Marquês de Sade – Os 120 dias de Sodoma (Les 120 journeés de Sodome)


Levante a mão quem já leu esse livro. Eu sou a única pessoa que eu conheço que, por enquanto, teve estômago para ler de cabo a rabo os 120 dias de Sodoma, de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Escrito em 1785 em seu encarceramento na Bastilha (foi transferido pra lá depois que o Château de Vincennes foi fechado, em 1784). O Sade é um cara assim meio Edward Bunker, passou quase toda a vida preso, seja por perseguições políticas, seja pelas merdas que ele fez com suas prostitutas (reza uma lenda de que ele teria envenenado duas delas “sem querer” ao ter ministrado “pílulas para peidar”. Ele curtia umas coisas dessas).

Tenho uma “tioria” que atesta que quanto menor o tempo que o escritor leva para escrever sobre um assunto, mais presente o tal assunto está em sua vida. Pois bem: os 120 dias de Sodoma foram escritos em apenas trinta e sete dias. Bom, na verdade, a obra nunca chegou a ser completada, pois, dos cento e vinte dias do enredo, foram narrados apenas trinta. Para o resto ele fez apenas o roteiro e a descrição dos dias. Acontece que depois a Bastilha foi tomada, todo mundo picou a mula de lá e o manuscrito acabou sendo deixado para trás, apenas para ser recuperado anos depois. Foi então que essa hecatombe literária veio ao mundo.

Resumo da ópera: quatro ricaços muito pervertidos que comem as próprias filhas resolvem ir para um castelo na Suíça para passar quatro meses de pura sacanagem. Para isso contratam quatro putas velhas (chamadas “musas”) para narrar suas histórias e quatro amas. Seqüestram oito meninas e oito meninos virgens de idade entre 12 e 15 anos para serem arregaçados e ainda solicitam oito “fodedores”, sujeitos de pirocas enormes para enrabar os amigos (eles são chegados nisso também). A cada mês o nível de perversão aumenta. Começa leve: gente que come cocô, vômito, mija na cara, etc. No segundo mês, as “paixões duplas”: incestos mil e os water sports já mencionados. No terceiro, “paixões criminosas”: gente que sente tesão em furar um olho, arrancar um dente, cortar o dedo. Por último, “paixões assassinas”: galera que só se diverte se matar o parceiro sexual. Claro que quem sofre com isso são as criancinhas, que além de serem todas descabaçadas, ainda são lentamente mutiladas até a morte (vocês devem estar dizendo “Chega! Chega! Chega!”).

Há uma cena emblemática: Quando uma das musas narra um golden shower e os nobres mandam deitar uma das menininhas virgens na mesa para receber o mijo na cara, a menina diz algo como: “Pelo amor de Deus, senhor, não faça isso comigo senhor. Estou muito triste porque, na ocasião do meu sequestro, meus pais foram assassinados por seus capangas.” Aí um dos ricaços chega pra ela e fala: “Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com você.” Acho que essa cena resume o livro. É a crueldade desenfreada, a busca pelo prazer sem ética, tudo o que as pessoas fazem quando saem pro crime nas festinhas e não se preocupam com quem elas estão beijando, só que com uma lupa de aumento brutal que explicita o horror da coisa.

Ganhei esse livro de natal da querida tia Albinha (desconfio que se ela soubesse do que se trata esse livro, ela teria preferido me dar outra coisa) e o li enquanto pedalava bicicletas ergométricas numa masmorra chamada academia de ginástica. O livro é extremamente bem escrito, com uma prosa da era moderna fluída. Gostei mesmo da proposta do livro e recomendo para quem agüentar o rojão.

A edição da Iluminuras é linda pra caralho. Vem com um marcador personalizado preso à orelha (só destacar). Excelente diagramação e o melhor: um dos melhores desenhos de nada menos que Egon Schiele na capa. Acho que todo mundo que desenha curte, ou deveria curtir Schiele porque as poses que ele desenha não são para qualquer um. (falo mais dele se um dia for falar dos Cadernos de Dom Rigoberto). Papel pólen, pra agradar todo mundo e fonte Garamond, que eu acho meio apagada, mas estilosa demais.

Comentário final: 364 páginas em pólen soft. O pessoal do UDR usa esse livro pra estuprar marinheiros (Alcorão é coisa do passado).

