Wisława Szymborska – Poemas

Wislawa SzyborskaExistem muitas características que um crítico literário precisa ter, e poderia ficar escrevendo o dia inteiro sobre elas. Mas existe uma única condição sinequanom para alguém começar a fazer resenhas e dar opiniões sobre os livros e, não, não é ler os livros se é isso que você tinha pensado. Referia-me, na verdade, à cara de pau, a vontade de avançar destilando baboseiras sem medo de errar, sem medo de reprimendas, sem medo de autor te esperando com um porrete do lado de fora, enfim, é preciso ser destemido e caradura o bastante para julgar que o que você acha sobre uma obra determina se ela é boa ou ruim. Ora, que trabalho inglório e canalha, vocês diriam, esquecendo-se que é exatamente assim que funcionam vossas próprias opiniões e o que separa o crítico do leitor são razões meramente vocacionais.

Pois bem, disse tudo isso por quê, afinal? Disse porque hoje, pela primeira vez em dois anos de blog, vamos falar de um livro de poesia nessa bagaça, e todo mundo sabe que pouca gente se atreve a comentar essa arte por puro medo de estar falando besteira sem saber.

E é aí que entra o nosso livro de hoje. Nada menos que a recente coletânea de poemas da poetisa polonesa Wisława Szymborska, prêmio Nobel de literatura de 1996, que foi traduzida para um livro pela primeira vez no Brasil no ano passado. Ê, atraso! Mas, tudo bem, antes tarde do que nunca. Fico boladão com essa galera que não se coça pra traduzir um autor mesmo depois que ele ganha o prêmio Nobel. Agora tão pipocando uns poemas do Sr. Transformer por aí, mas cadê que nego publica um livro dele? Vai vendo e depois não reclama, mas legenda pra filme do Shrek tem todo ano, pensa nisso.

Enfim, esse livro não é nenhum livro inteiro da Szymborska (para vocês que gostam de ler em voz alta os textos, mesmo que seja para vocês mesmos, a pronúncia é Vissuáva Chembórsca), mas uma coletânea de poemas de vários de seus poucos livros (he he) escolhidos pela tradutora Regina Przybycien (pchêbítchen), que é curitibana e bateu um papo comigo aqui. Ela diz que escolheu os poemas baseado no grau de facilidade em traduzi-los, o que eu acho muito correto levando-se em consideração que tradução de poesia é algo muito mais zeloso do que tradução de prosa e ponderando que polonês não deve ser a língua mais fácil do mund de se traduzir.

Bom, e por que os poemas de Wisława Szymborska são bons o bastante para entrar aqui nesse blog? Simplesmente porque são fáceis, no nível de que até uma criança seria capaz de entender e apreciar sua beleza. Essa senhorinha simpática que não larga o pirulito sabor metástase não fica se escondendo por trás de significados ocultos, construções herméticas, jogos de palavras sinistros, e palavreado floreado que ninguém entende. Ela quer simplesmente ser entendida e falar sobre as coisas que lhe são caras, a saber: a vida, a morte, a guerra, a mulher e a própria poesia.

Esse último tema, aliás, é o que eu acho de melhor na poesia da moça, que mostra não só um senso de humor autodepreciativo saudável como também uma leveza de espírito invejável. Szymborska sabe que pouca gente se enteressa pelo tipo de escria que ela e seus colegas poetas realizam, e consegue rir de sua própria impopularidade. É assim, por exemplo, em “Alguns gostam de poesia”, publicado alguns anos antes de ser consagrada com o Nobel:

Alguns –

Ou seja nem todos

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria;

Sem contar a escola onde é obrigatório

E os próprios poetas

Seriam talvez uns dois em mil

O tema se repete em “O Recital da Aurora”, mais antigo, e ainda mais engraçado:

Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir

Nos recusaste a multidão ululante.

Uma dúzia de pessoas na sala

Já é hora de começar a fala

Metade veio porque está chovendo

O resto é parente. Ó musa.

Percebe? Não é nada complicado, é só uma poetisa que sabe que não é lida e faz troça disso com o quê? Com a própria poesia. Esses trechos mostram bem o espírito leve e brincalhão de Szymborska, que faleceu recentemente este ano deixando esse mundo mais carrancudo. Mesmo quando ela fala de coisas realmente tristes, como o nazismo, ela consegue ser leve. Em “Primeira Foto de Hitler”, ela brinca com o bebê do monstro austríaco:

E quem é essa gracinha de tiptop?

