Cormac McCarthy – Meridiano de Sangue (Blood Meridian)

blood meridianBoemia Rhapsody, aqui me tens de regresso! Depois de um mês e bordoada longe da internet, longe dos blogs, longe de casa e longe do país, voltei para dar continuidade a esse bonde pesadão que não tem marcha lenta que é o Livrada! Sentiram saudades? Espero que sim, e prometo que hoje vou fazer valer a espera, mesmo porque não é de qualquer livro que vamos tratar hoje, e sim do estupendo, portentoso e calamitoso Meridiano de Sangue, do Sr. Cormac McCarthy. Não sabe que livro é esse? Não sabe quem é Cormac McCarthy? Não sabe que fim levou o Demóstenes? Não sabe como pegar mulher na marcha das vadias? Vem comigo então!

Cormac McCarthy ficou mais famoso no mundo depois que dois de seus livros foram adaptados para o cinema. Primeiro, o espetacular Onde os Fracos Não Tem Vez, dirigido pelos Irmãos Coen, talvez o melhor indicador do nível intelectual alheio já criado na história da humanidade. Pode perguntar para qualquer pessoa se ela gostou desse filme, e pode igualmente erguer uma sobrancelha e falar um psicanalítico “aham” ante qualquer negativa, principalmente se a justificativa for “odiei o final”. Sim, a gente sabe que quem gosta de sertanejo universitário é objetivamente involuído, mas esse filme separa melhor o joio do trigo. Depois foi A Estrada, dirigido por sei lá quem com sei lá queloutro no papel principal porque não assisti e não sei se quero porque vi a capa e já temo terem feito cagadinha em cima da obra do sujeito. O que importa é que jogaram o nome Cormac McCarthy pro mundo com o cinema – o que, convenhamos, é a única coisa pra qual o cinema de Hollywood presta hoje em dia – e imagino que alguém tenha se aventurado a ler o sujeito por causa disso. Eu sei que eu fui um deles. E, durante minhas tão merecidas férias, resolvi escolher exatamente este livro para ler nos Intercitys e TGVs da vida.

Antes de mais nada, o título já indica algo para você. Se não o “sangue” de Meridiano de Sangue, o título alternativo. Sim, é Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular do Oeste. A gente já foi doutrinado desde a aurora da nossa vida literária que quando um cabra da peste resolve colocar um título alternativo na obra é porque ele é inteligentão, mesmo que na maioria das vezes seja só um zé-mané. Agora, ninguém coloca um título como O Rubor Crepuscular do Oeste sem estar sujeito a julgamentos mil, dos pés a cabeça, da capacidade estilística de manter a pompa do título ao longo do romance inteiro. Isso é esperado. É como se auto apelidar de Tripé, as pessoas vão checar a pacoteira. Então, caros – e isso serve para vocês, jovens escritores – certifiquem-se que o título das coisas corresponde ao seu conteúdo em grandeza. McCarthy fez isso. Não aquele gordinho paranoico, mas o Cormac McCarthy, quando escreveu Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular do Oeste (Evening Redness in the West).

A história do livro gira em torno de um garoto sem nome, a quem o autor (e o tradutor) chama apenas de kid. O kid é forçado a deixar o lar ainda moleque e ingressa na brutal gangue do capitão John Glanton que tem a missão de coletar escalpos de índios no oeste, passando pelo deserto de Sonora e outras paisagens ermas que conhecemos através de filmes americanos. E por quê escalpos, vocês me perguntariam. Bom, é sabido que nessa época do desbravamento da América do Norte, qualquer ajuda pra matar os índios era bem-vinda, e o pagamento pra esses sanguinários era mediante apresentação de escalpos. Isso era muito bom pros ruins de nascença – uma classe de ser humano diante da qual os antropólogos e psicólogos se dividem – porque, né, junta a fome com a vontade de comer. Glanton é acompanhado por um tal juiz Holden, um personagem sobrenatural que fala trocentos idiomas e domina qualquer técnica existente, de caçar sapo na chuva a fazer cupcake, e cisma em escrever num caderninho tudo o que existe, uma espécie de enciclopédia megalomaníaca. E ele, Glanton e a patota são maus feito pica-paus. O lance é matar índio, negro, mulher, velho, criança, cavalo, cachorro, filhotinho de cachorro, tudo, tudo, na maldade mesmo, desnecessariamente, o que faz de Meridiano de Sangue um dos livros mais pesados que você vai ler em vida (a menos que você curta um Marquês de Sade ou algo assim).

