Vídeo: Foe, de J.M. Coetzee

E aí, party people, estão curtindo essa vibe inédita e raríssima do Livrada! de dois vídeos por semana? É, enquanto sai a cobertura da Flip, vou soltando esses que gravamos por lá. Esse é de um livro antigo do Coetzee que só foi lançado agora pela Companhia das Letras. Espero que gostem.

Clica. Na. Imagem.

Foe

Alain de Botton – A Arte de Viajar (The Art of Travel)

The art of travelOs livros de não-ficção. Ah, os livros de não-ficção. Você pega um toda vez que está cansado de lirismos do romance ou do conto. Toda vez que se sente alienado do que está passando no mundo lá fora e mesmo dentro de você. Toda vez que você passa por uma poesia pichada em um muro. Toda vez que te chamam de burro em público. Toda vez que ouve uma música do Criolo. Toda vez que vê seus amigos ansiosos com a tradução de um livro gigantesco do David Foster Wallace que ninguém vai ler. Toda vez que vê uma fila de autógrafos gigantesca na Flip para o romance de estreia de um autor da Nova Caledônia publicado no começo da década de 80 e traduzido só agora para o português, que fala de como jovens da contra-cultura resistiram ao governo tirano e cruel do ditador caledônio cujo nome você nunca vai conseguir pronunciar. Os livros de não-ficção são altamente necessários quando a ficção e seus elementos cansativos começam a tomar uma porção maior da sua vida do que você gostaria.

E Alain de Botton é um bom antídoto pra isso, descobri depois que meu grande amigo e interlocutor de leituras boas Cássio Capiroba me recomendou e logo depois me presenteou com este A Arte de Viajar, que devorei em poucos dias. O sujeito tem o seu grande mérito, que é o de ser profundo e acessível ao mesmo tempo, e carregado com uma bagagem verdadeiramente erudita, que passa por escritores merdas de outros séculos a livros realmente importantes de outras áreas perto dos quais você nem chegaria perto a não ser que estivesse realmente muito curioso, ele nos brinda neste belo livrinho ilustrado e dividido em vários capítulos, com ensaios sobre, como diz o título, a arte de viajar.

É assim, por exemplo, que ele usa o clássico de Huysmans, Às Avessas, para falar das nossas expectativas quando escolhemos um destino de viagem. É assim também que faz uma longa explicação sobre o legado de Humboldt (o verdadeiro legado, não o livro do Bellow) para a exploração do turista e os reais motivos pelos quais nos interessamos por um determinado lugar, e principalmente, como utiliza Van Gogh e Ruskin para falar da proximidade da arte com a nossa percepção da realidade, e como isso tudo está relacionado com o que atentamos com o olhar quando viajamos. A impressão é que dá é que o cara tem o conhecimento do mundo na mão e usa a seu bel prazer para ilustrar quaisquer pontos que queira para te provar um ponto de vista. Deve ser dureza ganhar uma discussão em mesa de bar com um sujeito desses. Felizmente, o sujeito veio da Suíça, mora lá Inglaterra e meu único contato com ele são esses livros maravilhosos que ele faz.

Alain de BottonA leitura de A Arte de Viajar é extremamente leve e gostosa, o que é um dom raro para quem se propõe a escrever ensaios sobre temas tão filosóficos quanto abstratos. Afinal, condensar uma experiência individual em valores coletivos como ele faz com a viagem é uma tarefa que exige tanto uma sensibilidade quanto a tentações solipsistas quanto a determinação de se unificar o pensamento de maneira que o leitor possa se identificar de maneira rápida e clara com esses devaneios.

