Georges Simenon – Pietr, o Letão (Pietr-le-letton)

pietrA categoria número 1 do Desafio Livrada! 2015 é um romance policial. Já falei aqui em algumas ocasiões a minha opinião sobre romances policiais: pega um autor que você gosta e lê tudo, porque é mais fácil encontrar variação dentro de livros do mesmo escritor do que entre escritores diferentes, e isso porque a fórmula da literatura policial é uma… veja, uma fórmula. É claro que se você escolher Simenon pra ser esse seu autor policial de estimação você vai ter bastante coisa pra ler, porque o sujeito escreveu, sei lá, uns cem livros. Mas tudo começa de algum lugar, e a carreira do Comissário Maigret, personagem central de grande parte de suas obras começa com Pietr, o Letão. E aqui cabem os dois avisos: tem spoiler e não gostei desse livro.

O mote e a abertura começam desprovidas de qualquer glamour, pra uma primeira história e para apresentar um novo personagem. Maigret recebe um telegrama de que um tal de Pietr o Letão está fugindo de trem e passando por vários países. O policial puxa a ficha do cara e aqui começamos a ver os traços de personalidade que o distinguiriam: nada muito brilhante a não ser a capacidade ímpar de conseguir distinguir qualquer meliante por meio da orelha. Veja bem aqui uma coisa. Existem três tipos clássicos de detetives de histórias de detetives: os sagazes, tipo o delegado Espinosa do Luiz Alfredo Garcia Roza e, tipo ideal, Sherlock Holmes, que saca tudo o que é para ser sacado sobre a vida de um meliante só de olhar pra ele; os derrotados, que são uns bêbados e falidos que tão nessa de desvendar crimes porque não prestam pra muita coisa, e aqui temos alguns personagens do Rubem Foseca e da tradição noir, e as aberrações, que são pessoas que nunca julgaríamos ser capaz de serem protagonistas de livros de detetives. Os casos mais clássicos são os personagens da Agatha Christie, Hercule Poirot, que é um sujeitinho meio patético com uma cabeça de ovo, bigode fininho e um nome escroto (traduz-se Hércules Alho-Poró) e Miss Marple, que é só uma velhinha que mal sai de casa. O detetive Monk, do seriado de TV, também se encaixaria aqui. Agora, veja que Maigret, apesar de conhecer uma orelhinha como ninguém, não se encaixa em nenhuma dessas categorias. É um sujeito mediano, mas competente o bastante para não ser um derrotado. Seu sucesso se encontra em seu autoritarismo, gritando “polícia!” para que soltem a língua ou lhe abram as portas. Nada de muito cativante, portanto. Sai esse picolé de chuchu a caça desse tal de Pietr o Letão, que o narrador simenontrata de explicar aos poucos quem é: um cabeça de uma quadrilha de agiotas que tem como principal colaborador na questão da bufunfa e da lavagem de dinheiro um milionário americano chamado Mortimer-Levingston, que tem uma mulher gatíssima e igualmente maluca e capangas dispostos a apagar vestígios de suas atividades da maneira mais drástica possível.

É engraçado de ver como a coisa se arrasta por 160 páginas por dois impeditivos do pragmatismo policial na história: o fato de Maigret ser francês e sofisticado o impede de chegar chutando a porta, meter a algema e largar o prego em geral. Fica aquela lenga-lenga jamesbondiana em que os antípodas se encontram pra conversar e não sai muita coisa disso. E mesmo quando se descobre a verdade sobre Pietr, o Letão, esse personagem até poderia ser interessante em outra história e em outras circunstâncias, a coisa não melhora muito.

Mas, ainda que o romance falhe miseravelmente em prender a minha atenção (e olha que já li coisa bem chata nessa vida), estruturalmente todos os elementos de um bom policial estão lá: um protagonista, um antagonista, um ajudante, um capanga, uma femme fatale, as pistas, os interrogatórios com pessoas aleatórias, as perseguições, o contra-ataque, o primeiro encontro, o cair da cortina, o segundo encontro, a dissolução, etc. Tudo lá. Talvez na época que Simenon escreveu essas páginas essa parada não fosse tão manjada e acabe rolando um efeito Cidadão Kane na gente. Mas não sei, fato é que o livro não me despertou tanta a atenção quanto deveria.