E por que dessa violência toda? A partir daí você pode seguir seu próprio caminho e chegar as suas próprias conclusões, mas vou jogar meus dois centavos sobre o assunto (essa é uma expressão que não deu certo em português, mas vocês entenderam, né?). A violência a que o leitor e o kid, talvez a única tábula rasa desse circo, são obrigados a enfrentar confronta-os diretamente com seus desejos primitivos, e faz você se sentir um bosta de um animal por pertencer a essa raça. Tipo um tapa na cara dos cafas que mandam aquela de “o macho é feito para ter várias fêmeas, tá no nosso instinto”. Tá no instinto, malandro? Então olha aqui onde seu instinto vai te levar. Ao mesmo tempo, o autor não mede esforços para jogar na cara a fragilidade do corpo humano, em descrições vívidas e horripilantes de miolos espatifados, crânios dilacerados, carburador furado e o meu negão do lado (êpa, peraí, caceta). Como se ressaltasse o aspecto patético da coisa: bolhas de sangue e ossos que não aguentam 10 minutos de quebra-pau vivendo em pé-de-guerra. Ecce homo. É claro que a saga abriga questões bem mais profundas do que essa, e a isso serve bem a figura do juiz Holden, deus ex machina  que explica as piadas, mas essa é só um detalhe que me impressionou e quis compartilhar.

Mas e a escrita, meus amigos? Preciso confessar que até então só tinha visto uma prosa tão maravilhosamente bem escrita assim em português, nunca em língua inglesa. Não li no original, mas a julgar pelo trabalho do tradutor de encontrar as palavras mais precisas possíveis, sei que o cara não ficou nos the book is on the table nesse romance (mérito do tradutor também, meus parabéns, senhor Cássio de Arantes Leite, quem quer que seja o senhor, tornou minha leitura muito mais aprazível). A prosa do McCarthy é densa, bonita, cada frase do juiz Holden parece sair de um aforismo do Nietzsche e cada descrição parece um quadro do Turner, bonito mesmo quando se está tratando de algo meia-boca. E me assombra a capacidade do cara de falar de detalhes específicos sobre como o sangue seca numa ferida, como uma bala atravessa a cabeça de um cavalo ou como uma faca raspa um osso. Não sei muito sobre o passado do autor, à exceção de seu ingresso nas forças armadas, mas tirando isso não sei se quero descobrir também.

E por último, o mais chocante: Meridiano de Sangue é, em certa medida, uma ficção histórica. Glanton realmente existiu, e os fatos narrados no livro foram baseados no relato autobiográfico de um de seus cupinchas. O mesmo livro diz que existiu também o juiz Holden, mas não que seja uma prova concreta de sua existência, já que a obra foi considerada meio mentirosa. Ainda assim, pombas! Não vou nem falar mais nada, vou terminar essa resenha com outro pombas. Pombas!

Ps: já faz algum tempo que adotei essa prática, mas estou oficializando aqui: não respondo mais comentários deixados no blog. Acho que no final das contas fica meio intromissor da minha parte e perdi a paciência discutindo picuinha no passado. Quem quiser que eu responda, pode me mandar um e-mail para bloglivrada@gmail.com, belezura?

Comentário final: 350 páginas na formatação padrão da Alfaguara. Afunda o crânio, capitão Glanton!

Pedro Juan Gutiérrez – Nosso GG em Havana (Nuestro GG en la Habana)

Finalmente acabou o carnaval. Quer dizer, acaba hoje. A voz do cara que dá as notas para as escolas de samba na apuração de hoje tem mais ou menos o efeito da musiquinha do fantástico: bate aquela tristeza e você pensa que o fim de semana já está acabando e que amanhã começa a semana. Ou, nesse caso, que o ano útil está começando. É claro que isso não vale pra mim. Amanhã cedo estou na labuta de novo, tá pensando o quê? Aqui não tem corpo mole não.