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23 Respostas para “Marquês de Sade – Os 120 dias de Sodoma (Les 120 journeés de Sodome)

  1. Se você escrever com contextos e relações sobre o “Apanhador do Campo de Centeio”, e me emprestar esse livro (o Sade), eu prometo que leio. Então, o senhor poderá dizer que além de você, apenas UMA outra pessoa o leu inteiro. (o livro).
    Note que a dramaticidade de fazer o comentário aumentará drasticamente.

    • Hahaha Não entendi sua relação com o Apanhador no Campo de Centeio, Maurício. Mas o livro está aí. Incrível que muita gente se interessa por lê-lo mesmo, mas até agora, ninguém…

      • Me interessei bastante, vou desbravá-lo sem medidas. kkk
        Engraçado era que eu não estava procurando livros nenhum, mas como sou amante de livros acabei me interessando, estava procurando a palavra ALCOVA, do nada eu vi algo relacionado ao livro e fui pegar as referencia, achei intrigante, interessante e aqui estou eu. ❤

  2. Curiosidade, você já viu o filme de Passolini? Como no texto você não comenta nada sobre ter assistido acho que não o fez, mas, se assistir, pf,escreva sobre. Seria legal ter a opinião de quem leu sobre o filme.

    • Oi Ludmila, ainda não tive a oportunidade de ver o filme do Pasolini, embora já tenha muito ouvido falar dele, inclusive no meio acadêmico (acho que a galera de letras curte esse filme). Mas, em se tratando de Pasolini, imagino que o filme deva ser bem fiel ao livro, já que ele é um diretor meticuloso com essas coisas. E você, assistiu?
      Obrigado pela visita!

      • O Filme é razoavelmente fiel. A questão é a história do livro se passa em meados dos anos 1750 e o filme é do tempo do facismo italiano. Muitas descrições de personagens não batem com o livro. Enfim é apenas uma adaptação mas foi bem feita. Se acha o livro nojento creio que não deva ver o filme. Ele é quase tão cruel.

  3. Oi Yuri, gostei do seu resumo direto do livro. Ao contrario de voce, eu vi o filme e até assisti a uma peça. A unica diferença pelo q sei do livro e do filme é q no filme se passa pós 2 guerra mundial, eles alugam uma mansao na Suiça pra ser o lugar da sodomia. Nao sei te dizer porque, mas é certamente uma narrativa que atrai o olhar das pessoas, a atençao. Tanto o filme quanto a peça me enojaram muito, fiquei sem querer comer uns 2 dias rs rs . É muito impressionante. Eu fico imaginando da onde ele tirou a ideia pro livro…….isso é o que é mais assustador. Pensar que isso possa ter acontecido algum dia, em algum lugar.
    Parabens ae pelo blog.

    • Oi Isabelle!
      Realmente preciso ver esse filme. Que era impactante, isso eu já sabia por ter lido o “roteiro original”, mas não sabia que a trama se deslocava para o futuro. Olha, não sei se aquilo aconteceu 100%, mas é muito provável que o Marquês de Sade e seus amigos fizessem esse tipo de festa no apê (com bundalelê e orgia no quarto de verdade). Como eu disse, ele mesmo foi preso por matar duas prostitutas…
      Tem um filme relativamente mais leve que preza mais pela parte da comida, chama A Comilança, é com o Marcello Mastroiani inclusive. Apesar de ser um pouco chato, vale a pena ver.
      Obrigado pela visita e pelo elogio, apareça!
      Abraços

  4. Olá! Li o livro e assisti ao filme. O livro – e o filme – são valiosas peças de arte, uma arte, contudo, marginalizada. O gosto pelo que é comumente classificado ‘belo’ é o faz as modelos magérrimas parecerem tão ou mais belas que um quadro do Picasso. Tais obras não são propriamente belas, mas sublimes, isso justamente por que chocam, enojam, provocam sofrimento em quem as lê e assiste, por mais que o leitos/audiência (consciente ou inconscientemente), não passamos por essas obras como passaríamos por um “Código Da Vinci”… Elas nos despertam nossos olhares de tal modo que jamais voltaremos a ‘ver’ como antes.
    O filme é uma recriação livre, apenas baseado na obra, as divergências são enormes, como não poderiam deixar de ser, mesmo porque a obra de Sade está incompleta, contudo, quem leu o livro e/ou assistiu “Saló ou Os 120 dias de Sodoma” não perde nada nem decepciona-se.
    Alerto, entretanto, que assistir ao filme é razoavelmente mais ‘pesado’ que ler o livro, já o assisti várias vezes, em salas de exibição e locais públicos e a platéia pode até começar grande, mas sempre reduz-se devido à imagens de cropofagia e violência.
    Pra quem tem ‘estômago’, recomendo os dois.

