Ernest Hemingway – Adeus às Armas (A Farewell to Arms)

farewell to armsSei que todo mundo vibra de emoção por aqui quando eu começo a falar de um clássico moderno da literatura. Quer dizer, saber, eu não sei. Eu suponho, já que geralmente são os comentários mais alardeados sobre o assunto, e não vejo ninguém vibrando por livros mais desconhecidos ou clássicos clássicos, desses que na grafia do português original é cheio de acento onde não deve. Bom, clássicos modernos são esses livros que todo mundo gosta de ler mas não necessariamente são tão bons assim. Alguns gostam mais e enchem de porrada quem fala mal e outros gostam menos e passam a vida esgueirando-se pelos cantos para não ser apontado e escurraçado na rua como “o sujeito que falou mal de Camus” ou “aquele cara que não curte Cortázar” e por aí vai. Fato é que é muito difícil identificar um clássico moderno como tal porque não há outro parâmetro a não ser o gosto popular e o quanto ele discutido em sala de aula por crianças que não têm idade para lê-lo. Mas, acredito eu, que Hemingway seja um desses autores clássicos modernos que alimentam a alma de pessoas intelectualmente díspares e frequentemente pelas mesmas razões.

Senão vejamos: Adeus às Armas foi publicado em 1929 e, salvo engano, foi um dos primeiros livros ambientados na Primeira Guerra Mundial, o que já mostra um delay grande da literatura em relação a outras artes representativas, porque o que surgiu de filme sobre o onze de setembro uns dois ou três anos depois não tá no gibi. Mas onde é que eu estava? Ah sim. Bom, Hemingway, no fim da Primeira Guerra, era um jovem mancebo de 17 anos, mas isso não o impediu de se alistar como motorista de ambulância na Itália. Coincidentemente, olha só, o protagonista do livro também é um americano motorista de ambulância na Itália a serviço dos italianos. Frederic Henry é um cara jovem e inacreditavelmente neutro para um protagonista. Não dá pra saber porcaria nenhuma sobre a personalidade dele pelas atitudes que ele tem, e isso não necessariamente quer dizer que ele seja imprevisível ou apático, apenas que o autor não teve muita preocupação com isso. Os personagens do Hemingway, de uma maneira geral, são muito rasos e levados pelos acontecimentos. Quase sempre têm um único traço de personalidade que é repetido ao extremo, mas não dá pra culpar o cara por isso porque primeiro que construir um bom personagem é uma tarefa tão difícil que tem escritor por aí que fica famoso só por causa disso sendo que a história em si é uma porcaria, e segundo que ele se interessa mesmo é em contar história.

Ernest HemingwayE essa história, que se passa na Primeira Guerra Mundial e tem como protagonista um motorista de ambulância americano a serviço do exército italiano chamado Frederic Henry, fala de um caso de amor entre esse cara em específico e uma enfermeira escocesa louca de pedra chamada Catherine Barkley depois que ele é ferido em campo de batalha. É basicamente isso, não tem muito pra contar da história além desse resumo básico. O que podemos dizer é que eles tentam viver juntos mas esse é um mundo enlouquecido pela guerra em que as pessoas fuzilam traidores que recuam e todos estão obcecados pelo poder e a Itália tá numa pior nessa guerra aí e precisando desesperadamente de ajuda e pra eles só resta a fuga para Suíça. E aí nesse parágrafo já coloquei mais spoiler do que vocês gostariam e não avisei que tem spoiler porque senão vocês ficam mal acostumados. Cresçam.

Bom, Adeus às Armas tem aquela coisa hemingwayniana de macho que também chora, macho que só quer ser feliz mas o mundo é mais macho que ele, macho machucado, macho derrotado porque não foi tão macho, macho que não tem medo de nada a não ser de outros machos mais machos e etc. Mas também é uma história singela e bonita, escrita naquele naturalismo maroto, sem qualquer retoque na narrativa, um troço meio jornalísitico que salta aos olhos e agrada a maioria das pessoas porque é muito fácil vencer 400 páginas assim. Eu mesmo que não ando dos leitores mais ágeis do mundo, li em uns três dias. Acho massa inclusive que o tom do livro é muito leve e meio que se antecipa à censura dos filmes americanos, já que o autor não menciona o sexo entre os personagens, mas apenas sugere com eufemismos e imediatamente corta pra cena seguinte. As cenas de morte, entretanto, são descritas muito bem. É, parece mesmo cinema americano. Inacreditável como os caras não têm problema nenhum com violência, mas não podem ver uma mulher pelada que saem gritando em nome da família e do bom comportamento. Mas isso é assunto pra outra hora.

