John Williams – Stoner

Capa_Stoner_Rádio_LondresEita que o vídeo da Flip tá demorando mais pra ser editado do que eu gostaria, ou eu estou menos tempo do que eu gostaria, ou eu só acho que estou tendo menos tempo do que gostaria, o que importa é que não importa, hoje é segunda e vocês merecem uma resenha nova na falta de um vídeo bobo que levamos muito a sério pra fazer e que deve sair muito em breve.

Bom, estamos aí essa semana com o Stoner, esse que é aparentemente um clássico moderno esquecido – o que, aliás, parece muito estranho em se tratando de tão pouco tempo para esquecer um livro, será que isso vai acontece com a Profecia Celestina daqui a uns dez anos? Stoner foi publicado na década de 60 nos Estados Unidos e, de acordo com o texto didático escrito para fazer você entender por que esse e por que agora, ele foi republicado em 2003 pelo New York Review of Books e considerado um sucesso editorial e entrou na lista dos mais vendidos em alguns países da Europa, o que não é lá muito animador pra quem, como eu, costuma ler a lista dos mais vendidos dos lugares (agora a maioria é livro de colorir, sabiam?). Também não anima muito o fato da contracapa ter comentários elogiosos de escritores medíocres como Bret Easton Ellis (que acha que ainda estamos nos anos 80) e de Tom Hanks que, é bom que se lembre, achou que Forrest Gump foi uma boa. E a cereja do bolo é o primeiro parágrafo da história, que basicamente resume a coisa toda ao dizer:

“William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até a sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no ‘Acervo de Livros Raros’, com a seguinte inscrição: ‘Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de Inglês, por seus colegas’”.

Como bem apontou o posfaciador desse livro, o escritor americano Peter Cameron (e foi só isso de bom que ele teve pra apontar em sete páginas de pura especulação literária sobre coisas que CLARAMENTE não estão no texto), para que continuar a leitura de um livro que já está todo resumido ali, né mesmo, geração spoiler? E talvez esteja aí a beleza da coisa e a lição pra vocês que gostam dessa vibe de ler 43 livros sobre uma escola de vampiras do bem que precisam de namorados e ficam muito enfezados se alguém te conta que a Zoey virou a líder das Filhas das Trevas — o que, aliás é algo que seu tio vida loka que teve a vida marcada pelo filme Easy Rider já tentava lhe dizer: o que importa não é o destino, mas o caminho. Ou não exatamente isso, mas vamos devagar.

EscritorDe fato, William Stoner, o personagem principal desse livro (e eu achando que era sobre drogados roqueiros que ouvem Stoner Rock) não é quase nem protagonista da própria vida, de tão prosaico. Não é um bom professor, não tem uma personalidade forte, não fez absolutamente nada de memorável nem algo que merecesse figurar em um livro como nós o conhecemos. Digo como o conhecemos porque a televisão, assim como a literatura, já teve uma certa ânsia por protagonistas, até que começou a apostar suas fichas em personagens reais, limitados, patéticos, falhos e coadjuvantes. E as pessoas que estavam assistindo essas coisas realmente gostaram porque, geralmente, eram programas engraçados, mas também sensíveis no trato a reles mortais. E aí a gente vê que o mistério não tem mistério, o cara salva no texto – e nem é um texto rebuscado, é só um texto realmente sensível.

Stoner é um personagem um tanto inoperante, na verdade. Leva várias porradas da vida e não faz quase nada a respeito. Tem um professor rival, um aluno metido a besta, uma mulher que não gosta dele, uma filha distante, amigos mortos e a coisa toda para deixar o romance enevoado com uma melancolia infinita, e ainda assim não deixamos de nutrir uma certa ternura por ele. Sim, Stoner é um desses romances em que, não tendo muito a se agarrar textualmente – floreios ou grandes digressões – o leitor acaba se aproximando demais dos personagens, que são tão misteriosos quanto parecem. Há coisas sobre a vida de Edith, mulher de Stoner, que nunca saberemos, nem a relação do professor Lomax com seu aluno aleijado Charles Walker, e essas coisas reforçam a tangibilidade do personagem principal, inserido em um mundo aberto em que coisas acontecem de maneira não relacionada a sua vida com começo, meio e fim.

E no fim, é isso: a sensibilidade. Ela é que está salvando tudo quanto é produto que você possa inventar no mundo de hoje porque há uma impressão geral de que as pessoas se acostumaram com os absurdos da vida e ficaram insensíveis a certas coisas. Recuperar essa sensibilidade em uma obra escrita como essa não só faz com que o mundo fique um pouco mais sensível como também faz com que você se sinta bem por conseguir sentir empatia por uma história tão sutil.