Enfim, enquanto vocês dão seus últimos mergulhos na praia, tomam suas últimas caipirinhas na hora do almoço, fazem o último xixi na rua (assim espero!), pegam a última doença venérea do ano, vamos falar de literatura, ê! O livro de hoje é mais um livro excelente do nosso querido Pedro Juan Gutiérrez que eu recomendo para vocês. Um livro curtinho e divertido, que tem um pouco de tudo: ficção histórica, comédia, trama policial, perseguições de carro, espionagem e a vida de um grandessíssimo escritor: Graham Greene, o GG do título.

A história começa a partir de um fato real: a visita de Graham Greene à Havana, na década de 50. Isso era na época em que Fidel ainda não tinha metido um xeque-mate no Fulgêncio, e Cuba ainda vivia naquelas de todo mundo sendo vigiado, a suspeita do FBI agindo e tudo o mais que o submundo de Havana comportava, e ainda comporta até os dias de hoje, como Gutiérrez faz questão de nos mostrar. Bom, Greene, enquanto está em Cuba, descobre que seu nome está ligado a uma história de assassinato e espionagem, e que alguém está usando seu nome indevidamente, portanto. Aí se mete com o bàs-fond cubano, com putas e putos, ladrões, tarados, etc. Personagens que Pedro Juan já está acostumado a retratar — alguns deles, não me lembro quais agora, já foram retratados em outros livros dele.

Eis o que eu queria dizer sobre esse livro: Nosso GG em Havana é um livro muito diferente da obra de Pedro Juan. Parece que nesse ele resolveu escrever com a cabeça de cima e colocou uma porção de elementos da literatura policial, numa trama coerentemente sóbria. Claro, tem um pouco das safadezas de sempre, mas muito mais contidas, essas. Pesou no livro o raciocínio racional, o mercado do seu id. E Pedro Juan, com isso, provou ser um grande escritor do Cristal, conforme definição mutcho loka que o Italo Calvino fez uma vez, que não cabe explicar aqui agora.

O livro também é uma leve homenagem a Graham Greene, escritor que o autor adora. O título inclusive, vem de um livro de Greene, “Nosso homem em Havana”, também uma estória de espionagem, polícia e ladrão, etecetera. Não que Greene faça alguma vista na literatura de Gutiérrez. Nem sinal dele nas influências. Ainda assim, bom, uma homenagem. Você pode gostar do cabra e não tentar ser como ele, é ou não é? Mais do que isso, porém, é a homenagem à Cuba pré-Fidel. A Cuba moleque, a Cuba arte, a Cuba marota. É claro que eu, do alto da minha falta de verba, nunca fui para Cuba, ainda mais pra Cuba de Fulgêncio, mas tenho a nítida sensação de captar a aura do lugar lendo esse livro. E não é essa intenção de busca pela verdade disfarçada de busca pela verdade uma das coisas mais legais da literatura. É. Quem tá falando sou eu, então é.

Esse projeto da editora Alfaguara é classe bagarai. Esse estilo de capa cheia dos elementos foi o escolhido pras capas do Pedro Juan (a trilogia suja tem a capa poluída desse jeito), e vamos dizer que, pra esse livro, a coisa encaixa direitinho. Mérito de Tita Nigrí. Por dentro, quem já abriu um livro da Alfaguara, abriu todos. A fonte é um pouquinho maior nesse, pra preencher melhor as 125 páginas do romance. A tradução é dos já citados aqui Paulina Watch e Ari Roitman, e o livro tem citações de John Cheever e do próprio Greene. Vale aqui a citação do último, tirada da fala de um personagem de O Americano Tranquilo, seu livro mais badalado: “Pensar é um luxo. Você acha que o camponês se senta para pensar em Deus e na Democracia quando volta de noite para seu casebre de barro?”. Tá, claro que o exemplo é completamente forçado, e só pensa quem foi educado pra pensar, não importando as condições de existência. Aliás, que bela porcaria essa citação, não me convenceu de absolutamente nada. Sai fora, Greene, seu mané. Vem conhecer o profeta Gentileza e outros zés do mundo, vem. Ah, estressei-me agora, então eu vou.

