Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho (Benim Adım Kırmızı)

Benim Adım KırmızıHoje é aniversário da minha gatinha, mas antes da festa, o Livrada! precisa continuar. A Carlinha tem alguns escritores favoritos, pelos quais eu partilho o gosto na maioria das vezes. Mas o Pamuk, acredito, talvez seja seu escritor favorito de língua estrangeira, e depois de ler três livros dele e de muita insistência, ela finalmente me convenceu a pegar uma obra deste turco que é prêmio Nobel de literatura de 2006.

Meu Nome é Vermelho passou na frente de Neve, que era minha segunda opção, pela proximidade do tema comigo. Ora, muita gente aqui não me conhece pessoalmente, mas a verdade é que eu gosto muito de desenhar e venho de uma família de desenhistas, pintores, projetistas e outros profissionais que trabalham de lápis e prancheta figurativamente sobre um plano neutro. E o lance desse romance está justamente no desenho, então resolvi verificar o que esse gajo turco sabe desses lances.

Pois muito bem, muito bem bem bem. Meu Nome é Vermelho é um livro sobre desenho, mas é uma daquelas histórias específicas rodeadas por universalismos. Temos mistérios, crimes, amor, drama, morte, vilões, mocinhas, heróis, lendas, fábulas, e, é claro, temos a questão do desenho. O argumento principal gira em torno de um polêmico livro que o sultão não-sei-das-quantas ordena secretamente a seus melhores desenhistas para dar de presente para a comitiva veneziana que pretende visitar Istambul nos próximos anos. Agora, o desenho segundo o Islã era uma coisa considerada artisticamente tosca pelos então novos padrões renascentistas que estavam ficando na moda, cheios de sombra, perspectiva e detalhes mínimos, tipo pelanca de pescoço e sobrancelha mal aparada. Isso era então uma afronta às leis de Deus para os turcos, como qualquer arte figurativa, por colocar o homem no centro das atenções e elevar o artista à condição de criador, como o próprio Deus. Ora essa, onde já se viu. Eu sei, eu sei, vocês estão pensando: “Obviamente esses sujeitos não pensariam assim se conhecessem a obra do inominável Romero Britto”, não é verdade? Na verdade também não, porque a arte islâmica tampouco contempla o estilo de um artista e a assinatura como elementos desejáveis. O lance é todo mundo fazer o mesmo tipo de bonequinho e o mesmo tipo de paisagem sempre. Resumindo: a arte islâmica era a arte do ClipArt, e vocês podem ficar o resto do dia discutindo se isso é arte ou artesanato, mas nós temos uma sinopse para desenvolver antes de falar do livro (sempre que tiverem dúvidas sobre o estilo de desenho a que me refiro, podem conferir essa capa, que tem ilustrações que evidenciam bem a questão). Bom, nessa encomenda perigosa, quatro homens, discípulos de Mestre Osman trabalham secretamente: Borboleta, Oliva, Cegonha e Elegante. É, pensei a mesma coisa: parece um elenco da Malhação turca. É quando Elegante é brutalmente assassinado por um dos outros três, e precisamos desvendar esse mistério. Ao mesmo tempo, volta à cidade o Negro, um homem que trabalhou fazendo biscate pelo mundo e pensando na doce Shekure, que tinha apenas 12 anos quando ele a deixou em Istambul. Pedofilia? Talvez, mas não vamos julgar. Shekure agora é uma moça casada e muito provavelmente viúva, já que seu marido foi pra guerra e nunca mais voltou, e seu cunhado Hassan, irmão do marido desaparecido, vive dando em cima da moçoila, mãe solteira de dois e abrigada na casa do pai, o chamado Tio (é pai mas é tio, sacou? Nem eu), que comanda o projeto. O Negro então começa a investigar o assassinato e ver se ainda dá pra recuperar o amor perdido.

pamukBasicamente, essa é a história, permeada, é claro, por muitas aulas de pintura e desenho, contos exemplares sobre estilo e assinatura e sobre a passagem do tempo para o artista, que fica invariavelmente cego no final da vida. Agora, o discurso do livro é muito interessante. Nada menos do que 21 narradores contam esse causo para você, entre eles o cadáver do Elegante, Negro, Shekure, o Tio, Mestre Osman e o resto dos artistas da Malhação Turca, além de outros personagens que são narrados nas tabernas e nas cafeterias onde os sátiros se reúnem, o que dá uma palpabilidade ao zeitgeist do romance. O recurso de múltiplos narradores, entretanto, serve a um propósito muito maior: evidenciar o poder do livro e a posição do leitor.

