Ernst Jünger – Nos Penhascos de Mármore (Auf den Marmorklippen)

Auf den MarmorklippenTem livros que são tão sinistros que poucas pessoas conhecem, menos pessoas ainda o leem e menos ainda tem a audácia de comentar. Como a gente é enxerido e cara de pau, jackpot! Assim é Nos Penhascos de Mármore – um título bem gay pra se dar a um livro, segundo um amigo gay que eu tenho, principalmente na tradução anterior, Sobre as Falésias de Mármore – do Ernst Jünger. O melhor adjetivo pra descrever o Jünger é: alemão. O cara é muito alemão, galera. E como Nos Penhascos de Mármore é uma obra alegórico-simbólica, é preciso entender certos aspectos do autor e de sua época para entender porque ele escreveu o que escreveu. Vamos falar desse alemão então.

Jünger foi capitão durante a Primeira Guerra Mundial e foi condecorado duas vezes com a cruz de ferro e outra vez com uma medalha ao mérito que, olha, não é pra qualquer um. De modo que é um sujeito rigoroso e militarista. Inclusive ele defendeu o caráter ontológico da guerra em alguns ensaios que escreveu. A guerra, pra ele, está dentro de nós, é uma parada de que o bicho hômi simplesmente precisa como alavanca da civilização. Ele é, basicamente aquele seu bisavô maluco que acha que a gente tem que entrar em guerra com alguém e que seria muito bem amigo do Tarás Bulba. Mas também é um sujeito muito sensível, e tem uma formação naturalista, de modo que observa muito a natureza e gosta de catalogar tudo que encontra, tendo viajado ao Brasil em 1936 e se encantado com o Pará e com o Instituto Butatã em São Paulo. Conforme o regime nazista ia ganhando forma e força, Jünger foi se irritando com os excessos e as atrocidades da SA e da SS, de modo que escreveu Nos Penhascos de Mármore como uma alegoria contra forças totalitárias em geral, mas certamente motivado pelo nazismo. O Goebbles ficou putíssimo com a publicação e queria sair na porrada, mas o Hitler como gostava dele enquanto militar, deixou a publicação passar sem represálias, embora o livro tenha ficado sem comentário crítico por razões óbvias.

Mas bom, de que fala, afinal, Nos Penhascos de Mármore? Bom, o livro, que se passa em um universo fictício, é narrado por um narrador sem nome, que se recorda de uma época em que passou em um retiro em Marina Grande, um lugar que na alegoria é o lugar-tudo-de-bom do universo. Ele e o irmão Otho, que é o irmão dele, ficam lá de bouas num eremitério bebendo e rindo e tudo mais, até que a ordem de sua vida começa a ser arruinada quando uns arruaceiros caçadores do bando de um tal monteiro-mor – uma alusão às forças nazistas e seus líderes, respectivamente – que transitam pela região começam a causar. E por causar eu digo matar uns pobres coitados. É bom que se diga que o universo do livro está separado em principalmente três regiões: Marina Grande, que é o lugar massa, que fica pra cá dos penhascos de mármore. Depois, a Campanha, que é tipo um lugar intermediário, patriarcal e de pastoreio, e a Mauritânia (que não é a Mauritânia de verdade), onde o bicho pega mesmo, onde mora o monteiro-mor, tirano da história, inimigo da civilização. É contra ele que o narrador e irmão Otho acabam lutando, numa alegoria do embate entre civilização e barbárie, mesmo esta camuflada de ordem e progresso. Mais do que isso são detalhes, acho eu, e detalhes estão na leitura.