A Companhia das Letras é quem está republicando a obra de Simenon e os outros livros do Comissário Maigret. São vários e são fininhos, eles vem sem orelha e numa página de gramatura bem leve, então são até mais baratos do que a maioria dos livros da editora. Legal pra montar uma coleçãozinha, mas não pra mim. Só vou ler outro livro desse cara em um futuro distante, quando alguém me recomendar um e disser: “tem que ler esse aqui, cara, porque esse aqui é que é a parada pra valer”. Por enquanto, de volta à programação normal.

Comentário final: 168 páginas. Puliça!

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Vídeo: Um Lugar Perigoso, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

Vlog do Livrada! de volta no fim do ano para comentar o livro novo do grande Luiz Alfredo Garcia-Roza e, de quebra, falar um pouco sobre literatura policial e seus novos rumos por aqui. Aproveitem que é só hoje! Mentira, vai ficar aí pra sempre, pode aparecer quando quiser, mas não se esqueça de se inscrever no canal!

vlog

 

É uma imagem, queridão. Cê ainda não aprendeu?

Edney Silvestre – Se Eu Fechar Os Olhos Agora

Olá, queridos leitores do Livrada! Antes de começarmos a resenha de hoje, gostaria de compartilhar algumas coisas que não tem a menor importância, mas que resolvi escrever assim mesmo só pra não perder de vista esses eventos de nossa história pessoal.

1-    A partir de agora, temos mais uma editora parceira, a Geração Editorial. Eles entenderam a proposta do blog, não fazem nenhuma pressão como algumas editoras quiseram, de trocar livros por posts (podem ficar tranquilos que isso nunca será feito por aqui), e me mandaram alguns livros que em breve comentarei por aqui. Então agora tem um banner da editora ali do lado, se quiserem conhecê-la melhor, é só clicar ali.

2-    Duas semanas depois deste humilde blog cair nas mãos de um influente editor do Estadão, ele foi recomendado pelas meninas do blog Coisas de Diva. Com isso tudo, o número de leitores que nos acompanham aqui e pela página do Facebook skyrocked to the roof e agora trabalhamos na casa dos milhares por dia e estou me sentindo meio como aquele personagem do Roberto Begnini no último do Woody Allen. Por isso, quero agradecer a todos os que divulgaram esse espaço (inocentemente dou-me a crença esperançosa de chamá-lo de formador de leitores) e fizeram o Livrada! ser hoje um porto seguro de quem quer conhecer novas leituras em uma abordagem mais branda e descompromissada do que a tradicional crítica literária que temos hoje nos jornais. E que também estou aberto pra negócios, porque ficar escrevendo aqui de graça é chatão. Anunciem, anunciem!

3-    Já falei isso aqui antes, mas escrevo todos os textos desse blog em um único arquivo do Word. Só queria dizer que esse arquivo já passou da página 200 há algumas semanas. Se fosse um livro, seria do tamanho de dois livros da trilogia Crepúsculo. A única diferença é que seria mal escrito e estaria repleto de baboseiras. Não, pera…

4-    Tenho recebido muitas sugestões de leitura por e-mail, e temo que os leitores fiquem chateados por não verem seus livros comentados por aqui. Por isso, é imperativo explicar que meu trabalho (meu trabalho de verdade), consiste em ler livros, e que com isso sobra muito pouco tempo para fazer as leituras para o Livrada! Por essa razão, não tenho condições de pegar um Stephen King, um Mario Puzzo, um Caçador de Pipas, um Guerra dos Tronos nem um Cinquenta Tons Mais Escuros, como vocês me pediram. E confesso também que não é o tipo de leitura que eu gosto. Então me perdoem, relaxem no crack e apreciem a resenha de hoje.