A edição da Bertrand Brasil tá muito bonita, e finalmente faz jus ao autor. Fonte grande, capas gráficas, papel jornal amarelado e bonito, cabeço e paginação juntas no topo da página e a assinatura do mestre no lugar do nome dele. Achei bem melhor do que a coleção antiga, e parece que tá saindo mais. Vamos ficar de olho.

Comentário final: 402 páginas em papel jornal (ou tipo papel jornal, sei lá). Macho não vacila, macho arrasa, macho não leva desaforo pra casa.

Natalia Ginzburg – Caro Michele

Alô você! Parabéns, conseguiu chegar vivo até o começo de dezembro, e até o meio da semana (sabia que quarta-feira em alemão é Mittwoch, sendo mitt = meio e woche = semana? Livrada! também é cultura, malandro!).

E olha só, não costumo falar isso aqui, mas eu tenho uma banda de roque que se chama Sua bunda. Pois bem, Sua bunda vai se apresentar nesse fim de semana no Hermes bar (se tiver interesse em ir, só mandar e-mail) e vai ser legal. Tocamos um funk metal satírico e entretemos a audiência com muito humor e pauleira. Plim-plim, cabô o comercial.

O livro de hoje tem o mesmo título em italiano e em português, por isso não precisei dos parênteses com o título original. Trata-se de um livrinho bacaninha demais de uma escritora italiana chamada Natalia Ginzburg. A moça defendeu causas nobres em vida, deu uma de antifa no rabo dos que cismaram em dar as caras na Itália depois que o Ducce foi pro pau. E, entre uma antifada e outra, escreveu este belo livro, singelo por fora, mas intenso, triste, revoltante, arrebatador, surpreendente e emocionante por dentro. (Aprendi com as resenhas de filmes que saem nas capas a classificar as coisas com os adjetivos ‘arrebatador’, ‘surpreendente’ e ‘emocionante’.) Falemos dele então.

Caro Michele é um livro totalmente (ou quase totalmente) contado por meio de cartas, endereçadas ao tal do Michele. Bom, nem sempre, a maioria das cartas são para outras pessoas, mas todas elas, ou quase todas, falam do Michele, que é um jovenzinho estudante meio porralouquinha que tá perdido na vida, morando fora de casa e preocupando a mãezinha dele, que se vê às voltas com a vida que o filho deixou para trás: amigos do filho, problemas do filho, ex-namoradas do filho, etc. O Michele mesmo não dá muito sinal de vida. Aparece com uma namorada meio doida, meio hippie, e depois arruma outra, mais velha, que quer se mudar com ele pra não sei onde. De vez em quando lembra da mãe, que está velha, cansada, acabada e sozinha, reclamando de tudo e de todos, embora demonstre grande paciência. Alinhaz, esse é um dos pontos altos do livro: os personagens são muito bem construídos, mas, manja, tipo, muito, tá ligado, bróder? Pra dedéu, morô?

Então, há a questão das camas de texto. Se você pegar o Caro Michele pra ler de boua numa tarde, vai achar uma historinha bonitinha, meio triste, mas bem tranquila. Agora, se começar a esmiuçar o livro, sacar as idiossincrasias dos personagens, entender o que há por trás de cada hesitação, cada informação ocultada, cada sorriso amarelo, vai ver que o que há é uma família destruída que se mantém pelas aparências. E quando eu digo “família destruída”, não estou querendo que vocês façam analogia a um núcleo rico qualquer de novela das oito. Digo destruída individualmente: cada um é derrotado à sua maneira, e cada um esconde sua derrota por um motivo diferente. E aí o livro que já era bom fica excelente. Vai por mim.