Isso porque um dos narradores é o Assassino, que se apresenta assim, como assassino, embora narre outros capítulos sob sua verdadeira identidade, guardada em segredo. Aí você vê que nenhum diretor em sã consciência pensaria em adaptar esse livro para o cinema, porque só o livro permite que um assassino se comunique diretamente com o leitor sob uma proteção impenetrável que é a falta de voz literária. Sim, porque todos eles falam com a mesma voz de escritor (algo muito fácil quando o autor é um só, Pamuk), uma camuflagem perfeita. E, ao mesmo tempo, todos narram para você, leitor, evidenciando algo que é sugerido pelas histórias dos sátiros: não há história sem leitor e muito menos há poder narrativo no discurso sem ele também. Isso, é claro, corrobora com a submissão do artista com o objeto da obra e seu futuro apreciador segundo a fé islâmica, então tudo se trata de uma adaptação estilística ao pensamento.

A trama de assassinato, mais a briga de Negro por Shekure, defendendo-a do possessivo Hassan, e as ordens irrefutáveis do sultão, tudo isso dá sequência não só à tradição da literatura ocidental como também da oriental. A Turquia, como vocês devem saber, é um país meio esquizofrênico nesse lance de ocidente e oriente, e coube ao Pamuk escolher temas interseccionais aos dois polos horizontais do mundo para fazer algo em favor da Turquia: um país que fala a todos os outros sem tomar para si tons exóticos e canastrões, como vemos tanto por aí. Tudo parece natural porque tudo, de fato, o é.

Acho que existem muitas outras coisas para falar sobre esse livro, mas resolvi me deter nesse ponto em particular para mostrar como é possível ser inventivo e usar a narrativa e o suporte do livro ao seu favor. Muito se fala em reinvenções linguísticas, saltos narrativos e etc e tal, mas pouca gente pensa em reformular a estrutura do romance em si. O Pamuk ganhou muitos pontos comigo nessa, e pretendo lê-lo de novo por causa disso. Espero que vocês também o façam.

Ps: Feliz aniversário, Carlinha!

Comentário final: 534 páginas em papel pólen soft. Fratura na cabeça do Elegante Efêndi.

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Caco Barcellos – Rota 66

Olelê, Olalá, não para de chegar livrorreportagem nesse blog. Fazer o quê se eu li muito dessas coisas, né, gente? Mas ó, fica por aí que o livrorreportagem (alguém já se acostumou com essa nova ortografia?) de hoje é mó bacaninha.

Rota 66 – A história da polícia que mata. O nome parece meio óbvio pra mim. Pelo que eu saiba, toda polícia mata, e isso eu sei desde pequetitinho. Acho que o subtítulo poderia ser algo como “A história da polícia que mata gente que não tinha nada a ver com a história”, já que o livro é introduzido com o assassinato de jovens de classe média que nunca foram metidos com crime. Se bem que depois aparecem casos de policiais matando ladrões de galinha e outros criminosos da terceira divisão do mundo do crime, mas a ideia de Caco Barcellos com esse subtítulo era retratar a polícia que mata de lambuja, sem haver necessariamente o confronto armado com os meliantes. É, deixemos a definição assim.