Ai como eu to bandida

Ai como eu to bandida

A narrativa de Nos Penhascos de Mármore é relativamente curta – 176 páginas de história, mais a brilhante apresentação de ninguém menos que Antonio Candido (e se o Antonio Candido apresenta uma parada, você pode se segurar no corrimão que o chão vai tremer, o tempo vai fechar, os lisos vão correr e as cocotas rebolar) e o posfácio igualmente informativo do tradutor Tercio Redondo, que olha, se esmerou, viu. Mas a história mesmo é ainda mais curta do que isso, porque boa parte do livro é descrição das coisas, dos lugares e das pessoas. Com esse lance de naturalismo e atenção à natureza – hobby partilhado pelo narrador e seu irmão Otho (que segundo o tradutor, são alusões diretas ao próprio autor e seu irmão), Jünger se mostra um esteta de primeira e um parnasiano alemão como poucos. O Candido fala na apresentação que pra ele, naquele momento, a escrita em si era a expressão máxima da beleza artística e que pra fazer valer a literatura, o estilo tinha que ser milimétrico, com escolhas exatas de palavras e tudo mais. De modo Nos Penhascos de Mármore é antes de tudo a construção estética da escrita e a descrição detalhada do universo criado pelo autor, o que pode deixar a coisa bem chata lá pela página cem, mas se você não tá acostumado com um pouco de lirismo na sua vida, corra desse livro porque você não vai conseguir passar da página dez. No mais, a história em si é até bonita pela aparente placidez do personagem, que é levado à guerra por um instinto de sobrevivência e luta muito bem, mas antes de tudo por um sentido inerente de nobreza, que é um troço meio nazista se você parar pra pensar, mas que tudo bem, porque o cara é bom de briga e briga, teoricamente, do lado do bem. Tipo aqueles filmes de ação em que mexem com o cara errado e os bandidos se dão muito mal por causa disso e você gosta muito do protagonista. É, tipo isso.

Esse livro faz parte da Coleção Prosa do Mundo da Cosac e eu comprei ele numa dessas promoções de 50% de desconto da editora no ano passado, porque só assim na minha atual situação econômica. Ele tem uma capa paperback por cima da capa dura cinza e sem graça só com as iniciais do moço na frente em azul. Além dos nomes que agregam valor à obra (e aqui vamos parabenizar de novo o Redondo pelo trabalho excelente e provavelmente exaustivo), o livro tem papel chamois fine, que é o pólen soft ainda mais glamoroso e fonte Bembo, da qual nunca vi nem comi eu só leio e ouço falar.

Comentário final: 197 páginas em papel chamois fine e capa dura. Arrebenta os totalitarismos pra lá do penhasco de mármore!

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Sándor Márai – As Brasas (A Gyertyák Csonkig Égnek)

sandor maraiLivrada! Diário de bordo: no arquivo de word gigantesco do Livrada!, estamos na página 270, o que é coisa pra dedéu. Impressionante como essa coisa chega longe por insistência do burro velho aqui e ainda não ganho dinheiro nenhum com esse troço. Vou começar a fazer chantagem emocional com vocês: o dia que acabar com essa joça, vocês vão chorar, hein? Mas vocês não vieram aqui para ouvir as minhas lamúrias financeiras, vieram aqui pra se regozijar com a boa e velha crítica literária rasa e gratuita que fazemos hebdomadariamente nesse espaço há quase meia década.

Peguei As Brasas pra ler porque literatura húngara é uma pedra no meu sapato. Não consigo gostar muito dos autores húngaros que me aventurei a ler até hoje (aliás, por que, afinal de contas, chamamos o país dos húngaros de Hungria mas o país dos búlgaros de Bulgária?), mas por indicação de um amigo, peguei pra ler e ainda por cima mato um item do Desafio Livrada! 2014, por que não?

Pois bem, meu primeiro comentário sobre esse livro, e talvez ele seja inédito na história da crítica literária mundial, é a sua proximidade com o livro do Hermann Broch, Pasenow ou o Romantismo, parte 1 da trilogia d’Os Sonâmbulos. A relação é mesmo muito estreita, veja: ambas as histórias tratam de militares que perdem o referencial de dever e de valores com a queda do império Austro-Húngaro. Enquanto o livro de Broch fala de um militar austríaco, Márai fala de um velho general húngaro que aguarda a visita de um amigo de infância que, assim como ele e como o melhor amigo de Pasenow, também fora militar, mas largara a farda para viajar o mundo e ser uma pessoa normal. Ainda por cima há um triângulo amoroso a ser estabelecido e uma discussão sobre fatos, invenção e memória, valores e sentimentos, tudo aquilo que Broch se dignou a discutir em Pasenow. A semelhança entre os dois livros é tremenda, mas a condução deste é diferente, por óbvio.