Por fim, acho esquisito o narrador desse livro, que dá um estarte na parada e some depois de umas duas páginas. Não sei se a autora poderia ter se esforçado um pouco mais para fazer um livro sem narrador nenhum, só com as cartas mesmo, mas o fato é que o pouco que ele aparece dá a entender que se trata de uma muleta literária, no qual Ginzburg se apóia quando sente que não vai dar conta de tratar bem a história em algum aspecto. Mas essa é só a minha impressão.

Esse livro é parte da coleção “Mulheres Modernistas” da Cosac Naify, uma belíssima coleção aliás. Gosto da cor da capa, porque gosto muito de qualquer tom de verde escuro, e de estampa xadrez também. O livro conta com fotos legais da autora, sugestão de leitura, pósfácio de Vilma Arêas (Vilmaaaaaaaaaaaaaaaa) e tudo mais o que você tem direito. Papél pólen, fonte Nofret (alguém conhece essa fonte?), capa dura e página preta em papel cartão pra dar uma reforçada na belíssima encadernação artesanal. E, tá, a Natalia Ginzburg tem mó cara de caminhoneira, ou uma dessas velhinhas amargas, mas é uma das mais gatinhas das mulheres modernistas dessa coleção. Cada baranga que você não acredita, meu deus! Tipo, terceira mensagem secreta de nossa senhora de Fátima mesmo. Visão do inferno!

Ah, esqueci de dizer: escolhi esse livro hoje porque ele foi adaptado para o cinema pelo Mario Monicelli, o simpático vovozinho que saltou no vazio essa semana. A benção!

Comentário final: 192 páginas pólen soft 80 g/m² e capa dura. Toasty! (referência obscura essa, não?)

 

Italo Calvino – O Barão nas Árvores (Il Barone Rampante)

Il Barone RampanteE aí, meus amigos, como vão vocês? Sei que hoje é domingo, mas, nesses dias, todos os dias estão sendo domingo pra mim. Estou aqui desfrutando de sombra e água fresca numa praia paradisíaca mas não esqueci de vir aqui. Vê se pode. Bom, hoje também é o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, um dos esportes mais chatos que já inventaram na história da humanidade. Por isso queria mandar um oi muito especial para quem se descambou pra Sumpaulo, pagou quatrocentos reais pra ficar surdo e ficar virando a cabeça de um lado pro outro, enfim, saiu da zona de conforto totalmente justificável e vantajosa da poltrona de sua casa pra ver garotos ricos gastando gasolina em plena guerra do petróleo.

No último post, sobre o Dia da Coruja, nosso amigo Lucas comentou (aliás, os comentários estão rareando. Seria hora de uma nova promoção?) que não conhecemos os escritores italianos como deveríamos. Por isso resolvi falar aqui do Italo Calvino (de novo! e, por favor, vamos tratar de esquecer que ele nasceu em Cuba, ok?), porque se não somos lá muito íntimo dessa turma que curte um rondelli e uma mina gordinha, podemos bater no peito e dizer com orgulho que O Barão nas Árvores é figurinha carimbada na estante da galera. Isso porque tá pra nascer quem não goste desse livro emocionante, maravilhoso, estrogonoficamente sensível e inoxidável, segundo volume da trilogia Os Nossos Antepassados, que ainda contam com O Cavaleiro Inexistente (já resenhado aqui) e O Visconde Partido ao Meio (quem sabe um dia). Fala sério, vocês aí que não curtem unanimidades, não é por nada não, mas esse aqui é o novo Pequeno Príncipe, e eu sonho com os dias em que as belíssimas candidatas a miss universo citarão essa obra ao invés da outra, do Saint-Exupéry.

Pra quem não sabe, vou contar um pouco da historinha. Mas depois, vergonha na cara e dinheiro na mão, vá gastar um pouco do dinheiro que você despenderia com goró e compre um novo clássico. Bom, o barão nas árvores a que o título se refere é o protagonista do livro. E você achando que era uma referência abstrata a algo que não existe, do tipo “A Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras”, no qual você descobre todo desapontado após duas horas, que não tem bruxa nem livro nenhum no filme. Trata-se do barão Cosme Chuvasco de Rondó, que, em um belo dia, resolve dar um piti infectado na mesa do jantar e renegar a grana do papai, o barão de Rondó. Daí, resolve subir numa árvore e passar o resto de sua vida empoleirado, acho que para não botar os pés nas terras do pai e nas terras de mais ninguém, mas vai saber. E resolve viver uma vida contributiva, inventando coisas que melhorem o seu conforto nas copas, coletando e compilando conhecimento e filosofia. Arruma até mesmo uma esposa e um cachorrinho, que se chama Ótimo Máximo e que, dentro da minha concepção, é um nome bem aceitável para um canídeo.