É o Adolfinho, filho do casal Hitler!

Será que vai se tornar um doutor em direito?

Ou um tenor da ópera de Viena?

De quem é essa mãozinha, essa orelhinha, esse olhinho, esse narizinho?

De quem é essa barriguinha cheia de leite, ainda não se sabe:

De um tipógrafo, padre, médico, mercador?

Quais caminhos percorrerão estas pernocas, quais?

Irão para o jardinzinho, a escola, o escritório, o casório

Com a filha do prefeito?

Esse é o tom da ironia da autora, que fere sem ferir, e põe reflexão em coisas simples, como a infância de um ditador extremista (algo que Adriana Partimpim copiou depois, talvez sem saber. Talvez, muito provavelmente, ou a moça lê poesia em polonês, por acaso?)

E eu poderia ficar aqui transcrevendo trechos de vários poemas do livro, mas não quero tirar a graça dessa leitura. Porque esse livro de Szymborksa é um daqueles livros fragmentários que você vai descobrindo a graça individual de cada um dos poemas. É como um disco dos Beatles: primeiro uma música dele é a sua música favorita, depois outra, depois outra e depois outra, até que todas as faixas passaram pelo menos uma vez pelo título de canção favorita da banda. Tudo aqui tem o seu valor e nenhuma destas poesias está fora do alcance do leitor comum. Acho que esse é um legado que Szymborska deixa para o mundo da poesia, principalmente num país onde existem pessoas como o Arnaldo Antunes: sê simples e sê palatável, pobre poeta. Nada de querer fazer a nova poesia concretista, o verso livre preso a significados ocultos, o hexâmero dactílico do século 21, pára com essas palhaçadas e sê modesto, que aí quem sabe as pessoas começam a gostar de poesia de novo.

Esse projeto da Companhia das Letras é feito, ao que parece, para uma série de prêmios Nobel majoritariamente poetas, como ela e o Derek Walcott, que foi publicado com seus Omeros (que vai na contramão de tudo que eu acabei de aconselhar). O lance é simples: foto do cabra da peste na capa, código de barra na capa, símbolo do prêmio Nobel na contra-capa e lombada e contra-capa da mesma cor do box com o título. Essa foto da capa que escolheram é um charme. Qualquer senhorinha fazendo essa fumaça com o crivo pareceria a legítima bruxa veia, mas ela parece tão doce e feliz fumando esse cigarrinho que a gente só quer abraçá-la e ficar impregnado com esse cheiro maldito de nicotina. Papel pólen de alta gramatura e fonte Meridien, que até então nunca tinha visto em livro nenhum (ou pelo menos assim me lembro). Maravilhoso livrinho, recomendadíssimo.

Ps: poxa vida, vocês não vão me mandar seus autógrafos?

Comentário final: 165 páginas em papel pólen soft. Tirando as Flores do Mal e a Odisseia, esse é um dos livros de poema que mais machuca se tacado direto na cabeça.

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Hansjörg Schertenleib – A Orquestra da Chuva (Das Regenorchester)

Das regenorchesterUma das coisas mais legais que o wordpress já fez por nós, mortais blogueiros, foi colocar o pais de onde vieram as visitas. A gente se sente poderosão, recebendo leitores do mundo inteiro, até de uns lugares que eu, do alto da minha ignorância, nem sabia que existiam, como as Ilhas Virgens Britânicas e Guam. E a maior surpresa: os albaneses veem em peso para cá, atrás apenas dos americanos, dos portugueses e dos brasileiros. Quem diria… A internet é mesmo essa comunidade global de leitores, é tudo tão bonito, me sinto dando as mãos com o mundo num gesto bem nojeto, tipo daquele filme O Albergue Espanhol (já viram esse lixo? Espero que não…).

Pois muito bem! Schertenleib, já que o Jarobas botou pressão do tipo “inacreditável! Nenhum livro do Schertenleib por aqui”, como se a presença ou ausência do autor definisse a qualidade da nossa seleção. Bom, pra falar a verdade, eu não tenho completa certeza de que não define, então por via das dúvidas, eis aqui o último livro do suíço maconheiro que saiu no Brasil: A Orquestra da Chuva.

