Vídeo: Dora Bruder, de Patrick Modiano

Prêmio Nobel é sempre bom de conhecer, né? Pois é, só que já passou meio ano e as pessoas ainda não sabem muita coisa sobre o Patrick Modiano e as chances dele entrar pra lista dos Nobéis esquecidos (pelo menos por nós) é muito grande. De qualquer forma, pra não deixar passar, aqui vai um vídeo curtinho pra comentar um livro curtinho que ele escreveu.

dora bruder

Clica no Cauê Moura, abestado.

Irvine Welsh – Pornô (Porno)

PornôE aí, meus queridos, como vocês estão? Desesperados com a qualidade dos candidatos a irmão metralha desse ano? Colocando o nariz de palhaço a cada inauguração de ponte? Com jingles estúpidos grudados no fundo do cérebro? Estupefatos com pleiteadores do naipe de Tati Quebra Barraco e Tiririca? É, estamos agüentando firme. No primeiro prêmio da Mega Sena que eu ganhar, pulo fora. Não vou nem esperar ganhar a bolada duas vezes.

Sim, é verdade, tivemos um ganhador da promoção ontem, o sortudo Raphael Pousa, leitor do blog há um diazinho, ganhou o livro do Houellebecq no primeiro comentário. Prometi, vou cumprir. Vou mandar o livro para o rapaz, e pedir desde já, muito gentilmente que o Sr. Raphael Pousa pague um micão com o livro no melhor estilo “pessoa ajudada pelo Luciano Huck”. Sei lá, quando receber, tire uma foto com o livro e mande para gente! Sou mais legal que o Huck, nem to pedindo pra você tirar uma foto vestido de Bonequicha, nem dançando a a dança do carangueijinho ou coisa parecida, ó só que maneiro que eu sou.

Sem mais delongas, vamos ao livro de hoje, outro tijolão, porque eu estou cansado desses livros de 200 páginas. Mas esse é diferente, esse é um tijolão light, um tijolão raso, um tijolão chuchu beleza pra você que gosta de pagar de sapeca com um livrão debaixo do braço mas não curte tanto ter que pensar nos lances da trama. Assim é Pornô, de Irvine Welsh, uma continuação super desconhecida do seu clássico transposto para o cinema, Trainspotting. Sabe? Aquele filme cheio de inglês com cara de menino criado pela avó tomando mais droga que aquela banda chata que cantava “Ôôo Carlaaaa”. E por que, vocês perguntariam, por que você está escrevendo sobre o segundo livro da saga dos drogadinhos? Bom, acontece que meu exemplar de Trainspotting está até hoje na casa do querido professor Yeso Ribeiro, que, quero crer, é um leitor desse blog, e vai ligar para marcar aquele refrigerante que está me devendo desde não sei quando, né não Yesão?

Para quem lembra de Trainspotting, a trama de Pornô fica fácil de entender (e se você não viu o filme, planeja ver e é um cinéfilo chato que não gosta que te contem um filme que você já deveria ter visto há pelo menos vinte anos, pare de ler agora): Sick Boy, que foi interpretado no cinema pelo ex-namorado da Angelina Jolie, o Hacker fodão do filme Hackers – Piratas de Computador, resolve dar início à sua nova empreitada: iniciar uma empresa pornô, e logo com uma adaptação de sacanagem do clássico chinfrim “Sete Noivas Para Sete Irmãos” (quando eu vejo esses filmes eu tenho que dar graças a Deus por existirem Slys, Van Dammes e Steven Seagals). Para isso, conhece um sujeito acabadão chamado Juice Terry, e uma menina chamada Nikki, uma estudante modernete que resolve atuar no filme, com uns papos de “ih, vocês são caretas, ser atriz pornô não tem nada demais, gente”. É, povo moderno, se arrependimento matasse, dupla sertaneja nenhuma ia poder fazer música sobre arrependimento sob acusação de fazer apologia ao genocídio. Sick Boy também conta com a ajuda de Renton, o garoto interpretado por Ewan McGregor que roubou o dinheiro de todo mundo no fim do filme e se mandou. Renton tem uma boate em Amsterdã, a Meca dos maconheiros, e tá de bem com a vida, aproveitando a grana que ele roubou. Só que, nesse meio tempo, Begbie, que no filme era Robert Carlyle (por que diabos esse cara não faz mais filmes? Ele é bom pra caramba!) sai da prisão e quer vingança por ter sido roubado, e aí é confusão pra todo lado!