Comentário final: Estação primeira de Mangueira… DEZ!!!

Moacyr Scliar – A mulher que escreveu a bíblia

Como vocês puderam ver, não publiquei niente na quarta-feira, e por uma boa razão: atolado de coisas para fazer. Que lhes interesse, escrevi uma matéria gigaaaante para a Gazeta sobre George Orwell, o mágico do romance panfletário, o rei da metáfora animal, o Gerson King Combo da…bom, já deu pra entender. Que não lhes interesse, eu e minha gloriosa banda Sua bunda fizemos um triunfante show no Blues Velvet bar na quarta-feira e a multidão foi à loucura. Sendo assim, de qualquer forma, parafraseando o título de um outro livro, os dias estavam completamente lotados. E, para citar Marcelo D2, “tá ruim pra você, também tá ruim pra mim, tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Alright, chega de citações. Vamos à homenagem.

Moacyr Scliar se foi, minha gente, provando que esse papo de imortal é, na verdade, fruto da imaginação de velhos loucos que têm amigos como Paulo Coelho e Ivo Pitanguy, místicos da alma e da carne. Ainda assim, Scliar era um dos poucos nomes que prestavam dentre os almofadinhas da ABL. Cito mais alguns: João Ubaldo, Ana Maria Machado, Nejar, Lygia Telles e sua chapa Nélida Piñon, Ledo Ivo (“b-ab-aaaaaaaaaca”, dizia ele na entrevista ao Globo News, hilário) e, em menor grau, Cony, o Van Damme entre Schwarzeneggers. Agora, esses os corvos: nem bem o Scliar esfriou e já elegeram um cara pra ficar na cadeira dele, o Marco Lucchesi. Um poeta! Um poeta! Pois eu discordo! Acho que a cadeira do Moacyr Scliar devia ser dada a um escritor frenético como ele. Um cara que lance cinco livros por ano, no mínimo! Brincadeiras à parte, eu quero um dia fazer parte da ABL pra ganhar 15 mil por mês + vida eterna + gato NET + duas mariolas por dia + roupa de Power ranger. E quem não quer? Esse país tem que tirar os escritores da miséria, minha gente. Tira o Paulo Coelho de lá, ele já é rico por seus próprios méritos! Coloque um cara bom, mas marginalizado tipo, sei lá, Marçal Aquino.

Bom, pra homenagear o Scliar, esse grande escritor gaúcho, resolvi resenhar o único livro que já li dele em toda minha vida. E ainda assim fiquei com o pé atrás, porque li emprestado da minha mãe e li em apenas um dia. E isso foi há uns dois anos. Ou seja, tô sem o livro, minha memória já não é mais a mesma, mas enfim, todo jornalista se mete a falar sobre o que não sabe pelo menos uma vez na vida. Se você é jornalista e só fala sobre o que sabe, ou você é chefe, ou você é frila, ou você é desempregado.

A mulher que escreveu a bíblia é um desses livros em que você lê numa sentada, sem nenhuma conotação homossexual aí (aliás, amigos homossexuais, tenho um filme homossexual aqui em casa que estou disposto a passar adiante, quem tiver interesse, contacte. E chega de usar a palavra homossexual que isso é coisa de boiola). É curto, tem punch, tem humor, tem sacanagem, tem contexto histórico, só faltava mesmo ter alienígenas, porrada e perseguição de carro para ser o livro perfeito. A história fala de uma mulher que, fazendo regressão, descobre que, em uma vida passada, foi a única esposa do Rei Salomão que sabia ler e escrever. O que justificava, porque ela era feia pra diabo. Salomão era como um desses pitboys que pegam vinte loiras peitudas pra depois pegar uma gordinha fã de Harry Potter que faz engenharia no CEFET e dizer que também valoriza a beleza interior. Enfim, tendo essa vantagem sobre as loiras peitudas, tem sua existência escalada pela máfia chinesa, quer dizer, pelo Salomão, pra coordenar um bando de escribas mais enrolados que sexo de cobra que estão escrevendo a história da humanidade, desde que o mundo é mundo. E assim ela começa, escrevendo o antigo testamento, enquanto narra sua história de mulher feia e mal-amada.