Esse livro foi lançado pela editora Rádio Londres, uma das mais novas parceiras do Livrada! Eles são uma editora nova e me procuraram pelas redes sociais e me mandaram esse livro. Por causa do nome, eu achei que fosse uma editora que só lançasse livro de hipster londrino, mas que bom que não é assim. Não li nenhum outro romance publicado pela editora ainda, mas parece que eles estão com um acervo bom de títulos não-babacas – o que já é uma grande coisa em se tratando das grandes casas editoriais de hoje em dia. O projeto gráfico desse livro é primoroso e respeita tudo o que há para se respeitar em um projeto gráfico que se preze. Papel pólen, uma fonte boa (chamada Calluna, que eu não conheço, mas tá beleza também), uma capa bem bonita que parece que compartilha a foto da edição original, ou de alguma edição gringa pelo menos, e uma certa identidade visual com a colocação do título e do autor numa bolinha colorida, atrás do nome da editora (o que reforça que a coisa parece tudo menos o nome da editora. Parece tipo uma coleção ou algo assim). Enfim, um livro bonito também.

Ps: parece que muita gente comentou que a primeira edição de Stoner tinha muito errinho no texto, e que a tradução dava umas trombadas com a realidade da língua em algumas horas, mas eu recebi aqui a segunda edição e, fora uma coisa ou outra muito rara, tá tudo bem.

Comentário final: 314 páginas em papel pólen. Quebra uma perna com osteoporose (lembra quando os comentários finais eram só sobre o poder destrutivo do livro? Ah, o Livrada! de antigamente…)

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Ernest Hemingway – Paris é uma festa (A Moveable Feast)

a moveable feastEstamos aqui mais uma vez para falar de Hemingway. Discutia com o Murilo dia desses sobre o fato de Hemingway ser ou não um escritor raso. E Murilo achava que não, mas eu digo que sim, mas digo também que ser raso não é um defeito – muito longe disso. Alguns dos escritores mais queridos de gerações (principalmente de jovens) são rasos, e por serem rasos, mantiveram sua popularidade por muito mais tempo. E veja também que raso não significa sem conteúdo. Hemingway escreveu o que viveu, e viveu muitas coisas, ora bolas, como um sujeito como esse pode escrever um monte de nada? Hemingway apenas tinha como meta em sua vida, e isso é reiterado em várias de suas memórias, incluindo esta, escrever apenas verdades.

E a verdade de Paris é uma Festa é tão convincente e apaixonante que Woody Allen certamente usou essa bagaça pra escrever o seu Meia-Noite em Paris. Porque o que lemos nessas páginas memorialísticas (que não dá pra chamar de romance pela aleatoriedade dos episódios) é o jovem Hemingway em sua melhor forma física sendo feliz na capital da luz. Com sua mulher, seu gato e seu filho pequeno (que é cuidado pelo gato), Hemingway bebe e convive com grandes personalidades da sua época que também moravam em Paris, como Gertrude Stein (não me desce a literatura dessa mulher, mas ele elogia tanto que talvez um dia dê mais uma chance), Fitzgerald, Ford Madox Ford Ezra Pound, James Joyce, Picasso e também Sylvia Beach, dona da Shakespeare and Company, livraria muito simpática que existe até hoje na cidade e que é realmente charmosa por dentro. É lá que o autor pegava livros emprestado e entrava em contato com o melhor da literatura russa, inclusive Tolstoi e Turgueniev, que ele adorava, e Dostoievski, que pra ele escrevia muito mal mas transmitia muitas emoções, vê se pode. Hemingway então embarca em uma história que já nos foi contada muitas vezes e por muitas pessoas, incluindo John Fante, que escreveu Pergunte ao Pó em 1939: a relação com a própria arte e a relação com o mundo real, no qual é preciso sobreviver. Hemingway tenta viver da própria literatura em Paris e com o pouco que ganha aposta nos cavalos para complementar renda enquanto tem que prover uma família pequena, da mesma forma que Arturo Bandini estava vivendo o sonho de ser escritor em Los Angeles ao mesmo tempo em que lutava para não morrer de fome na pensão fedorenta em que morava.

E o que a gente apreende disso para além da literatura numa tentativa de fazer de Hemingway um escritor profundo? A simples noção de que é preciso viver e viver fazendo o que se gosta. E claro, que a época dele foi a melhor de todas e que na sua só tem zé mané então desista porque todo o glamour foi embora com a praticidade do mundo moderno. Seu bolha.

Ernest HemingwayO que Hemingway escreve sobre si mesmo é altamente duvidoso se levarmos em conta o sério problema de afirmação que ele teve durante vida e que pode ser facilmente comprovado pelas histórias que escreveu. Hemingway se vê como um jovem e brilhante escritor, uns dos mais brilhantes de sua carreira, e guarda muitas reservas a reconhecer seus pares como iguais. Também se vê como um sujeito descolado em certa medida, e um bom amigo para as pessoas. É assim que narra uma viagem que fez com um histriônico Scott Fitzgerald e que conta como sua relação de amizade com Gertrude Stein chegou ao fim. Ora, rapaz, e o que os outros pensavam de si?