Sandor MaraiNa história de Márai, o general, que nascera de uma família abastada, confronta o amigo de infância que não vê há 41 anos, depois de um incidente durante uma caçada que o deixara perplexamente com a pulga atrás da orelha. Parece que o amigo teria levantado a arma e feito mira no general para matá-lo, mas ele não tem certeza. Ainda precisa medir e avaliar qual foi a relação que teve com a mulher dele, morta oito anos depois da partida do amigo, e, como diz o Machadão, amarrar as duas pontas da vida. Ver como o amigo passou de amigo a ameaça, onde a confiança se perdeu, quais motivos, etc. De modo que As Brasas é, quase que inteiro, um diálogo. Aliás, um monólogo, praticamente. O que pode deixar o ritmo do livro um pouco lento pra você que tá acostumado com os Dan Brown da vida, mas seja menos preguicinha e encare um monólogo de 170 páginas que não tenha muitas frases de efeito como o De Profundis, vai.

O grande mérito de um livro de monólogo fica mesmo então, em dois elementos: 1- a construção dos personagens, da mais tenra infância a uma velhice amarga, os dois amigos são profundos em suas personalidades e as opiniões que cada um traça são claros frutos da criação que cada um teve. 2- a narrativa do autor, que é mesmo impressionante e muito bem feita. Sei lá, devia ter algo naquela água austro-húngara. E no fim, a crítica a respeito do conteúdo dá muito pra aproveitar do que escrevi sobre o Hermann Broch, e como sou um blogueiro relapso, vou deixar o link aqui de novo, rá.

Companhia das letras padrão, tem o Charles DeGaulle na capa e tudo mais. Não tô afim de falar do projeto gráfico hoje, quem manda sou eu e só de falar que eu era preguiçoso fiquei realmente com preguiça :P.

Comentário final: 182 páginas de papel pólen soft. Quando vocês chegarem no final, vão entender porque o livro chama As Brasas.

As Brasas cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

Bernardo Kucinski – K. – Relato de uma busca

Bernardo KucinskiNão sei quanto tempo faz que a gente não comenta um romance nacional aqui, e isso tem mais a ver com a minha pré-disposição para ler brasileiros contemporâneos do que propriamente com a qualidade da produção atual, embora saibamos desde já que nem um nem outro andam despontando exatamente pela excelência. Aí que uma leitora comentou aqui ainda ontem que tava sentindo falta desse tipo de livro por aqui e pensei, ora, por que não? Vamos ao que interessa, mas aviso desde já que tenho opiniões muito parciais sobre esse livro, e explico o porquê.

K. – Relato de uma Busca, o romance de estreia do jornalista Bernardo Kucinski, junta duas temáticas que eu, particularmente, odeio: história da ditadura militar e história de judeu. E odeio ambas não por uma falta de empatia com os protagonistas, pelo contrário, gosto deles, mas por uma overdose do gênero, já que são dois casos em que os sobreviventes são, hoje, o poder estabelecido no mundo. De qualquer forma, é meio complicado pra mim falar disso porque preciso ser sensível ao fato de que o romance de Kucisnki é, em grande parte, real, já que sua irmã desapareceu durante o período do regime burocrático-autoritário que vigorou neste país durante duas décadas, de modo que me perdoem desde já por ser insensível e analisar o livro como criação ficcional. Porque é a partir deste caso que o autor cria uma ficção que tem como protagonista seu próprio pai, que sai em busca da filha desaparecida e é enganado até se perder no labirinto engendrado da guerra psicológica militar contra os familiares dos subversivos.