Acho que o Calvino quis mostrar com esse livro é como a vida pode ser vivida do jeito que se desejar, e que, independente da vida que levamos hoje e do ambiente em que nascemos, é sempre possível dar um salto para a originalidade e para a auto-realização, mesmo que isso signifique ser confundido com um muriqui de vez em quando. A história é narrada a partir do caçula do barão, que tem um olhar muito apaixonado e, ao mesmo tempo, distante e amargurado por não poder estar próximo do irmãozão. Isso aí foi a maior malandragem do autor, porque aí é facinho se emocionar junto com a narrativa.

O Barão nas Árvores mescla direitinho as duas facetas do autor: a fantástica, fantasiosa e emocionante, que é muito legal, e a realista, que é chatona (sério, não gosto dos livros da primeira fase dele). E, curiosamente, o lado fantástico arrastou suas razões para o livro. São totalmente imaginativas, porém plausíveis, as maneiras que ele inventa para fazer com que seu protagonista viva em cima das árvores. Engenhoso sim, mirabolante não. Pensem nisso.

De todos os livros da coleção do Italo Calvino lançado pela Companhia das Letras, esse é um dos mais bonitos, na minha humilde opinião. Embora seja “azul incomodante número 3”, tom do qual a Carlinha não gosta, mas ficou muito bonito, mais do que o “azul incomodante número 5” do Assunto Encerrado, coletânea de ensaios dele lançada ano passado. No resto, é igualzinho a todos os outros livros da coleção, com tradução do Nilson Moulin. Aliás, fiz uma constatação: já li todos (ou quase todos) os livros do Calvino traduzidos pelo Moulin. Todos os outros que eu ainda não li estão traduzidos por outras pessoas. Uma dessas coincidências.

Ah sim: O Cordel do Fogo Encantado fez uma música em homenagem a esse livro, prova que ele vai é o novo Pequeno Príncipe, falei?

Comentário final: 256 páginas em papel pólen. Perfeito pra derrubar muriqui dos galhos da sua amendoeira. (brincadeira, hein, Ibama?)

 

Leonardo Sciascia – O dia da coruja (Il giorno della civetta)

Il giorno della civettaChega de feriado, né, pessoal? Todo mundo deu aquela enforcadinha na segunda? Fico apreensivo com esses feriados, neguinho faz muita barbeiragem na estrada e acabam matando quem não deve. O feriado de Finados é o feriado menos legal que tem no ano, porque é em homenagem a gente morta. E como aqui a gente não faz nada parecido com El Dia de Los Muertos, é algo meio triste e bucólico. Se bem que, se dependesse de uns moderninhos que tem aí, estaríamos abarrotados de caveirinhas da festa comemorativa mexicana. Sério, de onde saiu essa adoração pelo México? De repente é tequila, nachos, guacamole, Dia de Los Muertos, cactos pintados nas paredes dos butecos, Nossa Senhora de Guadalupe ganhando um zilhão de devotos, zapatistas pleibas, Deus na Céu e Chespirito na Terra, gente dizendo “cabrón” como se fosse muito cool… Gente, na moral, mas de subdesenvolvimento, gente feia, comida apimentada que gera peido fedorento e cultura brega, já basta o Brasil. E os mexicanos que me desculpem. Tenho que pedir desculpa adiantado agora porque apareceu uma albanesa no post do Ismail Kadaré reclamando que eu era preconceituoso com o país dela. Por isso, um recado para a cultura das nações de uma maneira geral: gente, muito cuidado com os estereótipos que vocês exportam. Depois não adianta a Rio-Tur processar os Simpsons, no Brasil tem taxista sequestrador e apresentadora infantil peitura MESMO. Enfim, vamos ao que interessa.