Rota 66 é um livrorreportagem um pouco diferente, pelo menos na sua primeira metade, porque trata muito mais dos bastidores da investigação da matéria do que dos fatos propriamente ditos. E, na moral, que investigação! Nem o maluquinho do 60 Minutes faz uma parada dessas. É papo de ficar documentando quilos e mais quilos de papelada engavetada coberta com cocô de mariposa, rastrear o número de série de uma arma, desde sua primeira compra até seu último dono, fazer mancha criminal, estatística das mortes pelas mãos da polícia, etc. Fora as entrevistas, pesquisas e a redação de praxe. E tudo isso sozinho, cumpádi, com a ajudinha do estagiário no máximo. Assim, na cara de alemão e na coragem, Caco Barcellos mete o bedelho onde não é chamado para contar as histórias dessas vítimas e suas famílias, e narra tudo como se fosse um filme de ação, uma espécie de Máquina Mortífera sem a parte do humor que lhe é peculiar.

Acho que, na época em que o livro foi publicado, a ideia de que a Rota matasse gente inocente era tão inacreditável quanto dizer que o trailer do filme do Jabor está sendo aplaudido nos cinemas. A Rota sempre teve muito prestígio em São Paulo por ser a “polícia que resolve as coisas”. Mais ou menos o destaque e a idoneidade que foram conferidos ao Bope depois do Tropa de Elite. A comparação é clara porque o Bope é quase uma Rota do Rio de Janeiro. Aliás, aqui em Curitiba existe a Rondas Ostensivas de Natureza Especial, a Rone. Se bem me lembro, quando eu era criança, eu cortava o cabelo com um barbeiro gay que morreu de Aids e que também se chamava Rone, ou Roni, ou Ronan, sei lá. Fato é que toda vez que eu leio Rone no carro da polícia eu lembro daquele magro barbeiro boiolinha que morreu de Aids. Espero que não apanhe da Rone por essas lembranças.

Tergiversei. Dizia eu que a Rota tinha muito respaldo na sociedade paulistana na época do lançamento do livro. E, é de se imaginar, Rota 66 foi um baque na popularidade da tropa por uma descrição tão brutal de seus policiais. Claro que isso não vai ser choque nenhum caso você seja do tipo de pessoa que fala “bandido tem tudo que morrer mesmo!”. Isso, aliás, é outro aspecto da cultura da classe média que Barcellos tentou abalar com esse livro. A sociedade ainda não entende o conceito do criminoso casual, que tem um empreguinho, mas tunga lá uma coisa ou outra pra complementar renda. Acha que bandido nasceu bandido, faz bandidagem 24 horas por dia e secretamente balança a cabeça quando a empregada chega chorando dizendo que o filho tá na cadeia. Infelizmente, essa consciência humanitária com bandido foi longe demais, e hoje em dia o que não falta é galerinha descolada com (parafraseando o Tropa 2) peninha do vagabundo, atestando que sabe mais do que todo mundo sobre a realidade social em que vivem os pobres que apelam para a violência, e bota o dedo na cara pra dizer que a gente não sabe nada porque nasceu loiro. Tá certo, não vou entrar no mérito da discussão, mas aí, povo, bora deixar de ser prepotente, belê?

Essa edição da editora Record seguiu a linha do outro livro do Barcellos, o Abusado, que também já foi resenhado aqui. Só que é menorzinho e sem imagens. Maldido papel offset, fonte Stone Serif, que é uma das poucas fontes confortáveis de se ler em papel branco desse jeito; Capa maneríssima com uma foto sépia e saturada de um sujeito mauzão da Rota de braço cruzado com relógio de ponteiro (sempre achei que militar e polícia só usava relógio G-Shock), e título, subtítulo e nome do autor em destaque na caixinha de cores preta, branca e laranja. O corte e o encadernamento do papel é bem legal, fica um tijolinho compacto e que passa voando, você nem vê. Eu mesmo li esse livro em dois dias. Foi massa.

Comentário final: 350 páginas em papel offset 90g/m². Porrada neles, governador!

 

Anthony Burgess – Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)

A Clockwork OrangeEis que, hoje pela manhã, estava eu conversando com alguns colegas que fazem também fazem aula de alemão, justamente sobre o filme Laranja Mecânica, que um deles assistira a pouco. Eis que nosso leitor e interlocutor Lucas acrescenta à conversa sua impressão de que o livro não era tão bom. Ora, licença para discordar, Laranja Mecânica em papel pode não ter lá os superlativos aplicados por Stanley Kubrick (muito menos aquela cena de assassinato com um long dong gigantesco), mas Anthony Burgess fez um livro de primeiríssima. E vou dizer o porquê.