Irvine WelshBom, mas isso você poderia ter lido na orelha do livro, se tivesse a sorte de achar um exemplar nos dias de hoje. Pornô, o livro, é legal por ser uma narrativa eletrizante, dessas que não te desgrudam do livro, o grande talento dos fast-paste afinal. Aliás, será que esse cara é fast-paste ou não é? Fico na dúvida… A produção XXX que rola na trama tem altos obstáculos engraçados e é divertido ler um monte de gente (perdoem o palavreado) se fudendo para literalmente, se fuder. Quem leu Trainspotting tá ligado que Welsh usa vários narradores no livro — um dos grandes talentos do autor — e neste livro não é diferente. Acho muito incrível como ele consegue dar voz a tantos de seus personagens, e vozes únicas e diferentes, o cara realmente não tá pagando de ventríloquo. Por outro lado, não gosto dessa tradução que traduz gírias escritas mais próximas da oralidade, tipo “fiadaputa”. Acho que isso meio que estraga o livro.

O projeto gráfico de Pornô, para a época em que foi lançado (ali por 2005), não é ruim, apesar de ter o maldito papel offset. Esse lance de capa fosca e brilhante não era tendência ainda, e a capa é bem convidativa com essa mulher inflável engraçada na capa. Ponto para a Rocco. Entretanto, tudo pode levar a crer que o livro é cheio de sacanagem, e não é bem assim. Pode decepcionar muitos dos chabrolas, assim como eu decepciono cada um que chega aqui procurando por termos que vou deixar para falar no twitter. Não quero atrair mais perverts do que já estou fazendo por resenhar um livro com um título desses. Ah, uma curiosidade: esse livro é publicado no Reino Unido pela Jonathan Cape, o que mostra que o cara tem um respaldo sinistro por lá, ao contrário de certos Georges Orwells aí…

Momento nada a ver do dia: galera, eu sei que não tem nada a ver com a proposta do site, mas, além da literatura, tenho muito gosto pela biologia, embora não estude como gostaria. Bem, olha só que legal esse site interativo de taxonomia do Museu de Ciência Natural de Barcelona!

Comentário final: 565 páginas em papel pólen soft. Marretada no dedão do pé pra você!

Lygia Fagundes Telles – Meus Contos Preferidos

Não há dúvidas de que a senhora Lygia Fagundes Telles é, talvez, uma das escritoras mais originais do Brasil que ainda respiram. E nesse sentido, acho legal as faculdades que colocam livros dessa simpática e perturbada vovó na lista das obras obrigatórias para o vestibular. Em meio à tantos floreios parnasianos da literatura hã… clássica brasileira, as verdadeiras odisséias na maionese dos contos de Telles são um oásis em meio a um strokes. Peraí que não gosto nem de oásis nem de strokes. Digamos então que é como um dead kennedys em meio a um monte de parangolés. Quem a vê, com aquela cara de quem é da turma de oração da minha vó nunca imagina que Lygia escreve coisas como um gato que quer transar com um quadro (ou algo assim).

É um fato também de que a escritora é muito mais reconhecida por seus contos do que por seus romances, e isso, camaradinhas, é honra pra qualquer um que escreve contos. Considerado um gênero menor, o conto é aquela coisa que as editoras “suportam” enquanto um romance novo não aparece (há uns tempos atrás teve um G ideias bem legal sobre isso, busquem lá). E Lygia Fagundes Telles escreveu romances, meus amigos, romances reconhecidamente bons inclusive, como As Meninas (bom xi bom xi bom bom bom) e Ciranda de Pedra, que virou novelinha da Globo. Mas é realmente no conto que ela prova a que veio. Com poucas (bom, às vezes muitas) páginas, ela consegue montar verdadeiras tensões, angústias e qualquer outra coisa que ela queira porque ela é FODA!

E tudo isso pra falar de sua antologia pessoal, intitulada Meus Contos Preferidos. Acho que preferidos não só da autora mas também da torcida do Flamengo. O livro é só história boa, e são muitas: Tem aqueles Venha Ver o Pôr do Sol e As Formigas, ambas de arrepiar os cabelos do cu, WM e Pomba Enamorada, sobre gente louca (sempre um bom tema), Verde Lagarto Amarelo, um conto que parece muito a história dos irmãos Ivan e Sério Sant’Anna (oooopa, peguei na ferida, hein?) e tantos outros… Eu particularmente, gosto muito do conto O Moço do Saxofone. Ri pra cacete lendo a história de um saxofonista corno que mora na pensãozinha onde sua mulher roda mais que pião maluco. E claro, não podemos deixar de esquecer de A Presença, o conto que todo mundo lê e fala “caralho, quem me dera escrever uma coisa dessas…”.

