Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…

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Jouralbo e Allan Sieber – Ninguém me convidou

Quando entrevistei Allan Sieber em 2009, ele me contou que um de seus últimos projetos (entre as milhares de coisas que ele faz ao mesmo tempo) era escrever um livro de memórias de seu pai, que trabalhou como desenhista na década de 50, a partir de entrevistas que estava fazendo com ele desde então. Disse-me que já havia não sei quantas cacetadas de horas de entrevistas, mas o que ele não me disse (ou se disse não lembro. Dois anos se passaram e eu, ultimamente, não ando nem lembrando o que eu comi no almoço. E olha que eu só almoço dois tipos de comida) é que o livro seria desenhado pelo pai dele, o Sr. Jouralbo Sieber.

Pois bem, cá estou eu aqui, suave na nave, de leve na neve, susse no musse, quando de repente me chega a notícia de que o tal livro saiu mesmo. Tão legal isso, né? Hoje em dia o que tem de cabra metido a artista que diz que vai fazer e acontecer, acaba não fazendo lhufas e vive, como diz o slogan de um certo banco que vai perder um cliente dentro de muito pouco tempo, no “valor das ideias”, olha, não tá no gibi. O Sieber, ao que me consta, fez tudo o que disse que ia fazer com relação a seus projetos audiovisuais, gráficos, etc. Menos o documentário Pereio eu Te Odeio, mas este, ao que parece, agora tá saindo. Veremos. Bom, botei as mãos num exemplar graças à Mitie da Itiban Comic Shop — que se você mora nessa cidade bucólica e gosta de quadrinhos, acho difícil não conhecer (propaganda para os amigos é de graça, hein?), e comecei a ler. E agora vos falo sobre esta peça.

Em primeiro lugar, vamos combinar que pelo menos eu nunca vi um livro de memórias que seja roteirizado pelo filho e desenhado pelo pai (tem o Maus, mas nesse o Spiegelman faz tudo). Mas a coisa deu certo. Jouralbo conta o início de sua vida como artista publicitário nas agências e editoras de Porto Alegre na época do Guaraná de rolha, e o que mais fosse interessante compartilhar. Allan faz o filtro, roteiriza a história e faz um storyboard que repassa para seu Jouralbo fazer a arte. Voilà (nem é chique ficar falando francês, hein? Pode parar com a palhaçada), temos aí um livro interessante em sua forma e processo.

E o conteúdo? Olha cara, se você tá esperando por um quadrinho com o humor do Allan Sieber, esquece. A vida dos outros não serve pra você sentar aí e ficar dando risada com os perrengues alheios. Mas é, sim, um livro divertido e curioso, principalmente pra você que não sabe o que é um mundo sem internet. Claro que, como Allan organizou as informações, deu mais relevância para essa estória do que aquela, passa muito para as páginas de Ninguém me Convidou uma misantropia branda, que não se sabe ao certo se veio do filho ou se é de família mesmo, além de outros elementos mais sutis que permeiam a obra do quadrinista. Mas vamos combinar também que é complicado fazer quadrinho com a palavra dos outros (mesmo que a arte final seja do Jouralbo), ainda mais quando as palavras em questão são do próprio pai. Veja só o que o Crumb fez com o Gênesis, por exemplo (o livro, não a banda horrível). Por isso, é bem admirável o trabalho dos dois nesse sentido, e o resultado está a contento.

Allan também já estava pegando raça nesse lance de quadrinho de não-ficção graças às reportagens que fez para a Playboy e sei lá quantos outros veículos mais. Seus relatos sobre o passeio turístico na favela e sobre a aula de sedução que teve com um instrutor profissionalizado da arte que, como tudo o que é bizarro, veio daqui de Curitiba (z. B. Oil Man, Maior Trapézio de Curitiba, Francine de Curitiba, etc, etc. e falar alemão também é coisa de mané) são dignos de um Joe Sacco brasileiro. Belo sobrenome, aliás. Além disso, advoga a seu favor uma discreta carreira como documentarista audiovisual que desenvolveu com sua produtora. Quer dizer, o cara não era exatamente um novato na meia-cancha quando começou essa empreitada.