Caso você nunca tenha tentado se passar por descolado, nunca tenha tentado ser diferente, nunca prestou atenção nas recomendações que dão pra você todo dia, nunca leu livro de adolescente ou nunca assistiu a um filme que foi feito antes de você nascer, Laranja Mecânica é a história de uma gangue inglesa em uma sociedade futurista e distópica. Os membros da gangue são jovens delinquentes que gastam o fim de suas adolescências roubando, saqueando e estuprando. A história tem uma reviravolta quando o líder da gangue, Alex, que vinha enfrentando problemas de autoridade perante seus comparsas, ganha um sal dos gambé e passa aí um tempo ausente, vivendo com a bunda encostada na parede.

Eis que ele integra um programa de redução penal que consiste numa lavagem cerebral (acho que chamava “Método Ali Kamel”, mas agora não tenho certeza) no qual ele é obrigado a ficar vendo várias apresentações de Power Point com fotos de bebês rezando e filhotes de golden retriever, e ouvindo os maiores sucessos de seu ídolo-mor: Cid Guerreiro. Enquanto as imagens passam e “Ilariê” e “Tindolelê” tocam no talo, algo acontece na cabecinha do sujeito. (tá, esse parágrafo é zoado inteiro, mas, pelamordedeus, se você não conhece a história, larga o Pokemon por um tempo)

Alex então é reintegrado à sociedade, mais frouxo que manga de bruxo. Incapaz de esmagar uma mosquinha, de dar uma sapecada nas cachorra, e de roubar um cone de estrada sequer (aliás, roubar cone é uma das únicas modalidades de roubo socialmente aceitas, pensem nisso), o sujeito vira paçoca na mão dos que já queriam ver sua caveira há algum tempo. Gente, isso aqui tem mais spoiler do que tunning de Zé ruela.

Bom, Burgess escreveu essa história após sua esposa ser estuprada por uma gangue de jovens, em atitudes muito parecidas com a do livro. Impossível não tomar isso como trauma, ainda mais para a pobrezinha. Acho que nessa época estuprador ainda não tomava soco toda hora, ajoelhava e beijava os pés e depois sangrava até morrer na rua dez, como diriam os Racionais. Incrível mesmo, entretanto, é a maneira como o escritor tentou espurgar esse demônio de sua vida e da vida da esposa: criando um protagonista ladrão e estuprador que cativa o público e que rende fantasias nada originais em qualquer baile de máscaras moderno. Sério, vocês já foram a alguma festa a fantasia em que não tinha ninguém vestido de “Laranja Mecânica”?  Alex come sim o pão que o capiroto amassou, mas tem sua redenção e sua sacudida de poeira e volta por cima, algo que qualquer vítima mais ressentida que romantizasse seu trauma desconsideraria sem pestanejar, mesmo porque há um consenso que prega que livro bom é livro triste (não sei daonde, mas não vamos discutir isso agora, ok?).

Anthony BurgessO autor também criou uma série de neologismos, que são usados como gíria pelos membros da gangue: o famigerado vocabulário Nadsat, surgido a partir de palavras essencialmente russas. É engraçadão quando você começa a aprender russo e acha que está falando essencialmente gírias do Laranja Mecânica. Recomendo, maltchicks e dievotchkas. O glossário com as palavras fica no final do livro, e são dezenas. Ora, o cabôco que cria mais de cinquenta palavras para um livro já está no nível linguístico de um Mia Couto, de um Guimarães Rosa, de um Baudolino (opa, esse não). Palmas, que ele merece.