Pois muito bem, vamos tratar hoje de um livro que esteve no centro de uma polêmica editorial. Mas não é por isso que vamos falar dele, afinal. Se Eu Fechar Os Olhos Agora, livro de estreia do jornalista Edney Silvestre (aquele cara que você vê na televisão), é importantíssimo e totalmente irado porque destoa da nossa atual produção literária. E com isso, é melhor eu frisar uma coisa, porque tem uns cuecas de seda por aí, cujo nome não vou citar, que acham que minha opinião sobre o livro é afetada por eu conhecer o autor: minha opinião sobre os livros são independentes e imparciais, e meus amigos que escrevem sabem disso. Por isso, se eu falo que o livro é bom, pode passar o atestado, filhão, que eu assino embaixo. E vou explicar direitinho o porquê.

Se Eu Fechar Os Olhos Agora narra uma história com tons de romance policial, pinceladas de crítica social em um painel histórico importante e pouco discutido da história recente do Brasil. O lance é o seguinte: uma mocinha aparece morta num brejão, com um seio decepado, e dois meninos acham o corpo. A moça é a mulher do proeminente dentista da cidade, inconfessavelmente corno. Sim, em uma cidade pequena do interior do Rio de Janeiro, bem perto de onde morei, Resende (ainda espero que uma bomba atômica caia naquele lugar, depois que meus familiares se mudarem, é claro), todo mundo se conhece e todo mundo sabe que a mulher do dentista é a Maria-Compasso da região. Se as pernas da moça tivessem uma senha, ia ser 1234, tão entendendo? É aí que o próprio dentista se entrega pra polícia, como bom cornudo que lava a honra na bala, uma história que pode parecer cada vez mais rara hoje em dia mas que, acredite, já foi uma atitude mais aceita do que doar dinheiro pro Criança Esperança. Aliás, por onde andam os duelos de pistola, os desafios com padrinhos presentes, onde foi parar essa brutalidade civilizada da época vitoriana? Ai ai, saudades de passar na rua e ver dois bigodudos com armas em punho dando passos contados em direções contrárias, apenas para depois virar e atirar. Hoje em dia só o que temos são pitboys com orelhas de couve-flor que saem do carro já com o extintor na mão. A pura definição da falta de classe.

Enfim, tudo parecia resolvido e todos já poderiam voltar a viver suas vidinhas miseráveis de médio-paraibanos, mas Paulo, o menino pobre e negro, e Eduardo, o menino rico com a mãe gostosa, resolvem investigar por conta própria, com a ajuda de um senhor de muita idade que vive em um asilo e não tem nada da vida para fazer a não ser se meter na vida dos outros. Que falta que não faz um boliche numa cidade dessas… Enfim, o improvável trio começa o trabalho detetivesco, e obviamente, a coisa se revela uma merda completa, daquelas que quanto mais se mexe, mais fede. Contar mais do que isso é puramente estragar a leitura, então detenhamo-nos nos fatos que podemos concluir com o que já temos.

O primeiro ponto digno de destaque de Se eu Fechar os Olhos Agora é, como já disse, o recorte histórico. A história se passa na década de 60, mais especificamente na década de 61, no último mandato do presidente Juscelino Kubitschek (se esse nome caísse num concurso de soletração, todo mundo tava no sal), e toda aquela região do Rio de Janeiro estava começando a crescer graças à instação da CSN alguns anos antes. O final da primeira experiência democrática do Brasil, a modernização do interior, a chegada do homem ao espaço, tudo isso se contrapõe a mentalidade interiorana ainda arraigada no coletivo do povo simprão da zona do café, que ainda aposta no coronelismo, nas aparências e na tradição do sobrenome. É, nada mudou. Então, de uma certa maneira, entender o que acontece nessa época ajuda a entender o que o país se tornou hoje, mais ou menos como ler Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, mas num período mais recente, com menos absorção, mas com mais diversão.

Depois, há ainda a própria narrativa. Sabe, existe um problema na atual literatura brasileira, em que os escritores basicamente se dividem entre os que querem contar uma boa história e se pretendem tão rasos quanto um prato de microondas, e outros que querem ser profundos como bucho de gordinho de churrascaria e se perdem em digressões, jogos de sintaxe e malabarismos literários afins e fazem um bom sonífero ao invés de um bom romance. O Edney, por sua vez, coloca a história e sua voz em pé de igualdade, priorizando o leitor em detrimento de vaidades estilísticas chatassas. Resumindo, é um livro divertido e bem escrito, foi o que eu quis dizer.

