Lev Tolstói – A Sonata a Kreutzer (Крейцерова соната)

Крейцерова сонатаTolstói, galera! Esse russo maluco não deixa pedra sobre pedra quando resolve falar sobre as coisas que incomodam seu coraçãozinho. Mais especialmente, sobre suas ideias sobre casamento. O doido já havia escrito Anna Kariênina quando publicou esse tresloucado e surpreendentemente convicente A Sonata a Kreutzer que não, não é um livro sobre a pungente obra de Beethoven, outro malucão a seu modo, e igualmente brilhante. E só pra avisar os desavisados, esse aqui tem spoiler, e se você acha que isso é um impeditivo pra você, sai do meu blog e vai ler policial do Jô Soares, seu mané.

Falemos um pouco de Tolstói. Vejamos… Tolstói era como um Lobão russo, guardadas as devidas proporções. Ele era muito popular já em sua época, e tudo o que ele falava valia ouro, mas aí ele começou a pirar na batatinha e lá pelo fim da vida dele, só tinha ideia maluca que ninguém levava a sério, embora nunca deixassem de tê-lo na mais alta conta. Não, acho que ele não era bem um Lobão russo, ninguém nunca levou o Lobão muito a sério e ele nunca foi muito popular… Digamos, um Mario Vargas Llosa russo. Pronto, agora preciso ficar importando analogia do Peru… francamente. Esse, meus senhores, é o país que vai receber uma Copa do Mundo. Vão vendo.

Enfim, aqui nesse livro Tolstói expôs sua real ideia sobre o matrimônio. Diz ele, basicamente, que não há como manter um casamento por tanto tempo. É uma ideia arcaica, inventada por gente que não queria saber de dividir riquezas em tempos extremamente monótonos. A única forma de ser casado pro resto da vida é ou ser infiel, ou ser abstêmio ou matar a esposa. Ele coloca essa ideia por meio da história de Pozdnyshev, um sujeito intrometido que entreouve uma conversa e começa um monólogo que basicamente é o livro inteiro. Ele conta então como escapou da condenação pelo assassinato da própria esposa.

Ele conta como tudo começou muito bem entre eles até começarem as briguinhas de casal. Uma parada insignificante e o outro já está gritando, e cada palavra dita é mal-interpretada, pervertida em seu significado e jogada contra quem a proferiu – algo que todo mundo que já namorou uma pessoa maluca pode entender –, aquela paz de espírito que nunca chega e, se chega, dura só um pouquinho e vai embora, etc. Vida dura.

Liev TolstoiNo meio disso tudo, surge um violinista. O sujeito é suave e ligeiro, e chega de conversinha pedindo umas coisas para nosso protagonista, mas trava nas quatro quando vê a esposa. Aí surge um pretexto de tocarem juntos, já que ela toca piano também, e o resto dá pra imaginar. O Pozdnyshev até aproxima os dois só pra ver a reação da mulher, que dubiamente rechaça o violinista, não se sabe se por cinismo ou verdadeiramente. Mas ela vai se aproximando dele, com aquela cara de “mas não é minha culpa!”, e o marido vai se roendo de ódio. Até que inventam de se apresentarem juntos, e agora o cara descobre que o potencial Ricardão agora está visitando sua esposa quando ele não está em casa. A peça escolhida é justamente a Sonata a Kreutzer. Agora, sobre isso, é importante dizer duas coisas. A- Tolstói era um cara que levava a música muito a sério, do tipo que chorava todas as vezes que escutava uma música triste, e se irritava quando não entendia que tipo de sentimento a música em questão queria lhe transmitir. B- Tolstói odiava Beethoven, como odiava qualquer compositor clássico, mas talvez um pouco mais. Ele achava que a verdadeira música vinha do povo – os funks e arrochas eslavos, por assim dizer – e que esse povo metido a besta que faz música clássica quer mesmo é ficar mostrando virtuosismo e ganhar dinheiro com uma arte belíssima e pura. Junte A + B e você consegue imaginar o furacão de sentimentos para o qual um personagem tolstoiano é arremessado ao ouvir a Sonata a Kreutzer, um petardo das sonatas para piano e violino, quem já ouviu sabe. O primeiro movimento, em especial, tem uma grandiloquência que não combina com nenhum evento menor como o proposto pelo romance. Já não lembro qual era, acho que era o equivalente ao nosso churrascão de domingo. Imagine tocar Beethoven no churrascão de domingo, uma situação em que até um Caetano Veloso já soa demais. Isso tudo deu para o personagem a ideia de que a potência da música dizia respeito não ao evento, mas à relação velada desses dois. Pronto, agora os momentos finais eu deixo para o leitor se deleitar, porque eu mando spoiler na testa dos recalcados, mas também não fico entregando as paradas desnecessariamente. Viu como eu sou bonzinho.