É assim que ele sai e começa a receber pistas falsas de que sua filha está presa e depois não está mais presa, e ninguém nunca ouviu falar dela, e quem se propõe a ajudar na verdade é informante dos militares, e as notícias de que sua filha está na verdade em outro país ou em outra cidade começam a chegar pelo correio e todo mundo que se propõe a ajudar não consegue ou não quer mesmo ajudar e ele fica maluco tipo um personagem do Kafka – acho que é inclusive por isso que o protagonista do romance chama K., como os Kas do Kafka, perdidos em uma engenhoca burocrática kafkiana sem nenhuma esperança de sair dela algum dia. Ao mesmo tempo, lida com os sentimentos de culpa por ser um escritor meia-boca que escreve em íidiche, a decadente língua dos judeus pré-Estado de Israel e que por conta disso se afastou da família e não viu os filhos crescerem direito. O espanto de saber que a filha se envolvera com a luta armada e o desgosto por ser estigmatizado como parente de uma subversiva – até mesmo pelo rabino, que o impede de comprar um túmulo simbólico pra ela, e o pessoal da gráfica que não o deixa imprimir um livrinho em memória a ela.

Crédito: Carolina Ribeiro

Crédito: Carolina Ribeiro

Embora interessante, o livro traz muito pouca coisa nova na literatura da ditadura militar – bom lembrar que esse não é a primeira narrativa que parte do ponto de vista do familiar que busca o parente desaparecido. Além disso, há de se desconsiderar pensamentos extremados do autor, que em dados momentos insinua que a ditadura militar é pior do que o holocausto porque pelo menos os nazistas faziam registro de seus mortos, e dosar boa parte do maniqueísmo dos personagens, que são ou pobres vítimas do sistema dos militares ou sádicos que trabalham nessa por pura vocação e vontade imensa de fazer mal aos outros. Cada capítulo apresenta uma parte da engrenagem ou um tipo de personagem, e não posso dizer que a grande maioria deles é natural é bem construída.

Ainda assim, o livro se salva pela vida interna do protagonista e pela naturalidade com que expressa a angústia do pai que não sabe onde a filha está, e como a coisa é muito mais complicada do que parece. E pela coragem do autor em transformar um caso real e sofrido de sua história familiar em uma ficção.

A edição desse livro é uma beleza que só. Tem capa gráfica em papel cartão, umas fontes chamas Leitura e Tungsten, que não até que são boas à exceção dos itálicos, que deixam tudo muito ruim de ler, e um papel pólen soft de baixa gramatura pro miolo não ficar mais duro que a capa. O romance é cheio de notas de rodapé que explicam bastante o que não está ao alcance do leitor leigo, ou do leitor não-judeu, e de maneira geral, o texto é bem preparado. Ê!

Comentário final: 185 páginas em papel pólen soft. Ks do mundo, uni-vos!

Stanislaw Ponte Preta – Febeapá

FebeapáQuarta-feira, molecada! Mal a semana começou e já estamos chegando no meio dela, rumo ao glorioso feriado! Bem, nem tudo são flores: para os meus amigos militares, não é feriado, o sete de setembro, é uma data tão festiva, mais uma piada nessa terra tão querida (Blind Pigs entrando aqui no texto). Então, pra vocês é 1, 2, 1, 2, esquerda, direita, esquerda, direita, paga flexão, come gororoba, lambe o coturno, apanha o sabonete! Só não sinto pena porque vocês estão mais ricos do que eu.

Stanilslaw Ponte Preta: taí um autor que eu nunca quero que vocês conheçam, porque senão, esse blog vai ficar jogado às moscas. Ninguém nunca combinou tão bem inteligência, erudição, linguajar maroto e escrita fluida quanto Sérgio Porto, identidade secreta do Ponte Preta. E esse livro — é mentira, mesmo correndo o risco de ser abandonado, quero que vocês conheçam — é Stanislaw Ponte Preta em sua melhor forma.

Febeapá, para quem não sabe, é o Festival de Besteiras que Assola o país, um compêndio das asneiras que rolam na nossa sociedade e na nossa política, em especial na época da ditadura, período que Sérgio Porto cobriu intensamente. Se bem que, não é preciso ser muito esperto pra saber que besteira na política não é um privilégio da milicada. A única coisa que mudou é não temos mais quem faça esse trabalho sujo de Stanislaw, que morreu junto com seu alter-ego, precocemente, aos quarenta anos, de tanto trabalhar, eu imagino. O livro em questão compila os três volumes de Febeapá que saíram aí no mercado editorial da época, junto com umas crônicas ótimas e engraçadas, para quem quer dar umas risadas.