Quanto à comparação do enredo do filme e do livro, devo dizer que o livro é muito mais, digamos, “adulto” do que o filme, por ir além e retratar alguns anos à frente de onde a história cinematográfica de Alex termina, e por ter muito menos elementos de humor, o que, (que Deus me perdoe por isso que vou dizer agora) Kubrick não deveria ter explorado, por suavizar demais uma história tão pesada. Ainda assim, o filme tem os seus méritos, por explicitar leituras muito mais escondidinhas entre as linhas de Burgess e por criar um visual marcante que há de permanecer no inconsciente coletivo até o dia em que UM BURACO NEGRO MATAR TODO MUNDO!!! (ando muito impressionado com isso).

O livro foi lançado pela editora Aleph, que é um pouco desconhecida, mas muito caprichosa. Ao que parece, eles são especializados em Ficção Científica (gênero do livro) e lançam livros lindos do Isaac Asimov que valem a pena serem lidos e comprados. O projeto gráfico deste Laranja Mecânica é bem chique. Fonte Century 731 BT – Roman em papel pólen soft, com uma capa esquisitona e um cabeço chique que simula uma tipografia de máquina de escrever que tá boa pra ir pro lixo. A tradução é de um sujeito homem chamado Fábio Fernandes, que assina o prefácio e uma nota sobre a tradução brasileira, ambas muito elucidativas e bem-vindas para o entendimento da linguagem usada por Burgess (conforme adentramos na leitura, as gírias nadsat começam a passarem batidas por nossos olhos). Enfim, vale a pena a leitura e espero que este comentário tenha deixado os senhores mais dispostos a encará-la.

Comentário final: 199 páginas em pólen soft. Um tolchok de literatura na sua cara!

 

Edward Bunker – Nem os Mais Ferozes (No Beast so Fierce)

Hey, hey, garotada! Mais um domingo de resenhas do Livrada! Tá sem nada pra fazer no domingo? Decepcionadão com as pilantragens da Ferrari na Fórmula 1? Sem paciência pra artesanato de feirinha? Chegou morrendo de fome da missa? Vem pra cá se divertir!

A vida não tá fácil, pessoal. Tá cada vez mais difícil parar pra escrever sobre livros. Agora entendo aquele pessoal com cara de mal-comido que diz: “quem tem tempo para livros hoje em dia?” Mas a gente segue firme e forte. Alguém tem alguma sugestão de como agilizar o processo? Estava pensando em fazer um podcast, já que fazer vídeo é uma impossibilidade por hora, e, afinal de contas, o jeito de ganhar o coração das pessoas na internet é livrando-as do infortúnio de ter que ler algo ao monitor. É, vamos amadurecendo as ideias, deixem aí suas opiniões. Enquanto isso, uma notícia boa: tivemos um recorde de acessos no último post, do Irvine Welsh. O número? Não vou comentar, rá! Mentira, vou sim, eu sei que isso aqui nunca vai ser popular igual a um blog normal, mas tivemos 171 acessos na quarta feira. É, e você achando que isso aqui tinha duas mil visitas por dia, né?

Sem mais, vamos ao livro de hoje: um livro rapidinho, bacana, chuchu beleza, pra você levar e ler no feriado, na praia, sem dar uma de maluco igual ao nosso amigo que leva Dostoiévski pra ler na Bahia. Trata-se do clássico policial Nem os Mais Ferozes, dele, o Mr. Blue, o velhinho problemático, Mr. Edward Bunker. Bunker publicou o livro em 1973, quando ainda estava passando um tempo ausente, em San Quentin, a prisão de segurança máxima dos Estados Unidos que rende desde músicas do Johnny Cash a videoclipes decadentes do Metallica. Pouca gente sabe, mas o autor foi, na época dele, o mais jovem detento da casa grande, entrando com 16 ou 18 anos, não me lembro bem. Em 75, Bunker deixaria San Quentin definitivamente, e se tornaria essa pessoa querida da literatura, artes cênicas e outras artes mais pacíficas, sempre vivendo ou escrevendo algo próximo do que fora sua vida. De todos os seus livros publicados, Nem os Mais Ferozes é, de longe, seu maior sucesso editorial, sendo adaptado para o cinema e tendo inspirado sujeitos como Tarantino em seus filmes. Aliás, tenho um palpite sobre o Tarantino: ele é como o Tim Burton, faz uns filmes que parecem sinistros, mas são feitos pras menininhas com muita imaginação e pouca auto-estima. Mas bom, vamos deixar essas minhas opiniões polêmicas pra lá.