    • Perdoem-me algumas falhas no ‘português’, tais como:
      “leitos” (leia-se leitor…)/audiência (consciente ou inconscientemente) “se identifique com alguma situação/personagem” (que acabei apagando, nem sei como/por que)

      “Elas [nos] despertam nossos olhares de tal modo que jamais voltaremos a ‘ver’ como antes.”

      😉

  5. Tenho o livro e o filme, sinceramente o filme não faz jus ao livro, e o livro não faz jus ao Divino Marquês, apesar de estarem contidas ideias e ações bem dignas da pessoa. O principal problema do livro é justamente o fato de não ter sido terminado, o que se inicia com descrições meticulosas, encerra-se com palavras jogadas e sem sentido. Quanto a filme, é quase infantil em comparação à descrição detalhista do início do livro, e as “paixões” se perdem num sadismo tolo dos intérpretes dos quatro participantes da Sociedade dos Amigos do Crime. De qualquer forma, o Marquês ia além da depravação, é um livro filosófico com questionamentos sobre o comportamento humano, sobre o que se faz quando ninguém está olhando.

  6. O mais incrivel, foi que eu li esse livro aos 12 anos de idade e de cabo a rabo, kkkkk Bem na epoca não tinha mais livros pra ler lá em casa, haviam esgotado todas as possiblidades de se ler e eu o achei escondido num cantinho, uma versão muito antiga, capa preta ainda, folhas velhas,amareladas, surrado, mais bem preservado no conteudo e imagens, quando percebi do que se tratava realmente o assunto, tratei de ler escondido dentro do banheiro, levando ele enrolado com minhas roupas e toalha, kkkk Foram dias e dias lendo e escandalizando a cada capitulo,kkk Um dia meu pai me pegou lendo o livro, já bem no final, ele coçou a cabeça, parou um pouco e disse: Fique com ele pra você, um amigo meu me deu quando estavamos presos e ele morreu. Juntei ele com os montes de livros que eu já tinha lido da Anne Rice, e outros dois livros que eu amava: O mundo de Sofia e O pequeno principe, quando estava com uns 16 anos de idade minha mãe entrou numa loucura de virar crente e um dia cheguei da escola e ela tinha queimado todos meus livros, chorei demais e nunca mais pude ler denovo o conteudo do livro, já baixei todos os outros que fiquei sem na internet, mais desse nunca encontrei, vi o filme Salo, mais ele não faz nem um pingo de jus ao livro, assim como todos os filmes baseados em livros, kkkkk Espero mesmo um dia tornar a ler esse livro é interessante mesmo, meche com todos os tipos de sensações que um ser humano pode ter.
    Bjs e valeu a oportunidade de ter denovo uma lembrança da minha infancia.
    Ps: Quem quiser trocar ideias sobre o livro ou se tiver paradeiro de onde acho ele pra comprar add no msn agapebel@hotmail.com

    • Olá Bel,
      Terminei de ler o livro, e também gostei muito, não devido às sacanagens, mas pela filosofia. O meu livro é novo, última edição, pagei 53,00. Se quiser, te envio por 30,00, pode pagar ao retirar no correio, ok.

  7. Olá Yuri, terminei a leitura do “120 dias de sodoma” hoje. Me foi uma leitura normal (considere que não sou uma pessoa normal). Também li muito sobre o autor e a sua resenha sobre o livro foi a melhor que encontrei. Escreva mais resenhas sobre suas leituras, ok.

  8. Boa tarde! Para vossa infelicidade, consegui lê-lo por completo. Para vossa felicidade, não tive estômago para ficar com ele e o doei. Agora não o encontro em nenhum lugar. Você poderia me dizer onde posso comprá-lo? Obrigada Mirian

  9. Yuri li Justine de Sade e agora estou a busca deste (120 dias de sodoma) pot indicação de um amigo, porém não o encontro em PDF com tanta facilidade como encontrei o da Justine, estou ansiosa para lê-lo, depois de duas propagandas tão boas (a sua e a do meu amigo) quero aventurar-me

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