Kenzaburo Oe – Jovens de Um Novo Tempo, Despertai! (Atarashii Ito Yo Mezameyo)

atarashii ito yo mezameyoE aí, povão. Todo mundo aos poucos caindo na real? É, o ano começou, e já tem chuva destruindo o Rio de Janeiro, navio capotando, celebridade instantânea filha de colunista social, estupro em reality show, passagem de ônibus subindo… Como diz o Mano Brown, êta mundo bom de acabar! Mas tudo bem, vamos falar de talvez uma das únicas coisas boas que restaram no mundo: literatura! E hoje, de um prêmio Nobel inédito por aqui. Kenzaburo Oe! Oe! Oe! Oe! Oe! Pumba pumba pumba hey, pumba pumba pumba hey…. Aaaah, que saudade da banheira do Gugu.

Deixando nossas lembranças púberes para lá, é preciso ressaltar que o livro mais representativo da carreira do escritor japonês é o Uma Questão Pessoal, que inspirou o Filho Eterno do Tezza, mas sobre o qual não vamos falar. E por que não vamos falar? Bem, essa é uma questão pessoal HAHAHAHAH duas piadas infames em dois parágrafos, é um novo recorde na crítica literária nacional. Yuri Raposão, é do Brasiu-ziu-ziu-ziu! Mas sério, a questão pessoal no caso é que eu não li o dito livro, então vamos comentar esse, que foge muito pouco ao tema do principal e de repente ficou mais fácil de achar nas livrarias por causa dessa edição comemorativa de 25 anos da Companhia das Letras. Ah, hoje não vamos falar do projeto gráfico do livro por uma boa razão: estou na praia a quase mil quilômetros de distância do meu exemplar, então não rola.

Bem, antes de mais nada, que irado esse título, hein? Jovens de um Novo Tempo, Despertai! Sei que pra você isso deve soar muito bomo bordão de grupo jovem evangélico, mas vamos combinar que qualquer título que use a segunda pessoa do plural ganha +100 pontos em imponência e ar épico. Olhai os Lírios do Campo, Jovens de um Novo Tempo, Despertai!, e por aí vai. Jovens escritores, considerai usar o imperativo do tempo vós para criar títulos portentosos.

Nesse livro de título poderoso, entretanto, o escritor realmente fica em cima do muro entre escrever um romance, um livro de contos e um ensaio. Por que veja, ele tem uma história unificada, mas é dividido em contos que se esparsam cronologicamente entre si, e em cada um deles, Oe comenta algum aspecto da poesia de um de seus poetas favoritos. Blake! Que me lembra Bloke, que me lembra que a mulher de Traídos pelo Desejo é um cara, e agora já me deu um calafrio na espinha. Brrrrr, não me perguntem como eu faço esse tipo de associação. E em meio a isso, volta ao tema de Uma Questão Pessoal: sua relação com seu filho autista, Hikari Oe, que mesmo com “metal retardaaaaation” (adoro Borat), é um dos mais proeminentes compositores do Japão (como se o país não fosse quase que tomado completamente por artistas proeminentes), reforçando aquela tioria de que não importa o quão bom você seja em algo, tem algum moleque asiático que é dez vezes melhor do que você.

Os fatos são os mais corriqueiros possíveis: uma merda que a criança fez em casa enquanto o autor viajava, um encontro no clube com uma turma esquisita de natação, o debate de uma estudante americana sobre a vida e obra dele próprio e do escritor Yukio Mishima, tratado no livro apenas por Sr. M., príncipe neeeeeeegro dos sortilégios. Aliás, Mishima é outra constante no livro. Fisioculturista, gay, suicida e escritor, a personalidade e a obra do cara dão pano pra manga de mais de mil dissertações — e acredite, o pessoal já deve ter escrito tudo isso sobre ele. Para quem ler o livro e não souber quem é o Sr. M, o amigo do Livrada! aqui te ajuda!

Acho que Jovens de um Novo Tempo, Despertai, é um tanto inconstante por não saber equilibrar a dinâmica do romance e a profundidade do ensaio, optando ora por um, ora pelo outro. Mas convenhamos, como é que o cara ia fazer isso de uma forma melhor? Acredite, se um japonês não conseguiu fazer direito, é porque a bagaça é impossível, desistam enquanto é tempo! Mas espere, isso não quer dizer que o livro é chato nem desinteressante, muito pelo contrário. Mas para entrar no espírito da leitura, tem que estar disposto a mudar sua leitura de romance para conto e de conto para ensaio com a mesma vontade de Oe em alternar os gêneros, caso contrário sua leitura vai ser uma eterna espera pelo seu formato favorito voltar à tona. Vada bordo, cazzo!

Meu maior problema com esse livro foi, realmente uma questão pessoa, e agora não é piada, é que eu realmente me interesso muito pouco pela poesia do Blake, então boa parte do livro não me interessa, então boa parte do livro ficou chata pra mim. Mas para quem gosta de conflitos familiares, ensaios literários sobre mais de um autor até, relatos pessoais de um cara experiente e cheio de causos para contar, Jovens de Um Novo Tempo, Despertai! é o livro certo para você.