É bom dizer que essa história de mulher escrevendo a bíblia é uma tese do Harold Bloom, ó, Harold Bloom, velhus decreptus da crítica literária, aquele que tudo sabe e tudo lê, e que a ninguém come. Ele, no livro The Book of J., jogou uma ideia de que a primeira versão da bíblia teria sido escrita por uma mulher. Mas isso é óbvio pô. Olha só as coisas que tem lá: cobra falante, gente feita de costela, o assassino é o Coronel Caim, na biblioteca, com uma pedra mixuruca, enfim, fruto de uma imaginação muito fértil. O mesmo tipo de imaginação que se põe a conjecturar seus whereabouts quando você chega em casa meia noite e cinco ao invés de meia noite. Enfim, desse verde aí que o Bloom jogou, Scliar fez um livrinho mais hilariante do que gás hilariante (que não é tão hilariante assim, ao contrário do que o nome pode supor), e leve, muito leve. Ler a mulher que escreveu a bíblia é o equivalente a alugar um filme do Simon Pegg na locadora porque você já tá de saco cheio de ver Bergmans e Tarkovskys. Vale a pena também pelas sacadinhas que ele mete no meio, tendo em vista o contexto histórico da parada. Uma pena que não me lembro de nenhum agora pra exemplificar. Jornalismo verdade é isso. Eu não minto pra vocês e vocês não mentem pra mim.

Sobre o projeto gráfico, nada tenho a dizer. Já disse, tô sem o livro na mão aqui. Mas a capa reproduz um desenho típico da época, em que ninguém sabia desenhar. Eu seria uma espécie de Michelangelo nessa época. E com meu físico, seria mister universo. Nasci na época errada mesmo… Bom, não foi tanto uma resenha hoje, mais para não deixar a morte do Scliar passar em branco. Descanse em paz, nobre escritor.

Ah sim, esse livro ganhou o prêmio Jabuti em 2000, na época em que o Jabuti premiava bons escritores, e não ficava fazendo média com ninguém.

Comentário final: Você já comeu uma carne assada com uma cenoura no meio? Estranho, muito estranho…

 

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!

João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Viva o Povo BrasileiroNão costumo ficar aqui falando de vários autores nacionais em seguida, mas já vi que tinha falado do Luiz Alfredo Garcia-Roza e do Cristóvão Tezza nos últimos posts e pensei “que se dane, vamos emendar mais um”. Até pouco tempo atrás, achava que a literatura nacional era a melhor do mundo, riquíssima em tudo o que produzia. Até que comecei a ver umas cacas sendo publicadas e caí na dura e triste realidade: o Brasil anda mal das pernas de escritores vivos. Sim, temos um aqui, um acolá, mas compare você a meia dúzia de gatos pingados de hoje e a escrete de quarenta ou cinquenta anos atrás e poderá constatar que a morte fez muito mal à arte literária do nosso país. Vocês podem não concordar comigo, mas sei de uma pessoa que concorda: o senhor Paulo Venturelli, expert no campo dos livros, disse mesmo que o que resta hoje é uma repetição de edições que tratam da estética da cidade: “acendi um cigarro, olhei pra ela nua na cama, aí achei uma garrafa de vodca perto do meu tênis e fui pra cozinha” blé, se você já passou da sua adolescência, esse tipo de coisa não vai fazer sua cabeça.

