Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Les particules élémentaires)

Les particules élémentairesEsse ano o querido Michel Houellebecq vem para a Flip. Como brasileiro é um povo festivo com gringo mas ao mesmo tempo não manjam muito das celebridades que vem aqui, resolvi fazer esse serviço de utilidade pública e apresentá-los a vocês, queridos leitores e a vocês, queridos jornalistas que deixam tudo pra última hora. Ó, tô falando disso uns quatro meses antes da festa, dá tempo de se informar e ainda sobra pra ler um ou outro livro dele, se é isso mesmo que você tem que fazer. Pros preguiçosos, pega o resumão e comentário aqui e sai por aí esbanjando o conhecimento que você não tem.

Partículas Elementares é um dos primeiros livros (o segundo, acho eu) do grande escritor francês radicado na Irlanda Michel Houellebecq. Fala de dois meio irmãos: um chama Michel (atenção, jornalistas: os personagens dele geralmente chamam Michel) e o outro chama Bruno. Bruno é o típico moleque que foi gordinho quando criança, cresceu e virou gatão e, pra se vingar da humanidade, come geral pra tentar machucar o coração de alguém (tá, essa última parte eu presumi, mas deve ser). Michel é o típico moleque que foi bostão quando criança, cresceu e continuou bostão, sendo virgem aos não sei quantos anos. Ele trabalha com pesquisa em biologia e está fazendo alguma coisa relacionada a partículas elementares, algo que vai dar um boost na sua carreira e na medicina de uma maneira geral, mas agora não lembro exatamente o quê porque faz um tempasso que li esse livro, uns bons três anos. E o Bruno é professor, querendo comer as aluninhas (hum, igual a um certo professor que tive uma vez numa certa escola de jornalismo), mas frustrado porque a gatinha em que ele está de olho dá pra um negão avantajado — o pesadelo de todo cara branco que não se sente competitivo. Enfim, os dois meio-irmãos, filhos de uma biscatinha da década de 60, se encontram no funeral da mãe, e aí se conhecem e resolvem passar tempo juntos. Vão para um retiro, uma espécie de hotel/SPA numa praia paradisíaca, onde lá Bruno conhece uma gatinha e Michel descobre o paradeiro de sua amada de outros carnavais, Annabele não sei das quantas. Bom, como todo livro do Michel Houellebecq, tudo vai bem, tudo vai bem, até que vai mal. E com esse cara você sabe que, quando eu digo que vai mal, é porque vai mal MESMO.

Bom, nesse livro aqui não temos nada de muito diferente do que o autor veio a explorar melhor em seus livros subseqüentes, com a diferença que este foi o primeiro livro que virou filme, acho eu. O filme é uma produção alemã com atores alemães dos quais nada conheço, e o roteiro pesou muito mais nas partes cômicas, que são sim, pontos fortes do livro. O livro é mais triste, mas acho que o é por ser um livro, afinal, ler não é exatamente uma parada super engraçada que você fica com a barriga doendo de tanto ler. O livro em si é bem escrito mas tem um ritmo mais arrastado que o normal em um Houellebecq legítimo (and I ain’t no Houellebecq girl, I ain’t no Houellebecq girl, já dizia Gwen Stefani), e, como acontece n’A Possibilidade de Uma Ilha, tem um epílogo completamente desnecessário. Tem gente que não sabe a hora de parar de escrever e… opa, é comigo? Ok, ok, parei.

Essa edição da Editora Sulina, lá do Rio Grande Tchê, não é exatamente a edição que eu tenho. Essa capa do livro é a capa do filme também, e a capa do meu livro é um ventre de mulher com a mão na coisa e a coisa na mão. Logo eles perceberam que, por mais que a imagem seja bonita, é o tipo de coisa que impede que a pessoa tímida de criar coragem e levar isso no caixa da livraria, principalmente se a caixa for uma mulher, e principalmente se ela parecer meiguinha. A tradução é do Juremir Machado, um cara porreta, catilogente e sabido (já falamos aqui), mas meio inusitado pra escrever as orelhas. Ele descreve um felatio como “uma mulher de boca ousada”.  Ew, Juremir, deve tá ouvindo muito Lupcínio Rodrigues, fala a verdade! No mais, papel offset desgracido e fonte garamondo do coração dos manos do terminal de ônibus. A numeração dos capítulos tem uns arabescos que ficaram quase invisíveis, e a quarta capa lista uns elogios aqui e ali, além de um “traduzido em 21 línguas” que, pra mim, não quer dizer nada. O livro dos recordes é traduzido em quarenta mil línguas e eu continuo não lendo, afinal.