Muito engraçado a forma como os críticos do livro – o tradutor, o grande Boris Schaiderman (somos todos gratos pelo seu trabalho, ó grande Boris) e o maluquete que fez a orelha – se empenham para falar que as ideias de Tolstoi sobre o casamento são todas furadas e que não dá pra levar a sério uma porcaria dessas. Mas a verdade é que Tolstói é muito convicente em sua argumentação, e suas ideias, longe de serem tresloucadas, são frutos de uma conexão íntima do homem moderno com seu passado evolutivo. O homem que se questiona onde o motor da história falhou e deu origem a esse projeto utópico de civilização, com sentimentos e valores maiores do que a própria humanidade em si, falha e abjeta como só ela. Coisas como o amor, a devoção matrimonial, todo esse pacote de cultura deísta que a prática já mostrou ser furada completa para 99% das pessoas, e agora o sujeito precisa conviver com isso, pois questionar esses valores, como Tolstói fez, é perigosíssimo, um atentado capaz de ruir a sociedade por dentro. Afinal, quase todo mundo sabe que ela se escora apenas em seus próprios dogmas. Aliás, dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis, não acham? Se acharem, por favor, façam uma imagem com a minha foto e essa frase circularem no Facebook. “Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis” – Livrada! Conto com vocês.

Mas eu acho que a razão pela qual o livro é tão rechaçado é sua suposta misoginia. Tolstói esculacha a mulherada nesse livro com frases do tipo: “As mulheres procedem exatamente como os judeus, que se vingam por seu poderio financeiro da opressão que lhes é infligida”. BOOM! Ou: “”Assim como aquelas (as prostitutas) aplicam todos os seus recursos para atrair os homens, fazem estas também. Nenhuma diferença. Numa distinção rigorosa, deve-se apenas dizer que as prostitutas a curto prazo são geralmente desprezadas, e as mulheres a prazo longo, respeitadasBOOM BOOM BOOM BOOM. E nessa toada ele aproveita para, paradoxalmente, meter o pau no sexo, o verdadeiro motivo da ruína de nossa civilização, segundo ele. Claro, ninguém em sã consciência falaria mal do sexo ou das mulheres, mas é aí que está. Tolstói está se referindo ao sexo e às mulheres tal qual são apresentadas na sociedade. A primeira, um ser tratado como inferior que busca ardis para dar sentido a uma existência passiva; o segundo, como a extensão do domínio da luta, já dizia nosso querido Michel Houellebecq. Sim, diz Tolstói, do jeito que estão, as coisas estão podres, e ele não necessariamente propõe nada melhor do que a abstinência sexual, mas faz sua denúncia com categoria.

Enfim, cabe aí a crítica do grande Tolstói a nossos valores defasados. E temos mais uma história de ciúmes, traição, vingança e purgação, para se somar a tantas outras obras dessa flor de obsessão da literatura russa. Tudo isso vem embalado nesse projetinho maravilhoso da Editora 34, essa linda que gosta mesmo é de clássicos de qualidade e capricha na edição, quer você goste do livro ou não. Papel pólen, fonte Sabon, xilogravura de Emil Nolde (alemães também fazem xilogravura, qualé?), e tradutores competentíssimos que têm a maior paciência do mundo pra te explicar tudo o que você não entende sobre a Rússia e seus russos. Como não gostar?