Primeiramente, há de se dar um crédito por esse título meio bucólico, meio ecochato, meio grandiloquente. “Então, o que você está lendo?”, “Ah, tô lendo A Orquestra da Chuva, do Hansjörg Schertenleib…”. Repare como a junção do título do livro com o autor passa rapidamente a ideia de que você na verdade está lendo “O sentido da vida”, por Deus Todo Poderoso, porque na nossa cabeça, quanto mais germânico soa um nome, mais bacanudo o sujeito deve ser. Por exemplo, Günter Grass é um prêmio Nobel com um nome mnemônico, G.G., sonoro, fácil de lembrar. Agora, Friedrich Nietzsche já é outro nível. Veja como é complicado! Veja o encontro entre as consoantes tzsch, que embaralha a vista de primeira, veja como não dá pra falar Friedrich sem parecer um pedantão formado nas maiores escolas de livres pensantes do universo. A mesma coisa acontece com Hansjörg Schertenleib – efeito que se estragaria de primeira se ele escrevesse um livro de nome prosaico, como “Julia” ou “A Casa das Mil Janelas” ou “O Ônibus da Madrugada”. O nome A Orquestra da Chuva, longe de ser objetivo, é enigmático, grandioso, sugere grandes insights e grandes obras primas contidas dentro de si. Se escolher o livro pela capa é algo moralmente condenável, tente escolher pelo título, pois. A Orquestra da Chuva passa nesse critério e o resultado é aprazível.

O livro conta a história de um escritor – escritor gosta de escrever sobre escritor como se escritores fossem a raça mais abundante desse planeta de meu Deus – suíço que migra para a Irlanda com a esposa, de mala e cuia. E acontece o quê? O quê? A mulé deixa o cara, muito provavelmente troca ele por um gigante irlandês do naipe do vocalista do Matanza. Então não só ele é devastado pelo abandono como também está num país estranho onde pouca gente fala alemão (ele é da parte da Suíça onde as pessoas falam alemão… deve ser a parte mais nojentinha da Suíça), onde não conhece ninguém e por aí vai. É nessas que ele conhece a Niahm, uma moçoila velhinha e meio louca que na minha cabeça tem a cara daquela senhorinha dos pombos do Esqueçeram de Mim 2 – Perdido em Nova York. Ela começa a encher o saco dele para que ele escreva a história da vida dela, porque fica sabendo que ele é escritor, e ele, pra ver se matava o tempo e superava a dor de cotovelo, resolveu aceitar. E é aí que ele vê que a história dele é pito perto da história da Niahm. Não só ela também foi abandonada em um país estrangeiro como também foi largada sem dinheiro, grávida e cheia dos perrengues por um ricão que lhe prometeu juras infindadas de amor – o tipo do papo que toda gatinha já deve ter ouvido de um canalha que só queria dar uma comida em alguém, e até aceitado dependendo da carência ou da inocência.

Paralelo a esse processo – e aqui as duas narrativas se alternam ao longo do romance – o protagonista, cujo nomes já esqueci, tenta encontrar meios de superar a mulher. Veja, o cara não está mais naquela idade de que cura pé na bunda com night, balada, putaria, stronda, etc. Ele tá numa daquelas que já sabe que virou a curva da meia-idade e quer só encontrar alguém pra não morrer sozinho. Então começa a levantar a moral com positividade: volta a ouvir a música de Bob Marley e volta a fumar maconha – algo que pode basicamente ser enquadrado no complexo de sintomas comumente chamado de “a idade do lobo”. Mas também frequenta um grupo de solteiros abandonados para ver se supera a dor, enfim, só faltou mesmo fazer igual a um personagem do Houellebecq e se mandar para um acampamento espiritual.

Mas no final, o que importa mesmo é que ele supera a dor de ter sido deixado sozinho, sem a ajuda de nada disso. Uma parada do tipo don’t worry about a thing because every little thing is gonna be alright, man. E é isso que eu acho que é o ponto central do livro: como a vida da gente se resolve sozinho e como o que a gente tenta fazer para consertá-las não é nem de longe equiparável à força do tempo. Tão pequenos nós somos como humanos e tão impotentes, incapazes de lidar com nossos próprios problemas e incapazes de nos perceber incapazes. Tá, sei que essa não é a resenha mais engraçada que eu já fiz, mas o Livrada! é fiel ao estado de espírito do autor a cada dia, e nem sempre eu me sinto engraçadão, e acho que essa parada de superar o pé na bunda um assunto sério do qual muita gente já experimentou e buscou literatura especializada para tentar superar também. Então, taí, pra quem foi chutado, Schertenleib é o equivalente literário de se escutar Reginaldo Rossi (ou Leonard Cohen, se você gostar mais de sofrer em inglês).