Em se tratando de uma antologia, na qual os contos estão ligados não por um fio de coerência ou temática, mas apenas por laços afetivos, é muito difícil comentar sobre esse livro como um todo. O que dá pra dizer que os contos favoritos são todos loucos, ah, isso dá! E que a edição da editora Rocco ficou excelente, não fosse o maldito filho da puta papel offset. Quando é que vocês vão parar com isso, gente? Parece que a bola agora está com a Companhia das Letras, que está lançando uma coleção bem menininha dos livros da escritora, mas, como este ainda não foi pra lá, tratemos da Rocco mesmo. Tem um cabeço meio escroto, mas a fonte, com os títulos em itálico, quase compensam a falta de tato na escolha do papel (e não venha dizer que é muito mais caro botar papel pólen soft quando um livro é vendido por 45 reais). A capa é bem simples, mas muito legal, tanto que faz par com a outra antologia da escritora, Meus Contos Esquecidos, com cinta dourada. Meu último comentário é uma pequena crítica sobre a qualidade da cola para fazer a encadernação de brochura: a capa soltou do miolo em pouco tempo de uso. E olha que cuido benzão dos meus livros. Puta falta de sacanagem!

Comentário final: 318 pesadas páginas em offset. Vai ficar difícil expressar seus sentimentos com a mandíbula partida em três lugares (Ética e Política da Amizade).

Cristóvão Tezza – Uma Noite em Curitiba

É bem verdade que vou tratar agora de um livro do escritor Cristóvão Tezza que não é dos mais conhecidos de sua carreira. Uma Noite em Curitiba não é, pesando seu impacto na comunidade literária, nenhum O Fotógrafo, nenhum Trapo e certamente nenhum O Filho Eterno. Mas, dos livros de Tezza que eu conheço, ele é um dos mais originais e mais bem escritos de sua produção da década de 90.

Dizia eu no post anterior sobre o Mario Vargas Llosa que o gênero epistolar pode não ser dos mais agradáveis de se ler. E, como coloquei entre parênteses alguns livros de cartas que eu conhecia, fiquei depois pensando em quais obras mais se aventuraram por esse terreno estéril. E esse livro veio à mente. Resolvi então, escrever sobre ele para exemplificar mais um livro bem sucedido de troca de cartas.

Assim como Pantaleão, Uma Noite em Curitiba também é narrativa misturada. A história é escrita pelo filho de Frederico Rennon, um prestigiado historiador que desaparece após cair na infâmia por se envolver com uma renomada atriz que vem para Curitiba. Através das cartas trocadas entre o velado casal, o narrador tenta reconstituir os últimos passos de seu pai, e tentar entender a estranha e forte influência que sua figura paterna exerce sobre ele.

Esse livro é muito especial pra mim, por duas razões: a primeira, porque eu o ganhei do próprio Tezza, ao final da disciplina optativa que ministrava no curso de Letras da UFPR. A segunda, porque acho que Uma Noite em Curitiba tem a abertura mais emblemática de sua carreira: “Escrevo esse livro por dinheiro”. Logo na primeira frase, Tezza ataca, provavelmente sem perceber, a constante de seus livros: um motivo para escrever. À exceção de O Fotógrafo e outros livros escritos em primeira pessoa, todos, absolutamente todos os livros de sua carreira são justificados de alguma maneira por seus personagens. Pode procurar: Juliano Pavolini, o Fantasma da Infância, Aventuras Provisórias, Trapo, etc. Isso pode ser explicado por algumas hipóteses, como por exemplo, um sentimento de culpa inerente pela profissão de escritor, tema sobre o qual ele fala tanto em livros quanto em crônicas já publicadas. Mas talvez a resposta seja a mais simples: é estranho pra cacete escrever em primeira pessoa. Com o narrador onisciente, ninguém faz perguntas, ele escreve simplesmente porque pode. Mas uma pessoa que narra por um livro inteiro sua própria história, ou vivenciada por outrem, cedo ou tarde precisa de uma explicação. Afinal, o que leva alguém a fazer isso (respondam-me, blogueiros que fazem queridos diários de seus sites)? Essa consciência da narrativa justificada Tezza já possuía desde a década de 80 e vocês ainda procurando uma boa razão para ter um twitter, hein?

Apesar da constante troca de cartas (nas quais os pronomes de tratamento vão evoluindo constantemente em intimidade), Uma Noite em Curitiba é dinâmico pelo alto grau de narrativas, que mesmo as próprias epistolas contêm. E mesmo sendo um livro curto, a experiência proposta pelo autor é muito concreta para quem lê.