Comentário final: I ain’t no Houellebecq Girl!

 

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Ismail Kadaré – Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (Eta, Loja dhe vdekja e Lul Mazrekut)

ETA, LOJA DHE VDEKJA E LUL MAZREKUTQuase que a Copel deixa esse blog sem mais um post, mas não é a falta de luz que vai apagar o Livrada! Aê! Bom, como vocês viram no post anterior, a votação para o The Bobs está rolando e o Livrada! já está perdendo feio para blogs mais ambientalmente conscientes (e nós aqui, consumindo coisas feitas de árvores derrubadas, sem levar em consideração o esforço de heroínas como Dorothy Stang). Vamos continuar votando para fazer coro, alright? Não vamos ganhar, mas vamos nos divertir. Sim, o Livrada é o América do Rio, é o União da Ilha, é o L.A. Clippers, é o candidato à presidência do Psol, é a delegação olímpica da República Centro Africana, é o sujeito que sai vestido de Bob Esponja na São Silvestre. Vamos nessa.

Antes de mais nada, gostaria de fazer um comunicado importante. Pelos próximos dias, estarei trampando num trampo sinistro que exigirá muito do meu tempo, então não garanto postagens regulares, embora desde já prometa fazer o possível. A boa notícia de tudo isso é que eu vou ter dinheiro e não vou mais precisar mentir pros meus amigos, dizendo que estou indo almoçar com outros amigos quando na verdade estou indo para um lugar afastado comer um sanduíche que eu trouxe de casa. Resumindo: vou ter dinheiro, aê, que alegria! (sim, amigos, agora vocês já sabem). Adiante.

Ismail Kadaré de novo? Sim, de novo. Se você ainda não percebeu, o cara é um habitué do Livrada! por méritos conquistados na meritocracia que é este blog. Autor bom entra, autor ruim sai, e autor consagrado, quando necessário, recebe um leve esculacho pra ficar ligado. E quem gostou lê, quem não gostou, não faz nada. Fica peixe. Bom, o livro de hoje não é muito recente. Acho que tem lá uns bons dez anos. Mas é um dos melhores dele que eu já li, e terminei de lê-lo essa semana, então a memória está fresquinha (assim espero) para comentá-lo.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek é mais um livro sobre a Albânia comunista do ditador Enver Hohxa (dia desses eu e Chico fizemos uma lista de nomes legais de estadistas — não confundir com lista de nomes de estadistas legais — e Enver Hoxha ainda é meu preferido, junto com Kamehameha I, do Havaí). Nela, um jovem ator como Lul Mazrek, ao ser reprovado no vestibular de artes, se vê obrigado a servir o exército (quem pensou na história do Hitler — outro nome legal de estadista e NÃO de um estadista legal — tá certo, embora ele não tenha nada a ver com a história), mais especificamente em Saranda, uma espécie de Costão do Santinho Albanês, por onde os fugitivos do governo resolvem escapulir, direto pra Grécia, pela antiga cidade de Butrint, um lugar que, como tudo o que já foi cidade grega, é formada de parede velha e caída e mais coisas completamente destruídas. Pois bem, Lul Mazrek precisa estar ali pra meter bala em quem tentar fugir. O que também não tá certo, o governo não entra num consenso se mostra pra população os cadáveres abatidos ou ocultam, e fica nesse problema de logística de achar, transportar e exibir cadáver. Como diz a Avril Lavigne: complicated.