Minha crítica ao livro é uma só e vai direto no conceito dele, por mais paradoxal que isso seja, já que passei o texto até aqui jogando confete no dito-cujo: viajar tem algo de misterioso e belo que, de certa forma, morre se algum espertinho vem e te explica o porquê. É como ouvir os Beatles: por mais que te digam que é legal e importante, não vai fazer sentido pra você até que você faça a sua descoberta pessoal na experiência da audição desses almofadinhas britânicos que depois quiseram pagar de lóki (e não é essa a história de toda banda indie hoje em dia?). Mas, como crítico, não posso meter o pau em um livro por ser esclarecedor DEMAIS, mas, ah, sei lá, cara, me deixa aprender sozinho também. Mesmo assim, se você não for um bicho do mato como eu, você vai ler A Arte de Viajar e fazer da leitura o melhor pra você sem ficar encanando com nada. Porque é isso o que o livro é, no final: completo, esclarecedor, leve e divertido. É detalhista ao dar pinceladas gerais, e é sério sem ser carrancudo. É como um amigo mais inteligente que você que te explica as coisas que você sente e não sabe direito o porquê, e aí você fica achando tudo meio gay mas também fica extremamente agradecido. Esse é Alain de Botton.

Esse livro foi publicado pela Intrínseca, e como eu já disse, ele é altamente ilustrado e dividido em vários capítulos, no começo dos quais é anunciado qual será o lugar do mundo discutido e quem serão os guias, quer dizer, quem serão os intelectuais ou as personalidades nas quais o autor vai se basear naquele capítulo. Isso torna a coisa mais didática ainda, permitindo ao leitor buscar por fora quem quer que seja que ele tenha se interessado durante a leitura. É todo em tons de cinza por dentro, mas não importa. O papel ainda é o bom e velho pólen soft com a grande tipografia Electra (salve, Electra!). Tem cabeço e paginação na parte superior e páginas cinzas para separar os capítulos. Um livro que não tem medo de gastar página para ser bonito. Gosto disso. E quem não gosta?

Comentário final: 253 páginas em papel pólen soft. Dá pra matar numa viagem daqui até Aracaju.

Daniel Defoe – Robinson Crusoé

Daniel DeFoeO pessoal da nova crítica que acha que é facílimo falar bem de clássicos porque o tempo fez o trabalho de separar os Dan Browns dos Saramagos parece que não sabe que alguns Best-Sellers de antigamente também chegaram até aqui pela força popular e por eventuais sentidos que a galera resolveu imiscuir na obra de tanto que ela ficou pairando pelas estantes por aí. Poderia citar alguns exemplos aqui, mas temo decepcionar um ou outro eventual pseudo que gosta de se achar porque leu um livro que foi escrito antes dele nascer. Melhor se ater ao exemplo e objeto de análise de hoje, que é este Robinson Crusoé, do Daniel DeFoe, publicado em 1719. DeFoe escreveu esse livro pra ganhar dinheiro, e escrever livros era o jeito de ganhar dinheiro com arte ao alcance do homem comum naquela época, já que ser cineasta era impossível, ser músico requeria uma vida de estudos, ser grafiteiro era crime e ser vlogueiro então, nem se fala. É claro que a parada acabou sendo meio revolucionária pela linguagem despojadona e moderna, mas veja, isso é o que se fala de um livro centenas de anos depois, quando se percebe isso. Na época, vendia porque era bom, e era bom porque dava vontade de ler.

Talvez você conheça a história de Robinson Crusoé do filme com o Pierce Brosnan, mas eu preciso te avisar que essa não é exatamente a história do livro por ter, como sempre, umas invencionices bizarras pra deixar o filme com mais cara de “aventura”. O que é uma palhaçada, porque o livro tem doses de ação suficiente para dispensar aquela cena grotesca da luta entre ele e o Sexta-Feira em cima de uma ponte cheia de espinho ou algo assim. A história original fala de um garoto pacato que tinha muito o desejo de ser uma espécie de mochileiro daquela época. Viajar o mundo, ver umas coisas interessantes e depois voltar para uma vida pacata que pode ser aliviada pelo excesso de vivência. O pai dele bem que fala pra ele não fazer isso, porque o bicho só vai se dar mal nessa vida para a qual ele claramente não foi preparado, mas adolescente já era teimoso naquela época, de modos que ele vai sem medo de ser feliz e enfrenta um zilhão de perrengues. Naufraga umas duas vezes, vira escravo dos piratas berberes, perde uma grana, quase morre, vem parar no Brasil, onde começa um engenho de cana de açúcar e tudo parece ficar bem. Até o dia em que ele inventa de ir ele mesmo buscar uns escravos na África e é claro que o navio naufraga e ele vai parar na tal Ilha do Desespero que, vejam vocês, fica no oceano pacífico. Como alguém que sai pra África vai parar no Oceano Pacífico é ainda um mistério que nem lendo com muita atenção as páginas que tratam da passagem me permitiram decifrar. Na minha interpretação, ele deve ter achado que a América Central insular era vazada e isso permitiu com que ele fosse do  Orinoco à ilhota em questão. Mas eu sou meio tapado também, posso estar errado.