Enfim, já deu pra perceber que eu to enrolando para falar do livro de hoje, e tenho uma razão muito forte para isso: não lembro de muita coisa do Viva o Povo Brasileiro, embora seja uma obra que passei muito tempo lendo (são 700 páginas, afinal). Acho que isso aconteceu porque o li logo antes de ler A República dos Bugres, que é um livro mais desconhecido, porém muito melhor. Mesmo assim, não queria deixar de falar sobre ele. Primeiro que o João Ubaldo é um dos únicos imortais que realmente merecem ser imortalizados. Segundo que esse livro é mega importante, papo de ser leitura obrigatória para trainees dos mais diversos. Terceiro que é um tijolaço, e tava cansado de falar de livro de 200 páginas. Quarto que é uma ficção histórica, um dos meus gêneros literários favoritos, que peguei gosto por causa da queridíssima professora Marilene Weinhardt, assumidade no assunto. Quinto porque estou procurando resenhar livros mais conhecidos, visto que quando resolvo falar de umas coisas que só eu li, vocês se acabrunham e não comentam (aliás, conto com vocês para complementarem essa resenha). Sexto porque gosto daquele poema homônimo do Patativa do Assaré, até foi usado naquela música “Brasileiro” do The Funk Fuckers. Então chega de razões.

Viva o Povo Brasileiro é, como eu havia dito, uma ficção histórica. Ou não é (Cléber Machado style). Na verdade, há o contexto histórico, mas não há personagens migrantes — pelo que eu consigo me lembrar. (personagem migrante é o personagem que existiu de verdade e tá sendo ficcionalizado ali no livro. Tá pensando o quê, rapá? Livrada! também é cultura!). O livro cobre quase toda a história da formação do Brasil, bote aí uns quatrocentos anos, e, por causa disso, são vários os personagens, episódios e lugares que o livro traz. E tudo isso para mostrar o seguinte: o Povo Brasileiro, essa entidade anônima, porém definível, é um traste.

Logo no começo da história, há a descrição da morte de um tal de Alferes Galvão, um pescador adolescente que era chamado de alferes pelos amigos. A descrição do rapazote, tido como um mártir, quando na verdade era um Zé ruela qualquer já demonstra a ideia principal do livro: a de que os episódios que passam para a história são muito diferentes e muito menos gloriosos do que os fatos que realmente aconteceram. Se não acredita, lê lá a epígrafe: “O segredo da Verdade é a seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

Vou falar só de dois personagens bem legais do livro, e ambos aparecem no comecinho dela: um deles é Cabôco Capiroba, um canibal baiano que só gosta de comer holandês (nome que o amigo Cássio tomou para si e assina tudo que tange a sua persona virtual). Logo depois, um general chamado Perilo Ambrósio (tive que dar uma folheada aqui pra lembrar o nome do gajo, confesso), um covardão que não gosta de entrar pro pau nas guerras, mas faz um teatrão pro general: coloca uma tipóia ensangüentada com o sangue de um escravo e fala que brigou demais, pra mostrar que tem aquilo roxo. O sacana ainda corta a língua do escravo fora, silenciando a tistimunha. E vai dizer, essa não é a história eterna do Brasil? O rico sacaneando o pobre pra ficar bem na foto?

A primeira impressão que tive quando comecei a ler esse livro é que subestimei a escrita de João Ubaldo. Só havia lido dele A Casa dos Budas Ditosos, há muito tempo, quando era um moleque ainda, e não achei muito difícil. Mas esse livro não. É erudito e rebuscado no úrtimo. Na maioria das vezes esse tipo de coisa afasta o caboclo do livro, mas nesse caso, pelo menos pra mim, provou o valor da escrita desse baiano (aliás, acho que o povo da Bahia precisa se orgulhar muito de ter o João Ubaldo e o Milton Santos, porque nos últimos anos é só Parangolé e o diabo a quatro). E claro, tá cheio de escritor mané por aí, mas nenhum deles vai escrever uma ficção histórica. Escrever um livro do gênero é botar o pau na mesa mesmo. Assinar atestado de fodão. Estudar para fazer uma coisa que qualquer um pode fazer só imaginando é coisa de gente boa da melhor qualidade, por isso, deem valor. Aliás, o cara cujo nome é passível de constar horizontalmente na lombada de um livro tá com tudo e não tá prosa.

