Nikolai Gógol – Avenida Niévski (Niesvki Prospiekt Невский проспект)

GógolE você veio aqui todo feliz em pleno feriado de Tiradentes e não achou nenhuma novidade, gritou “Ó senhor Nego Dito, por que nos abandonastes?”, e eu, calmamente, vos respondo: tava descansando. Também sou filho de Deus e também tenho direito a relaxar e eu não preciso de mais nada além do meu surf, minhas bongadas, meu dinheiro, meu fileto, meu skank e a minha gata, pra citar aqui o falecido Gabriel García Marquez. Mas vim aqui correndo no dia seguinte entregar um novo comentário, ou resenha, ou crítica, ou do que quer que você queira chamar essa conversa solitária que travo aqui com um livro na mão toda semana.

E o da semana é curtinho, mas instigante. Avenida Niévski, do Gógol, esse cara porreta que não nega fogo. A gente sabe que tá cheio de blog aí comentando nicholas sparks e meg cabot (em minúsculas) e adjacentes porque as pessoas têm medo de falar desses livros de gente grande. Mas aqui a gente não tem medo dessas coisas e, ainda que quebre a cara aqui falando merda, vou tecer um comentário de substância sobre esse conto que faz parte da série petersburguesa que Gógol escreveu entre 1832 e 1842.

Bom, a Avenida Niévski, para quem não sabe, é a Rambla, a Rua XV, a Champs Elyseés, a Unter den Linden de São Petersburgo, a cidade quente da Rússia e então, à época da escrita, em 1835, capital do império Russo do czar Nicolau I, aquele que fez miséria no Cáucaso e na Anatólia pra mostrar que não tava de brincadeira. São Petersburgo já havia sido capital do império Russo antes, e apenas por um breve período de quatro anos, entre 1928 e 1932, perdeu o posto pra Moscou, por conta de um certo Pedro II que não é o nosso, mas que também fez lá suas merdinhas por aí. Fato é que foi durante capital durante duzentos anos não consecutivos, de 1713 a 1918 – um ano em que a única coisa que continuou de pé naquelas bandas foi o idioma e a birita. De modo que, quando Gógol escreveu sobre sua principal via, São Petersburgo já era o point do império, que inspirava modernidade agitação e artificialismos, enquanto Moscou ficava com aquela aura do Rio de Janeiro, dominando a cultura mas ressentido da importância perdida. Essa edição, aliás, vem com um caderninho chamado Notas de Petersburgo de 1836, em que Gógol mais ou menos ilustra isso. Mas falemos disso depois.

Mesmo assim, o autor faz o elogio à Avenida Niévski como um lugar falso, rápido, místico e cosmopolita. Começa narrando o que se observa na via desde suas primeiras horas até o final da noite e, quando você menos espera, aparece um personagem aí, um pintor que morre de amor por uma mulher mimada e rica que não quer saber dele, a quem encontra por acaso na Avenida Niévski. A partir dessa história, emenda-se outra, sobre o policial que se apaixona pela esposa de um ferreiro alemão. E a coisa fica por aí, e termina com mais uma crônica pedrobialesca (não é pra ficar se achando não, Bial, tô só tirando uma com a sua cara) sobre o aspecto ilusório da rua. Isso é o que posso adiantar sem estragar parte da diversão pra vocês, e talvez seja o suficiente para comentarmos.

Микола ГогольBom, em primeiro lugar, qual é a do Gógol em descrever esse lugar que todo mundo já conhece há tempos como sendo tão especial assim? Bom, podemos parar aqui e traçar um paralelo com um dos grandes livros do autor, Tarás Bulba, que resenhamos aqui em algum dia do ano passado (provavelmente nessa mesma época, aliás). Acho que consegui entrever um elo de ligação entre essas duas histórias e isso pode fazer sentido pro comentário. Bom, em Tarás Bulba, temos um velho inconformado com a bunda-molice das novas gerações e resolve pegar os filhos recém-formados na universidade, montar uma milícia e começar uma guerra santa aí porque sim. Não é preciso nem ler o livro pra saber que uma ideia dessa só pode terminar em merda, e Gógol conta isso de uma maneira a ilustrar que o que fez o império russo não se sustenta mais na modernidade por razões civilizatórias altamente necessárias para o bom funcionamento de um império grande como aquele. Em Avenida Niévski, a própria avenida é um personagem (aí, me amarro quando a galera intelectual fala que o cenário é um personagem pela insistência do autor em descrever o lugar. Parece algo tão profundo e misterioso dizer que um lugar é um personagem, aposto que os críticos e os mediadores que falam isso comem muita mulher depois), e é uma avenida que promove encontros aleatórios entre pessoas diferentes, cria problemas e resolve problemas também. A Avenida é então símbolo do caos dos grandes centros e isso é assustador para o narrador. Mas, ao mesmo tempo, ele se mostra algo como compreensivo com as loucuras da Avenida, um lugar maravilhoso. Gógol se mostra então um cara que gosta dos tempos antigos, mas sabe que eles acabaram e que devem ficar no passado. Ele é um tipo nostálgico pé no chão, que não quer desenterrar as coisas, mas que também não deixa de ter medo dos novos tempos.

