tru, não Pokémon.

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Vídeo: Tirza + Joe Speedboat + No Mar = Invasão Holandesa

Hoje temos um vídeo sobre literatura holandesa que construí com base em três livros que li nos últimos tempos: Tirza, de Arnon Grunberg, Joe Speedboat, de Tommy Wieringa, e No Mar, de Toine Heijmans. Aproveitem!

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TAG – Experiências Literárias

Eis que o pessoal da TAG – Experiências Literárias pediu que eu desse minha opinião sobre eles, e eu pensei “por que não? já fico dando minha opinião aqui sobre as coisas sem ninguém pedir mesmo…”

Para quem não sabe, a TAG é uma espécie de assinatura de livros. Mediante um pagamento mensal, eles mandam pra sua casa (também mensalmente) uma caixa. Como essa.

 

 

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Eles mandaram pra mim essa caixa no mês passado, e me chamou a atenção o cuidado com a identidade visual da embalagem. Ok, é uma caixa de papelão, mas é uma caixa muito da bonitinha, com a logo da parada e desenhos de escritores do lado que é pra ninguém na triagem dos correios se enganar: você é um homem/mulher de letras que recebe caixas de livros em casa. Atenção para o detalhe:

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Achei chique.

Pois bem, abrindo a caixinha e começando a tal experiência literária proposta, dou de cara com uma embalagem em papelão ondulado, um caderninho e uma mensagem.

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Orra, que maneiro. A parada é toda personalizada, artesanal, bonitinha, usa embalagens idílicas e roots tipo papelão ondulado e barbante. E ainda não parei de desembalar essa coisa.

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Uma revistinha que fala sobre o livro do mês e seu autor. E nooooooes, não só é um livro do Paul Auster como é o livro que me fez odiar Paul Auster: A Noite do Oráculo. Bom, caiu nas hands, hora de dar uma segunda chance pro livro. A revistinha é feita em papel reciclável e tem não só textos sobre o Auster mas também sobre o “curador” do mês — no caso, o Gregório Duvivier, que aparentemente acha Paul Auster legalzão. Um pouco sobre Duvivier, um pouco sobre Auster, e isso vale também para o pequeno marcador de páginas que eles mandam junto, onde de um lado há algo sobre o autor e do outro, sobre o curador.

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Bom, apresentados os elementos que vêm nessa caixinha, vamos às considerações finais.

A TAG – Experiências Literárias, em sua concepção, não faz um trabalho muito diferente do que eu faço. A grande sacada deles é monetizar a coisa, em primeiro lugar, e “vender” o livro melhor, com uma apresentação mil vezes mais bonita do que eu seria capaz de fazer e de maneira mais uniforme, como um grande clube do livro nacional. Todos os materiais apresentados são muito bonitos, e por mais que o autor desse mês em questão não me agrade, basta dar uma lida na revistinha para arrumar motivos para lê-lo e já começar com alguma bagagem. Bom para quem gosta de contexto, ruim para quem não quer saber nada sobre o livro e sobre o autor antes de começar a ler o primeiro parágrafo do romance. Esse último grupo é bem menor, obviamente, e são leitores que já mais ou menos sabem o que querem ler (por razões arbitrária à beça, mas sabem). Eu queria saber mais sobre os livros dos meses anteriores, mas aparentemente no site só consegui achar textos enigmáticos que dão dicas sobre os livros escolhidos, sem jamais citá-los nominalmente. Mas vi na internet que um deles era o Patrimônio, do Philip Roth, e acho que vi uma vez a Isa, do Lido Lendo falando que tinha recebido o Neve, do Pamuk, e um Fernando Sabino, acho que o Encontro Marcado. O que me leva a concluir que a TAG – Experiências Literárias é uma boa pedida para quem está começando a se aventurar no mainstream da literatura “adulta” (céus, preciso achar um termo que se oponha a literatura jovem-adulta e que não soe boba ou pedante), porque tem muitas indicações e textos introdutórios aos autores e livros significativos de suas carreiras, mas caso você já tenha uma biblioteca razoável, corre o risco de acabar com alguns livros repetidos.

Aparentemente, o caderninho foi um presente separado, e todos os meses eles trazem alguma surpresinha junto do livro, o que é uma coisa muito legal também. Caderninho é meio que um presente universal que todo mundo gosta, mesmo que você acabe com 15 caderninhos em branco em casa, você sempre vai querer ter mais um por alguma razão que nem você mesmo é capaz de dizer. Talvez seja reconfortante ter ali tanto suporte bonito para você expressar toda a sua criatividade bonita quando a sua preguiça bonita deixar o seu corpo bonito. Gostei e vou usar, mas é claro que não sei quando.

Por fim, é mais do que reconfortante saber que um serviço como esses não só existe no Brasil como também vai de vento em popa. Mostra que a literatura — a boa — também pode ser consumida em termos financeiros e que alguém está ganhando a vida com uma empreitada como essa. Sorte para esses caras e para esse serviço divertido e necessário. 🙂