Enfim, quando ele chega lá, sendo o único sobrevivente do navio, começa uma vida nova. Se virando com o que consegue pegar do naufrágio e aprendendo a fazer as coisas na marra, o livro é um relato solitário de sobrivencialismo otimista por uma boa parte, até que ele conhece o selvagem sexta-feira e o livro se torna uma experiência intercultural com um tiquinho de violência mais para o fim.

Daniel DefoeAcho que a primeira coisa que dá pra perceber pela leitura do Crusoé, a respeito do protagonista, é seu otimismo inabalável, diretamente proporcional ao crescimento de sua religiosidade. A cada ano ele fica mais carola e mais conformista, evidenciando que as duas coisas não são fenômenos isolados, então fica a dica. Ao mesmo tempo, ele procura manter a postura de europeu imperialista na ilha, tentando ser senhor de tudo e dominando o ecossistema e os tais “selvagens” que ele eventualmente encontra. Mas isso vai além do universo da ilha e pode ser observado no fato de que, à exceção de Sexta-Feira, nenhum dos outros personagens têm nome. Nem mesmo os europeus. Isso quer dizer que o que não foi criado ou batizado por ele, é meramente secundário para a história, mesmo que sejam amigos e que sejam pessoas boas. Aliás, isso é outro ponto do romance: o otimismo do sujeito é o otimismo do autor, porque tudo quase sempre dá certo e todo mundo é muito bonzinho. Não tem espaço para a maldade no universo de Robinson Crusoé, e mesmo os selvagens o são por um força cultural acima do bem e do mal. É, então, aquele lance do otimismo do Leibniz que ia ser escrachado pelo Voltaire no Cândido estava muito na moda naquela época e, parando pra pensar, o Cândido meio que tira uma onda com a história do Crusoé, com toda aquela coisa dos selvagens e tal.

Por fim, Robinson Crusoé é uma história que dá vontade de ler, e isso às vezes é mais do que um livro precisa para circular por séculos entre nós leitores. As trezentas e poucas páginas do romance passam voando, e ele ainda tem um prefácio muito maneiro e detalhado sobre a obra do cara. Ah, e descobri uma coisa sobre eu mesmo lendo esse livro: eu gosto muito, mas muito mesmo, de edições comentadas. O tradutor é como se fosse um amigo mais inteligente que vai me explicando as coisas e comentando as passagens do livro, como os termos que ele usa no original e o jeito como ele pinta os conquistadores espanhóis como excessivamente sanguinários e cruéis. Ao sr. Tradutor Sérgio Flaskman, gostaria de agradecer pela companhia durante a leitura desse livro.

E aquela coisa, né? A Penguin-Companhia tem o mesmo padrão para todos os livros, mas devo dizer que a cada vez gosto mais desse acervo. No começo tava achando tudo marromenos, meio chato demais, mas agora tem altos livros legais e estou lendo cada vez mais o catálogo dessa editora. Recomendo, porque para a qualidade e o tamanho do livro, até que ele é baratinho. Ah, e gostei dessa capa meio irônica também, de achar no google maps a ilha onde o cara se perdeu e que, na época, não estava no mapa. Sagaz e sacana, gosto assim, seu Penguin.

Comentário Final: 401 páginas de puuura aventura exótica na ilha deserta.