Os desencontros da Avenida Niévski estão representados nas duas histórias malfadadas de amor que o conto traz. A beleza e sabedoria do lugar é descrita no final da segunda história. O cosmopolitismo, no começo da narrativa. E, por fim, o medo que a cidade deixa na impressão do narrador, em seu comentário final. É bem impressionante esse caráter híbrido do livro, que é meio crônica, meio narrativa, principalmente porque é um livro bem curtinho. Por isso acho que ele capta bem o espírito que Gógol queria com seu tempo e com seu lugar. E acho que nessa descrição, ele conseguiu dar movimento pra um cenário estático para todos os efeitos. Bom, hein?

Agora, bom mesmo é o bagulho que os designers da Cosacnaify fumaram pra criar esse projeto gráfico. É uma das coisas mais ousadas que já vi em termos de livro, e olha que já li algumas coisas da Cosac bem diferentonas no formato. Bom, esse livro vem embrulhado em um jornal russo do ano em que o livro foi publicado (As notícias falam de um Duque da Áustria que quer viajar pra não sei onde e outras abobrinhas do tipo), e vem com a crônica anexa em um caderninho todo verde, em que Gógol fala sobre São Petersburgo em contraposição à Moscou, e mete o pau em umas coisas culturais da cidade. Não achei muito divertido de ler, mas talvez isso seja porque eu não conheço nenhuma das cidades, não sei. O livro em si tem o texto das páginas divididos em duas metades horizontais, uma laranja e outra azul, espelhada a essa primeira. A ideia é que você leia a metade de cima das páginas até o final, vire o livro de cabeça pra baixo e siga lendo a parte azul até o começo de novo, que é ilustrado com litogravuras dos dois lados da avenida em questão. Li no site da Cosac que isso é para ilustrar o fluxo de mão dupla da avenida, como se fosse uma caminhada até o seu final, ida e volta. Bom, eu é que não vou ficar azedando a trip dos outros, então vou falar que a ideia é maneira mesmo e achei divertido ler assim. O livro tem 134 meias páginas, ou seja, 67 páginas. Mas uma coisa me incomodou profundamente, que é a numeração invertida das páginas: as ímpares ficam na esquerda! Que mundo maluco é esse? Não gostei, não façam mais isso, por favor.

Ah, e o mais importante sobre o cuidado com o livro que a editora geralmente tem com suas obras é que ele tem tradução do Rubens Figueiredo, um cara de quem eu queria muito ser amigo pra poder conversar sobre essas coisas (quem sabe ele me ensinasse a não falar tanta besteira nesse blog). Por isso, queria começar aqui a campanha RUBENS FIGUEIREDO: SEJA AMIGO DO LIVRADA! Vou deixar uma imagem aqui embaixo pra vocês postarem nos seus respectivos Facebooks pra ver se a mensagem chega até ele. Quem sabe ele me escreve, me convida pra comer um pão de queijo da próxima vez em que eu estiver em Copacabana e é o começo de uma linda amizade? Só depende de vocês, gente, vamos lá!

Livrada

Avenia Niévski cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

Comentário final: 134 meias páginas em papel munken pure rough. Espalhando papelzinho pela avenida, todo mundo, vai!

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Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…

Stanislaw Ponte Preta – Febeapá

FebeapáQuarta-feira, molecada! Mal a semana começou e já estamos chegando no meio dela, rumo ao glorioso feriado! Bem, nem tudo são flores: para os meus amigos militares, não é feriado, o sete de setembro, é uma data tão festiva, mais uma piada nessa terra tão querida (Blind Pigs entrando aqui no texto). Então, pra vocês é 1, 2, 1, 2, esquerda, direita, esquerda, direita, paga flexão, come gororoba, lambe o coturno, apanha o sabonete! Só não sinto pena porque vocês estão mais ricos do que eu.