Edward BunkerNem os Mais Ferozes conta a história de Max Dembo, um protagonista que vai grudar na sua mente igual aquela música chata do Paralamas: “Rosas em dó, trevas em sol, uma brasileiraôôôôÔÔÔ”. Bah, sei lá como é a letra desta porcaria, mas aposto que já ficou na sua cabeça. Dembo sai da prisão depois de uma vida gauche disposto à se regenerar e ficar certinho que nem moldura em casa de obsessivo-compulsivo. Mas as coisas não são bem assim: estigmatizado por sua ficha suja e com um agente de condicional chatão que não larga do seu pé e está sempre disposto a levar tudo na má intenção, não demora pra ele despirocar de vez e cair rapidinho na vida do crime de novo. Contar mais do que isso é estragar o livro, aliás, já contei demais, né? Parei por aqui com a sinopse então.

Max Dembo foi vivido no cinema por Dustin Hoffman no filme Liberdade Condicional, de 1978, e foi até bem aclamado e teve visibilidade. Para mim que ainda sou meninão e só conheci o Dustin Hoffman mais velho, percebi que a idade fez maravilhas para o sujeito. Entretanto, o filme poderia ser mais fidedigno e… peraí, eu tô comentando filme aqui de novo? Ah, faça-me o favor!

Acho que o termo “policial” para descrever esse livro até cai bem, exceto pelo fato de não ser uma estória de mocinhos, mas de bandidos, sobretudo. O fato do cara ter amigos e o sistema para jogar ele sempre de volta para o submundo é um tema debatido e comentado na literatura “bandida”, desde Luiz Mendes a Patricia Melo (tá, exemplo horrível, mas vamos lá). Nem os Mais Ferozes é um livro muito diferente dos outros livros de literatura marginal, e tem um desenvolvimento muito bom, com um estilo fluido e aparentemente simples, mas entrecortado por boas e precisas incursões psicológicas.

O livro foi lançado pela editora Barracuda, uma editora que merece muito o nosso respeito. Os caras sabem escolher mesmo os autores que publicam, não sai qualquer merda. O catálogo deles é mínimo, nem sei qual foi o último livro que eles lançaram, mas já deve fazer algum tempo. Esse livro não tem orelha (O QUÊÊÊÊÊ?), e eu sei que isso pode ser algo meio subversivo para os puristas e leitores de orelha, mas, acredite, dá um charme para algumas edições e barateia em muito o custo final de produção. No mais, papel pólen soft na veia, o que, em 2004, era algo reservado a editoras luxuosas. Fonte helvética na veia dos irmão e cabeço discreto junto à paginação, do jeito que a gente gosta. Ah sim, a tradução é daquele moço, o Daniel Galera, sabe? Pois é, é dele.

Comentário final: 356 páginas pólen soft. No pé da orelha é uma porrada!

Caco Barcellos – Abusado

Uh, dobradinha não só de literatura nacional como também de literatura sobre o Rio de Janeiro. Legal, vamos propor uma sessão de porradaria: de um lado, o Rio de Janeiro exaltado de Ruy Castro; do outro, o Rio de Janeiro todo errado de Caco Barcellos em sua pièce de résistance (é sim, porra, muito melhor que Rota 66) Abusado – O dono do morro Dona Marta (hoje em dia, o dono do morro é o Eduardo Paes). E, antes que todo mundo fique falando que a visão deste é realista enquanto a daquele outro é idealista, vamos lembrar que o jornalista gatão Caco Barcellos (as meninas da faculdade dizem que o nome do meio dele é aimeudeusdocéu) é gaúcho, e se você me mostrar um gaúcho que gosta do Rio de Janeiro eu te mostro um sujeito que canta Surfin’ Bird com o ânus. Tá, eu eventualmente acabo mostrando a cena do Surfin’ Bird (não, o sujeito não sou eu, tem naquele filme do John Waters).