Sobre o projeto gráfico: Na época em que ganhei esse livro do meu pai (querido pai, sempre incentivando a leitura da prole), existiam pelo menos três ou quatro edições diferentes do livro, incluindo a versão de estudante e a edição novíssima da editora Alfaguara. Mas eu queria mesmo essa edição, da Nova Fronteira, por causa do projeto gráfico mesmo. Não tem jeito, e-book nenhum substitui uma parada bonita e bem feita como um livro desses. Uma capa bonita, colorida, papel cartão vermelho pra revestir a parte de dentro da capa, com encadernação artesanal, papel pólen soft, fonte minion e uma diagramação bem confortável, com cabeço bonito e tudo mais. Se bem que cabeço é uma coisa cada vez mais rara. Vai ver decidiram que é brega, ou se tornou uma coisa dispensável agora que as pessoas tratam melhor o livro e não arrebentam ele até começarem a soltar páginas por aí. Aliás, a Nova Fronteira é uma das únicas editoras que ainda usam cabeço em seus livros. Sei lá por que.

E essa foi a resenha de hoje, rapeize. Tão afim de ver o meu lado A da crítica? Vão visitar a revista Paradoxo. Nessa semana tem um artigo sobre o livro Ironweed, do William Kennedy.

Comentário final: 700 páginas grandes pólen soft. O livro que extinguiu os dinossauros.

Erico Verissimo – O Continente (O tempo e o vento parte 1)

Já começo avisando: não vou ajudar ninguém com trabalho de colégio, valeu? Toda vez que resolvo escrever sobre um clássico da literatura nacional, atraio que nem imã (“fucking magnets, how do they work?”) uma cambada de estudante desesperado por resumos e detalhes sobre a obra. Galerinha: vamos largar o Playstation, vamos desligar o World of Warcraft, vamos parar de ver filme de mulher pelada, vamos parar de ficar olhando para o teto por algumas horas e vamos dar mais valor para a ínfima parte da cultura nacional que de fato, tem algum valor.

O tempo e vento, meus amigos, o tempo e o vento! El tiempo y el viento, the temptation and the ventation, le tempé et le venté, der tempschlaschtung und die ventaschtwaft, pra gastar aqui toda minha eloquência em línguas estrangeiras. Essa maravilhosa saga familiar escrita por Erico Verissimo (aprendam: o nome do cara não tem acento em parte alguma). Para quem chegou agora no assunto da boa literatura, a obra é dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago, e conta a história da família Terra-Cambará, a família mais pé fria pra política da história da humanidade. Incrível! A única vez que eles apoiaram os situacionistas, logo quem? Getúlio Vargas! Mas bom, não sou de dar spoilers, então leia quem não leu ainda.

O Continente, muito provavelmente, vai ser o livro mais emocionante que você vai ler em toda sua vidinha. De emoção mesmo, da parada pegar você de jeito e você não largar mais do livro. Nem Harry Potter faz isso, cumpadi. O livro traça uma narrativa não-linear a partir daquela revolução federalista de 1893, pendenga da gauchada dividida entre os pica-paus e os maragatos (adivinha de que lado a família estava?). São várias histórias, das quais se destacaram a de Ana Terra, mocinha pioneira que se f*** (meu pai falou pra eu parar de falar palavrão aqui) mais que a Dawn no Bem Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz, e a do Capitão Rodrigo, uma versão gauchesca de um careca: só quer saber de farra, mulher e porrada (oi! oi! oi!). Fizeram-me ler o livro “Um Certo Capitão Rodrigo” na escola, e foi uma das poucas leituras boas que a escola me mandou fazer, mas dentro do contexto fica muito melhor.

Engraçado que essas duas histórias mais famosas são todas do primeiro volume d’O Continente. Mas isso não quer dizer que o segundo volume seja menos legal. Como esquecer da Luzia, a Teiniaguá, mocinha encantadora que dá aquele legítimo chá de buça no rapazote Bolívar, só para depois colocar as mangas de fora? E o Dr. Carl Winter, médico gringo que, por alguma razão, se parece muito com o Visconde de Sabugosa na minha cabeça? Enfim, são muitos personagens e muitas histórias pra tentar resumir numa sinopse porca como a minha. Digamos apenas que, enquanto o primeiro livro é mais cru e violento, como toda boa fase de pioneirismo que se preze, o segundo volume é mais brando e começa a entrar no tema das pinimbas familiares que interessam.

