Vídeo: Entrevista com José Luís Peixoto

Não é por nada não, mas esse canal do Youtube tem tudo: tem resenha, tem rolé, tem entrevista e tem vídeo nada a vê. Esse aqui é uma entrevista, e a primeira internacional do canal! José Luís Peixoto recebeu a gente pra dois dedos de prosa antes de sua fala no Litercultura, em Curitiba, no dia 9 de maio, e falou sobre seu primeiro livro, Morreste-me, publicado agora pela editora Dublinense.

Clica na imagem e confira!

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Gonçalo M. Tavares – Matteo Perdeu o Emprego

Gonçalo TavaresO post de hoje é para provar pra vocês de uma vez por todas que se vocês me indicam um livro e eu realmente me interesso por ele eu leio. Mesmo que demore dois ou três anos pra isso. O processo é lento e o bagulho é loko, jão. Fato é que o leitor Sueliton leu Matteo Perdeu o Emprego, do tuga Gonçalo Tavares e resolveu me indicar com muita insistência para que eu lesse e desse minha opinião. Acho que era isso que ele queria: minha opinião. Sim, porque a análise da obra propriamente dita o próprio Gonçalo já fez no posfácio do livro. De certo que ele ficou com medo de ninguém entender o livro com a profundidade que ele escreveu de modo que encheu o fim de notas filosóficas e analíticas sobre o que acabamos de ler. E depois vocês acham que piada de português é algo criado a partir da cabeça imaginativa dos brasileiros.

Bom, vejamos o que pode ser dito sobre Matteo Perdeu o Emprego, ficando aqui livre da obrigação de comentar coisas profundas sobre a obra (thanks, Gonçalo). O livro é um híbrido de conto e romance. Híbrido porque é um romance em que cada capítulo desenvolve uma história com um protagonista diferente. Um chama o outro, em ordem alfabética, e assim a história vai. Aaronson é um corredor que corre em volta de uma rotatória até que é atropelado por Ashley, que precisava entregar uma encomenda a Baumann no número 217 de uma rua que é composta apenas por números 217; Baumann que limpava o lixo e era observado por Boiman, que é interrogado por Camer, que pergunta sobre o homem dos tiques chamado Cohen, que é convidado por Diamond para uma viagem, e por aí vai. Isso até chegar no tal Matteo, que perdeu o emprego e é contratado por uma jovem chamada Ana, que não tem braços, para fazer as paradas por ela. O fato do título do livro fazer referência a Matteo sugere que precisamos percorrer tudo isso para chegar nele, e isso é dito no meio da história, o que é deveras bizarro, mas enfim. Fato é que a história toda até esse ponto é um exercício de conexão e hierarquia, ao que parece, numa mensagem clara de que algumas coisas seguem uma ordem que não podem ser desconsideradas. E tudo volta ao começo quando Matteo se encontra com Nedermeyer – descrito no capítulo “Nedermeyer e a primeira rotunda”, que é um capítulo marcado no índice sem paginação e sem uma divisão na história (esses portugueses não têm mais o que inventar mesmo) que fala a ele sobre o atleta Aaronson que acabou de ser atropelado. Meio furada porque na história de Diamond a narrativa dá saltos de décadas no futuro, desde que precisou dar aulas a uma classe primária do lado de um montão de lixo. Não sei como a história voltou, mas vamos supor que nesse livro a coisa se trata de mágica. Sim, porque na capa do romance, tem um suposto elogio do Le Figaro que diz que Matteo Perdeu O Emprego é um Kafka português. Bom, gente, o Le Figaro não é exatamente um expert em Kafka como se pode perceber por esse comentário, mas por outro lado, acho que qualquer coisa que pareça desnecessária, sem sentido e aparentemente muito mais profunda do que se supõe é chamada de kafkiana. Há que se acabar com esses adjetivos, manolo. Há que se acabar com eles. Já deu o que tinha que dar. E o que pensaríamos sobre essa condução narrativa que usa personagens como elos de uma corrente para chegar a uma ponta e contar dez páginas de história? Existe uma história única? Existe uma história, afinal de contas? Sei lá, vou deixar a análise pro posfácio do Gonçalo, acho que ele já disse o que queria dizer sobre a obra. Da minha parte, cativou como Gonçalo M Tavaresexercício, mas não como livro. Broder, na boa, não encerre um livro maluco com um posfácio que começa citando Musil que não vai dar pra levar em consideração. Eu posso ser um cara raso, mas pelo menos eu sei disso, e não vou ficar citando Musil na tentativa de dizer o contrário. E na verdade eu tava gostando bastante da coisa toda até chegar a essas notas. Sério, pra quê isso? Argh, cara, tô indignado. Por quê, mano? Por quê???? Pra quê? É um livro, cara! Um livro que seria bom se não me metessem uma porção de análise goela abaixo. Isso me irritou e pode não ter sido essa a intenção e a coisa toda – as notas – podem ter uma razão de ser dentro do romance, e podem ser parte do romance apenas divididas em um capítulo chamado “Posfácio” só pra te enganar. Mas isso é dar muito crédito pra coisa. Minha sugestão: leiam o livro, não leiam o posfácio. Leiam o Posfácio, o site, mas não leiam o posfácio de Matteo Perdeu o Emprego, porque não fez nada a não ser me aborrecer. É o mesmo tipo de irritação que senti quando assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e percebi que o filme não tava me dando margem pra não gostar dele sem parecer um velho rabugento mal amado. Ao contrário do povo do Facebook, eu gosto de ter minhas próprias análises e minhas próprias opiniões a respeito das coisas. Mas esse sou eu, né? Eu entendo como as pessoas podem se encantar por esse livro, porque afinal é um livro verdadeiramente autêntico e esse mérito ninguém lhe tira, mas acho que o lugar dele na história é algo para ser decidido pela própria história, e o Gonçalo não é nenhum poeta bobo de esquina pra ficar falando pras pessoas porque é um sujeito ímpar. Ele ja é consagrado, respeitado e talentoso, não precisa desse troço aí.