Stanilslaw Ponte Preta: taí um autor que eu nunca quero que vocês conheçam, porque senão, esse blog vai ficar jogado às moscas. Ninguém nunca combinou tão bem inteligência, erudição, linguajar maroto e escrita fluida quanto Sérgio Porto, identidade secreta do Ponte Preta. E esse livro — é mentira, mesmo correndo o risco de ser abandonado, quero que vocês conheçam — é Stanislaw Ponte Preta em sua melhor forma.

Febeapá, para quem não sabe, é o Festival de Besteiras que Assola o país, um compêndio das asneiras que rolam na nossa sociedade e na nossa política, em especial na época da ditadura, período que Sérgio Porto cobriu intensamente. Se bem que, não é preciso ser muito esperto pra saber que besteira na política não é um privilégio da milicada. A única coisa que mudou é não temos mais quem faça esse trabalho sujo de Stanislaw, que morreu junto com seu alter-ego, precocemente, aos quarenta anos, de tanto trabalhar, eu imagino. O livro em questão compila os três volumes de Febeapá que saíram aí no mercado editorial da época, junto com umas crônicas ótimas e engraçadas, para quem quer dar umas risadas.

E é impressionante o quanto se conseguiu reunir em tão pouco tempo. A frase que abre o primeiro volume é a mais pura verdade: ou o Brasil acaba com a besteira ou a besteira acaba com o Brasil. Coisas absurdas como impedir que a Alemanha Oriental tocasse o hino do país durante um jogo de futebol, por ser um ato subversivo, ou uma batida policial no teatro para prender o tal do Sófocles, que escreveu essa peça suja cheia de sacanagem, ou ainda a tentativa de se instituir o “Dia do Pobre”, para homenagear essa grande parcela da população, ou um vereador de Mafra (SC), que queria pedir em plenário que se fabricassem fósforos de duas cabeças para economizar o pauzinho. Enfim, poderia ficar aqui contando várias histórias para atiçar o gosto de vocês, é e isso mesmo que vou fazer agora: prefeitos no Rio Grande do Sul que inauguram bebedouros públicos para cavalos e dão o primeiro gole com as mãos em concha, dizendo “Tá inaugurado, tchê!”; pessoas que mandam cartas para Belém, no Pará, e, os analfas do Correio que não entendem a letra, mandam para Berlim; um campeonato de futebol patrocinado pela Brahma, onde os locutores da Tv, ao saberem que tinha lá um jogador do Galo chamado Grapete (concorrente da Brahma), resolveram só chamar o sujeito de “Guaraná”. Já tão querendo correr para comprar esse livro? Ótimo, continuemos.

Sérgio PortoAs crônicas do livro, parte do compêndio do Febeapá, também são valiosíssimas. Nela, vemos a qualidade da veia humorística do autor, que criou uma família de personagens fictícios inesquecíveis, dos quais o mais presente é o primo Altamirando, o malandro maconheiro da família. Ele arruma negócios escusos, campeonatos de futebol com a bandidagem, com escalações hilárias que vieram muito antes do pessoal do Rockgol. E vários outros personagens esporádicos, todos com o seu valor, fazem o leitor vencer o calhamaço de páginas como se fosse uma volta no parque (jargão militar dos filmes de ação, adoro isso: “volta no parque”. Esse pessoal que acha fácil dar volta no parque deveria visitar ali o Jardim Botânico em um sábado de sol).

Quando Sérgio Porto morreu, morreu com ele parte desse humor montado na erudição, e as pessoas passaram a achar que a comédia é uma coisa feita de gente burra para gente retardada. E aí ferrou-se tudo, amigo, saiu neguinho por aí fazendo comédia romântica, sátira de filme de terror, seriados sobre amigos que dividem apartamentos, neguinho gravando vídeo no Youtube dizendo que odeia isso e odeia aquilo, etc. Temos, felizmente, alguns receptáculos desse legado, o mais bem sucedido no momento é o Xico Sá (em breve, resenha sobre ele). Acho uma pena, mas acredito nesses heróis que sobraram e que vão levar o movimento adiante.

A editora Agir é uma santa mesmo, relançando a obra completa do autor em livros maravilhosos, de papel pólen soft, fonte Bakersville, formato grande, cabeço vertical charmosão, e ilustrações do glorioso Jaguar, e são várias ilustrações, tipo, uma cacetada delas. Ponto, ponto, ponto! Esse livro ainda tem o prefácio de Millôr Fernandes e o posfácio da acadêmica Berenice Cavalcante, mostrando que há lugar para todos os leitores em Febeapá, e na literatura de Sérgio Porto de uma maneira geral.