Esse projeto gráfico da editora Conrad (falando em Conrad, por onde será que anda o Conrado, que derretia corações na época em que eu comia cola?) tá bonito também, e o traço do Jouralbo colaborou. O desenho dele é o desenho-arte, o desenho-maroto, o traço profissa feito, ao que parece, quase no piloto automático. Atalhos de quem já desenhou até o dedo cair. A capa do livro tem um autorretrato do Sr. Jouralbo num fundo azul coberto de curvas francesas em cor de burro quando foge. O conteúdo segue com várias histórias em quadrinhos e uma última seção de histórias meramente ilustradas. Por último, uma pequena amostra de todo o vasto trabalho do pai nesses anos todos trabalhando nessa indústria vital, além de algumas fotos. Enfim, é um livro de memórias, tem que ter foto mesmo que tenha quadrinho a dar com pau. Nas fotos we trust. Vish, a madrugada tá batendo, já não to falando coisa com coisa. Vou embora.

Ps: Meu blog estava concorrendo com o do Sieber ao The Bob’s. Esperei a votação terminar para falar desse livro, sendo assim, um bom perdedor que sabe partilhar a derrota. Xi, não tô fazendo sentido mesmo.

Comentário final: Tô dormindo há três dias sem cortina. Os primeiros raios de sol da manhã me despertam, o que mostra que tudo o que parece romântico e poético é, na maioria das vezes, uma aporrinhação sem fim. Ah, eu quero minha cortina de volta.

Enrique Vila-Matas – História Abreviada da Literatura Portátil (Historia Abreviada de la Literatura Portátil)

historia abreviada de la literatura portátilDe volta ao nosso expediente normal então. Perdemos no The Bobs, acho que todo mundo já estava esperando isso. Como sempre, em meio a chacina de criancinhas, tsunamis, vulcões, vazamentos nucleares e terremotos, o mundo continua dedicando a maior parte de sua atenção à falta de ciclovias. Ora, vou parar de falar isso porque senão vai parecer discurso de mau perdedor. E eu sou mau perdedor e sei que ser mau perdedor ainda não é muito bem aceito na sociedade, então bola pra frente.

O livro de hoje é curtinho. Qualquer um pode lê-lo em uma sentada (o equivalente a três vírgula sete cagadinhas, não sei qual unidade de velocidade de leitura vocês usam aí), o problema maior é desembolsar uma graninha para comprá-lo porque, veja bem, ainda se pensa muito na quantidade de páginas que um livro tem e costuma-se avaliar o preço dele baseado nisso. Gente, o livro novo da Maryan Keyes tem 800 páginas de pura abobrinha, vocês decidem onde investir vosso rico dinheirinho.

Bom, Historia abreviada da literatura portátil é um livrinho publicado originalmente em 1985 e que dá o starte a esse jeito maluco que o autor tem de passar as ideias dele pra gente, usando principalmente a) uma escrita extremamente cerebral b) referências históricas e geográficas das cidades da Europa c) alguns escritores e outros artistas pouco mais desconhecidos do grande público d) apócrifos e muitas, muitas mentirinhas, dessas do estilo pega-troxa. É isso, a literatura do Vila-Matas serve principalmente pra você que acredita em tudo o que lê começar a ficar mais esperto um pouco.

Bom, a história é a seguinte: um narrador, que não é o autor, embora ele dê a entender isso durante o livro inteiro, mas se você ler com cuidadinho você percebe que não é, está escrevendo um ensaio sobre a sociedade secreta shandy, um grupo de artistas mutcho lokos que batizaram sua seita com o nome do personagem Tristram Shandy, do Laurence Sterne, sabe aquele? A sociedade é composta por tipos do tipo do Marcel Duchamp, Aleister Crowley, Robert Walser (robard valzaaaa), entre outros, e todos eles pregam coisas como só fazer arte que não seja importante, só escrever livros pequenos e obras de arte que possam ser miniaturizadas para se carregar numa maleta, à moda da maleta de Duchamp, que cotinha suas obras. E também serem solteiros, estarem perto de pelo menos uma mulher fatal e beber uma bebida chamada Shandy, que, pelo que eu entendi, é cerveja misturada com limonada. Pra quê Activia, né?