Esse projeto da editora Record tem uma foto batidíssima do Bresson, mas tudo bem porque ela continua boa mesmo que você olhe um porrilhão de vezes pra ela. Tem a boa e velha fonte Electra e o bom e velho papel pólen, com aquele corte da folha nanométrico que a gráfica da Record faz, que deixa as páginas retas na brochura e listradinhas. Vale a pena pelo livro, mas tem também um audiolivro narrado pelo Antonio Fagundes, que não tem páginas nem fontes. Deve ser melhor que, sei lá, a Bíblia narrada pelo Cid Moreira, ou a Odisseia narrada pelo Joey Ramone, então fikdik.

Comentário final: 304 páginas. Dor e sofrimento para quem leva, alegria e satisfação para quem taca.

Pedro Juan Gutiérrez – Nosso GG em Havana (Nuestro GG en la Habana)

Finalmente acabou o carnaval. Quer dizer, acaba hoje. A voz do cara que dá as notas para as escolas de samba na apuração de hoje tem mais ou menos o efeito da musiquinha do fantástico: bate aquela tristeza e você pensa que o fim de semana já está acabando e que amanhã começa a semana. Ou, nesse caso, que o ano útil está começando. É claro que isso não vale pra mim. Amanhã cedo estou na labuta de novo, tá pensando o quê? Aqui não tem corpo mole não.

Enfim, enquanto vocês dão seus últimos mergulhos na praia, tomam suas últimas caipirinhas na hora do almoço, fazem o último xixi na rua (assim espero!), pegam a última doença venérea do ano, vamos falar de literatura, ê! O livro de hoje é mais um livro excelente do nosso querido Pedro Juan Gutiérrez que eu recomendo para vocês. Um livro curtinho e divertido, que tem um pouco de tudo: ficção histórica, comédia, trama policial, perseguições de carro, espionagem e a vida de um grandessíssimo escritor: Graham Greene, o GG do título.

A história começa a partir de um fato real: a visita de Graham Greene à Havana, na década de 50. Isso era na época em que Fidel ainda não tinha metido um xeque-mate no Fulgêncio, e Cuba ainda vivia naquelas de todo mundo sendo vigiado, a suspeita do FBI agindo e tudo o mais que o submundo de Havana comportava, e ainda comporta até os dias de hoje, como Gutiérrez faz questão de nos mostrar. Bom, Greene, enquanto está em Cuba, descobre que seu nome está ligado a uma história de assassinato e espionagem, e que alguém está usando seu nome indevidamente, portanto. Aí se mete com o bàs-fond cubano, com putas e putos, ladrões, tarados, etc. Personagens que Pedro Juan já está acostumado a retratar — alguns deles, não me lembro quais agora, já foram retratados em outros livros dele.

Eis o que eu queria dizer sobre esse livro: Nosso GG em Havana é um livro muito diferente da obra de Pedro Juan. Parece que nesse ele resolveu escrever com a cabeça de cima e colocou uma porção de elementos da literatura policial, numa trama coerentemente sóbria. Claro, tem um pouco das safadezas de sempre, mas muito mais contidas, essas. Pesou no livro o raciocínio racional, o mercado do seu id. E Pedro Juan, com isso, provou ser um grande escritor do Cristal, conforme definição mutcho loka que o Italo Calvino fez uma vez, que não cabe explicar aqui agora.

O livro também é uma leve homenagem a Graham Greene, escritor que o autor adora. O título inclusive, vem de um livro de Greene, “Nosso homem em Havana”, também uma estória de espionagem, polícia e ladrão, etecetera. Não que Greene faça alguma vista na literatura de Gutiérrez. Nem sinal dele nas influências. Ainda assim, bom, uma homenagem. Você pode gostar do cabra e não tentar ser como ele, é ou não é? Mais do que isso, porém, é a homenagem à Cuba pré-Fidel. A Cuba moleque, a Cuba arte, a Cuba marota. É claro que eu, do alto da minha falta de verba, nunca fui para Cuba, ainda mais pra Cuba de Fulgêncio, mas tenho a nítida sensação de captar a aura do lugar lendo esse livro. E não é essa intenção de busca pela verdade disfarçada de busca pela verdade uma das coisas mais legais da literatura. É. Quem tá falando sou eu, então é.