E Paris, vocês me perguntariam? Milhões de turistas vão todos os anos para a cidade mais visitada do mundo atrás do glamour de ficar horas em filas e disputar cantos para fotografar a Monalisa. Paris parecia ser muito mais fina naquela época do Michaud e do Deux Magots em que a água mineral não custa cinco euros seus desgraçados que fazem a fama em cima dos outros, vocês vão ver. Em dado momento do livro, Fitzgerald está preocupado em não ter um pinto muito grande e Hemingway o leva até o banheiro para dar uma fiscalizada totalmente heterossexual e, não convencido com as notícias reconfortantes do Papa, é levado pelo autor para o Louvre para ver umas estátuas de pinto pequeno. “Vamos até o Louvre. Agora! É só descer a rua e cruzar o rio”, diz ele como que jogando na cara da sua viagem completamente planejada de quatro dias a Paris o que ele podia fazer naquela época. Ver uns pintos no Louvre? Pois não, basta descer a rua e cruzar o rio! Nada de comprar pacote da CVC, nada de ficar horas espremido na classe econômica, nada de esperar mais algumas horas na fila do museu para aí sim, acotovelando muita gente, conseguir ver os pintos que Hemingway e Fitzgerald apreciaram naquela tarde de maneira com-ple-ta-men-te heterossexual. Paris era assim, uma cidade de acasos, de espontaneidade, de conveniências. E isso está morto pra você, seu patético, desde que nasceu. Toma essa, diz o livro do Hemingway.

Esse livro é publicado pela Bertrand Brasil e tem o seu projeto gráfico completamente modificado, com capas gráficas, tamanho grande, a assinatura do mestre na frente ao invés do nome e tudo mais o que eu já falei nas outras resenhas do cabra aqui e aqui. Esse ainda tem umas fotos da época, um sujeito com cara de emburrado mas aparentemente muito feliz e seus amigos escritores. Ponto pra Bertrand, tá demais essa edição.

Comentário final: 250 páginas em papel reciclado. Bem melhor que conferir o bilau dos outros no banheiro, amiguinho!

Ernest Hemingway – Adeus às Armas (A Farewell to Arms)

farewell to armsSei que todo mundo vibra de emoção por aqui quando eu começo a falar de um clássico moderno da literatura. Quer dizer, saber, eu não sei. Eu suponho, já que geralmente são os comentários mais alardeados sobre o assunto, e não vejo ninguém vibrando por livros mais desconhecidos ou clássicos clássicos, desses que na grafia do português original é cheio de acento onde não deve. Bom, clássicos modernos são esses livros que todo mundo gosta de ler mas não necessariamente são tão bons assim. Alguns gostam mais e enchem de porrada quem fala mal e outros gostam menos e passam a vida esgueirando-se pelos cantos para não ser apontado e escurraçado na rua como “o sujeito que falou mal de Camus” ou “aquele cara que não curte Cortázar” e por aí vai. Fato é que é muito difícil identificar um clássico moderno como tal porque não há outro parâmetro a não ser o gosto popular e o quanto ele discutido em sala de aula por crianças que não têm idade para lê-lo. Mas, acredito eu, que Hemingway seja um desses autores clássicos modernos que alimentam a alma de pessoas intelectualmente díspares e frequentemente pelas mesmas razões.

Senão vejamos: Adeus às Armas foi publicado em 1929 e, salvo engano, foi um dos primeiros livros ambientados na Primeira Guerra Mundial, o que já mostra um delay grande da literatura em relação a outras artes representativas, porque o que surgiu de filme sobre o onze de setembro uns dois ou três anos depois não tá no gibi. Mas onde é que eu estava? Ah sim. Bom, Hemingway, no fim da Primeira Guerra, era um jovem mancebo de 17 anos, mas isso não o impediu de se alistar como motorista de ambulância na Itália. Coincidentemente, olha só, o protagonista do livro também é um americano motorista de ambulância na Itália a serviço dos italianos. Frederic Henry é um cara jovem e inacreditavelmente neutro para um protagonista. Não dá pra saber porcaria nenhuma sobre a personalidade dele pelas atitudes que ele tem, e isso não necessariamente quer dizer que ele seja imprevisível ou apático, apenas que o autor não teve muita preocupação com isso. Os personagens do Hemingway, de uma maneira geral, são muito rasos e levados pelos acontecimentos. Quase sempre têm um único traço de personalidade que é repetido ao extremo, mas não dá pra culpar o cara por isso porque primeiro que construir um bom personagem é uma tarefa tão difícil que tem escritor por aí que fica famoso só por causa disso sendo que a história em si é uma porcaria, e segundo que ele se interessa mesmo é em contar história.

Ernest HemingwayE essa história, que se passa na Primeira Guerra Mundial e tem como protagonista um motorista de ambulância americano a serviço do exército italiano chamado Frederic Henry, fala de um caso de amor entre esse cara em específico e uma enfermeira escocesa louca de pedra chamada Catherine Barkley depois que ele é ferido em campo de batalha. É basicamente isso, não tem muito pra contar da história além desse resumo básico. O que podemos dizer é que eles tentam viver juntos mas esse é um mundo enlouquecido pela guerra em que as pessoas fuzilam traidores que recuam e todos estão obcecados pelo poder e a Itália tá numa pior nessa guerra aí e precisando desesperadamente de ajuda e pra eles só resta a fuga para Suíça. E aí nesse parágrafo já coloquei mais spoiler do que vocês gostariam e não avisei que tem spoiler porque senão vocês ficam mal acostumados. Cresçam.