O livro foi publicado pela editora Foz, que achava que era portuguesa, mas na verdade é de Ipanema. Que coisa. De qualquer jeito, a editora caprichou bem no formato e no projeto gráfico do livro, com papel pólen de gramatura 90, o que é algo fortíssimo pra um livro hoje em dia, fonte Celeste, que é um pouco mais arredondada do que eu estou acostumada, mas boa tamém, uma capa meio bizarra e meio assustadora de um boneco segurando um jornal e um cigarro e ah! O livro acaba ainda com uma citação do Giorgio Agamben. Já dá pra puxar a alcunha de pedante pra esse livro ou tá cedo ainda? Tem Musil, Agamben, Burroughs na epígrafe do posfácio, “Um Kafka português” assinado pelo Le Figaro na capa e uma orelha escrita por alguém que entendeu tanto desse livro quanto eu, e na contracapa ainda tem o Saramago falando que o cara vai ganhar o Nobel um dia! Calma, galera, segurem suas vadjáinas aí que assim eu não aguento!

Ps: Mas a história do cara com o macaco no final é legal pra caramba. Realmente gostei.

Comentário final: 156 páginas em papel pólen 90. O maior, o mais magnífico, o mais inteligente livro já escrito está aqui!! Corram antes que a profecia do Saramago se concretize!

Alejandro Zambra – Formas de Voltar para Casa (Formas de volver a casa)

formas de volver a casaToda semana tem post, todo mês tem vídeo, todo ano tem Zambra! Vamos a um post curto nessa semana porque, sei lá, porque sim. Aliás, vocês reparam quando um post é mais curto do que o outro se eu não avisar? Acho que não, né? Não vou mais falar nada sobre esse assunto.

Vamos falar do livro do Zambra, que comprei numa promoção da Cosac, porque promoção da Cosac é igual meia-entrada em show: Tem toda hora, todo mundo pode, e quem não aproveita claramente tem problemas. Peguei o livro e o livro pegou uma chuva desgraçada num compartimento da minha mochila em que tinha esquecido o setlist de um show que a minha banda fez de modo que a tinta do pincel atômico do papel se diluiu na água e manchou meu exemplar inteiro, que por si só já estaria bastante arruinado só pelo toró. Mas a estante é feita de livros ferrados também, então vamos aguentar que nem homem e falar direto do conteúdo, que é o que importa, muito embora alguns blog se vlogs no youtube estejam tentando te fazer pensar o contrário.