Aí que Vila-Matas vai conduzindo a gente por esse universo de mentiradas e o leitor bobão vai caindo em todas, e depois lê a porcaria do livro e sai por aí esbanjando conhecimento. Até que toma um chega pra lá e passa o resto da festa de mau humor, chorando as pitangas de que não teve tanta chance na infância, desperdiçou sabedoria decorando nome de Pokémon e jogando Tazo no recreio, etc. Por isso, é um excelente livro que todo mundo deve ler! É meio estranho que o autor queira divertir a gente com um ensaio, não é? É que nem, sei lá, defender uma tese de doutorado em forma de espetáculo circense. Enfim, por enquanto tá dando certo, espero não enjoar dessa escrita dele, é ainda agradável e, aos meus olhos, pouco pedante se não contarmos a intenção.

Essa edição da Cosacnaify me pegou de surpresa. Achava que vinha um livro do tamanho dos outros do autor, mas veio um que é um quarto dos livros normais, e com menos de 150 páginas ainda por cima. É do tamanho de um livro de bolso, e o boboca aqui nem se ligando que o cara queria fazer uma literatura portátil. Dã. Fora isso, a edição é chique que nem as outras, e a foto da capa é, na minha modesta opinião, uma das melhores da coleção. Rosa e amarelo? Sim, tudo bem, é uma escolha heterodoxa mas, hey, se eles não fizerem, ninguém faz, a não ser talvez uma daquelas gráficas de fundo de quintal que lança uma edição do autor chamada “Mistério na fazenda” com Sandy e Junior na capa, jurando que vai ser o maior sucesso de público e de crítica, entrar pro Guiness e o escambau. Papel pólen e fonte Garamond, a belezura. É isso. Livro curtinho, resenha curtinha, mas acho que deu pra entender como é, né?

Comentário final: Toda pessoa alta é meio maluca porque vivem batendo a cabeça nos lugares. Já repararam nisso?

 

Um ano!

Rá, e vocês achando que eu tinha esquecido de postar na quarta. Aqui não tem ponta solta, rapá. É pão pão, queijo queijo. E quando eu não posto, tenho um bom motivo. Bom, geralmente é falta de tempo, mas hoje não, é uma ocasião especial.

Há um ano eu colocava esse enfant terrible no ar, com um post sobre o nosso querido Guimarães Rosa — post esse que me rendeu muitos “me ajuda com o trabalho da escola, tio?”. Não, fedelhos, não tô aqui pra ajudar ninguém a ficar sem ler, muito pelo contrário. Queria começar a falar de literatura de um jeito menos pedante e mais legal, muito embora tenha recebido comentários dizendo que eu sou pedante e nada legal, principalmente quando falei d’O Vermelho e o Negro e do Som e a Fúria.

Fora isso, fui ganhando leitores aos poucos, que chegavam ao meu blog das maneiras mais obscuras possíveis. E esses leitores se tornaram conhecidos e esses conhecidos se tornaram amigos (alguns se tornaram ex-conhecidos, o nível mais baixo na escala de social acquaintance). Conheci gente com gostos literários parecidos com o meu, e acho que posso dizer sem arrogância que aqui, nos posts e comentários, discutiu-se literatura de uma maneira muito mais frutífera e concisa do que esses velhus decreptus por vezes fazem nas academias. Falamos só do que nos interessa, e às favas com o resto. E nos interessa também o papel do livro, o livro de papel e o papel do livro de papel. Analisar os aspectos físicos do livro é uma forma de reconhecer o trabalho de um pessoal bacana que trabalha aí afora com editoração e só recebe como recompensa por seu árduo trabalho a reclamação de que livro é um troço muito caro. De valorizar o livro como objeto físico veio o nome Livrada! (a exclamação eu coloquei porque achei bacana).