Ao mesmo tempo, temos essa deusa albanesa (uma incoerência, porque se você procurar ‘albanesas gatas’ no Google, ele vai perguntar se você não quis dizer ‘japonesas gatas’), chamada Violtsa Morina, contratada pelo governo para identificar, seduzir e caguetar os fujões, segundo tese do governo que fugitivo fica todo sensível antes da fuga e acaba por dar com a língua nos dentes. E o que acontece, rapaz? É claro, os dois se apaixonam. Aí rola todo aquele lance de amor proibido, não é o trabalho dela, o exército não deixa o cara sair pra namorar, os fujões vão fugir se ela baixar a guarda, quem está tomando conta do lojinha, etc.

Bom, esse livro serviu para o Kadaré explorar todo o tipo de história espelhada possível. Não vou contar mais pra não estragar a diversão de quem vai ler (sim, o Livrada! é legal, tem fita VHS roxa com selo da UBV e marca d’água), mas, se você reparar, são vários os paralelos que se pode traçar entre as vidas de Lul e Violtsa depois que se encontram, além da comparação explícita entre Violtsa e Andrômaca que, pra quem não sabe, além de ser uma personagem da mitologia, também é um capítulo muito serelepe do Kama Sutra. Sim, já que o papo é Grécia, sexo e exército, por que não falar de Andrômaca?

Mais uma vez, o autor mostra uma Albânia feita não se sabe para quem, com regras que agradam muito pouca gente, e pessoas que vivem seus dramas pessoais de pertencerem a um lugar que inibe todo o potencial delas. Foi assim no Abril Despedaçado, foi assim no Dossiê H, enfim, o cara fala disso mesmo, get over it. E, claro, é um livro com doses moderadas de literatura erótica e doses nada moderadas de realidade dura, tipo letra do Ndee Naldinho. Vale a pena? Vale a pena.

O projetinho da Companhia das Letras para o autor é bacana, vai dizer. Já falei sobre ele antes: fonte Electra, papel pólen e tradução do único, do inigualável, do insubstituível (insubstituível mesmo, gente,ou tem alguém aqui que fala albanês?) Bernardo Joffily. A capa não sei daonde é, que o livro tá longe, mas imagino que seja do CORBIS. Se não for, depois eu corrijo com o rabo entre as pernas.

Por último, preciso abrir meu coração: conversando com a colega Patricia, da minha turma de alemão, ela me solta essa: “o meu cunhado também gosta de literatura, e ele não é gay!”. Tá vendo, macharada iletrada? Mais uma virtude desejável vai parar na fama ilibada dos homossexuais. Já disse, vamos fazer os livros serem legais de novo. Reforço meu pedido, mulheres: se o gatinho te levar na casa dele, com vinho chileno e hortinha de manjericão na sacada, mas não tiver livros em casa, não transe! Simples assim.

PS1: Esqueci de dizer, mas agora o Livrada! tem uma página no Facebook. Entrem lá e fiquem por dentro das atualizações: http://www.facebook.com/pages/Livrada/209104299099609

PS2: Tô vendendo um PS2, tratar aqui.

PS3: Esqueci de dizer, mas estamos na mídia!

Comentário final: Se alguém me enviar pelo correio um exemplar novinho de “O Livro Verde”, do Kadafi, eu resenho, prometo!

 

Livrada! no The Bobs – Deutsche Welle Blog Awards

Sim, rapeize, o nosso humilde blog e nossa incrível comunidade de leitores conseguiu chegar às finais do concurso do The Bobs. Graças ao leitor Josiel Lucas, que indicou o blog para o prêmio. Valeu, Josiel!

Pra quem não sabe, é uma premiação internacional que rola todo ano e que seleciona blogs de vários países em diferentes categorias — o Livrada!, no caso, está concorrendo a melhor blog em português, junto com outros dez fortes candidatos.

Por isso, peço a ajuda de vocês para divulgar a votação e votar no Livrada!. É moleza, seguinte:

1 – Entre nesse link: http://thebobs.dw-world.de/en/nominations/?cat=21

2- Selecione, no retângulo azul escuro do topo da página, a opção de conectar com o facebook ou twitter (você pode conectar com um de cada vez e, assim, votar mais). Depois disso, selecione nas categorias o “Best Blog portuguese” e no “I vote for”, selecione o meu, o seu, o nosso, o da sua mãe, o Livrada!, desse jeito (o meu tá selecionado em cinza porque só dá pra votar uma vez e eu não fui esperto o bastante pra tirar o print antes de votar)


E pronto! ele vai pedir pra publicar no mural do seu facebook ou postar algo no twitter, vocês clicam em ok e temos um voto.