Esse projeto da editora Alfaguara é classe bagarai. Esse estilo de capa cheia dos elementos foi o escolhido pras capas do Pedro Juan (a trilogia suja tem a capa poluída desse jeito), e vamos dizer que, pra esse livro, a coisa encaixa direitinho. Mérito de Tita Nigrí. Por dentro, quem já abriu um livro da Alfaguara, abriu todos. A fonte é um pouquinho maior nesse, pra preencher melhor as 125 páginas do romance. A tradução é dos já citados aqui Paulina Watch e Ari Roitman, e o livro tem citações de John Cheever e do próprio Greene. Vale aqui a citação do último, tirada da fala de um personagem de O Americano Tranquilo, seu livro mais badalado: “Pensar é um luxo. Você acha que o camponês se senta para pensar em Deus e na Democracia quando volta de noite para seu casebre de barro?”. Tá, claro que o exemplo é completamente forçado, e só pensa quem foi educado pra pensar, não importando as condições de existência. Aliás, que bela porcaria essa citação, não me convenceu de absolutamente nada. Sai fora, Greene, seu mané. Vem conhecer o profeta Gentileza e outros zés do mundo, vem. Ah, estressei-me agora, então eu vou.

Comentário final: Estação primeira de Mangueira… DEZ!!!

Rubem Fonseca – O seminarista

“Gente, foi o Rubem Fonseca que escreveu o Seminarista? Esse gajo é velho, hein?” Não é nada disso, ó pá, manezão, esse seminarista não é o mesmo seminarista do Bernardo Guimarães, o manolo que escreveu Escrava Isaura. O seminarista em questão é o último livro do nosso querido Rubem Fonseca. Poderia dizer que é o mais novo livro dele, mas a verdade é que nem é tão novo assim: foi lançado em 2009.

Bom, alguma consideração sobre o livro antes de adentrarmos em sua história. O Seminarista foi o primeiro livro inédito do autor publicado pela editora Agir. Ele, que até então era publicado pela Companhia das Letras, migrou pra editora nova depois de um rolão envolvendo a publicação de uma autora meio estreante no ramo literário. Mas bom, isso são fofocas de bastidores que aqui não me cabe contar pra não sucitar a violência. Sou um cara da paz e já tô até imaginando as editoras trocando tiro no meio da rua, tal qual Counter Strike naquela fase do Rio de Janeiro. Deixemos isso pra lá. Fato é que Rubão agora é do time da Agir, que está republicando seus livros aos poucos, em edições muito graciosas que comentarei no final.

Vamos ao livro de hoje. O Seminarista conta aquela velha estória do matador profissional que decide largar o osso, e não vê que isso tá errado. Quer dizer, o cara mata um monte de gente durante a vida inteira dele e aí decide parar de matar? Não é justo que uma pessoa tão maldosa assim tenha esse direito, por isso o tenente Aldo Raine faz questão de tatuar uma suástica na testa dos nazistas safados. Enfim, como em qualquer outra estória dessas, aparece uma mocinha inocente e umas pessoas interessadas em assassinar o assassino. Mas José (esse é o nome dele) é um cara sensível: gosta de rock clássico, poesia, literatura, plantinhas, enfim, é uma flor que nasceu do lobo, sem falar que foi seminarista quando mais moço (daí o nome do livro, né, esperto?). Mas, por alguma razão que Rubão não conta pra gente, decidiu fazer o mal e colocar as pessoas pra comer capim pela raiz. “Por quê, tio?” Não interessa pra você, palhaço. Morre, diabo! É inconsistente, incoerente, inconstante, inconstitucionalíssimamente? É. Mas, fazer o que, o cara é consagrado.