A escrita do autor é o que a gente pode considerar “hum… normal”. O cara tem lá seus momentos esporádicos de genialidade, mas no mais, a voz é tão genérica quanto a próxima: uma prosa bonita e nada mais.  É difícil pra mim conseguir enxergar estilo em autores que escrevem em alemão, a menos que seja um Kafka da vida. Acho que passa muito pela tradução, mas quem sabe o cara tem uma escrita fenomenal e aqui não passa mais do que um “… meh…”

Esse livro foi editado pela Grua Livros, uma editora pequena e jovem, que já tinha publicado outro livro do Schertenleib, Os Inomináveis – que, ao que parece, é mais representativo da obra dele.  O projeto gráfico da editora é bem legal, papel pólen e uma fonte bem confortável de ler. Infelizmente, não vou poder acrescentar mais detalhes porque não tenho o livro aqui comigo, então acreditem apenas na minha palavra de que é legal e se quiserem, leiam o Schertenleib, que pelo menos tirar uma ondinha de ler autor de nome complicado vocês vão.

E já falei, já pedi e agora estou implorando: mandem suas fotinhas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com, para a nossa próxima sessão de hábitos de leitura. Serião, gente, vai ser legal, manda aí.

Comentário final: 248 páginas em papel pólen soft. Uma catapimba no seu cocoruto, e um brinde às gírias idosas!

Ps: No post anterior, sobre os dois anos do blog, pedi que vocês divulgassem para quem pudessem o Livrada!. Gostaria de agradecer a todos pela gentileza, esta foi a semana mais visitada da história do blog! Continuem, se quiserem, é claro!

Dois anos!

É, galera, dia oito de abril entrou para a seleta lista de datas comemorativas na minha vida por causa desse singelo blog que há dois anos lancei sem muita pretensão, mal imaginando o sucesso que seria. Como sempre, fico meio emotivo pra escrever essas paradas, porque ganhei leitores e amigos, conheci gente do Brasil inteiro e do além-mar inclusive, dos caros irmãos portugueses que encontraram nesse mal diagramado espaço uma fonte para saciar sua curiosidade sobre títulos de literatura nacional, fui indicado a prêmios (embora não tenha ganhado nenhum), ganhei dinheiro, ganhei livros, ganhei fãs, ganhei críticas, ganhei inimigos, ganhei estágios, ganhei propostas de trabalho, enfim, ganhei o prazer de escrever sobre uma das coisas que mais gosto e ser lido, algo de que pouca gente pode se orgulhar. Nesses dois anos, nos quais primeiro publiquei resenhas diárias, depois semanais, depois duas vezes na semana e por último quinzenais, comentei cerca de 130 livros do que considero alta literatura, falei sobre hábitos de leitura e mesmo comentei algumas notícias, como a morte de Saramago e a vitória de Vargas Llosa.

E, sabe quando uma loja de eletrodomésticos faz aniversário e algum publicitário gênio inventa de falar “o aniversário é nosso, mas quem ganha o presente é você”? Então, aqui no Livrada! é mais ou menos isso, só que ao contrário. No aniversário do blog, quem ganha o presente é o blog, ora bolas! E o presente que esse blog precisava era mesmo alguma boa alma que se proponha a repaginar esse layout fédido e criar uma logomarca decente, mas isso não posso pedir porque não tenho dinheiro para pagar (se alguém quiser mandar esse depoimento triste para o Luciano Huck, eu me disponho a ir lá chorar de emoção num quadro estilo Lata Velha que reforma blogs). Então queria pedir algo que é simples, grátis e que todos podem colaborar: no dia de hoje, que é páscoa, eu sei, mas no dia de hoje e também durante essa semana, divulguem o Livrada! Convidem seus amigos a curtirem a página no Facebook, tuíte sobre ele no seu twitter, pendure uma folha de caderno com a url dele no mural da sua faculdade, fofoque sobre ele no seu grupo de oração, peça para a Sandra Annenberg falar dele no Jornal Hoje, enfim, seja gentil com o Livrada!, que sempre esteve aqui para entretê-los e, de certa maneira, aculturá-los sem nunca pedir nada em troca, que tal? O que ganhamos com isso? Mais leitores, mais amigos, mais inimigos, mais tudo! Se sobrar tempo, depois de fazer o Kony famoso, vamos fazer o mesmo com o Livrada! em 2012, só que sem a parte de caçar e matar ninguém, hein?