Falando sério agora, ninguém discute a veracidade e o compromisso de Barcellos em fazer um retrato fiel de um dos Marcinhos VP, o do morro Dona Marta, o traficante que fez história ao depor na CPI do narcotráfico em 2000, sendo um bandido com uma certa consciência social (não vou ficar dizendo que ele é uma versão brasileira de Robin Hood ou John Dillinger que isso é coisa de jacu). Barcellos colou mesmo com o sujeito e expôs em seu livro todos os pormenores da vida do crime no Rio de Janeiro, os tribunais do crime e a hierarquia do tráfico. Isso tudo além, é claro, de mostrar a faceta (FA-CE-TA!) humana de Marcinho, o patrocínio que recebeu de João Moreira Salles, os envolvimentos amorosos com uma aristocrata e muitas, muitas histórias sensacionais melhores que roteiro de filme brasileiro de miséria brasileira. E, sem querer endeusar o bandido, mas o Marcinho VP realmente era uma figura pelo que o livro conta. Particularmente na entrevista que deu para a Veja na ocasião da CPI, quando o repórter perguntou se ele já matou alguém e se ele conseguiu dormir depois, ele respondeu: “Já matei, no confronto. Viu o filme Mad Max? É a mesma sensação. Depois, em algum momento, você tem de dormir.” AHAHAHAHAHAH dorme com essa agora, revista Veja!

É lógico que não deve ter sido nada fácil fazer essa reportagem gigantesca se metendo em uma roubada (hã? Hã?) atrás da outra, inclusive saindo do Brasil junto com o bandido, mas Caco Barcellos nem por um segundo mencionou seu grande handicap: sua fama e complexão caucasiana em companhia contrastante — em um país de contrastes, é verdade — de um negão de olho puxado alto pra cacete. Deve ter sido foda passar despercebido desse jeito, acho eu. E o medinho?

Não sou muito leitor de biblioteca, mesmo porque na Biblioteca Pública do Paraná os bons livros são disputados a tapa. Mas, eis que um dia estava lá vagabundeando, tomando uma coça atrás da outra no xadrez por menininhos de 8 anos, quando passei na sessão de Sociologia e tava essa belezinha de tijolo ali no expositor dos mais requisitados. Aí peguei emprestado, fiz um malabarismo digno de um Danny Ocean com a carteirinha da biblioteca do amigo Murilo Domingos pra conseguir ficar por mais um mês com ele, e acabei terminando a leitura, ora veja, no Rio de Janeiro, numa oficina mecânica enquanto meu pai balanceava os pneus do carro (ou algo assim). E nesse dia, lembro-me de ter lido pelo menos umas duzentas e cinquenta páginas do livro (eita balanceamento demorado da porra!). A leitura é eletrizante, não dá pra largar o livro nem pra espirrar a alergia de papel de biblioteca que eu tenho. Eu não costumo dizer aqui que recomendo o livro ou não, falo apenas que gostei e que é uma opinião minha. Mas para o Abusado vou abrir uma exceção e recomendá-lo fortemente (e espero que com isso esse blog ultrapasse o site de catálogo de prostituta que aparece em primeiro lugar no Google quando se digita “abusado”)

Essa edição da editora Record é fodassa, embora tenha o MALDITO papel offset. Só não gosto muito quando uma editora lança dois livros do mesmo autor em formatos e tamanhos diferentes. Acharia melhor se o Rota 66 fosse igualmente grandão, porém fininho de espessura. Já que é pra fazer coleção, faz uma coleção que orna, né? Não é TOC, não é boiolagem, é só um conselho, ok? De qualquer jeito, como eu ia dizendo, a edição ficou legal, uma foto de capa muito foda, aquele miolinho colorido com as fotos, sempre fundamental e uma capa um pouco mais rígida do que a habitual, embora não possa ser considerada capa dura. Deixem para ler em casa. Ficar carregando essa porra dá torcicolo.

Comentário final: 560 páginas em formato grande e papel offset. Se tacar num prédio, é terrorismo!