E é impressionante o quanto se conseguiu reunir em tão pouco tempo. A frase que abre o primeiro volume é a mais pura verdade: ou o Brasil acaba com a besteira ou a besteira acaba com o Brasil. Coisas absurdas como impedir que a Alemanha Oriental tocasse o hino do país durante um jogo de futebol, por ser um ato subversivo, ou uma batida policial no teatro para prender o tal do Sófocles, que escreveu essa peça suja cheia de sacanagem, ou ainda a tentativa de se instituir o “Dia do Pobre”, para homenagear essa grande parcela da população, ou um vereador de Mafra (SC), que queria pedir em plenário que se fabricassem fósforos de duas cabeças para economizar o pauzinho. Enfim, poderia ficar aqui contando várias histórias para atiçar o gosto de vocês, é e isso mesmo que vou fazer agora: prefeitos no Rio Grande do Sul que inauguram bebedouros públicos para cavalos e dão o primeiro gole com as mãos em concha, dizendo “Tá inaugurado, tchê!”; pessoas que mandam cartas para Belém, no Pará, e, os analfas do Correio que não entendem a letra, mandam para Berlim; um campeonato de futebol patrocinado pela Brahma, onde os locutores da Tv, ao saberem que tinha lá um jogador do Galo chamado Grapete (concorrente da Brahma), resolveram só chamar o sujeito de “Guaraná”. Já tão querendo correr para comprar esse livro? Ótimo, continuemos.

Sérgio PortoAs crônicas do livro, parte do compêndio do Febeapá, também são valiosíssimas. Nela, vemos a qualidade da veia humorística do autor, que criou uma família de personagens fictícios inesquecíveis, dos quais o mais presente é o primo Altamirando, o malandro maconheiro da família. Ele arruma negócios escusos, campeonatos de futebol com a bandidagem, com escalações hilárias que vieram muito antes do pessoal do Rockgol. E vários outros personagens esporádicos, todos com o seu valor, fazem o leitor vencer o calhamaço de páginas como se fosse uma volta no parque (jargão militar dos filmes de ação, adoro isso: “volta no parque”. Esse pessoal que acha fácil dar volta no parque deveria visitar ali o Jardim Botânico em um sábado de sol).

Quando Sérgio Porto morreu, morreu com ele parte desse humor montado na erudição, e as pessoas passaram a achar que a comédia é uma coisa feita de gente burra para gente retardada. E aí ferrou-se tudo, amigo, saiu neguinho por aí fazendo comédia romântica, sátira de filme de terror, seriados sobre amigos que dividem apartamentos, neguinho gravando vídeo no Youtube dizendo que odeia isso e odeia aquilo, etc. Temos, felizmente, alguns receptáculos desse legado, o mais bem sucedido no momento é o Xico Sá (em breve, resenha sobre ele). Acho uma pena, mas acredito nesses heróis que sobraram e que vão levar o movimento adiante.

A editora Agir é uma santa mesmo, relançando a obra completa do autor em livros maravilhosos, de papel pólen soft, fonte Bakersville, formato grande, cabeço vertical charmosão, e ilustrações do glorioso Jaguar, e são várias ilustrações, tipo, uma cacetada delas. Ponto, ponto, ponto! Esse livro ainda tem o prefácio de Millôr Fernandes e o posfácio da acadêmica Berenice Cavalcante, mostrando que há lugar para todos os leitores em Febeapá, e na literatura de Sérgio Porto de uma maneira geral.

Uma última curiosidade sobre o autor: ele foi o autor do Samba do Crioulo Doido, clássico do samba nacional, e inclusive recebeu, na ocasião, uma ligação do ex-presidente JK (tô abreviando porque acho complicadão escrever o nome dele), para agradecer a menção no começo do samba — a única parte coesa da música. O cara é demais ou não é?

“Mas Yuri, e o Lado A?” Ah, sim, claro, o Lado A, é lá na revista Paradoxo. Nessa semana, um livro da Natalia Ginzburg, da lindíssima coleção Mulheres Modernistas, da Cosac Naify. Corram lá!