Comentário final: 113 páginas de papel pólen soft. Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis.

Anúncios

3 anos!

Ô, ô, ô, o Livrada! voltou!, cantariam vocês, caso tivessem inclinações para rimas pobres e fossem educados musicalmente nas arquibancadas dos estádios. Mas como sei que meus leitores podem ser poucos (lentamente se tornando muitos), mas com a qualidade intelectual para apreciar boas piadas e críticas ácidas sobre livros outrora respeitados, sei que o que impera por aqui é uma casualidade mais comportada e menos musical. Não tem problema, o fato é que após pouco mais de um mês, estamos cá de volta para nossa árdua e inglória missão de propagar piadas e exegese literária aos quatro cantos da interweb brasileira e mundial.

E estou cada vez mais relapso com as efemérides, pois passou o aniversário do Livrada! e eu deixei por isso mesmo, sendo que não deveria ser assim. Afinal de contas, são três anos da minha vida dedicados a esse recôndito obscuro da deepweb. De novo, não ganhei dinheiro, mas ganhei amigos. Trocaria os amigos por dinheiro? Talvez, mas o fato é que consegui fazer desse lugar mais um dentre os milhões a discutir literatura de qualidade. E pode ser um pouco arrogante da minha parte, ou pode ser o timing, mas o fato é que na época em que comecei isso aqui, no começo de 2010, quase não havia blogs de literatura de qualidade e muito menos que tratassem o assunto de maneira leve e engraçada, ao passo que hoje tem um engraçadão em cada esquina. De maneira que o Livrada! pode ser considerado pioneiro em alguma coisa, e isso muito me orgulha.

De lá pra cá, muita coisa mudou no mundo da literatura, e destacaria, sobretudo, o crescimento absurdo do mercado editorial e a maneira como as editoras tratam hoje os blogs literários. A sensação é quase como a daquela galera de Seattle que fazia um som assim, meio pop, meio deprê, e de repente todos começaram a assinar contratos com grandes gravadoras. Ser percebido por quem tem interesse mercadológico no que você faz é bom, por que de repente você pelo menos não gasta mais dinheiro para alimentar isso com novidades, mas ser percebido por quem tem interesse cultural no que você escreve não tem preço. As mensagens de apoio e carinho que recebo aqui nesta caixa de comentários e da cada vez mais curtida página do Facebook por vezes me deram fôlego para escrever por mais uma semana, e por isso eu agradeço a todos.

Mas nada de ficar sentimentalóide por agora. Estamos em celebração pelos três anos do Livrada!, e não poderia deixar de falar dos escritores que também passaram por aqui. Cristóvão Tezza, Xico Sá, Elvira Vigna, Valter Hugo Mãe e Pedro Juan Gutierrez, obrigado pela leitura. E se deixei de agradecer a algum autor comentado, shame on you! Custa fazer a gente saber que você passou por aqui, ô, gostoso? Larga a mão de ser gostoso, ô, gostoso. Seja humilde, ô, gostoso. Nojento, tcham.

Eu tinha um livro para comentar por aqui nessa semana, mas resolvi dedicar esse post a nós mesmo e a tudo que construímos. E por nós quero dizer eu, você, leitor costumaz, você, leitor esporádico e você, adolescente chato que vem aqui pedir resumo de livro pra trabalho de escola. Obrigado pelas lembranças boas, pelos prêmios disputados e nunca conquistados, por todos os anunciantes que desapareceram depois de saber o preço de um banner simples aqui (eu acho que os caras tão achando que o Livrada! é bolinho ainda), por todas as editoras parceiras que me mandam livros sem pressão e por toda a atenção dedicada. Continuamos nos vendo por aqui até surgir a ordem de despejo.

Doem dinheiro para o Livrada! (é sério).