Bom, Adeus às Armas tem aquela coisa hemingwayniana de macho que também chora, macho que só quer ser feliz mas o mundo é mais macho que ele, macho machucado, macho derrotado porque não foi tão macho, macho que não tem medo de nada a não ser de outros machos mais machos e etc. Mas também é uma história singela e bonita, escrita naquele naturalismo maroto, sem qualquer retoque na narrativa, um troço meio jornalísitico que salta aos olhos e agrada a maioria das pessoas porque é muito fácil vencer 400 páginas assim. Eu mesmo que não ando dos leitores mais ágeis do mundo, li em uns três dias. Acho massa inclusive que o tom do livro é muito leve e meio que se antecipa à censura dos filmes americanos, já que o autor não menciona o sexo entre os personagens, mas apenas sugere com eufemismos e imediatamente corta pra cena seguinte. As cenas de morte, entretanto, são descritas muito bem. É, parece mesmo cinema americano. Inacreditável como os caras não têm problema nenhum com violência, mas não podem ver uma mulher pelada que saem gritando em nome da família e do bom comportamento. Mas isso é assunto pra outra hora.

A edição da Bertrand Brasil tá muito bonita, e finalmente faz jus ao autor. Fonte grande, capas gráficas, papel jornal amarelado e bonito, cabeço e paginação juntas no topo da página e a assinatura do mestre no lugar do nome dele. Achei bem melhor do que a coleção antiga, e parece que tá saindo mais. Vamos ficar de olho.

Comentário final: 402 páginas em papel jornal (ou tipo papel jornal, sei lá). Macho não vacila, macho arrasa, macho não leva desaforo pra casa.

Don DeLillo – Homem em Queda (Falling Man)

Falling manAdivinha doutor, quem tá de volta na praça? Don Delillo, camaradagem, aquele escritor norte-americano que não deixa barato pra ninguém e faz de cada livro uma verdadeira obra de arte. Todo mundo que lê esse blog sabe que eu sou suspeito para falar do cara, mas saibam vocês que Homem em Queda, seu penúltimo lançamento (antecessor de Ponto Ômega, sua obra mais cabeçuda, na minha opinião), é, sim, um livraço como de costume, mas não prometo me estender no post de hoje por um motivo muito nobre: meu computador quebrou e tá difícil achar onde escrever. Felizmente fim de ano está chegando e quem sabe neste ano eu não dê presente para ninguém a não ser eu mesmo, afinal de contas, ó, mundo tão desigual.

Pois muito bem: se você olhar a capa de Homem em Queda (não olhou? Olhe agora que eu espero) não é difícil perceber que o livro trata dos ataques às torres gêmeas, naquele fatídico onze de setembro de 2001. Não sei por que todo mundo tem essa curiosidade mórbida de perguntar onde a gente estava durante os atentados, mas se alguém quiser saber, eu estava dormindo numa aula importantíssima de física. Pronto, passemos adiante. Dizia eu que Homem em Queda trata das torres, e tem como protagonista um homem chamado Keith, um sobrevivente do atentado que emerge do caos de poeira e destroços como um… eu ia dizer como uma fênix, mas aí pensei em algo menos gay pra falar e não achei, então vai fênix mesmo. Ele, ao invés de tomar qualquer providência racional, volta pra casa da ex-mulher, que mantém uma relação familiar passivo-conturbada com a mãe e seu padrasto, um sujeito misterioso que viaja o mundo e tem família em algum lugar da Europa, e revive o suicídio do próprio pai, que estourou os miolos com um rifle de caça certo dia. A chegada repentina de Keith transforma a relação do casal e cria um ambiente de reaproximação, o que pode ser muito bem visto como as mudanças inesperadas que condições extremas acarretam para a vida de pessoas simples. O filho do casal, Justin, entretanto, se torna obcecado com a figura de Bin Laden (ou Bill Lawton, como ele o chama por entender errado o nome). Ele fica noiado, patrulhando os céus à procura de novos aviões e obcecado com as características físicas e comportamentais do inimigo número 1 dos Estados Unidos.

Don DeLilloAo mesmo tempo, Keith entra de cabeça em uma existência vazia de encontros amorosos com a dona de uma bolsa que encontra em meio aos destroços e viagens a Las Vegas para jogar poker, numa retomada de um hábito pré-onze de setembro com amigos peculiares que desempenham papéis diversos após o atentado. Sua mulher, Lianne, também começa a presenciar os feitos artísticos de um louco performático chamado de Homem em Queda, que fica pendurado por um pé com um cinto de segurança de pontes, postes e outros locais altos, para depois cair e se esborrachar no chão. Por último, a narrativa contempla ainda a vida de dois dos terroristas responsáveis por sequestrar os aviões. Em resumo, Homem em Queda, oferece uma multiplicidade de narrativas que servem unicamente para tratar o que toda a literatura que se dedicou ao fenômeno tratou: as diferenças, em vidas diferentes, de um mesmo evento, divisor de águas, histérico e dramático.