Acho que, em pouco menos de um ano, esse blog conseguiu coisas incríveis, então acho que, se todo mundo colaborar, podemos conquistar esse prêmio. Por isso peço a vocês que divulguem pros seus amigos, familiares, colegas de trabalho, hackers que tenham roubado contas de twitter, mídia, enfim, geral mesmo. E agradeço de coração desde já.

Avante, ó glorioso Livrada!

Kyoichi Katayama – Um grito de amor do centro do mundo (Sekai No Chusshin De Ai Wo Sakedu 世界の中心で、愛をさけぶ)

SEKAI NO CHUSSHIN DE AI WO SAKEDUIh, são dez horas da noite, eu saí de casa pra ver a luta na televisão e esqueci de escrever pro blog de novo. Peraí, de novo não, da outra ocasião eu não escrevi porque a vida tá difícil mesmo, e eu espero que vocês me perdoem e me entendam. Bom, felizmente dessa vez o meu camarada Lucas Lazzaretti emprestou-me o seu laptop para que eu digite essas rápidas linhas enquanto tento encontrar um acento e outro nesse teclado maluco. Por isso hoje vou ser breve, cumpri tabela e fazer algo que eu não faço há muito tempo, que é meter o malho num livro.

Por isso, vamos lá. De cabeça falo hoje de Um grito de amor do centro do mundo, do Kyoichi Katayama, um livrim meia boca demais que eu quis ler pra saber que cara tinha um best-seller japonês. Achei que, por ser do Japão, esse povo tão sofrido que hoje estamos homenageando aqui, pudesse ser um best-seller melhor que os dos outros países. Como é o caso do Michel Houellebecq na França por exemplo (e não vamos falar de Marc Levy aqui, pelo amor dos meus bagos). Houellebecq vendeu meio milhão de cópias com seu penúltimo livro, A Possibilidade de uma Ilha, que um dia eu resenho. Isso se meus números estão atualizados. Bom, o Katayama vendeu nada mais nada menos do que 3,5 milhões de cópias no Japão. Isso num país que é uma tripinha menor que o Chile. Quero ver um livro vender isso aqui no Brasil. Nem Laurentino Gomes, amigo. Bom, daí que imaginei que o livro talvez fosse um desses petardos que teria a sorte de ser mais vendável do que rosa branca de iemanjá no ano novo. Mas, amigos, me enganei. Mea culpa, mea maxima culpa.

Um grito de amor no centro do mundo conta a história de Sakuratô e Aki, um menino e uma menina, repectivamente, que se apaixonam na escola ainda, mas tempos depois ela descobre que está com leucemia e morre (não se preocupe, não contei nenhum spoiler). Putz, me digam: quantos Chick Flicks vocês já viram com um roteiro como esse, com algumas váriáveis, como idade e qual dos dois tem câncer? O cara já começou mal, ou seja, explorando um tema mais batido que músculo antes de ir pra panela. Mas bom, quem ainda não está cansado de ler sobre isso, e quer achar um ticket fácil pra avenida do choro, o livro pode ser uma boa. Só que, se a história não é muito original, a forma não é muito inovadora também. Uma escrita beeeem mela cueca, cheia dos sentimentalismos baratos e formas muito usadas. Coisas como “a vida é triste, como as folhas das árvores caindo num outono frio” etc. Já falei que existem frases que me fazem levantar da cadeira e querer gritar “gol!”. Pois esse tipo de coisa me dá vontade de levantar e xingar a mãe do juiz.

Tá, exagerei um pouco, mas faz parte da crítica ser impiedoso com o livro pra depois dar uma levantada na moral do livro. Isso quando o crítico não é cruel, como eu não sou. Quando o cabra é cruel, ele faz o contrário: levanta um pouquinho a bola e depois enterra todo mundo. Bom, o livro não é desagradável de ler, a verdade é essa. E é curtinho, não atrapalha o cronograma de ninguém e pode ser uma boa leitura pra você levar pra praia e ler embaixo de um belo guarda-sol. São 155 páginas, afinal, não machuca ninguém. E vá lá, quem sabe você se emociona. Ah sim, o título do livro faz uma menção ao livro do Harlan Elisson “Crying out love in the center of the world”. O Murakami também faz menção no título do livro dele que eu resenhei, né? Que cambada de japa referente!