 

Olha só, analisando a minha tabelinha de acessos, percebi que o Leonardo Sciascia é um dos posts menos procurados, e olha que resenhei A Cada um o Seu quando este blog estava começando e os posts eram diários (era uma loucura). Então pensei que talvez o livro não tivesse o apelo necessário para fazer o Sciascia ser mais lido porque, acreditem-me, o cara é muito bom! Sendo assim, vamos falar de outro livro dele, que toca um tema muito mais interessante vindo dos italianos: a máfia!

O dia da coruja foi publicado originalmente em 1960 e parte de um acontecimento real, que é o assassinato, em 1947, de um sindicalista chamado Accursio Miraglia, que, como todo bom sindicalista que se preze, era um comuna, mais vermelho que cabeça de fósforo Fiat Lux. Como a parada foi a mando da máfia, então ficou por isso mesmo porque é tutto Cosa Nostra (hã? hã?). Sciascia começa o romance então com um rapazote assassinado no bonde, na Sicília. Para investigar, vem lá do continente um Protógenese Queiroz da vida. O capitão Bellodi, parmesão (de Parma) convicto e apaixonado pelo próprio país, começa a incomodar todo mundo na cidadezinha do assassinato, e constata a coisa mais cruel sobre a máfia: sua invisilidade. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém sabe de quem é o bagulho que acharam no banco de trás da bumba. (fala sério, “bumba” é uma gíria pra ônibus que existiu por duas semanas, tempo em que o Virgulóides fez sucesso).

A tensão que o livro cria pode ser de livro policial, mas não tem muito mistério. A parada rola mais nos interrogatórios e nos baculejos que o capitão Bellodi dá nos vagabundos. Máfia não é brincadeira, afinal, e não ficam lá botando as caras para se permitirem perseguições de coche e troca de tiros na avenida. A história é muito bem escrita e, principalmente, muito bem narrada, e dá mesmo a convicção de que Leonardo Sciascia é um dos melhores escritores italianos do século XX. E chega, né? Resenha curtinha porque ninguém tá com saco de ler nada depois do feriado! E se quiserem mais informações sobre o livro, acho que a minha OUTRA resenha, mais séria, que fiz pra Revista Paradoxo, ajuda. Para ler, clique aqui.

Essa edição da Alfaguara deu um pequeno upgrade com relação ao outro livro do autor lançado pela editora: a capa passou a ser fosca (a outra era brilhante) e o papel ganhou uma gramatura um pouquinho maior. No resto é o mesmo projeto. A foto em preto e branco da capa (que se eu não me engano foi pega do CORBIS, mas não sei, não estou com o livro à mão aqui) é muito mais tchananã do que aquela outra foto, vamos combinar. O livro tem ainda uma cartinha do Sciascia pra galeraê, então vale a pena, ok? Ah, a tradução desse livro não é do MESTRE Nilson Moulin, mas da Eliana Aguiar, que traduziu nada mais nada menos do que Umberto Eco para o português.

Comentário final: 136 páginas em pólen soft. Pof pof pof!

 

Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno (Se una notte d’inverno un viaggiatore)

Se una notte d'inverno un viaggiatoreDia 15 de outubro seria o aniversário de Italo Calvino, o rapazote das ideias mei malucas faria 87 anos hoje. Pelo menos eu acho que é isso, ele nasceu em 1923, não sei fazer as contas direito. Se soubesse, afinal, estaria enchendo o rabo de grana na engenharia. Então achei que seria uma boa homenageá-lo falando aqui do primeiro livro que eu li dele.

Se um viajante numa noite de inverno é um livro publicado em 1979, mas quando ele saiu nem me liguei muito porque a minha vida era um saco. Somente anos depois, em 2007, resolvi lê-lo, por indicação da Manu Salazar, que insistia que eu iria gostar da literatura do autor. Aí um dia ganhei ele do meu pai. Dois autores que nunca tinha lido: Italo Calvino e James Joyce, peguei um exemplar de cada autor e pedi para que meu pai, que não é nada chegado em livros, escolhesse. Ele escolheu o do Calvino, ainda bem, imagino eu.