Particularmente, o excesso de americanismo nesse livro me chateou um pouco, já que eu sempre vi a literatura do DeLillo como algo universal e sem localismos, mas não dá pra culpar o cara já que todo americano, em maior ou menor grau, acha que o onze de setembro é um troço que diz respeito ao mundo inteiro, e não só a ele (e os posteriores atentados na Europa trataram de reforçar esse discurso). Mesmo assim, acho que a grande sacada do romance, em sua estrutura, é a diversidade de significados do atentado. Uma nova chance para os casais, que não têm outra escolha senão sublimar suas dificuldades ante a catástrofe nacional, um novo monstro para as crianças, para moldar suas infâncias, entretendo-as e amedrontando-as, um novo conceito para a arte, que ganha novos assuntos e ares de ativismo em sua vertente performática (a favorita de DeLillo, visto Ponto Ômega e A Artista do Corpo, já resenhado aqui), e uma necessidade quase urgente de retomar a existência tal qual fora antes, num simulacro de normalidade que só pode iludir os que se propõem a ela em momentos de calma e concentração, já que os tempos são mesmo sensíveis (há uma passagem ótima em que Lianne fica irritada porque a vizinha fica ouvindo “música étnica”, não necessariamente árabe). Mas a prosa do autor é invariavelmente sagaz, aguda, e a rapidez dos diálogos torna algumas partes engraçadas. Fico meio bolado com o fato de todos os personagens dele serem extremamente inteligentes e sagazes. Até as crianças! Sempre fico com a impressão de que, se eu estivesse num universo de DeLillo, seria a pessoa mais burra da face da Terra, mas isso é outra coisa e fica entre eu e meu psicanalista. Vocês ficam com esse belo livro da Companhia das Letras com papel pólen soft, fonte Electra e todos os cuidados de sempre, com tradução do grande Paulo Henriques Britto.

Comentário Final: 256 páginas de pura sagacidade narrativa. Toma essa, Bill Lawton!

Cormac McCarthy – Todos os Belos Cavalos (All The Pretty Horses)

All the pretty horsesTodo mundo que me lê aqui sabe que eu começo falando dos livros pra depois falar da edição. Mas vou inverter a pirâmide hoje (tá ligado em pirâmide invertida? É gíria de jornalista pra prexeca, só quem é malandro sabe) e começar falando da edição. Todos os Belos Cavalos foi lançado pela editora Planeta DeAgostini, que fez a coleção Grandes Escritores da Atualidade, uma dessas coleções de banca de jornal que você compra quinzenalmente pra dar a chance do jornaleiro de ter carne na ceia de natal dele. De modos que esse livro, caso você goste do que eu vou escrever aqui hoje, vai ser meio difícil de ser encontrado, porque a Companhia das Letras, que é quem o publica, deixou esgotar a edição e nem sequer se dignou a fazer uma reimpressão desse que é top 3 das minhas leituras desse ano.

Enfim, a coleção foi lançada em 2003/2004 e era vendida a R$16,90 cada exemplar. Só que os caras fizeram uma coleçãozinha matadora, com títulos como Reparação, Abril Despedaçado, Voragem, Pastoral Americana, Ruído Branco, Todos os Nomes, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Os Versos Satânicos, Santa Evita, Quando Éramos Jovens, Os Cadernos de Dom Rigoberto, Se Um Viajante de Uma Noite de Inverno, Os Mímicos, Coelho Corre.. ah, é demais, cara. Quando descobri isso fiquei meia hora batendo a cabeça na parede me perguntando onde diabos eu estava com a cabeça em 2003 que passei por várias bancas de jornal e não comprei nada disso. Enfim, passou e esse livro foi resgatado pela digníssima num sebo via Estante Virtual, anteriormente propriedade de um certo Ariel R. Pinheiro, que, vou dizer, deu mole ao vender essa joia provavelmente pelo valor de um maço de cigarros. A coleção é caprichada, com capa dura, uma foto boa pacas na capa e de resto, a mesmíssima tradução da editora original, que provavelmente fez com capricho. Recomendo, e agora que vocês já estão ávidos pela coleção, vamos ao livro em si.

Todos os Belos Cavalos é o primeiro volume de uma trilogia chamada “The Border Trilogy”, ou a Trilogia da Fronteira. São romances ambientados na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Seguem a esse o A Travessia (também esgotadão na editora, nem adianta chorar) e Cidades da Planície (talvez esse ainda tenha alguma coisa), os quais certamente estão entre as minhas próximas leituras, todos devidamente providenciados. Por hora, posso falar do primeiro. O livro conta a história de um sujeito chamado John Grady Cole, que veio de uma família de fazendeiros do Texas e cujo sonho maior é… tchanam! Ser fazendeiro. Mas justo quando chega a vez dele de assumir, o avô morre e o resto da família acha por bem vender a droga da fazenda que nunca deu dinheiro mesmo. Ele luta com isso o quanto pode, mas quando vê que não tá dando pé pra ele, resolve pegar um cavalo junto com o primo, de sobrenome Rawlins, e partir pro México, sem nenhum plano muito mais elaborado na cabeça. E aí ele chega numa fazenda mexicana, resolve domar os potros selvagens, se apaixona pela filha do hacendado e se mete em altas confusões, ao estilo faroeste cabôco do McCarthy. Seus personagens são todos sábios taciturnos, ninguém fica desfiando muitas teorias e ninguém vacila  com os sentimentos na frente de ninguém. Onde os fracos não tem vez.

