Ismail Kadaré – Abril despedaçado (Prilli i thyer)


Aê, até que enfim repetimos um autor por aqui. Tem um porquê, entretanto. O livro de hoje seria outro do leste europeu, mas, esqueci o livro no trabalho, então, numa manobra editorial relâmpago, o conselho se reuniu deliberou e decidiu que o livro desta quinta feira ensolarada seria o belíssimo Abril despedaçado, de Ismail Kadaré. Sim, aquele que tem um filme com o Rodrigo Santoro. Eu não vi o filme, e, contrariando todo mundo, se um dia fizerem um filme sobre a minha vida, não vou querer o Rodrigo Santoro me interpretando. Quero o Simon Pegg.

Abril despedaçado é um clássico da literatura. Sabe como eu sei? Porque esse post tá com a tag “clássico da literatura”. Mesmo que seja um clássico contemporâneo. É também um livro democrático em sua edição da Companhia das Letras: Tem formato normal e de bolso. Fico puto às vezes quando a editora para de publicar o livro em versão normal pra lançar só a versão econômica. Vou fazer o quê com um quadradinho daqueles depois que eu ler? Calçar o pé da cama desnivelado?

Do que eu estava falando? Ah, sim, é um clássico. A história fala do Kanun, um código de lei de origem patriarcal que prega um loop eterno de vinganças. Uma parada que você acha mutcho loka até descobrir que, na verdade, é muito triste, porque essa merda existe até hoje, e o G1 publicou recentemente uma matéria sobre o assunto (aí G1, tô te ajudando hein? Quem quer rir tem que fazer rir pô! Aí Pantoja! Tem que fazer rir!). A farândola funciona assim: alguém mata alguém. Daí a família do morto tem o direito de vingar o sangue matando alguém da família do assassino, incluindo o próprio assassino (excluem-se mulheres e crianças e considera-se criança o menino que não consegue segurar uma arma ainda). Depois que alguém da família do assassino morre, invertem-se os papéis. E assim ad náusea (náusea mesmo, quanto sangue!). E aí no meio tem uns pormenores que se você quiser saber, vá ler a porra do livro que não vou ficar fazendo resuminho de escola pra vagabundo não, valeu?

E o livro conta a história de um sujeito de uma família que precisa vingar a morte, ou seja, precisa matar alguém. E ele sabe que depois que ele fizer isso, a bola tá no campo da outra família e ele será o próximo a rodar. Já sei, você vai dizer “Ah, a inevitabilidade das coisas… Kafka!” e eu digo “cala a boca, animal!”. Citar Kafka todo mundo sabe, agora sentar pra ler aquela merda de O Castelo, é ninguém, né? O livro trata sim do drama inevitável Gjorg Berisha (esses albaneses se embolam todo na hora de dar nome pros filhos, hein?), mas há uma quebra na narrativa para tratar de outra história, que, embora tenha tirado o tesão da odisséia de Gjorg, é a chave da literatura de Kadaré (aliás, Ismail Kadaré… Ô nomezinho de hippie que ganha a vida fazendo pulserinha e poesia): A viagem do casal Vorps, Bessian e Diana, rumo à região atrasada da Albânia, onde as leis não se aplicam e todo mundo é meio caipira . É, tipo Curitiba. Diana e Bessian, pessoas descoladas da parte boa do país (será que tem parte boa na Albânia?), se surpreendem com a organização familiar baseada no Kanun. Na verdade, só Diana. Bessian fica dando umas de machão. E bom, eis o que eu queria dizer: a literatura de Ismail Kadaré é, metaforicamente falando (metafórico é quando, por exemplo, dizem que o seu voto vale alguma coisa) essa viagem pela Albânia provinciana. O mundo que se descortina e a barbárie presenciada é experimentada —em intensidades diferentes, é verdade — por nós assim como pelos viajantes. Algo similar ocorre em Dossiê H, que resenhei aqui no começo do blog. E nisso se vê que Kadaré é um autor desses que escreve pra fora, pra nós, estrangeiros que graças a deus não moramos naquele cu de mundo (ora, o que dizer de um país cuja maior qualidade é a bandeira?). E justamente isso possibilitou que ele se destacasse e se projetasse internacionalmente, tanto que ganhou filme aqui no Brasil com o Rodrigo Santoro (ó que honra!). Ler o autor é viajar por dentro de uma Albânia despedaçada assim como o abril do protagonista (sentiram essa né, jornalões? Contratem-me!)

Essa edição é daquela bela coleção do autor que eu já comentei no Dossiê H. Minha única ressalva é a foto da capa, de autoria do senhor Walter Carvalho que por acaso é direto de fotografia do filme homônimo (do livro, né, cambada? Não tem nenhum filme chamado Walter Carvalho!) e diretor de alguns filmes baseados em livros, como Budapeste, do queridão de todos Chico Buarque. Sei lá, essa foto ficou granulada pra caralho na camisa, e ela tá sendo levada pelo vento, mas tá presa no varal, e parou numa pose estranha pra caramba, parece que um mendigo invisível tá me dando tchau. E esse azul que vira branco… Essa porra é de polarizador? Curti não, aí…

Comentário Final: 201 páginas em papel pólen soft. Um bom substituto para um pescotapa: o pescolivrada!

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5 Respostas para “Ismail Kadaré – Abril despedaçado (Prilli i thyer)

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  3. Rapaz, você xingou o país do escritor de “cú do mundo”! Se você odeia a Albânia, tudo bem, direito seu. Xingue os governantes, faz mais sentido.

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