James Wood – Como Funciona a Ficção? (How Fiction Works)

How ficcion worksSalve, galera beletrista, os que vão morrer de tédio vos saúdam. Bem sei que aqui vocês encontram um texto leve sobre livros nem tão leves, e que gostam exatamente disso neste blog, por isso hoje vamos arriscar e falar de um livro mais cabeça ainda para quem tem disposição de ler depois. Porque, você sabe, né? Aqui eu dou o empurrão, mas na hora do Tete-à-tete, minhas piadjênhas não saem na nota do rodapé. Eu sou como o Morpheu, sou meio careca, só posso mostrar a porta para você atravessar e não paro de falar um minuto sequer.

James Wood é um dos mais respeitados críticos literários do mundo. O que isso quer dizer? Pouca coisa, na verdade. A gente tende a respeitar alguns críticos, mas a gente raramente respeita o maior de todos, o ultra-mega-chefão-que-muda-a-música-de-fundo-e-tem-uma-barra-de-energia-que-fica-verde-antes-de-ficar-amarela-antes-de-ficar-vermelha (e isso aqui só vai entender quem jogou Final Fight). Isso porque é natural do ser humano desconfiar das unanimidades e dos cânones. Pelo menos na literatura. No cinema, por exemplo, nenhum zé Mané em pleno estado de consciência vai falar que O Poderoso Chefão é um filme xexelento. Mas quando se trata de algo tão exigente e discutível quanto a literatura, o assunto é outro. Se você não gostou, é porque não entendeu a proposta do cabra. É isso que todo mundo te fala, não é? É aí então que entram os críticos literários. Os donos do polegar, que ora vai pra cima, ora vai pra baixo. E esse crítico em específico é o nosso objeto de estudo de hoje.

Sinceramente, acho que os melhores críticos literários são os brasileiros, e não é uma questão de puxar sardinha pro nosso lado não. É porque a gente está, na minha opinião, mais em contato com a literatura do mundo todo do que o resto dos países. James Wood, por exemplo, é um cara inglês, que, vá lá, até lê coisas da França, da Alemanha, dos Estados Unidos, Rússia e países nórdicos. Mas a gente não tem garantia de que ele conhece um Guimarães Rosa, um Mia Couto, um Vila-Matas, um Juan Rulfo, um Onetti, um Benedetti, um Canetti, um Spaghetti, um Piriguetti, enfim, vocês entenderam. Falta mundo pra esses caras. Pra gente não, hein? Tô falando sério. A gente liga tão pouco pra nossa própria literatura que a gente compra qualquer porcaria da terra onde Judas perdeu as botas.

De qualquer forma, Wood é um cara respeitado e, a julgar por esse livro, leu Henry James, Flaubert, Barthes e Proust além do limite considerado seguro pelos bibliotecários. Nesse livro ele basicamente explica porque os autores usam as palavras que eles usam nos livros e tenta mostrar a intenção de cada um deles. E aí explica algumas magiquinhas de quem trabalha com a pena, como o discurso indireto livre e a profundidade de um personagem (que a gente sabe que é só ilusão de ótica, né?). É isso, eis a sinopse do livro. Legal, né? O que você pensa em fazer com as informações contidas nesse livro? Ser uma pessoa melhor não dá, tenta outra coisa. Ser um leitor melhor? Aí sim, isso dá pra fazer. Eu acho, afinal, que a leitura é algo que exige atenção e cultura. A cultura você pega da vida e de outros livros, e a atenção você pega de livros como esse.

Supondo, é claro, que ninguém lê livro pra falar que leu, pra fazer vista na estante ou para pegar as gatinhas, é óbvio que todo mundo quer ler um livro de uma forma “melhor”. E esse papo de que não importa como você leia nem o quê, contanto que você leia só funciona e é bonitinho até os 20 anos. Depois é bom começar a tomar vergonha na cara e parar de achar que você está ficando mais inteligente por ler Cebolinha. Claro que não vamos menosprezar os Harry Potter, os Crepúsculos e os Dan Browns da vida, mas se os clássicos existem, estão lá no olimpo dos livrinhos por alguma razão. E é isso que o fulano James Wood te mostra: por que o livro é bom, por que merece ser lido e por que você merece dar mais atenção pra ele. Sendo assim, mais do que uma aulinha de crítica, é também uma possível porta de entrada para outros autores – pra quem tiver disposição, é claro.