Li o livro quando estava mudando de casa. Nunca vou me esquecer de um dia em que estava lendo ele no meu apartamento novo, que ainda estava em reformas. Uma tarde de frio e uma chuva desgraçada, eu deitado em uma esteira improvisada de papelão sobre o chão repleto de pó de cimento. À noite tinha ópera ainda, estava começando o namoro e a Carlinha, que estava deslumbrante, teve como acompanhante o sujeito mais mal vestido de todo Teatro Guaíra. Assisti ao Rigoletto tossindo pó de obra e fedendo como um cavalo suado. Anotem aí: coisas a não se fazer nos primeiros encontros.

Bom, Se um viajante… é um livro metalinguístico, pra dizer o mínimo. Trata de um sujeito que vai na livraria comprar justamente o Se um viajante numa noite de inverno, do Calvino, e começa a ler, achando super legal, até que descobre que seu exemplar veio com um defeito da gráfica: após a página 32 o livro volta ao começo, um erro na montagem das brochuras. Se vocês não sabem, cada gominho de páginas de um livro com esse tipo de encadernação tem 32 páginas, então o exemplar do protagonista estava repleto dos mesmos gomos. Então ele volta à livraria para trocar. E eis que o vendedor dá uma olhada no livro e afirma que aquela história não é do Italo Calvino, e sim de um outro autor, romeno se não me engano. Como o sujeito já estava totalmente envolvido no enredo, solicita um exemplar do livro desse segundo autor. Quando começa a lê-lo, tchanam! É outra história. Assim, entremeado de fragmentos de livros que sim, parecem todos excelentes, o protagonista se esforça para conseguir ler pelo menos um livro inteiro, enquanto, de quebra, tenta faturar uma mocinha. Sério, tem como não gostar de um mote desses?

Extremamente complexo, Se um viajante em uma noite de inverno, além de explorar diversos gêneros de literatura (todos demonstrados em um organograma no apêndice, em resposta a um crítico italiano), comenta, en passant, as nuances que envolvem a leitura e que estão intrinsecamente conectadas à escrita. O fato de 32 páginas serem suficientes para envolver alguém em uma leitura, por exemplo. Convenhamos que, hoje em dia, livro que não esteja engrenado até a página 30 tá no sal. Neguinho coloca de lado e vai jogar videogame mesmo, sem dó nem piedade. Até a época em que Calvino escreveu esse livro, porém, não era raro o livro engatar lá pelo terceiro ou quarto capítulo. Talvez seja uma alma de contista que se encerre nos romancistas de hoje em dia, quem sabe?

Ah sim, deixei o melhor pro final: a narrativa do livro não é em primeira ou terceira pessoa. É — se é que isso existe — em segunda pessoa! Isso mesmo, o narrador fala diretamente com o protagonista, que é você mesmo, que lê o livro. Isso sim é entretenimento, hein? Se liga no começo:

“Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo à sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros ‘Não, não quero ver televisão!’. Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado!’. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: ‘Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!’. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.”

Fala sério, maneríssimo, né não? Acho que esse começo fala do livro por si só.

Bom, o projeto gráfico da Companhia das Letras é lindíssimo, mas causou confusão pro meu pai “Que são esses retângulos aqui na capa? Que tem a ver isso com o livro?”, ele perguntou. A coleção do Calvino é uma das poucas da editora com fonte Garamond, mas vale a pena, dá um toque de finesse pro alfarrábio. A tradução é de ninguém menos que Nilson Moulin, que traduziu do italiano também o A Cada um o Seu, do Leonardo Sciascia, que eu já comentei neste blog. Sem o Nilson, tava todo mundo ferrado, minha gente, deus abençoe os bons tradutores. No mais, papel pólen e uma capa verde musgo, talvez a minha cor favorita (deu pra perceber nesse blog ou não?).

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. Pimba em quem tá com a televisão ligada!

 

John Fante – 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year)

Nada melhor para terminar a tal da semaninha light com um livro RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRASO. Eu poderia colocar um livro beatnik, mas seria óbvio demais. Poderia colocar Pergunte ao Pó, de John Fante, mas também seria muito óbvio. Então, por que não pegar um lado B desse autor que foi o precursor dos beats (segundo o papa-beat Charles Bukowski) e que, ao mesmo, do meu ponto de vista, resume toda sua obra como nenhum outro livro seria capaz de fazê-lo. Sim, porque John Fante sabe escrever sobre uma coisa só: ele mesmo e sua família de italianos pobres.