Uma coisa bacana de se perceber n’O tempo e o vento é que cada parte da saga foca um aspecto muito específico da história. O forte do continente é a narrativa. Erico mostrou nesse livro (dividido em dois pra ficar mais fácil pra você carregar) que sabe contar uma história, sabe dar emoção pras paradas que ele escreve, sabe ser pintudo quando o assunto é construir acontecimentos; em O Retrato, como o próprio nome já sugere (embora o retrato do título seja mais concreto), o peso da história é na descrição do personagem, ou seja, do Rodrigo Terra-Cambará. Invocando a entidade do nosso querido presidente, nunca na história desse país um personagem foi tão bem construído como Rodrigo. Nem mesmo aquele sujeito sonhado nas Ruínas Circulares do Borges poderia ser mais bem feito. A complexidade do sujeito é realmente de cair o queixo, e quem leu tá ligado; por fim, em O Arquipélago, Verissimo bota o pau na mesa pra falar da política de seu tempo, provando que o cabra tem envergadura pra detalhar as ideias e o momento que viveu. Aí, ó, descobri um padrão. Primeiro livro, narração; segundo livro, descrição; terceiro livro, dissertação. Os três gêneros que a tia maroca tenta ensinar pra você nas aulinhas de redação. E você se perguntando por que diabos esse livro cai no vestibular.

Pra completar aqui o comentário, vamos falar desse projeto gráfico da Companhia das Letras. Deus sabe (sério, ele sabe tudo) que eu não gosto de livro de capa mole sem orelha, mas essa coleção do Erico Verissimo é a única exceção. Livros sensacionais. Capa dividida entre uma cor para cada obra (e são mais de quarenta que o gaúcho escreveu) e uma foto que, se eu for acrescentar um adjetivo pra elas, meu pai vai ficar chateado. E a foto da capa não é a única que é maravilhosa. No verso da quarta capa, uma foto diferente do autor para cada obra, uma mais bonita que a outra. Todas as fotos do projeto são de autoria do premiadíssimo Leonid Streliaev, que inclusive fez o livro “Erico por Leonid – fotos que ninguém viu”. Ele tem um site bacana com o trabalho dele que eu recomendo que vocês conheçam, clicando aqui. Bah, tchê, e não para por aí. Uma boa notícia para os maus leitores do meu Brasil: tem figura nesse livro também! Êêêê! E que figuras: ilustrações do traço livre de Paulo Von Poser, sempre em consonância com a foto da capa e a história do livro. A editora, carinhosa como sempre, fez a gentileza de colocar a árvore genealógica de toda a família (é nego pra caceta!) e uma cronologia que associa fatos históricos com acontecimentos narrados n’O tempo e o vento e também na vida de Erico Verissimo, além da crônica biográfica do próprio (não escrita por ele), que conta um pouco dos bastidores da produção do livro. Que mais? Ah sim, também tem um mapinha muito simpático do estado do Rio Grande, com a suposta localização de Santa Fé, a cidade fictícia onde se desenrola a trama. E para os cabeçudos da academia, surpresa: Prefácio de nada mais nada menos que Regina Zilberman, a Sra. Sabe-tudo do Verissimo, a Sra. Ficção histórica, a Maria Callas dos estudiosos do gênero (não somos dignos! Não somos dignos!). No mais, fonte Janson e papel pólen soft. Enfim, cambada: tá completíssimo, só falta esse livro aprender a fazer café. E não, ninguém me pagou pra eu babar esse ovo pra edição (mas estamos abertos pra negócio, aê, aê!).

Um dia volto para falar das outras partes da saga, mas na sequencia não, senão fica chato.

Comentário final: 413 + 430 páginas pólen soft. Já que são dois, faz um telefone sem fio que ninguém nunca mais mexe contigo.