Além de hoje completarmos um ano de atividade, atingimos também uma marca curiosa: 100 livros resenhados. Eu não disse 100 posts, disse 100 livros resenhados. Sabe o que são 100 livros resenhados? Em 1 ano? Feitos por mim? All by myself? Não espero nada menos do que um busto de bronze com o meu rosto em cada praça desse Brasil por um trabalho tão altruísta. Nesses anos todos não ganhei um centavo. Até perdi, se levar em consideração a promoção que fiz. Meu pai diz pra eu não colocar palavrão no blog, mas quer saber? Foda-se. Eu sou um homem sem fins lucrativos, doente porém vivo e eu quero é que se foda. Foi divertido, foi emocionante e foi um aprendizado. Ganhei amigos, certo reconhecimento, indicação ao The Bobs e tenho o privilégio de dizer que não tenho NENHUM leitor imbecil. Acho que isso deve valer de alguma coisa num mundo em que o dinheiro não vale. Visse? Lá no Kampuchea eu seria milionário.

Então gostaria só de deixar essa data registrada e o meu muito obrigado aos que me seguem.

Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)

Operación Massacre“Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!” Calma lá meu povo, eu não coloco vocês em roubada, já disse, e ó, digo mais: se vocês tiverem que ler um livro reportagem que seja, unzinho na sua vida, pra depois passar 50 anos lendo Bruna Surfistinha e Diário de uma ex-BBB (“já fui lésbica sim e não tenho medo de falar o que penso!”), leia Operação Massacre de Rodolfo Walsh. Quero explicar hoje, tim-tim por tim-tim, porque eu considero esse um dos melhores livros do gênero já escritos.

Tudo bem que não sou nenhum expert em literatura jornalística, mas já li algumas dúzias desse tipo de livro e nenhum bateu tão forte no fundo do coração como esse (Agora que falei em bater no coração, lembrei daquela música: “A saudade é um prego, o coração é um martelo”. Uma das metáforas mais sinistras da música brasileira, sem sacanagem. Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Cia., aprendam com esses caras). Primeiro porque a história é grandiosa em todos os âmbitos. Não é algo microscópico como o assassinato de A Sangue Frio, embora pareça, e não é algo que seja, por outro lado, grandiloqüente, que tenta dialogar com todas as esferas em que está metida a coisa, como, sei lá, Hiroshima (que é bom também). É uma história coesa com seu tempo e com seu espaço, momento e lugar, tudo nela tá complicado e perfeitinho. Depois que é um livro super bem escrito, um trabalho jornalístico nota dez e estilístico nota mil. Tem muito romancista hoje em dia que não tem uma voz tão forte como a de Walsh. Tenho a impressão, depois dessa, que vou saber reconhecer qualquer texto que ele tenha escrito. E por último, vale o livro pela experiência forte que mudou a vida do autor. E, como diz Eliane Brum (que não vamos chamar de a mãe do jornalismo cojonudo brasileiro porque ela não é velha, vamos dizer que seja aquela prima independente que desde cedo se mostrou muito safa do jornalismo cojonudo brasileiro), se a história não transforma o jornalista, é porque tem algo de errado. E mudou, amigo, mudou. Vou dizer o porquê.

Operação Massacre fala de uma história que se passa na Argentina da década de 50, época em que Chuck Berry estourava com Johnny Be Good. Coitado do Chuck Berry. Tem gente que acha ruim que o Lobão só tenha feito sucesso por causa daquela musiquinha chata pra diabo que eu já nem lembro o nome e não faço questão de que me lembrem, e desconsideram que o Chuck Berry está a CINQUENTA anos tocando a mesma música no show (sim, eu sei que ele tem outras, Mané, mas pra ouvir Route 66 ninguém paga ingresso). Imagine como deve ser a vida desse cara! Sabe quando você ouve “dança da manivelaaaaaaaaa” e fica com a música na cabeça durante uma tarde inteira? Então, amigo, Chuck Berry está com Johnny Be Good grudada no cérebro há cinquenta anos. Ele acorda com essa música na cabeça e dorme com ela na cabeça, e ninguém garanta que ele não sonhe com ela também. Que terror, meu deus, que terror!