Uma última curiosidade sobre o autor: ele foi o autor do Samba do Crioulo Doido, clássico do samba nacional, e inclusive recebeu, na ocasião, uma ligação do ex-presidente JK (tô abreviando porque acho complicadão escrever o nome dele), para agradecer a menção no começo do samba — a única parte coesa da música. O cara é demais ou não é?

“Mas Yuri, e o Lado A?” Ah, sim, claro, o Lado A, é lá na revista Paradoxo. Nessa semana, um livro da Natalia Ginzburg, da lindíssima coleção Mulheres Modernistas, da Cosac Naify. Corram lá!

Comentário final: 398 páginas pólen soft. Deixa você com orelha de lutador de jiu-jitsu.

Nelson Rodrigues – A vida como ela é…

Nelson Rodrigues! Essa pessoa amabilíssima, agradável, que quase nunca fala merda, que ama e dá aos pobres, que não faz ideia errada da gente, esse moço, pobre moço, que teve o azar de morrer no dia em que ganhou na loteria. Nelson Rodrigues era dessa época em que jornalista não era gente, salário não era dinheiro e dignidade não era poder (tá, isso não faz o menor sentido). O que eu quis dizer é que ele era daquele time de escritores enfurecidos que batiam as teclas até gastar as falanges. E como escrevia, este velhus decreptus. Como a época exigia quantidade em detrimento da qualidade, Nelson padronizou sua escrita.

Manja aqueles desenhos da Hanna-Barbera? Cenários que rolam ao fundo, cabeças que mexem enquanto o corpo fica parado pra não gastar com animação (isso, aliás, gerou toda a sorte de bizarrices como dinossauro de gravata, crocodilo de gravata, leão de gravata… Êta bicharada escrava do colarinho!) e eteceteras malandronas que colocaram a beleza dos desenhos da MGM numa situação inviável. Bom, Nelson Rodrigues fez algo parecido com seus textos. Elementos que sempre retornam, ideias que são marteladas, personagens frequentemente visitados, tudo isso fazia o ofício de sentar ali e escrever qualquer merda por dia uma coisa mais fácil.

Variações sobre mesmo tema. Eis o segredo do escritor em A vida como ela é… e outros textos. Assim como as letras de axé, as novelas do Manoel Carlos e os acordes dos Ramones, tudo em Nelson Rodrigues parece ser gerado por um software especializado. Mas pera lá, camarada! Isso não quer dizer que a obra do velhaco não tenha seu valor, muito menos que seja uma obra ruim. Nelson Rodrigues era foda, acho bom ninguém discutir nesse ponto. E A vida como ela é… taí pra martelar o dedo de quem discordar.

Historietas sobre os recalques da classe média e alta, tabus mil, tudo o que há de podre no reino da Dinamarca esse corno escreveu. Fica difícil criar alguma coisa depois disso. No livro, cem, eu disse CEM continhos estão publicados, e olha que não foram todos.

Ler esse livro de cabo a rabo (quem curte expressões de livro como “ler de cabo a rabo”, “ler numa sentada”, etc? Levanta a mão aí!) pode te causar náusea, e até mesmo odiar o autor. Vai dizer “porra, tudo a mesma coisa!”. Mas isso é pra você (e claro, pra mim. Eu só pareço velho), que não lia toda semana o seu espacinho no jornal. Por isso meu conselho é deixar esse livro na cabeceira e de vez em quando, ler algum.

E que coisas estranhas essas historinhas guardam! Meninas que morrem subitamente, com um golpe de ar — sério, que povo fraco é esse do meu Brasil?; mulheres que tratam seus maridos de “meu filho” como hein “Ih, meu filho, sua batata tá assando”. Gente que responde taxativamente “É batata!” pra tudo. “E ela morreu assim, subitamente, com um golpe de ar?” “Batata, meu filho!”. E tem mais, tem mais: gente que fica repetindo a mesma frase pra dar ênfase como em “E tem mais, tem mais!”; sujeitos com leves tendências pedófilas que chamam as gostosas de “pequena”; gente que fala “Tu és de morte”; motoristas de ônibus que atropelam os outros sem dó; garçonières em Copacabana, de amigos alcoviteiros (talvez naquela época Copacabana não fosse o lugar onde as pessoas mais eram vistas na face da terra); cartinhas anônimas pro corno lerdo, enfim, todo um universo que se repete e se rearranja de todas as maneiras possíveis. Isso, meus queridos, é Nelson Rodrigues em A vida como ela é… E nem me fale daquela versão televisiva que passava no Fantástico e era narrada pelo Zé Wilker, que aquilo me dá nojo. Melhor ler o livro mesmo.