Bom, daí que José fica nessas de ser atormentado, tentando cuidar de sua gatinha, encontrando uns camaradas dos tempos de seminário e matando para não ser morto. Resumindo, uma estória pra lá de original. Gente, o cara teve que pensar muito pra escrever esse livro, hein? Qual vai ser o próximo? Uma mulher que toma um pé na bunda e decide se mudar pra algum país romântico da Europa, onde conhece um europeu forte e musculoso? Bah, fala sério, Rubão, meu rapaz, desde que você achou aquela carteira recheada de dólar você não é mais o mesmo.

Melhor é falar do projeto gráfico do livro, porque esse sim é bonito. Margem bem grande, fonte Minion Pro, papel pólen e capas com a mesma disposição de título e nome do autor, e ainda a assinatura dele dentro do quadradinho com o nome da obra. As lombadas são todas brancas e a minha edição ainda veio com um exemplar do conto “A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro”, bem melhor do que o livro, um conto das antigas e recheados de fotografias iradas sobre a cidade. O livro também tem site, acesse clicando aqui, e veja que no site eles também vendem o livro em versão e-book, para Kindle. Agora, R$19,90 num e-book? Editoras do meu Brasil, não façam as cagadas que a indústria fonográfica fez com o CD. Depois neguinho começa a piratear os livros e vocês não vão gostar. Bora baixar esse preço, né?

Comentário final: Pretty bitch for fun, for fun, for fun.

 

Thomas Pynchon – Vício inerente (Inherent Vice)

Inherent viceHoje é um dia triste. Acabou o horário de verão aqui no sul. Meus leitores nordestinos não imaginam o quanto esse período me faz feliz. Anoitecer mais cedo era muito legal quando eu era adolescente das trevas, tipo leitor de crepúsculo, mas agora que sou uma pessoa normal gosto de sair do trabalho e ser dia. Ainda mais nessa cidade em que você vê o sol quase três vezes por ano. Por isso, Bernarda Alba pede que a gente faça um luto até o advento do próximo horário de verão. Falta muito pra outubro?

Aqui no Livrada! é o único lugar onde você encontra esse tipo de nariz-de-cera moleque, esse nariz-de-cera arte, nariz-de-cera maroto, clássico em seu propósito de enrolar e te convidar pro texto (not). Enfim, livro de hoje. Thomas Pynchon, quem é ele? Um dos maiores escritores dos Estados Unidos. Ô paiszinho ingrato esse pra ter uma atividade intelectual. Deve ser que nem ser mestre churrasqueiro no meio da verdurada vegan: um bando de chato que não tá nem aí pro seu talento (brincadeira, galera vegan, aprecio vossas bandeiras. Mesmo porque a carne do mundo tá acabando e farinha pouca, meu pirão primeiro, ou, no caso, meu filé primeiro). Bom, voltando ao Pynchon, grande escritor estadunidense cuja identidade a maioria das pessoas no mundo desconhece. Vamos combinar: onde Dalton Trevisan falhou, Pynchon triunfa eterno nessa brasila. Ninguém sabe como é o cara, ele não dá entrevista, não aparece em público e as fotos que a gente tem dele são da época em que o Niemeyer tava projetando as curvas da Sophia Loren. E eis que ele lança um livro mutcho loko ano passado. Falemos dele entonces.

Vício Inerente é um livro um pouco diferente dos livros do autor, pelo menos quanto ao enredo. O que é uma coisa muito perigosa, porque quem me garante que foi ele mesmo quem escreveu isso, e não se trata de um fanfiction bem sucedido? Complicado, galera. Tenha em mente que a constância na obra é importantíssima quando não você não tá disposto a dar a cara a tapa. Enfim, o livro é, a grosso modo, um policialzão bem montado e, por isso mesmo, confuso as hell. Fala de um detetive chamado Doc Sportello, que não é bem um detetive — muito mais um drogadão que trabalha de detetive quando algum louco dá um trabalho pra ele. Era o auge do movimento hippie, começo da década de 70, e naquela época ser drogadão era muito mais do que fumar uma erva com seus amiguinhos, ouvir Manu Chao, brincar com malabaris, fazer Bob Marley de durepoxi, tomar um Santo Daime “só pra ver qual é a da parada” e fazer mochilão pela América do Sul: era um VERDADEIRO estilo de vida. Não faltavam drogas e misturebas sinistras pra derrubar qualquer elefante junkie que aparecesse. Bom, Sportello estava à toa na vida vendo a banda passar quando chega uma mocinha ex-peguete dele, dizendo que o atual, um Piccolo Tigre do ramo imobiliário desapareceu misteriosamente. E, mergulhando na investigação, o detetive — que, vamos admitir, faz um bom trabalho pra um drogadão — descobre ligação entre bandas de surf music e um saxofonista dado como morto, sociedades arianas de motociclistas e uma parada chamada Canino Dourado, que, basicamente, é tudo nesse livro: um iate, uma máfia de dentistas, uma barra de ouro que vale mais do que dinheiro em formato de dente, o dedo da sua mãe Total Flex, enfim, uma maçaroca de informações que vão sendo jogadas na sua cara como uma tortada violenta do Passa ou Repassa.