Divaguei porque me compadeci do pobre velho Chuck Berry. Mas dizia eu que, na Argentina dos anos 50, quando a junta militar tomou o poder e o peronismo começava a ser formar como um movimento sólido (e clandestino, o nome Perón foi proibido de ser falado), os militares tavam naquela caça às bruxas que é típica deles, e é típica também do cara mau amado que não faz ideia do que as pessoas estão falando dele e começa a ficar paranóico (façam as analogias necessárias e tirem suas conclusões). Eis que, numa noite de 56, minutos antes de baixar a lei marcial que autorizava fuzilar os terráqueos que fossem presos pelos milicos, a puliçada baixou numa casinha onde uma galera estava reunida pra chogar uma caxeta (Wilmutt), ouvir uma luta de boxe no rádio, etc. Como todos bons agentes da lei, nego chegou lá não querendo saber de nada, não tinha desculpinha, não tinha nervosinho, não tinha fortinho, não tinha necas. Chegaram descendo o cacete e mandaram o teje preso pra geral. Todos foram levados pra uma estrada longínqua, onde desceram do caminhão, fizeram fileiras e amorteceram inúmeras rajadas de balas dos gambé. Entretanto, a parada foi tão mal feita que metade escapou com vida pra contar a história (não lembro do número exato agora, mas acho que tinham doze e sobraram cinco, seis ou sete).

Aí que entra Rodolfo Walsh. O cara tava na dele, escrevendo seus livrinhos policiais (se Dan Brown é o McDonald’s da literatura, romance policial é o Subway: mais saudável, mas ainda assim é fast-food. Ah, e livro do André Vianco é o Bobs), e a oportunidade de escrever essa história cai na mão dele. Ele busca os sobreviventes, entrevista cada um 486 vezes, cruza as informações, monta uma cronologia, ataca a rinite revirando papel velho, passa noites em claro, almoça miojo todo dia, e no final obtém um puta dossiê. Sei que quando a gente fala de dossiê aqui no Brasil, nego logo pensa que é um monte de documento forjado que serve pra tentar derrubar o inimigo político, mas esse dossiê não, esse é dossiê de verdade. Com ele, escreve esse belo livro, com muita perspicácia na narrativa (tem passagens que me deixaram com dor no peito por dias) e, desnecessário dizer e com o perdão da palavra, joga merda no ventilador dos milicos, água no chope do governo, pimenta no cu da Argentina. A parada ia feder pra todo mundo, ele vira o autor da acusação contra o regime. Sim, o autor mete a colher, o bedelho, mete tudo no meio, toma o lado da briga dos caras e entra com um processo. E vocês aí achando que jornalista ainda quer ser imparcial. Tolinhos.

Pois bem, quando a parada tá quase ganha, o tribunal passa a batata pro tribunal militar e lá tá tudo entre amigos, o juiz alivia a barra dos manolos e fica elas por elas. Rodolfo Walsh sobe nas tamancas com essa palhaçada toda, escreve uma carta, fulo da vida, endereçado ao governo, entrega lá na porta, e um dia depois toma chá de sumiço. Suspeita-se que tenham largado o prego nele em alguma esquina, fato é que o serviço foi rápido.

Essa edição da Companhia das letras contém, além do livro, a carta de Rodolfo Walsh que lhe custou a vida, explicações sobre a versão cinematográfica do livro, prólogo para a primeira edição, introdução, apêndice obrigatório, epílogo provisório, outro epílogo, enfim, uma cacetada de textos curtinhos que até são importantes para entender a obra, mas a maioria não tem lá muito valor literário. De qualquer jeito, tá tudo ali, pro leitor conferir que não é caô, um trabalho aí que se deve ao Matinas Suzuki, organizador da coleção Jornalismo Literário. O livro segue o padrão da coleção. Papel pólen, fonte minion, três fotos que dizem muito pouco, quase nada, sobre a história (também, né? Três fotos pra um livro inteiro é sacanagem!). Tradução do Hugo Mader e o resto é ler pra crer. Consegui falar da importância do livro. Espero que sim, porque ele é importante pra mim. E se não consegui, melhor, vou dar uma de indie e guardar meus gostos só pra eu mesmo, e reclamar se virar best-seller. Pô, esse Coetzee tá um vendido, todo mundo tá lendo. Nem gosto mais desse cara *ar de blasé*.

Comentário final: Pior do que tocar a mesma música por cinquenta anos é ter essa música arranjada pelo Cidade Negra num acústico. Obrigado, Chuck Berry, por não estourar os miolos depois dessa, você é um bravo.