É isso, meus camaradas, agradeço mais uma vez a todos vocês que leem, assinam, acompanham ou só passam de vez em quando por aqui. Fiquem bem e em paz!

E o convite ainda está de pé! Mande seu autógrafo favorito para bloglivrada@gmail.com e compartilharemos histórias!

Yu Hua – Viver (活着)

Primeiro de abril. O dia da mentira. Por que diabos a mentira tem um dia? Não fui correr atrás da história, que tenho certeza ser embasada em inocentes ou boas intenções, mas o fato é que mentira, para os que dividem o mundo em dois pólos, faz parte do lado negro da força. E talvez seja o único lobo em pele de cordeiro que abraçamos no nosso calendário e ainda permitimo-nos com isso velejar pelas águas maléficas daquela que tem a perna curta. Ora, por que não inventar um dia do estupro e estuprar a torto e a direito? Um dia da inveja para cometermos o pecado capital mais capital que existe? Um dia da calúnia para denegrirmos o próximo? Um dia do D.U.I. para matarmos pedestres como filhos de celebridade? Não? A mentira é uma coisinha boba de nada? A mentira de Orson Welles lendo H.G. Wells no rádio não foi coisa boba, a mentira de Judas criou uma religião e a mentira de George W. Bush colocou um país em guerra. Lembrem-se disso, abracem a culpa. Cilício na coxa de todo mundo hoje à noite!

Ok ok, vamos parar com a brincadeira e mandar o recado sério: tem em casa algum livro autografado de uma maneira especial, ou com uma história boa por trás do autógrafo? Mande uma foto para bloglivrada@gmail.com contando um pouquinho da saga dele, que vai ser legal. Os primeiros e-mails já chegaram. E você? Vai ficar de fora? (tosqueira publicitária que se infesta no nosso piloto automático).

E vamos ao livro de hoje, porque hoje tem livro que presta. Yu Hua, esse chinês maluco, é a minha mais nova grande descoberta literária. Onde eu estava quando seus livros saíram? São tristes, maravilhosos, viciantes e acachapantes! No começo do ano havia lido Crônica de um Vendedor de Sangue e, impressionado com a leitura, resolvi correr atrás desse que disseram ser um dos grandes clássicos dele: Viver, que foi adaptado para o cinema em 1994 sob os cuidados de ninguém menos do que Yimou Zhang – que ficou mais conhecido por dirigir filmes de espadachins voadores do tipo Herói e O Clã das Adagas Voadoras.

Sabe aqueles elogios rasgados que as editoras colocam na capa na vã esperança de que alguém olhe e pense: “Nossa, se a Nesweek falou que é surpreendente, brilhante e arrebatador, então deve ser bom mesmo. Vou comprar”? Pois bem, o desse livro, assinado misteriosamente pelo Washington Post (o autor pouco importa, né? Pode ter sido o comentarista esportivo) diz “Nesta história de luta e sobrevivência, Yu Hua cria imagens inesquecíveis”. Pois o sr. Washington Post não poderia ser mais certeiro em seu comentário. Viver é sobre isso, sobre imagens inesquecíveis que vão te dar um aperto na boca do estômago a cada vez que você se lembrar delas.

A história é a seguinte: um sujeito passa pela zona rural da China coletando causos, músicas populares, enfim, um desses carimbós com os dois pés enterrados na lama do regionalismo querendo resgatar a memória sertaneja, coisa e tal. Nessas, encontra um velhinho tomando conta de um búfalo igualmente velho, e o velho resolve contar a história da vida dele. E aí senta que lá vem estória: está no ar um clássico romance de formação, da infância até a terceira idade.