Agora, o que não pode é achar que se o seu livro de cabeceira não tem as qualidades que o Wood exalta neste Como Funciona a Ficção? é porque ele não presta. O nosso autor de hoje é um cara que preza sobretudo pela forma, e eu sei, você sabe, o vizinho sabe, a porcaria do Paulo Coelho sabe que o conteúdo do livro também tem que ser interessante, né verdade? Por outro lado, a forma não é algo que possa ser desconsiderado tão facilmente, e pra isso tão lá os cânones de que ele fala. A forma pode proporcionar uma sensibilidade única ao livro, uma coisa linda de meu deus do céu. E pra isso serve Pra Que Serve a Ficção? que, vamos combinar, tem um puta nominho escroto no estilo Por que Os Homens Tem Mamilos? e Fuckin’ Magnets, How do They Work?

Ah sim, pra quem chegou atrasado na conversa, James Wood é um crítico inglês, não é o ator James Woods que fez aquele puta filme… aquele… aquele… sabe… É, ninguém sabe o nome dos filmes que o James Woods fez, assim como ninguém sabia os filmes que o John Malkovich fez antes de Quero Ser John Malkovich.

A Cosacnaify fez esse livro fininho, que faz parzinho com o meu A Máquina de Fazer Espanhóis, porque eu curto arrumar minha estante pelo tamanho dos livros, tanto em altura quanto em largura. Agora, por fora bela viola, por dentro, cagadas 100%. Escolheram para a cor da fonte algo perto de um IKB, ou perto de um azul/roxo de mimeógrafo. Isso no papel offset. Quer dizer, tentar ler esse livro sem se estressar com isso é um desafio. Boa sorte pra você.

PS1: O Nobel desse ano é o Tomas Transformer. Ninguém ganhou o bolão. Oh, não.

PS2: ANUNCIEM NO LIVRADA! O papai aqui precisa de um clarinete novo.

Comentário final: 230 páginas em papel ixcroto. Arriba, arriba!

V.S. Naipaul – Uma casa para o sr. Biswas (A House for Mr. Biswas)

A house for mr. biswasNão sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder,  é o rodo cotidiano.

Vidiadhar Surajprasad NaipaulUma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.

 

Neil Gaiman e Dave McKean – A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch (The tragical comedy or comical tragedy of Mr. Punch: a romance)

The Tragical Comedy or Comical Tragedy of Mr. PunchFala moçada, como vocês estão hoje? Legal que as pessoas estão aderindo ao desafio, em breve vou postar a lista. E você, já decidiu o autor que vai ler esse ano? Decide aí e manda pra gente, choque.

“Ih, alá o Yuri, vim aqui querendo ler resenha de livro e encontrei resenha de quadrinho, que manezão!”, alguém diria. E eu respondo com um pedala Robinho e digo que a linha editorial do Livrada! não prevê quadrinhos, a menos que eles sejam muito bons e/ou originais ao extremo. E é o caso dessa graphic novel, que, já disse, é “banda desenhada” ou “história em quadrinho” no cultês. Então vamos aproveitar que hoje é domingo e você não tem nenhuma responsabilidade nos próximos minutos e abramos a cabeça um pouco para outros gêneros literários.