Leonardo Sciascia – A cada um o seu (A ciascuno Il suo)

Gosto muito quando um escritor teórico, sério e cuja literatura é focada em outro assunto se aventura a fazer algo tão literariamente efêmero quanto um romance policial. Opa, peralá camarada! Romances policiais não são efêmeros (pelo menos não o suficiente), mas digamos que são discriminados assim como um gênero menor. Digamos que o romance policial, se fosse uma mulher em um concurso de misses, seria uma loirassa turbinada. Pode agradar aos olhos do público, mas dificilmente agradaria os olhos dos jurados. Enquanto aqueles a elegessem paradigma de beleza (talvez porque a sensualidade para as massas seja traduzida em volume), estes a achariam clichê e visualmente monótono. Isso não significa porém, que a loirassa turbinada e o romance policial não tenham seu valor e seu lugar (provavelmente junto ao povão). Jorge Coli costumava recomendar a seus alunos que lessem romances policiais, imagino com o objetivo de apurar a lógica e a visão para os detalhes. Eu, que durante o ano de 2004 fui seu aluno duas vezes (mesmo que por um curto espaço de tempo), acatei a recomendação.

O policial do italiano Leonardo Sciascia que trataremos, entretanto, é um livro que, dentro de sua categoria, poderíamos classificar como atípico. A primeira irregularidade não é bem uma irregularidade desde que Agatha Christie a consagrou: o investigador não é um policial ou um detetive, mas uma pessoa comum — no caso, um professor. A segunda fica por conta da linguagem: uma vida dedicada a ensaios políticos e livros satíricos (também sobre a política), refinaram sua escrita ao nível do formalismo peculiar de alguns italianos, como Pirandello em Seis personagens a procura de autor ou Ítalo Calvino em livros como Os amores difíceis e Se um viajante numa noite de inverno. Por isso o amigo Cássio — e faço minhas suas impressões — na ocasião que leu esse livro achou-o chato até sua metade e, uma vez terminada a leitura, uma excelente obra. Alguns são assim mesmo, precisamos terminar a última página para perceber a grandiosidade da bagaça.

Um resuminho: Em uma pequena vila da Sicília, um farmacêutico e um médico são mortos enquanto caçavam. Suspeita-se de infidelidade por parte do farmacêutico (e o médico teria morrido de bucha). A partir daí o professor começa a investigar, com pistas sensacionais e algumas reviravoltas. O que salta aos olhos e a impressão que fica é que Leonardo Sciascia é um excelente escritor.

A história de como esse livro veio parar na minha mão é interessante. Minha mãe uma vez disse-nos que tinha lido um livro em que um farmacêutico morria, e que o livro era muito bom, mas que não lembrava o nome nem o título. No mesmo dia, passeando na livraria, a Carlinha saca um livro da prateleira, lê a orelha e pergunta: “Ei, esse não é o livro do qual sua mãe estava falando?” E era. Achei legal, mas li-o na época em que estava fazendo um pequeno estágio na Gazeta do Povo, descobrindo que de ilustrador eu não tenho nada, então li meio na pressa e ele passou meio batido por mim. Até que ontem a supracitada Carlinha terminou de lê-lo e resolvemos conversar sobre ele. E veio-me a ideia de escrever sobre ele aqui, já que agora ele está sendo vendido ao preço módico de 9,90 nas Livrarias Curitiba.

Sobre a edição: É um dos poucos livros da editora Alfaguara lançados no Brasil com capa revestida de papel couché. Tem uma capa bacana com uma foto de um tal de Antoine Gyori, pegada da Corbis (bendita Corbis, hein?) que por acaso ficou fodassa no livro (no canto da parede tem uma escrita em roxo quase imperceptível, tente ver). No mais, é tudo igual, mas acho que essa escolha da Alfaguara de padronizar os livros em uma mesma diagramação não é tão ruim tendo em vista a excelente qualidade do material. Ah, o livro também foi traduzido pelo genial Nilson Moulin, tradutor de Calvino e outros fodásticos. Nilson, a galera aqui te curte, cumpádi!

Comentário final: 135 páginas pólen soft de gramatura alta. Tem que bater muito pra machucar.