O velho em questão é Fugui, o filho perdulário de um próspero, mas igualmente perdulário latifundiário (ários, ários, ários). Fugui não quer saber de estudar e quando cresce, só sabe perder dinheiro na jogatina e maltratar a esposa, até que perde toda a propriedade do pai na mesa de dados, e aí precisa virar um homem da roça. O pai do rapaz, coitado, morre de desgosto e a mulher vai pra labuta diária, mesmo grávida. Até que um dia a mãe de Fugui cai doente e ele precisa ir à cidade buscar remédios pra ela. Pois não é que quando ele chega lá, é “recrutado” à força pelas tropas do general Chiang Kai-shek e levado ao campo de batalha. A partir daí, filhão, é ladeira abaixo nas tristezas da vida. Manja aquele bordão que diz que nada é tão ruim que não possa piorar? Esse livro comprova essa máxima ao máximo! Contar mais do que isso é muito spoiler, mas digamos que Fugui e sua família enfrentam a partir daí todos aqueles anos críticos da história da China do século 20: o grande passo adiante, a revolução cultural, e etc. Exatamente, o mesmo período de tempo de todos os romances de Yu Hua.

É tão legal quando um escritor se obceca com algum período ou algum tema e não se torna um panfletário chatão (como meu querido Spike Lee chega a ser algumas vezes). Gosto de pensar que em algum momento, todos os personagens de Yu Hua se encontraram ou se viram na rua em algum momento. Todos compartilharam os mesmos perrengues, só que em situações diferentes. E eu acho que a principal mensagem que o autor passa com essas histórias é que na China a vida é difícil, mas aí vem o governo e torna ela dez vezes pior. Tomemos como exemplo o episódio conhecido como O Grande Salto Adiante, quando a China resolveu industrializar as cidades e socializar o campo, e as pessoas tiveram que doar seus woks (aqueles panelões de fazer yakisoba) para fundir o metal e construir material bélico e fábricas e vinte milhões de chinas morreram de fome no final dessa brincadeira. A China, antes de ser comunista, é liberal porca (liberal no sentido brasileiro da palavra), trabalhando às custas da população e tudo mais, mas o episódio dos woks marcou mesmo Yu Hua, porque ele fala disso sempre que pode. A mensagem é clara: mesmo tirar a ferramenta que produz o alimento de uma família é algo a que o governo não se furta quando o assunto é passar a frente.

Ao mesmo tempo, a vida tem seus percalços e seus mistérios. Uma doença, uma falha no caráter, um alinhamento errado dos planetas que faz pequenas cagadinhas se juntarem numa cagadona, quem nunca passou por isso? Uma análise matemática do livro vai mostrar que exatamente a metade dele é arruinada pelo governo e a outra metade é arruinada pela falha de caráter das pessoas e problemas de saúde/casualidades. Quando eu digo que o livro é arruinado eu quero dizer que a trama, que teria tudo para ser bela e redentora e acaba sendo uma desgraceira que só. Sério, galera, Viver é a parada mais triste que eu já li em anos, e olha que eu leio livro tiste quase todo mês. Acho que em mateira de sofrimento e desespero, nem Kafka chega perto desse chinês aí da foto (na verdade posso ter pego a foto de outro chinês, não saberia dizer, todos se parecem pra mim). Não posso contar o porquê porque estragaria o livro, mas dá vontade de levar esse cara pra dar uma volta na roda-gigante pra ver se ele fica mais numa nice. Eu estava esperando algo mais na linha Morte e Vida Severina, Vida e Época de Michael K, mas Viver ultrapassa a barreira do suportável para qualquer personagem de qualquer livro.

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras destoa dos outros dois livros do autor publicado por ela. Mas, por outro lado, esse foi lançado primeiro, e acho válido pensar em novas formas para o livro quando se pretende lançar mais títulos. Mesmo assim, fonte Electra, papel pólen e uma linda foto de capa, mascarado pelo Azul Incomodante #3. Diferentemente do Crônicas de um Vendedor de Sangue, esse livro foi traduzido diretamente do chinês pela nossa heroína do dia, Márcia Schmaltz. Todos os respeitos prestados à sra. Schmaltz! E ficamos por aqui. Perdoem-me se a resenha não estava tão boa como de costume, mas a vida tem dessas. Às vezes somos felizes, às vezes não.

Comentário final: 210 páginas em papel pólen soft. Alimenta um urso Panda por algumas horas.