A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean é um daqueles livros que você vê e pensa “meu Deus, olhaí uma dupla de zé ruela pagando de gênio atormentado”. Bom, amigo, fazer o quê se é assim que os caras se expressam. Dave McKean, o barbudinho que parece um torcedor do Fluminense, é o cara responsável pelos desenhos e fotografias doentias que você encontra dentro desse livro, e Neil Gaiman, o que parece da família do Stephen Rea, é o cara que escreve a história das coisas doentias do tricolor supracitado. Gaiman conta uma história de fundo autobiográfico, de quando foi passar um verão (verão na Inglaterra, vocês sabem, é só força de expressão) na casa dos avós, que moram no litoral. Lá ele conhece o teatrinho de Mr. Punch, um popular show de fantoches que rola por lá desde a idade média, que é basicamente o seguinte: Mr. Punch é um homem casado com uma mulher chamada Judy, e eles tem um bebê também. Só que ele é meio detestável (e existe algum fantoche que não seja?), então todo mundo meio que odeia ele. Aí ele mata a esposa, o bebê, e todo mundo que vem pra matar ele acaba morrendo também, inclusive o capiroto em pessoa. Bom, é isso. Um show de fantoche com um monte de personagem morrendo, e que mostra que a pessoa, mesmo sendo desprezível, pode ser muito sagaz pra sobreviver na base da malandragem.

Acontece que, como qualquer criança cercada de gente velha e coisas da época do guaraná de rolha, o pequeno Neil fica muito impressionado e tudo parece muito estranho, assustador e fascinante ao mesmo tempo. Ora, você, quando era criança, nunca se pegou assustado pela pele, que mais parecia bola de basquete ou, com sorte, frango cru? Então você sabe do que eu tô falando. E aí ele conhece diversas figuraças que participam da vida cultural mixa do litoral, que sim, é sempre mixa (e se você acha trio elétrico legal, sai do meu blog. Ooopa, brincadeira!), entre elas um velho chamado Swatchell, responsável por realizar o show de Punch e Judy. Swatchell é um cara meio obscuro, com um passado desconhecido, meio criminoso, meio assassino, quem sabe? Fato é que esses tipos são colírios para as crianças. Ou você nunca ficou fascinado quando descobriu que seu tio matou um cara? Nessas, o fedelho inglês fica impressionadíssimo com o show de Punch e Judy (a julgar pelas fotos, é um nightmare fuel aditivado pra encher o seu tanque) e aquilo fica cozinhando na sua cabeça impúbere por todo o resto das férias, e idealiza Mr. Punch como uma espécie de obsessor que suga a vida dos que o colocam na mão.

Basicamente o que o autor faz aqui é mexer com aquele velho fascínio que as pessoas sentem por bonecos mega expressivos. Será que tem vida, será que não tem vida, será que é assassino, será que é bonzinho, etc. Algo já visto em todas as escalas de terror, de Goosebumps a Chucky-me-dá-um-abraço, e em alguns outros filmes, como aquele Dummy, com o Adrian Brody, que eu vi no ônibus indo pro Rio uma vez. Vem cá, quem não odeia filme de ônibus aqui? Da última vez que voltei de São Paulo, passou Dr. Dolittle 4 e Homens de Preto 2. Olha, que raiva eu passei com aquele som alto, querendo concentrar na minha leitura. Mas onde é que eu estava? Ah sim, falando do fascínio por bonecos. O medo que a gente tem de boneco é basicamente o mesmo medo que Deus sente da gente, se é verdade o que os católicos dizem sobre imagem e semelhança. Ver uma coisa que parece outra coisa que você já conhece é meio assustador, mas os hipsters adoram: uma caneca que tem o formato de lente Canon, um relógio em formato de caneca, um prato em forma de relógio, um disco em forma de prato, uma bolsa em forma de disco, um boné em forma de bolsa, enfim, malditos hipsters, vão gastar seus dinheiros com coisas úteis pra variar.

Além do fascínio por bonecos, o trabalho que deixa o livro realmente interessante é de Dave McKean, do clube “tantas” vezes campeão. Com um domínio extremo de imagem e fotografia, ele compõe os quadros do quadrinho mesclando os formatos, usando panos, plantas e outros objetos que saltam da imagem, como um quadrinho 3D. Bom, não exatamente 3D, mas, digamos 2½D. Os desenhos são pintados, ao que me parece, com uma brocha em cima de madeira compensada, e as linhas do que seria nanquim são feitas no computador. É um trabalho muito interessante mesmo, embora todo mundo tenha mais ou menos a mesma cara. Ah sim, ele também conseguiu arrumar o Mr. Punch mais assustador da história, de olhos arregalados e dentinho no meio, Nosferatu-Chico-Bento-style. Palmas pra ele então.