Comentário final: 398 páginas pólen soft. Deixa você com orelha de lutador de jiu-jitsu.

Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

Uma injustiça do cão: Mario Vargas Llosa nunca vai ganhar o Nobel de literatura por causa de sua visão política direitista. Às vezes desconfio seriamente que esse pessoal não sabe dar valor a bons escritores, independente de sua vida política (o mesmo vale pro Cèline, que como disse a Albana, quando exclamei dizendo que ele era fascista, “ele mantém seu fascismo a níveis muito saudáveis”). Porque, convenhamos, Vargas Llosa é, de longe, o melhor escritor de língua espanhola da atualidade (dorme com essa agora, García Marquez). O cara domina com maestria todos os gêneros e estilos da literatura: ensaio, romance, contos, até mesmo o gênero epistolar, pilar do livro Pantaleão e as Visitadoras, publicado em 1974.

Quem já leu alguns livros de troca de cartas (Cartas a Théo, a Caixa Preta, De Profundis, etc), sabe que ficar lendo carta dos outros não é a coisa mais divertida do mundo. Falta o dinamismo da narrativa, o livro pode se arrastar. Agora, quem conceberia um livro que é, em sua quase totalidade, um envio de correspondência — não de cartas normais, mas de ofícios militares — com um humor pastelão e escrachado? Vargas Llosa fez isso. Pantaleão e as Visitadoras é um livro absolutamente hilário que conta a história de Pantaleão Pantoja, um oficial do exército peruano incumbido de uma missão ultra-secreta por sua óbvia delicadeza: organizar um serviço de visitadora (prostitutas) em um posto do exército instalado no meio da selva amazônica. O motivo é palpável. Os soldados da tropa, metidos naquele fim de mundo sem civilização por perto, estavam estuprando as índias e mulheres de pescadores locais. O exército, pra não ficar difamado por seus soldados tarados, coloca Pantoja para levar de barquinho umas três ou quatro prostitutas até o posto.

Mas o protagonista é um militar altamente disciplinado. Começa a estudar o tempo de cada “serviço” e vendo que a quantidade de mulheres não é suficiente, logo começa a armar um esquema gigantesco de prostituição, com direito a uniforme, hino e bandeirinhas. Não demora muito a arrumar inimigos e problemas matrimoniais. Contar mais do que isso seria tirar boa parte da diversão desse livro.

A intenção de Vargas Llosa em Pantaleão é, mais uma vez, explorar as falhas e fraquezas das forças armadas. Firmou-se no mundo literário com seu romance A Cidade e os Cachorros, sobre a vida de estudantes do colégio militar, e muitos apontam A Festa do Bode, livro que narra ficcionalmente a vida de Rafael Trujillo, o temível ditador da República Dominicana. Mario, ele próprio, foi um cachorro, um aluno do colégio militar, e conheceu um serviço real de visitadoras quando visitou a selva amazônica em 1958, então escreve com conhecimento de causa cada um desses assuntos.

Falar de um projeto gráfico da editora Alfaguara é falar de todos. Os livros são padronizados numa mesma diagramação, mudando apenas a capa, ou, eventualmente o tamanho da fonte (aliás, alguém sabe a fonte que a Alfaguara usa?). Entretanto, a coleção de livros do Vargas Llosa está fenomenal. É foto da Getty Images? É, mas porra, são fotos muito bem escolhidas. Dos livros já lançados pela editora, me faltam a Guerra no Fim do Mundo e a Casa Verde. Meu aniversário tá longe, alguém aí não quer me dar?

Duas curiosidades: 1ª: Esta edição do livro foi traduzida a quatro mãos, por Paulina Wacht e Ari Roitman (ficou muito boa, por sinal). Inusitado, hein? 2ª O próprio Vargas Llosa co-dirigiu a versão cinematográfica do livro com José María Gutiérrez. Mas o filme não é nem de longe tão bom quanto o livro. Recomendado até os ossos.

Comentário Final: 246 páginas pólen soft de alta gramatura. Se pegar uns cinco desses e juntar em alguém, rola um sanguinho.