Esse projeto gráfico da editora Alfaguara é o bicho ou não é? Alguns me disseram que a japonesinha da capa matou o resto da foto que tem um fundo bacana, mas eu gosto da capa. A tradução foi feita diretamente do japonês por alguém que não vou saber citar de cabeça porque o livro está longe, e o papel tem uma gramatura grande pra parecer que tem mais livro do que na realidade tem. Bom, o projeto deles muda muito pouco. Ainda assim, valeu a intenção da editora de trazer um best-seller que não seja americano ou o nosso inominável Paulo Coelho. É um best-seller? É. Mas pode ser cult? Pode também. Tô parecendo o Kleber Machado? Um pouco. Vamos parar por aí? Sim.

Comentário final: Escrevi o último parágrafo já em casa. Que droga essa luta do Shogun…

V.S. Naipaul – Uma casa para o sr. Biswas (A House for Mr. Biswas)

A house for mr. biswasNão sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder,  é o rodo cotidiano.

Vidiadhar Surajprasad NaipaulUma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.

 

Pedro Juan Gutiérrez – Nosso GG em Havana (Nuestro GG en la Habana)

Finalmente acabou o carnaval. Quer dizer, acaba hoje. A voz do cara que dá as notas para as escolas de samba na apuração de hoje tem mais ou menos o efeito da musiquinha do fantástico: bate aquela tristeza e você pensa que o fim de semana já está acabando e que amanhã começa a semana. Ou, nesse caso, que o ano útil está começando. É claro que isso não vale pra mim. Amanhã cedo estou na labuta de novo, tá pensando o quê? Aqui não tem corpo mole não.

Enfim, enquanto vocês dão seus últimos mergulhos na praia, tomam suas últimas caipirinhas na hora do almoço, fazem o último xixi na rua (assim espero!), pegam a última doença venérea do ano, vamos falar de literatura, ê! O livro de hoje é mais um livro excelente do nosso querido Pedro Juan Gutiérrez que eu recomendo para vocês. Um livro curtinho e divertido, que tem um pouco de tudo: ficção histórica, comédia, trama policial, perseguições de carro, espionagem e a vida de um grandessíssimo escritor: Graham Greene, o GG do título.

A história começa a partir de um fato real: a visita de Graham Greene à Havana, na década de 50. Isso era na época em que Fidel ainda não tinha metido um xeque-mate no Fulgêncio, e Cuba ainda vivia naquelas de todo mundo sendo vigiado, a suspeita do FBI agindo e tudo o mais que o submundo de Havana comportava, e ainda comporta até os dias de hoje, como Gutiérrez faz questão de nos mostrar. Bom, Greene, enquanto está em Cuba, descobre que seu nome está ligado a uma história de assassinato e espionagem, e que alguém está usando seu nome indevidamente, portanto. Aí se mete com o bàs-fond cubano, com putas e putos, ladrões, tarados, etc. Personagens que Pedro Juan já está acostumado a retratar — alguns deles, não me lembro quais agora, já foram retratados em outros livros dele.

Eis o que eu queria dizer sobre esse livro: Nosso GG em Havana é um livro muito diferente da obra de Pedro Juan. Parece que nesse ele resolveu escrever com a cabeça de cima e colocou uma porção de elementos da literatura policial, numa trama coerentemente sóbria. Claro, tem um pouco das safadezas de sempre, mas muito mais contidas, essas. Pesou no livro o raciocínio racional, o mercado do seu id. E Pedro Juan, com isso, provou ser um grande escritor do Cristal, conforme definição mutcho loka que o Italo Calvino fez uma vez, que não cabe explicar aqui agora.