1933 foi um ano ruim é uma dessas histórias tristes e que, assim como a sua quadrilogia (da qual Pergunte ao Pó é a terceira parte), trata das frustrações de um jovem chamado Dominic Molise, de 17 anos, que tem um sonho apenas: ser um grande jogador de baseball. Talento não lhe falta. Tem um daqueles braços campeões, que no livro, é inclusive um personagem a parte — volta e meia Dominic descreve os comportamentos autônomos de seu Braço (assim, chamado com letra maiúscula).

(Aliás, um parêntese: eu particularmente odeio esses filmes americanos de baseball em que o menino taca uma bola forte e o treinador fala “Santa Maria mãe de Deus, olha só o braço daquele garoto! Ei, filho, o que acha de jogar na liga?” “Não vou te decepcionar, treinador” brrrrrrr)

Como eu dizia, Dominic trata seu braço melhor do que trataria a um filho. O mantém aquecido com um unguento e atende aos anseios do membro (peraí que é o braço mesmo) mais rapidamente que os seus próprios. Mas Dominic é pobre, filho de imigrantes italianos paupérrimos que moram no gélido estado do Colorado. E por isso, precisa ajudar o pai, cujo maior patrimônio é uma betoneira. A saga de Dominic, que tenta escapar de sua rotina massacrante para ir para a Califórnia tentar ser alguém é dolorosa e bate fundo no peito. Qualquer frustração dessas de abrir mão dos próprios sonhos descrita num livro, de Anne Frank a Holden Caulfield, arrebanha multidões de leitores que sofrem junto (nunca vi esse povo, hein?). E Fante sacou isso antes de todo mundo, porque explorou essa mesma dor em quase todos os seus livros. Acho difícil alguém ler o livro e não chegar à última página com um aperto no peito. Final dramático, sem essas palhaçadas de beatnik de terminar o livro com frases esdrúxulas como “fumei o cigarro e olhei o mar”. Final tem que ser final mesmo, porra!

Muito embora já tenha passado da idade de ler literatura beat, guardo muitas boas recordações desse livro, pelo qual tenho um carinho. Inclusive o indico pra qualquer Zé Mané que insiste nessa literatura pobre de ideias e estilo. Aliás, acabei de incorrer no erro de chamar John Fante de beat. Tudo bem mesmo, afinal, não fossem os beats para divulgar sua literatura, Fante passaria despercebido aos olhos dessa garotada que só gosta de música, sendo ele um beat honorário, como um tiozão que joga bola com a molecada. Mas reconheço que sua obra, além de curta, é repetitiva. A foto também é repetitiva. Não aguento mais aquela foto horrorosa que tem ele de lado com o cabelo meio despenteado, por isso peguei uma foto bem escrota dele com um cachorro pra mostrar que qualquer coisa é melhor do que aquilo. Sério, que imbecil tira uma foto naquele ângulo? No mínimo, um anão incompetente com a câmera.

A edição do livro que eu li é aquela pocket da editora L&PM (que, segundo o Chico, são de alguns parentes distantes dele. Tô acreditando, hein, Chico?), que é o formato favorito para publicar beatniks (olhaí, falei de novo). E, convenhamos, a intenção de uma editora pocket não é fazer algo muito produzido. É, antes de tudo, divulgar o conteúdo. E por isso a capa do livro tem uma diagramação péssima, uma foto escrotérrima (provavelmente tirada pelo mesmo anão incompetente), e inclusive, propaganda de outros livros da editora no final. Se liguem, porra, ninguém de respeito faz mais isso desde 1980! E no começo, na parte de leituras afins, adivinha: só dá Bukowski e Jack Kerouac. O tiozão tá mesmo enturmado com a garotada. Não bastasse, papel offset pra tirar a gente do sério. Sorte da editora que eu não era o fresco que eu sou hoje pra livro na época que eu li 1933. Eu, seguindo o nome, realmente guardava o livro no bolso das minhas calças de mano. É, sorte deles.