Todas essas informações exigem que você leia o livro atentamente, porque, caso contrário, você vai se sentir um desses drogadões do livro: viajando na maionese enquanto descobertas importantes estão sendo feitas. A grande sacada desse livro são os personagens secundários: o policial Pé Grande, um tira durão, para usar seguidamente duas terminologias de Tela Quente, e desculpe pela rima. Pé Grande não gosta de hippies e faz aquela linha de parceiro-meio-inimigo do protagonista. Também tem o Sauncho, o advogado de Sportello que, fazendo jus ao seu nome (de Sancho Pança, muito provavelmente) é o fiel escudeiro do protagonista. E o que é um advogado senão um escudeiro? Um crápula, um infeliz, um pulha, um biltre, um safado, um sem-vergonha, um yuppie nojentinho aspirador de pó do caraças? Sim, tudo isso, mas principalmente um escudeiro.

Agora, vamos lá, meu puxão de orelha na crítica literária desse Brasil varonil: a orelha do livro diz que Pynchon, com esse livro, “destila seu conhecimento divertidamente enciclopédico acerca de tudo”. Essa ideia de que o autor é um sabe-tudo foi amplamente alardeada pelos veículos, porque o Pynchon sabe falar de penteados afro e a importância do saxofone na evolução do surf music. Não é por nada não, mas não tem nada de extraordinário no conhecimento do autor nesse livro. Primeiro porque hoje em dia qualquer Zé Mané tem acesso à Wikipedia, segundo porque eu sei falar de literatura, jogos de videogame desde seus primórdios, armas de fogo dos mais variados calibres, a história da charge e do punk rock e astronomia, e ninguém fica por aí dizendo que eu tenho conhecimento enciclopédico. Eu só sei das coisas que estudei por fora, e tenho 24 anos. Imagina o leque de conhecimento que um cara velhaco como o Pynchon deve ter. Isso é normal minha gente, nessa época de internet principalmente, e Isaac Asimov estava certo. Normal, se você não for uma besta alienada que não gosta de aprender sobre nada nesse mundo. Então, emetevê da crítica, vergonha na cara e vamos botar a nossa própria cabeça pra funcionar, alright?

E vamos ao projeto da tão amada Companhia das Letras. Pra começar, a tradução foi feita pelo Caetano Galindo, professor de letras aqui da UFPR. Galera, o curso de letras da Federeca é uma das poucas coisas de qualidade que o governo federal pode te oferecer. Fiz diversas matérias ali e foram todas memoráveis. E o Galindo é reconhecidamente um cara admirado por lá, então pimba, é só acerto. Daí tem essa capa. Vamos combinar que a imagem não é das mais chamativas, mas, mesmo assim, não podia ser melhor. Pra mim, ela descreve muito bem a vibe do livro. Acontece né, nem sempre livros legais rendem imagens bonitas, mas as capas são o que são e o são por alguma razão (eu tô rimando mais que o Gabriel Pensador hoje). No mais, fonte Electra, papel pólen soft e mais um livrasso pra você destruir alguns ossos com ele. Ah, vou tentar usar o comentário final agora como um cata-corno Google, vejamos a eficiência.

Comentário Final: Emagreci 20kg tomando Caralluma. É verdade!

 

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!