O livro também é uma leve homenagem a Graham Greene, escritor que o autor adora. O título inclusive, vem de um livro de Greene, “Nosso homem em Havana”, também uma estória de espionagem, polícia e ladrão, etecetera. Não que Greene faça alguma vista na literatura de Gutiérrez. Nem sinal dele nas influências. Ainda assim, bom, uma homenagem. Você pode gostar do cabra e não tentar ser como ele, é ou não é? Mais do que isso, porém, é a homenagem à Cuba pré-Fidel. A Cuba moleque, a Cuba arte, a Cuba marota. É claro que eu, do alto da minha falta de verba, nunca fui para Cuba, ainda mais pra Cuba de Fulgêncio, mas tenho a nítida sensação de captar a aura do lugar lendo esse livro. E não é essa intenção de busca pela verdade disfarçada de busca pela verdade uma das coisas mais legais da literatura. É. Quem tá falando sou eu, então é.

Esse projeto da editora Alfaguara é classe bagarai. Esse estilo de capa cheia dos elementos foi o escolhido pras capas do Pedro Juan (a trilogia suja tem a capa poluída desse jeito), e vamos dizer que, pra esse livro, a coisa encaixa direitinho. Mérito de Tita Nigrí. Por dentro, quem já abriu um livro da Alfaguara, abriu todos. A fonte é um pouquinho maior nesse, pra preencher melhor as 125 páginas do romance. A tradução é dos já citados aqui Paulina Watch e Ari Roitman, e o livro tem citações de John Cheever e do próprio Greene. Vale aqui a citação do último, tirada da fala de um personagem de O Americano Tranquilo, seu livro mais badalado: “Pensar é um luxo. Você acha que o camponês se senta para pensar em Deus e na Democracia quando volta de noite para seu casebre de barro?”. Tá, claro que o exemplo é completamente forçado, e só pensa quem foi educado pra pensar, não importando as condições de existência. Aliás, que bela porcaria essa citação, não me convenceu de absolutamente nada. Sai fora, Greene, seu mané. Vem conhecer o profeta Gentileza e outros zés do mundo, vem. Ah, estressei-me agora, então eu vou.

Comentário final: Estação primeira de Mangueira… DEZ!!!

Moacyr Scliar – A mulher que escreveu a bíblia

Como vocês puderam ver, não publiquei niente na quarta-feira, e por uma boa razão: atolado de coisas para fazer. Que lhes interesse, escrevi uma matéria gigaaaante para a Gazeta sobre George Orwell, o mágico do romance panfletário, o rei da metáfora animal, o Gerson King Combo da…bom, já deu pra entender. Que não lhes interesse, eu e minha gloriosa banda Sua bunda fizemos um triunfante show no Blues Velvet bar na quarta-feira e a multidão foi à loucura. Sendo assim, de qualquer forma, parafraseando o título de um outro livro, os dias estavam completamente lotados. E, para citar Marcelo D2, “tá ruim pra você, também tá ruim pra mim, tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Alright, chega de citações. Vamos à homenagem.

Moacyr Scliar se foi, minha gente, provando que esse papo de imortal é, na verdade, fruto da imaginação de velhos loucos que têm amigos como Paulo Coelho e Ivo Pitanguy, místicos da alma e da carne. Ainda assim, Scliar era um dos poucos nomes que prestavam dentre os almofadinhas da ABL. Cito mais alguns: João Ubaldo, Ana Maria Machado, Nejar, Lygia Telles e sua chapa Nélida Piñon, Ledo Ivo (“b-ab-aaaaaaaaaca”, dizia ele na entrevista ao Globo News, hilário) e, em menor grau, Cony, o Van Damme entre Schwarzeneggers. Agora, esses os corvos: nem bem o Scliar esfriou e já elegeram um cara pra ficar na cadeira dele, o Marco Lucchesi. Um poeta! Um poeta! Pois eu discordo! Acho que a cadeira do Moacyr Scliar devia ser dada a um escritor frenético como ele. Um cara que lance cinco livros por ano, no mínimo! Brincadeiras à parte, eu quero um dia fazer parte da ABL pra ganhar 15 mil por mês + vida eterna + gato NET + duas mariolas por dia + roupa de Power ranger. E quem não quer? Esse país tem que tirar os escritores da miséria, minha gente. Tira o Paulo Coelho de lá, ele já é rico por seus próprios méritos! Coloque um cara bom, mas marginalizado tipo, sei lá, Marçal Aquino.