Comentário Final: 135 páginas offset formato de bolso. Xi, marquim…

Leonardo Sciascia – A cada um o seu (A ciascuno Il suo)

Gosto muito quando um escritor teórico, sério e cuja literatura é focada em outro assunto se aventura a fazer algo tão literariamente efêmero quanto um romance policial. Opa, peralá camarada! Romances policiais não são efêmeros (pelo menos não o suficiente), mas digamos que são discriminados assim como um gênero menor. Digamos que o romance policial, se fosse uma mulher em um concurso de misses, seria uma loirassa turbinada. Pode agradar aos olhos do público, mas dificilmente agradaria os olhos dos jurados. Enquanto aqueles a elegessem paradigma de beleza (talvez porque a sensualidade para as massas seja traduzida em volume), estes a achariam clichê e visualmente monótono. Isso não significa porém, que a loirassa turbinada e o romance policial não tenham seu valor e seu lugar (provavelmente junto ao povão). Jorge Coli costumava recomendar a seus alunos que lessem romances policiais, imagino com o objetivo de apurar a lógica e a visão para os detalhes. Eu, que durante o ano de 2004 fui seu aluno duas vezes (mesmo que por um curto espaço de tempo), acatei a recomendação.

O policial do italiano Leonardo Sciascia que trataremos, entretanto, é um livro que, dentro de sua categoria, poderíamos classificar como atípico. A primeira irregularidade não é bem uma irregularidade desde que Agatha Christie a consagrou: o investigador não é um policial ou um detetive, mas uma pessoa comum — no caso, um professor. A segunda fica por conta da linguagem: uma vida dedicada a ensaios políticos e livros satíricos (também sobre a política), refinaram sua escrita ao nível do formalismo peculiar de alguns italianos, como Pirandello em Seis personagens a procura de autor ou Ítalo Calvino em livros como Os amores difíceis e Se um viajante numa noite de inverno. Por isso o amigo Cássio — e faço minhas suas impressões — na ocasião que leu esse livro achou-o chato até sua metade e, uma vez terminada a leitura, uma excelente obra. Alguns são assim mesmo, precisamos terminar a última página para perceber a grandiosidade da bagaça.

Um resuminho: Em uma pequena vila da Sicília, um farmacêutico e um médico são mortos enquanto caçavam. Suspeita-se de infidelidade por parte do farmacêutico (e o médico teria morrido de bucha). A partir daí o professor começa a investigar, com pistas sensacionais e algumas reviravoltas. O que salta aos olhos e a impressão que fica é que Leonardo Sciascia é um excelente escritor.

A história de como esse livro veio parar na minha mão é interessante. Minha mãe uma vez disse-nos que tinha lido um livro em que um farmacêutico morria, e que o livro era muito bom, mas que não lembrava o nome nem o título. No mesmo dia, passeando na livraria, a Carlinha saca um livro da prateleira, lê a orelha e pergunta: “Ei, esse não é o livro do qual sua mãe estava falando?” E era. Achei legal, mas li-o na época em que estava fazendo um pequeno estágio na Gazeta do Povo, descobrindo que de ilustrador eu não tenho nada, então li meio na pressa e ele passou meio batido por mim. Até que ontem a supracitada Carlinha terminou de lê-lo e resolvemos conversar sobre ele. E veio-me a ideia de escrever sobre ele aqui, já que agora ele está sendo vendido ao preço módico de 9,90 nas Livrarias Curitiba.

Sobre a edição: É um dos poucos livros da editora Alfaguara lançados no Brasil com capa revestida de papel couché. Tem uma capa bacana com uma foto de um tal de Antoine Gyori, pegada da Corbis (bendita Corbis, hein?) que por acaso ficou fodassa no livro (no canto da parede tem uma escrita em roxo quase imperceptível, tente ver). No mais, é tudo igual, mas acho que essa escolha da Alfaguara de padronizar os livros em uma mesma diagramação não é tão ruim tendo em vista a excelente qualidade do material. Ah, o livro também foi traduzido pelo genial Nilson Moulin, tradutor de Calvino e outros fodásticos. Nilson, a galera aqui te curte, cumpádi!

Comentário final: 135 páginas pólen soft de gramatura alta. Tem que bater muito pra machucar.