O projeto gráfico desse livro, lançado pela editora Conrad, que eu considero uma das melhores editoras de quadrinho do Brasil, é primorosa. Capa dura, papel couché de excelente qualidade e um lettering (as letras usadas nos quadrinhos) feito, me parece, a partir da caligrafia de um dos autores. Fibou muito bom. Acho que eles deram um formato ao livro que permite que a gente aprecie os detalhes de cada quadro, cada fotografia, melhor, e a capa, que não foge à original, também tá irada. Enfim, projeto gráfico de quadrinho tem muita coisa pra analisar, melhor parar por aqui pra não me estender muito. Ah, não tem paginação (é moda isso agora? Os últimos quadrinhos que eu li não tiveram também), então não sei quantas páginas o livro tem porque não vou ficar igual bocó contando as páginas da bagaça.

Comentário final: Já dançou com uma velhinha de churrascaria rodízio sob a luz do luar?

 

Adam Thirlwell – Política (Politcs)

PoliticsCoééé. Ih, tá difícil voltar pra essa rotina de escrever duas vezes por semana. Sempre esqueço e vou escrever lá pelo fim da noite. Portanto, se eventualmente vocês aparecerem por aqui no dia da postagem e não tiver um livrinho novo ixperto comentado, é porque o tio Yuri tá com a cuca falha, e precisa de fósforo na dieta. Mas o importante é que hoje eu lembrei, mesmo que seja alta madrugada, então vamos lá.

Política, de Adam Thirlwell. Comprei o livro pela capa mesmo, tô nem aí. Aliás, comprei não, ganhei da Carlinha numa aposta. Mas escolhi pela capa sim. Então, senhor Raul Loureiro, pode o senhor botar a cabecinha no travesseiro com a sensação de dever cumprido — não que o senhor já não faça isso. Claro que a sinopse da quarta capa ajudou bastante, e pensei que essa poderia ser uma oportunidade de descobrir autores contemporâneos novos dos quais ninguém fala muita coisa.  Li, venci e vim aqui falar qualé que é. Vamo nessa.

Política, como o nome sugere, é um livro de sacanagem. Adam Thirlwell é talvez o primeiro autor a explorar em um livro a proximidade dos dois assuntos. Brincadeirinha. Na verdade, o livro é sobre uma sacanagem mais literal, e a política, essa sim, é mais metafórica. A história é a seguinte. Um rapaz meio judeu, chamado Moshe, e sua namorada, Nana, tentam explorar os limites da safadeza humana. Pelo menos eles acham que estão fazendo isso mas, coitadinhos, são dois britânicos moderninhos que nunca leram Marquês de Sade. A perversão deles resume-se a rolas de plástico e outras mercadorias de sex shop (e eu, ao contrário de todo o resto do mundo, me recuso a referir-me a esses artefatos como “brinquedinhos”. É gíria de Rede Globo, igual chamar vagina de “perseguida”, sem graça pra chuchu). Aí eles se metem num triângulo, quando a Nana resolve jogar uma amiga chamada Anjali no meio da roda, pra ver se as coisas ficam mais interessantes. Só que aí cada um do triângulo se vê numa posição desconfortável: Moshe não quer saber de outra namorada, mas aceita porque foi ideia de Nana; Anjali fica sentindo que está sobrando, e que tá de (com o perdão do trocadalho do carilho) penetra na relação; e Nana tem o ônus mais óbvio da história: tem que ver o namorado gordinho comer a amiga. Visão do inferno, maluco, terceira mensagem secreta de Nossa Senhora de Fátima na veia.