Bom, pra homenagear o Scliar, esse grande escritor gaúcho, resolvi resenhar o único livro que já li dele em toda minha vida. E ainda assim fiquei com o pé atrás, porque li emprestado da minha mãe e li em apenas um dia. E isso foi há uns dois anos. Ou seja, tô sem o livro, minha memória já não é mais a mesma, mas enfim, todo jornalista se mete a falar sobre o que não sabe pelo menos uma vez na vida. Se você é jornalista e só fala sobre o que sabe, ou você é chefe, ou você é frila, ou você é desempregado.

A mulher que escreveu a bíblia é um desses livros em que você lê numa sentada, sem nenhuma conotação homossexual aí (aliás, amigos homossexuais, tenho um filme homossexual aqui em casa que estou disposto a passar adiante, quem tiver interesse, contacte. E chega de usar a palavra homossexual que isso é coisa de boiola). É curto, tem punch, tem humor, tem sacanagem, tem contexto histórico, só faltava mesmo ter alienígenas, porrada e perseguição de carro para ser o livro perfeito. A história fala de uma mulher que, fazendo regressão, descobre que, em uma vida passada, foi a única esposa do Rei Salomão que sabia ler e escrever. O que justificava, porque ela era feia pra diabo. Salomão era como um desses pitboys que pegam vinte loiras peitudas pra depois pegar uma gordinha fã de Harry Potter que faz engenharia no CEFET e dizer que também valoriza a beleza interior. Enfim, tendo essa vantagem sobre as loiras peitudas, tem sua existência escalada pela máfia chinesa, quer dizer, pelo Salomão, pra coordenar um bando de escribas mais enrolados que sexo de cobra que estão escrevendo a história da humanidade, desde que o mundo é mundo. E assim ela começa, escrevendo o antigo testamento, enquanto narra sua história de mulher feia e mal-amada.

É bom dizer que essa história de mulher escrevendo a bíblia é uma tese do Harold Bloom, ó, Harold Bloom, velhus decreptus da crítica literária, aquele que tudo sabe e tudo lê, e que a ninguém come. Ele, no livro The Book of J., jogou uma ideia de que a primeira versão da bíblia teria sido escrita por uma mulher. Mas isso é óbvio pô. Olha só as coisas que tem lá: cobra falante, gente feita de costela, o assassino é o Coronel Caim, na biblioteca, com uma pedra mixuruca, enfim, fruto de uma imaginação muito fértil. O mesmo tipo de imaginação que se põe a conjecturar seus whereabouts quando você chega em casa meia noite e cinco ao invés de meia noite. Enfim, desse verde aí que o Bloom jogou, Scliar fez um livrinho mais hilariante do que gás hilariante (que não é tão hilariante assim, ao contrário do que o nome pode supor), e leve, muito leve. Ler a mulher que escreveu a bíblia é o equivalente a alugar um filme do Simon Pegg na locadora porque você já tá de saco cheio de ver Bergmans e Tarkovskys. Vale a pena também pelas sacadinhas que ele mete no meio, tendo em vista o contexto histórico da parada. Uma pena que não me lembro de nenhum agora pra exemplificar. Jornalismo verdade é isso. Eu não minto pra vocês e vocês não mentem pra mim.

Sobre o projeto gráfico, nada tenho a dizer. Já disse, tô sem o livro na mão aqui. Mas a capa reproduz um desenho típico da época, em que ninguém sabia desenhar. Eu seria uma espécie de Michelangelo nessa época. E com meu físico, seria mister universo. Nasci na época errada mesmo… Bom, não foi tanto uma resenha hoje, mais para não deixar a morte do Scliar passar em branco. Descanse em paz, nobre escritor.

Ah sim, esse livro ganhou o prêmio Jabuti em 2000, na época em que o Jabuti premiava bons escritores, e não ficava fazendo média com ninguém.

Comentário final: Você já comeu uma carne assada com uma cenoura no meio? Estranho, muito estranho…