The Border TrilogyA sacada é que tudo isso se passa no ano de 1949, se fiz as contas direito, ou seja, algum tempo depois da época das grandes diligências e da época em que as pessoas faziam viagens de cavalo. A guerra já tinha acabado, “Guerra Fria” era um conceito moderno, como “sustentabilidade” é pra gente hoje, o bebop tocando nas vanguardas e tudo mais, e o cara viajando a cavalo. É justamente essa a graça dos romances desse senhor. Sabe quando você vê essas propagandas patéticas do governo incentivando as pessoas a lerem dizendo “quando você lê, você se transporta para outro mundo”. Bom, isso é balela pra 90% dos livros que eu leio, mas não para os livros do Cormac McCarthy. A parada sempre vai numa vibe meio Red Dead Redemption, meio Sergio Leone, meio propaganda de cigarro (galera que é mais novinha que lê esse blog nem deve saber do que eu tô falando). Bate uma sensação de liberdade, um isolamento do tempo, um despreendimento dos problemas mundanos em favor de questões existenciais.

Porque essa é outra beleza da literatura de McCarthy. A ideia de que mesmo entre pessoas de vida mais simples, ainda há a inquietação cósmica, a vontade de entender o ininteligível, o desassossego da alma e o debate metafísico. Talvez até com mais propriedade, ante o contato maior com a vida do que nós, citadinos bunda-moles. E talvez por isso também o livro faça referência, em seu título, apenas aos cavalos, esses seres que são tratados com todo o carinho e veneração por seus donos. Os personagens de Todos os Belos Cavalos conhecem histórias de cavalos famosos, leem sobre cavalos, discutem sobre cavalos, comparam cavalos, matam e morrem por cavalos. E os cavalos continuam bichos, não são repletos de humanidade como em um certo filme do Spielberg que deveria inaugurar o Oscar de Melhor Cavalo, mas também nem por isso são desprovidos de profundidade ou vida. Entendem os homens, criam laços com eles, mas não se furtam a arroubos de susto e surpresa ante suas atitudes. Ainda são apenas cavalos, mas paradoxalmente são muito mais do que isso.

O que é estranho (e não deixa de ser uma qualidade) é o apelo comercial desse livro, que poderia muito bem virar um drama de faroeste moderno nas mãos de um charlatão de Hollywood. Acho que isso é uma técnica de sobrevivência dos escritores nos Estados Unidos. Nunca fazer um livro puramente contemplativo ou sisudo demais. Sempre tem que dar uma brecha pra, caso surja o desejo, adaptar a coisa pro cinema. Deve ser bem difícil conviver com esse povo ignorantão que mora nessa terra esquecida por Deus por causa disso, mas por outro, a coisa trabalha como um darwinismo literário: quem se sobressai, vira sucesso de crítica e público, e isso nunca vai ser algo ruim em tempos de Quentin Tarantino.

Por fim, Todos os Belos Cavalos pode ser o livro que vai te distrair durante um final de semana ou uma leitura que vai te marcar pela beleza, singeleza e profundidade. Assim como num finado programa da Globo, você decide.

Comentário final: 272 páginas do mundo de Marlboro. Oh yeah!

Jeffrey Eugenides – As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides)

The Virgin SuicidesJá viram esse filme, né? As Virgens Suicidas foi para o cinema pelas mãos da diretora Sofia Coppola, que é uma espécie de Midas às avessas: transforma tudo em que põe as mãos em pura merda. Como, por exemplo: história da França. Não sei se alguém viu Maria Antonieta, mas, se não viu, continue assim com essa atitude positiva com a vida e fique longe dessa aberração cinematográfica. E sei que estamos vivendo em tempos muy delicados, em que não faltam dedos para acusar o próximo de sexismo e homofobia, mas a impressão que eu tenho vendo a obra dela é a de que ela transforma toda a realidade sob uma ótica de menininha deslumbrada, uma vibe meio revista capricho, meio jovem indie inculta.

Mas não estamos aqui pra falar da obra da Sofia Coppola, embora ela me sirva de ponto de partida. Pois foi o que pensei quando vi As Virgens Suicidas, o filme baseado no romance de Jeffrey Eugenides. Pensei: “taí um filme que estragou o que deve ser um belo de um livro”. Mas naquela época não conhecia a obra de Eugenides. Tempos depois li A Trama do Casamento, que achei um livro muitíssimo divertido, embora tenha terminado com uma leve impressão de que ele se pretendeu muito mais profundo do que realmente é. Daí peguei esse As Virgens Suicidas pra ler e acho que quando você lê 66% da obra de um autor, você já é capaz de dar um juízo mais ou menos certo sobre sua carreira. E vou dizer que, embora todo mundo me diga que o Middlesex, o outro livro dele que ainda não li, é muito bom, o sujeito é fraco pra diabo. Desses esforçados, coitado, mas ainda assim, fraco. Felizmente pra ele, esse romance virou Cult e agora as pessoas gostam mesmo sem saber o porquê. Bom, eu vou dizer exatamente por que eu não gostei.