O motivo principal pra preferir a história no livro do que na boca mole do Zé Wilker é essa edição da editora Agir. A editora Agir não era nada antes de ser comprada pela Ediouro. Deu uns cinco minutos nessa editora em 2004 em que tudo mudou! A cada dia me surpreendo mais com os projetos gráficos dela, e com a escolha de autores também. Fizeram esse livro gigantesco, lindo para o ano em que ele foi lançado (tem que ver que há uns dois anos fazer livro virou coisa séria pras editoras), apesar do MALDITO papel offset, de gramatura baixa ainda. De qualquer jeito, vale pela capa e pela falta de economia nas páginas. Mas não tente carregar ele por aí, você só vai se fuder, e seu massagista vai ficar rico.

SOBRE A PROMOÇÃO: Tô gostando de ver a galera comentando aí. O comentário de número 500 vai ganhar o livro Plataforma, do francês boiolinha Michel Houellebecq. Literatura de primeira para os meus leitores de primeira (sentiu a puxada de saco? Então comenta aí, cacete!).

Comentário final: 605 páginas em offset. O livro que extinguiu os dinossauros.

Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)

Estenda sua mão, dê um pescotapa e diga “se liga, mané”  em quem disser que Pedro Juan Gutiérrez escreve de um jeito bem parecido ao de Charles Bukowski. Essa afirmação é de uma imbecilidade que deveríamos ignorar, mas, ao invés disso, vamos explicar direitinho, para encerrar qualquer discussão.

Embora o Realismo Sujo (gênero de Gutiérrez) tenha alguns elementos físicos da literatura beatnik (de Bukowski), a forma como esses elementos são tratados é bem diferente. A principal diferença é que no Realismo, os espaços urbanos não são concebidos para serem o que são, e o personagem realista transite por esse espaço como um estranho, ao passo que os beats (bear, beats, battlestar gallactica) são incorporados ao lugar e sua destruição (boemias, sarjetas, bàs-fonds, etc). É uma explicaçãozinha meio rápida e vazia, mas se você quer aprender alguma coisa a fundo, sugiro não tentar fazê-lo em blogs.

Dizem que o cubano Pedro Juan resolveu escrever esse livro depois de ver uma criança fuçando o lixo em busca de comida, em plena Havana. É uma imagem poética para uma realidade ainda mais dura. Cuba passava por uma grande crise na década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, a única amiguinha daquela ilhota em mais de cinquenta anos. Não havia comida, dinheiro, remédios, energia, nada. A maioria dos veículos de comunicação havia sido fechada por intervenção do governo. Para piorar, a vida do autor ia de mal a pior. Tinha três filhos para sustentar (sendo um bastardo), ganhava três dólares por mês e sua mulher estava a ponto de deixá-lo quando descobriu que ele tinha pelo menos umas seis amantes. Ficou completamente abandonado. E então escreveu essa coletânea de contos duros, crueis e desencantados com a realidade do país.

Tem de tudo na Trilogia Suja. Estupro, tráfico de órgãos, de drogas, de comida, tráfico de tudo na verdade, assaltos, assassinatos, e muito sexo, sempre. A literatura de Pedro Juan recende a cecê de longe. Difícil ler este livro e não se sentir incomodado pelas situações ali descritas, em uma mistura de ficção e realidade.

Hoje em dia, a edição que se encontra é a da Alfaguara (por isso mesmo vou colocar a tag na editora), mas eu li a publicação da Companhia das Letras. Um livro menor em tamanho, com uma fotografia sensacional na capa. Em tons pastéis, o fotógrafo captou muito bem a essência da literatura e da  Cuba de Gutiérrez (aliás, as fotos dos outros livros do autor também são sensacionais). A edição da Alfaguara tem um acabamento característico da editora, que é de excelente qualidade. A capa porém, preferiu privilegiar essa pluralidade (cheio de palavra com pê, hein?) de elementos da cultura latino-americana, colorida e um pouco sombria no conjunto. É bem da cultura cubana, mas pouco tem a ver com a escrita do autor.

Fui apresentado à sua literatura pela amada Carla Cursino, e hoje digo a todos: Leiam Pedro Juan Gutiérrez e sua Trilogia Suja.

Comentário Final: 382 páginas pólen soft molengas. Se quiser fazer estrago mesmo, melhor bater com a edição da Alfaguara.