Minha história com a literatura do chileno Alejandro Zambra começou, como para muitos, com Bonsai. Fiquei estupefato pela criatividade e pelo quanto o sujeito conseguiu dizer com tão poucas palavras (o livro é minúsculo). De modo que quando a Cosac lançou A Vida Privada das Árvores (que também fala de plantinha no título), resolvi adquirir num escambo maroto no Skoob. Li e achei muito fraco em comparação ao outro, mas mesmo assim resolvi pegar esse Formas de Voltar pra Casa porque Zambra tem a vantagem de escrever livros extremamente curtos, o que facilita uma segunda ou terceira chance caso você não tenha gostado de um dos livros dele (tente ter essa benevolência com o Thomas Pynchon). E gostei disso, porque Formas de Voltar Pra Casa é melhor que A Vida Privada das Árvores, mas menos melhor que Bonsai.

O romance parte de um terremoto que aconteceu em 1985 em Maipú, quando o narrador, que também é escritor, era uma criança de nove anos e se aproxima de uma menina chamada Claudia, que lhe incumbe a estranha missão de vigiar seu estranho tio Raúl, sem saber exatamente o porquê. A história então dá saltos no tempo e mostra o narrador em meio a uma vida amorosa conturbada, em meio ao processo de escrita do livro que estamos lendo e tentando passar em revista a história de sua infância e o relacionamento com seus pais. E entre as divisões do livro e esses elementos brotam questões: somos protagonistas de nossas próprias vidas quando somos crianças? Passamos a ser protagonistas de nossas próprias vidas em algum momento? O que é ser adulto e o que é ser criança, por que temos a necessidade de revisitar alguns episódios de muitos e muitos anos atrás e por que somos essas bolas de dúvidas? Aliás, a orelha do livro é assinada pelo Alan Pauls, e abre assim: “O que é voltar pra casa? Uma saída ou uma condenação? Esse é o dilema que dilacera esse romance triste e perfeito”. E não posso concordar com o escritor que o livro é pontuado por esse dilema, no meu entendimento ele é sobre uma coisa completamente diferente.

Alejandro ZambraÉ bem verdade que os livros do Zambra parecem dizer muito mais do que realmente dizem, muito embora a gente na maioria das vezes não saiba especificar o quê, exatamente. Mas acredito que essa volta para a casa, que se apresenta durante o romance em vários contextos e com vários significados diferentes, não pode ser resumida a uma só questão. Existem diversos motivos para se voltar para casa, inclusive para se voltar para a casa dos pais depois que a deixamos em definitivo para construirmos nossas vidas. Enquanto é criança, saber voltar para casa é uma prova de orgulho, uma demonstração de maturidade necessária para se perceber um pouco protagonista de sua própria vida; já enquanto adulto, voltar para a casa dos pais é um gesto de humildade, de tolerância e de verdade. Quando o narrador confronta o pai sobre seus ideais políticos durante o regime de Pinochet podemos ver como pode ser dolorosa a volta a casa e ao passado, e ao mesmo tempo como o gesto se faz necessário. Voltar pra casa é se redefinir.

Sobre ser protagonista na infância, o autor faz uma brincadeira com as divisões do livro. Uma delas se chama “A literatura dos pais”, quando o narrador já é adulto e percebe o quanto não tinha importância enquanto personagem quando criança, razão pela qual precisa reatar essa ponta da vida para enfim dar protagonismo a seu eu criança, e outro se chama “A literatura dos filhos”, quando ele sai de casa e começa a se tornar protagonista de sua própria literatura. A primeira parte, sobre a infância em Maipú e o terremoto, se chama “Personagens Secundários”, por essa mesma razão. E acho que com isso o que ele quer dizer é que é preciso maturidade para ser protagonista, que meramente agir, como a criança que espiona um tio de outra criança, não é o bastante. O protagonista precisa ter uma história, um background, e sem isso não é possível ter consistência. Achei legal.

Essa edição da Cosac segue o mesmo projeto dos outros livros, com capa texturada, uma cor diferente para a capa, papel pólen e fonte Arnhen, mas com uma diagramação com muito menos margem que o Bonsai, o que faz de Formas de Voltar pra Casa um dos maiores livros do Zambra publicados aqui no Brasil, com suas 157 páginas. Ah, e a tradução é do José Geraldo Couto, que é um cara massa, e tem uns poemas revisados pela Josely Vianna Baptista, que também é super competente. Essa galera, viu… só agregando valor.

Comentário Final: 157 páginas em papel pólen soft. Bate nas quiança, ensina as quiança, as quiança aprende tudo na marra…