Antes de mais nada, uma ressalva à tradução. O título original, The Virgin Suicides, tem um significado diferente da tradução, As Virgens Suicidas, embora pareça a mesma coisa. Do jeito que foi traduzido, tem-se a impressão de que o livro trata de meninas virgens com tendências suicidas, ao passo que, penso eu, o original traduz-se mais como Os Suicídios Virgens (até porque a virgindade das meninas não é exatamente atestada). E eis aí a real intenção do autor, suponho de novo. Tratar do incidente como sendo um ato irracional perpretado por quem não tem experiência suficiente para deliberar sobre a própria vida, verificar se há uma sabedoria tirada da vivência necessária para cometer suicídio, enfim, tentar entender o mistério da vida e da morte que não se explica quando acontece com gente jovenzinha. Mas talvez isso tenha sido culpa do cinema, que (eu acho, mas não tenho certeza) traduziu o filme primeiro e o livro pegou o título pra justificar a frase promocional que vem embaixo.

Pra quem não gosta, pode ter spoiler. Ou não, não decidi ainda, mas por via das dúvidas, se isso te incomoda, não leia. A história, pra quem não sabe, gira em torno de uma família de cinco meninas, um pai e uma mãe, übber religiosos, que é devastada quando a menorzinha se mata assim no mais. O lance vira especulação da mídia, dos vizinhos fofoqueiros, dos colegas de escola, e como se dá a convivência da família com a vizinhança depois disso, até o derradeiro momento quando não sobra mais filha pra contar história. Isso tudo não é spoiler porque é contado pelo narrador (e porque o livro chama AS VIRGENS SUICIDAS, por Tutatis, se você não quer presumir nada a partir desse título, você é um péssimo leitor, sabia?), um dos meninos da escola que vivencia tudo como um atento observador que, décadas depois, tenta reunir com os amigos seus documentos sobre a época para, como disse, desvendar o mistério da morte das meninas. Um narrado que está na história, portanto, mas poderia muito bem não estar, porque é inexpressivamente chato e não participa de quase nenhum momento importante do romance. Aqui, mais uma vez, têm-se o subterfúgio do autor que precisa de desculpa pra escrever suas linhas, não vamos julgar – pelo menos não ainda.

jeffrey eugenidesE aí cabe ao leitor tentar interpretar os acontecimentos à luz da desgraça e concluir o que todo mundo sabe: as minas se mataram porque os pais eram todos Jesus freaks bitolados que não queriam saber de namorinho, mão na coxa e rock n’ roll, elementos essenciais para uma adolescência saudável como todo mundo sabe. O problema é que isso é muito óbvio, e ele sabe que qualquer leitor com três gramas de tutano no cérebro vai conseguir inferir isso da leitura, então ele tenta mascarar com passagens dúbias, as quais, mesmo assim, não apontam para qualquer outra explicação. E no final resolve ainda deixar o caso inconcluído na opinião do narrador-observador. O narrador, aliás, mal cogita essa hipótese do bitolamento dos pais, o que só explana o quanto o Eugenides falha miseravelmente em esconder a obviedade do seu livro, porque os velhos ficam malucos e viram a casa num chiqueiro em pouco tempo, tergiversam do assunto e etc.

O autor faz o diabo, é verdade, pra te convencer do contrário: deixa a entender que pode se tratar de pacto com Satanás, bota a culpa nos garotos, na escola, no julgamento que as pessoas fazem depois que a menorzinha se mata, e até numa música que se chama, vejam só, Virgin Suicide. Mas, tal como Moisés, não consegue. E todo o resto do clima que ele tenta dar pra história é igualmente falho. Um arzinho policial pro mistério das mortes? Não consegue. Uma tentativa masculina de desvendar o espírito de jovens mulheres? Não consegue. Uma intenção de marcar o zeigeist com música pop e menções à guerra? Não consegue. Frases profundas? Não consegue. O livro inteiro é um erro na mão desse cara, e a Sofia Coppola, hoje posso dizer, melhorou a bagaça simplificando e enxergando nele o que todo mundo enxergou, e deixando de lado toda a gordura inútil que ele tentou usar para enriquecer a trama.

Contudo, é preciso dizer, o livro é fácil de ler e é uma leitura agradável de tão boba, dessas que passam rápido e nem se sente. Diria que é um desses livros pra você levar pra ler na praia naquele dia em que cai um temporal e acaba a luz durante o dia. É, esse seria o melhor cenário para se ler Jeffrey Eugenides. E baixe a guarda do seu senso crítico também, senão o pretenso pedantismo desse cara vai te matar de desgosto. Aliás, talvez não devêssemos confiar num sujeito que tem cara de quem está tentando um papel em Don Giovanni versão pornô…

Comentário final: 230 páginas em papel pólen com uma capa horrorosa que parece livro da Meg Cabot. Vou nem comentar mais nada.

Jeffrey Eugenides – A Trama do Casamento (The Marriage Plot)

The Marriage PlotAs Olimpíadas estão rolando, e obviamente o grau de interesse do brasileiro na cobertura é diretamente proporcional ao número de medalhas que os atletas conseguem para o Brasil. Pra quem não é deslumbrado com quem nada mais rápido, quem cospe um caroço mais longe, quem apanha a maçã voadoura de ouro, quem consegue achar o Bin Laden primeiro, enfim, essas aleatoriedades que usamos como qualificadora de caráter, vem com o Livrada! porque a literatura, para os poucos e bons, é perene e não é competitiva.