O grande problema desse livro é encontrá-lo. Desde que o escritor migrou para a editora Record, seus livros antigos publicados pela Rocco viraram artigos raros nas livrarias. Juliano Pavolini e o Fotógrafo ainda conseguem ser achados nas Livrarias Curitiba da vida. Quem sabe a Record também o republique, como fez com Trapo, Aventuras Provisórias e O Fantasma da Infância. Porque, venhamos e convenhamos, a Rocco é ótima pra encontrar novos escritores, mas peca no projeto editorial. Página de offset (não tem mais graça isso, galera!), uma fonte tenebrosa e um cabeço que EU poderia ter feito no microsoft word. E o que é essa capa? Mil desculpas ao Sr. Carlos Dala Stella, cujo mérito artístico não se discute, mas usar o quadro do senhor deste tamaninho nesse fundo branco gelo ficou uma vergonha. Porque não usaram o quadro inteiro na capa? Ficaria ótimo se fosse assim. A ficha técnica do livro também omite muita informação e está bem desorganizada, mas tem um trunfo: o nome de Elizabeth Lissovsky, a heroína que “preparou os originais” do livro (um eufemismo para “decifrou a escrita de Chico Xavier” do escritor. Brincadeirinha, Tezza, mas uma brincadeirinha com um fundo de verdade). Quase uma tradutora do árabe.

Comentário Final: 171 páginas de pesado offset. Se pegar no saco, dói.

Ruy Tapioca – A República dos Bugres

Vamos botar a mão na consciência e admitir que, em se tratando de literatura brasileira contemporânea, não são muitos os autores novos que se destacam. Por isso mesmo, quando aparece um, é preciso arregaçar as mangas para fazer saber que ainda existe gente que presta na literatura desse país, mesmo que o escritor em questão não seja necessariamente novo. Ruy Tapioca já é um senhor, e iniciou sua carreira de escritor depois de sua aposentadoria. Desde 1999, tem quatro livros publicados. E pergunto: Você já leu ou ouviu falar do gajo?

Pois é justamente sobre A República dos Bugres, seu romance de estreia, que trataremos neste post. O livro foi agraciado com o Prêmio Guimarães Rosa de Literatura , entre outros prêmios igualmente importantes, e é um sucesso somente no meio acadêmico. Foi na faculdade de Letras que o conheci. A querida professora Marilene Weinhardt ministrou sua disciplina de Teoria Literária e Teoria da História baseada neste livro, que é uma ficção histórica de primeira que abrange quase todo o século XIX, e que tem como um de seus protagonistas um suposto filho bastardo de D. João VI que vem para o Brasil junto com a família real em 1808. A mistura entre personagens reais e inventados é perfeita pela escolha dos personagens reais (caricatos demais para terem existido) e pela profundidade de construção dos inventados. Se você ler o livro, tente descobrir quais existiram de verdade. Garanto que terá uma surpresa ou duas.

Não podemos ignorar também o domínio do autor sobre o estilo literário da época do império. A escrita de A República dos Bugres é um show à parte. Também pudera, teve aula de redação com Machado de Assis (Opa, que maldade! Brincadeira, Sr. Tapioca!), que aliás faz ponta no romance. Pra quem curte uma erudição literária, essa obra-prima promete molhar a roupa de baixo de muita gente.

E também há o humor. A República dos Bugres é um livro engraçadíssimo. De gargalhar mesmo, como poucos. Aliás, por se tratar de uma ficção histórica sobre o Brasil que aborda o tema com esse humor e estilo rebuscado, gosto de fazer um paralelo com a portentosa obra Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Mas, João Ubaldo que me perdoe, mas A República dos Bugres bate as 700 páginas de Viva o Povo Brasileiro em muitos aspectos.

Com tudo isso, você deve estar pensando: Por que um livro desses não tá na boca de toda livraria do Brasil? Pois é, amigo, também não sei. Publicado pela editora Rocco, que, vamos concordar que não fez um bom trabalho na divulgação desse autor, o livro tem um projeto gráfico meio tosco, embora tenha sido impresso em fonte Minion, que eu acho irada e cuja versão genérica pode ser encontrada para download na internet. Com um papel offset podrão (ô gente, vamos parar com o offset!) e uma capa com uma pintura realista, uma estética que já saiu de moda na publicação de livros há pelo menos 20 anos. Então, ponto positivo pra Rocco, que publicou este que talvez seja o último dos autores de novos clássicos (e quem escreve ficção com mais de 400 páginas hoje em dia?), mas ponto negativo por não caprichar na publicação desse belíssimo livro, um dos melhores, aqui no Brasil, dos últimos trinta anos.

Comentário Final: 532 páginas pesadas de offset podrão. Se tacar na cabeça dá traumatismo.