Bom, paralelamente a isso, o autor insere aqui e ali alguns pequenos ensaios sobre as relações humanas, as relações políticas, digamos, e faz a analogia com a história do casalzinho. Muitas coisas sobre líderes políticos comunistas, como o camarada Mao, que corre pelos encanamentos do Castelo, e Stálin, que diziam ser um cara muito amável quando falava ao telefone, donde se cunhou, no livro, a expressão (que eu vou levar comigo pro resto da vida) “stalinista telefônico”, pra fazer oposição ao outro tipo de stalinismo, aquele que é considerado mau, autoritário e coisa de maluco. Esses ensaios deixam o livro com uma cara de livro sério, em contraposição à putaria maluca (nem tão maluca assim) que permeia a história. Aí você, o leitor, fica com aquela cara de bunda, sem saber se o livro é profundo ou raso, querendo acreditar que seja mais raso. Todo mundo sabe que, até hoje, só um escritor conseguiu fazer um livro besteirento parecer sério, e é o Milan Kundera. Não é à toa que as menininhas colocam seus livros na estante quando querem mostrar o que elas tem por dentro. Não, caro leitor da revista Hustler, não é disso que estamos falando, o papo aqui é conteúdo, catilogência, morô?

De qualquer jeito, o livro deixa essa impressão. A narrativa é mais solta que arroz parboilizado de hotel grã-fino, e volta e meia o cara puxa umas conversas com você, pra parecer um cara legal — o que daria muito certo não fosse ele um inglês muito do arrogante que acha que, fazendo isso, tá transgredindo toda a literatura da Inglaterra desde Shakespeare. Pelo menos assim pareceu pra mim. Mas pode ser afetação minha com os ingleses. Até hoje nunca simpatizei muito com nenhum, nem com suas bandas de tralalá. Eu sou jovem, sou roqueiro, gosto de porrada e de violência e não de “sooo, Sally can waaaaait” e outras paumolescências da vida. Felizmente o país tem o Motörhead pra embrutecer umas gerações.

Divaguei de novo. Acho que já chega de falar do livro. Vamos falar do projeto gráfico que me deu tanta gana de levar pra casa um exemplar. Como disse lá em cima, a capa do livro é do Raul Loureiro, uma parada meio Jackson Pollock pintando com a careca, meio pintura-rupestre-abstrata. O livro tem capa dura e tem o projeto gráfico parecido com a trilogia da crucificação rosada, do Henry Miller, e do Diário de um Fescenino, do Rubão Fonseca e o Cidade Pequena, do Lawrence Block. Uma coleçãozinha, ou uma série que, segundo a Companhia das Letras, traz “autores brasileiros e estrangeiros em livros provocativos e irreverentes”. Tudo bem que “provocativo” e “irreverente” são adjetivos que devem estar escritos no cartão de visitas do Danilo Gentili, mas ainda assim, a coleção é bonita. Aliás, esse negócio de irreverente, pra mim não desce. O que é, exatamente irreverente? Alguns usam o adjetivo quando querem dizer que a parada é engraçada, mas nem tanto. Outros preferem dizer que é algo transgressor, mas engraçado ao mesmo tempo. Vamos combinar que “irreverente” é um adjetivo coxinha que não tem personalidade nenhuma e pode ser usado quando você não sabe o que escrever de uma parada minimamente engraçada e minimamente subversiva. Taí, esse blog aqui é irreverente. Não é engraçado, não é subversivo, mas pô, que mais que vai se usar pra escrever um release do Livrada!? Oi, o quê? Ah, o projeto gráfico. Então, papel pólen soft, fonte Fournier, capa dura e papel cartão colorido pra reforçar, encadernamento artesanal e várias páginas pretas, com a divisão dos capítulos e etc. No começo do livro, assim como nos outros da coleção, tem um tríscele, aquela parada de três pernas que tem na bandeira da Sicília. Aliás, o que é aquela bandeira?! Se eu fosse da Sicília, não ia dormir à noite, com medo da bandeira vir me pegar. Cruzes, vou ter pesadelo agora. Boa noite.

Comentário final: 283 páginas em pólen soft e capa dura. Uma porrada na careca do Jackson Pollock. Fala sério, pintar assim até a Susana Vieira, meu filho.