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Hábitos de Leitura 4 – Catalogação

Feliz 2012, povão! Bem sei que nem todo mundo teve a oportunidade de passar o revéillon num ambiente tão distinto quanto a casa de Patrícia Abravanel, que teve além da minha presença, convidados ilustres como Boris Casoy, Walter Mercado, Bárbara Paz e Sander do Twister, para citar alguns, mas mesmo assim espero que todos tenham entrado neste ano com a vitalidade necessária para fazer dele um ano strondástico. De minha parte, a resolução de ano novo consiste em retomar minha carreira de fisioculturista, que deixei em segundo plano quando comecei a trabalhar como jornalista e leitor inveterado.

E tenho novidades para vocês! A primeira é que recebi o contato do pessoal simpático das editoras Dublinense e Não Editora, que se dispôs a mandar material literário para abastecer esse blog com o bom suco da literatura gauchesca (diria nacional, mas se eu falar que o RS faz parte do Brasil os gaudérios se estranham comigo). A segunda é que recebi o contato igualmente simpático da Sharon, do Quitandinha, que fez uma postagem sobre o Livrada! na sessão Blog de Quinta, que sai às quintas-feiras no site. Leiam lá!

E vamos ao texto de hoje, pelo qual espero muito não ser julgado, embora creia que seja tarde para isso. É a catalogação das leituras, algo muito nerd de se fazer e cuja utilidade descobriremos num futuro incerto, que pode ser remoto ou não.

Comecei a ler de maneira mais compulsiva quando me mudei pra Curitiba. Morava em um quarto sem televisão, sem internet, com nada além de meu violão e meu computador com GTA Vice City instalado. Sem conhecer ninguém na cidade, descobri ali perto da minha casa uma livraria e comecei a pedir dinheiro para livros. Fui lendo os que eu comprava e os que a minha mãe mandava pelo correio (geralmente Bukowski). Ela, que é leitora inveterada, recomendou que eu fosse anotando os livros que lesse, porque iria chegar um dia em que eu não me lembraria de todos — o que, particularmente, é um pesadelo: abrir um livro e lá pela página 50, falar: “eu acho que já li isso…”. Então comecei com uma listinha. E tenho ela aqui até hoje! Ei-la:

1- Trainspotting – Irwing Welsh
2- Cabeça de Porco – Vários
3- O Gosto da Guerra – José Hamilton Ribeiro
4- O Silêncio da Chuva – Luis Alfredo Garcia Roza
5- Achados e Perdidos – Luis Alfredo Garcia Roza
6- Vento Sudoeste – Luis Alfredo Garcia Roza
7- Uma Janela para Copacabana – Luis Alfredo Garcia Roza
8- Perseguido – Luis Alfredo Garcia Roza
9- O Apanhador no Campo de Centeio – JD Salinger
10- Cão come Cão – Edward Bunker
11- Nem os Mais Ferozes – Edward Bunker
12- Educação de um Bandido – Edward Bunker
13- Espere a Primavera, Bandini – John Fante
14- A Estrada para Los Angeles – John Fante
15- Pergunte ao Pó – John Fante
16- Sonhos de Bunker Hill – John Fante
17- Cem Anos de Solidão – Gabriel García Marquez
18- Memórias de Minhas Putas Tristes – Gabriel García Marquez
19- Doze – Nick McDonnel
20- Homem que é Homem Não Dança – Norman Mailer
21- A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera
22- Batidão – Silvio Essinger
23- Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva
24- Bala na Agulha – Marcelo Rubens Paiva
25- De Profundis – Oscar Wilde
26- O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
27- Muitas Vozes – Ferreira Gullar
28- A Revolução dos Bichos – George Orwell
29- Leão de Chácara – João Antonio
30- Minutos de Estupidez
31- Filosofia para Principiantes
32- Filosofia de Banheiro

Muita coisa inútil e uma certa vontade por devorar obras completas, alright. Conforme fui ficando mais interessado na coisa, aprimorei meus métodos e comecei a dar cotações para os livros e, em 2009, descobri o Skoob, um lugar para controlar a leitura melhor do que ninguém, embora ele tenha também sua função de orkut de bibliófilos.

Mas nada é tão trivial que não se possa complicar com nuances e metodismos. Comecei a fichar minhas leituras então num caderninho especialmente para tal chamado Moleskine Book Journal. A página pré-diagramada te dá espaço para colocar citações, opinião, além da ficha técnica básica do livro. Cheguei a isso:

Essa é, arrisco dizer, a maior manifestação a que meu lado virginiano já se dignou. Obviamente não fiquei só nisso e comecei umas viadagens desse tipo:

É miguxice? É. Mas penso sempre que antes ter um livrinho de fichamentos meio afrescalhado do que ser um desses tiozões que fazem coleção de latinha de cerveja.

Agora, lhes digo: o fichamento ajudou-me em vários sentidos a controlar minhas leituras anuais, minhas opiniões sobre autores (o Amyr Klink, a quem dei cotação máxima no caderninho, perdeu todo o respeito que eu tinha por ele depois de ser maltratado por balela numa entrevista, em 2010), para guardar as citações que eu achava interessante sem riscar meus livros e para saber a época precisa em que os li. De maneira que hoje, quando termino um livro, anoto-o na lista, adiciono ao skoob e faço o fichamento no book journal. É um empenho, mas tenho empenhos maiores na minha vida, e esse blog que beira dois anos é um deles.

E agora jogo a bola para vocês, caríssimos. Fazem alguma coisa nesse sentido ou é apenas viagem da minha cabeça? Vamos, eu não posso ser o único anormal desse recinto!