Quer dizer, é competitiva para uns loucos que descobri que ficam competindo pra ver quem lê mais livros no skoob, cadastrando tudo quanto é gibi, bula de remédio e livrinho infantil de cinco páginas (abram mão de vossas existências pela sanidade do mundo). E também é competitiva para o Jeffrey Eugenides, nosso objeto de estudo de hoje. Quer dizer, o cara é o nêmesis do Jonathan Franzen, e embora sejam amiguinhos e joguem kinect juntos, representam, cada um a sua maneira deturpada, duas vertentes da nova literatura americana – que, se você me perguntar, vou dizer honestamente que nem é tudo isso, prefiro o Cormac McCarthy e o Don DeLillo ainda.

Enfim, Eugenides, que escreveu o livro As Virgens Suicidas, que virou filme nas mãos da Sofia Coppolla — não devia ter deixado, Eugenides, isso é que nem construir um avião e deixar os amigos do Bin Laden pilotar – é um cara por cima da carne seca por esses dias. Isso porque ele não escreve muito e quando escreve lança A Trama do Casamento, um meta livro.A história, vejam vocês, gira em torno de uma mocinha chamada Madeleine Hanna, recém-formada em Letras e no frescor de sua juventude em plenos anos 80, época em que eu imagino sempre ao som de Don’t You Forget About Me, do Simple Minds (obrigado, John Huges, por tudo). O foco da pesquisa de Madeleine são os chamados “romances de Casamento”, aquele tipo de livro do século 19 em que uma mocinha tem dois pretendentes para escolher e a história inteira é isso, uma espécie de romance policial misturado com novela mexicana, tipo Orgulho e Preconceito e afins. A tioria da menina é que esses livros são o último resquício de machismo visível na literatura, que coloca a liberdade da mulher como o poder de escolha entre um ou outro, e que mulher gosta de ler isso porque é burra e alienada. Então a Mad aqui representa a entrada dos estudos feministas na universidade, algo novo para a época. Mas, surpresa! Madeleine tem, ela própria, dois pretendentes para escolher. De um lado, Leonard, um bad boy esquisito que estuda letras e biologia e sofre de bipolaridade – uma doença que eu nem sabia que existia na década de 80 – e faz todo mundo à sua volta sofrer enquanto ele acha que todo mundo tem que entender o lado dele, coitadinho. Do outro, Mitchell Grammaticus, um sujeito que também estuda letras e estudos religiosos e preprara uma virada em sua vida fazendo uma viagem pós-formatura para a Europa e depois Índia, trabalhando com os pobres com a Madre Teresa de Calcutá enquanto passa dias sem tomar banho.

(Só um parênteses: conheci em Paris uma menina que é a versão de saias do Grammaticus. Ela também estudava estudos religiosos, também não tomava banho e estava viajando após se formar e prestes a fazer o caminho de Santiago de Compostella. Perguntei se ela tinha lido esse livro e ela disse: “Não, sobre o que é?”. “Sobre você”, eu respondi)

E, pronto, aí está a genialidade de Jeffrey Eugenides em A Trama do Casamento. O resto são 500 páginas de discussões leves e agradáveis sobre literatura e uma história que vai e volta no tempo, e se o leitor quiser escolher pela rapariga, boa sorte, porque os dois são dois trastes na minha opinião – estando aí outra sacada do cara, habilidade para não pender um dos lados da balança.

Agora vocês me perguntariam: “Mas Yuri, A Trama do Casamento é um livro machista como os romances de casamento da Jane Austen que a Madeleine estuda?”. Bom, vocês podem achar que não, mas a resposta é sim. Primeiro porque, realmente, não resta nada à Madeleine a não ser escolher um dos dois e sofrer na mão de sua escolha pro resto da vida, e isso nem o “kit da jovem solteira” salva (vocês vão saber do que eu estou falando se lerem o livro). Segundo que ela nem é, propriamente falando, a protagonista do livro, já que o Eugenides dedica mais páginas aos dois pretendentes do que à própria Madeleine. Terceiro porque a moral do livro é essa: mesmo que você seja uma mulé super descolada e antenada à opressão feminina nesse mundo louco, você tá presa para sempre nessa vidinha e consciência nenhuma vai te libertar. Pelo menos foi isso que eu entendi. Eugenides, esse malévolo…

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras valoriza na capa o apelo pop do livro, já que é um livro pop mesmo, pra garotadinha curtir numa boa, sem neurose, e porque afinal, que garotinha de 17 anos metida a alternativa não ama os filmes da Sofia Coppola a começar pelo Encontros e Desencontros e a terminar pelas Virgens Suicidas? Sério, é um livro bacanasso de ler, e eu li nas minhas férias e devo dizer que essa resma passou rápido. O formato do livro é grande e tem papel pólen de gramatura leve e fonte Electra. Um livro bem charmoso, resumindo. E a lombada não é dessa cor, mas é esse fúscia/púrpura da palavra “casamento”, dando a impressão, uma vez na estante, que você é fã de Rosamund Pilcher e Nora Roberts. Boa sorte, então!

Comentário final: 438 páginas grandes. Desloca o maxilar pra ficar falando engraçado pro resto da vida.