J.M. Coetzee – Infância (Boyhood – Scenes from Provincial life)


Aê, mais um livro que eu terminei (viram como eu não leio tanto assim?). Tava pilhadão pra ler a primeira parte de Cenas da vida na província, a trilogia do all-mighty Coetzee, já que até então o único livro que tinha sido lançado aqui era o Juventude (devidamente já resenhado nesta bagaça). Claro que agora vou emendar num c-c-c-c-COMBO e ler Verão, a última parte da trilogia que, assim como Infância, foi presente de aniversário de namoro que a amada Carlinha me deu (azar o seu se você ganha camisa, amigo).

Mas uma coisa de cada vez. Vamos tratar aqui primeiro desse tal de Infância. Galera, devo dizer que fiquei decepcionado com a manobra editorial da Companhia das Letras (editora que eu gosto muito e ninguém tá escondendo isso, olha lá o tamanhão da tag dela ali embaixo) pra lançar Verão. Obviamente que se a última parte da trilogia fosse lançada sem que a primeira já estivesse publicada, o livro perderia o sentido e mesmo não venderia muito. Então o que fizeram? Lançaram Infância só em formato de bolso (que isso gente, o cara é prêmio Nobel!) junto com Verão. E, enquanto o fodão José Rubens Siqueira estava traduzindo a boa nova, o senhor Luiz Roberto Mendes Gonçalves traduziu essa obra de uma maneira, vamos dizer… bom, ele devia estar com pressa, afinal. Ok, erros foram cometidos. Por exemplo, fez sentido em língua portuguesa a religião católica ser diferente da religião cristã, pois enquanto aquela é a forma como a conhecemos, esta chamamos por aqui de puritanos, ou presbiterianos, ou mesmo protestantes. E custava colocar um glossário de africâner no final do livro já que se optou por não inserir notas de roda pé traduzindo-as todas? Vamos lá ficar lembrando toda hora o que são palavras como “asseblief”? Desculpaí se a gente não é fluente na língua, valeu? O livro tem apenas UMA, eu disse UMA nota de rodapé, para explicar o que é Karoo. Acho que isso prova pelo menos que um livro de bolso tem uma importância menor para as editoras.

O aparente descaso com essa edição certamente tira o peso da obra que — não podemos esquecer — foi a única parte dessa trilogia durante cinco anos: de 1997 a 2002, quando Juventude foi lançada.   E o livro, aliás, é sensacional, quero todo mundo lendo ele, hein? Impressionante como Coetzee é sincero consigo mesmo, quase cruel e masoquista mesmo, ao descrever seus primeiros anos vivendo em Worcester. Ele, então com idade próxima dos oito anos, se esforça para ser o primeiro da turma e sente muitos medos, principalmente de ser humilhado. A criançada na África do Sul é toda dividia por causa dos africâners. A família dele mesmo é africâner (Coetzee afinal, não soa como um nome inglês, né?), mas eles renegam: falam inglês dentro de casa e o jovem John Maxwell se borra de medo de ser colocado junto aos outros africâneres. Tem de lidar com sua mãe africâner, que ele venera e odeia ao mesmo tempo, e seu pai, um sujeito relaxado e submisso que não sabe gastar dinheiro.

Esse livro é tão sincero que é uma das poucas autobiografias que dá pra você saber da verdade sobre a vida e a formação do caráter do autor. Por exemplo, Infância só comprova o que eu já tinha dito: que Coetzee tem uma relação muito forte com a linguagem. Pensa em cada letra separadamente e no peso que cada uma dá à palavra. E isso com dez ou doze anos. Também podemos observar o quanto ele era esquisitão, como dizem que é hoje, taciturno, sério e excêntrico. Não se relaciona com as pessoas direito e tem muito a considerar sobre tudo. Há de se admirar esse tipo de coisa, o cara é corajoso pra escrever.

Por último, devo acrescentar que esse é um livro triste pra cacete como são todos os outros livros dele. Não espere ver uma infância muito feliz. Aliás, será que esse cara já foi feliz em algum momento da vida dele? Bom, acho que um milhão de dólares na conta por conta do prêmio Nobel devem ajudar a colocar um sorrisinho em qualquer rosto. Como dizem os curitibanos, “fica de boua” aí, Coetzee!

Comentário final: 150 páginas formato de bolso. Faz nem cosquinha.

Um Grande PS: Hoje o Livrada! completa um mês! Aêêêêê. Há de se reconhecer que foi um mês intenso, com 27 posts, 138 comentários (dos quais quase a metade é minha, porque eu respondo os comentários, tudo bem), e, até o momento que eu to olhando aqui, 1.394 visitas (e isso, pra um blog de literatura, é coisa pra caralho, eu acho). Posso dizer com um orgulhinho que cumpri uma proposta relativamente inovadora (um blog de literatura que fosse diário e com uma linguagem informal), e fiquei muito feliz com a aceitação dele. Mas, com um pequeno pesar no coração, devo dizer que, a partir de segunda feira, não teremos mais posts diários. E isso porque, além de ter outras obrigações (entre elas me formar), passarei a escrever sobre literatura de uma forma mais séria em um outro veículo. Mas , como diria Fernando Collor, não me deixem só! O Livrada! pretende continuar até onde der. E se não der não deu e, citando aquela outra dupla de hip hop, se virar, virou (“aí maluco eu to na minha e se virar virou”). Muito obrigado, gente!

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8 Respostas para “J.M. Coetzee – Infância (Boyhood – Scenes from Provincial life)

  1. Você escolhe um livro triste pra completar um mês do Livrada?!
    Parabéns pra você e pro blog, os dois maravilhosos!!!

    Deixo aqui meu depoimento sobre “Infância”: esse livro é tão triste, mas tão triste, que o Yuri me contou um trechinho e eu chorei e jurei não comer mais carne.

    Beijos, Yu.

    • Gosto de pensar que escolhi um livro do Coetzee para comemorar. Mas, fazer o quê, gosto mais de livros tristes mesmo…
      Beijão querida!

  2. Ma vamo botá pelo menos um por semana ae! Vamo que vamo!
    Hey, analisa aí alguma tragédia grega, ou peça de teatro (tipo sei lá, você que entende de livros)!
    Sugerido está.
    Abreiços!

    • Ah Maurício, não gostaria de mexer com teatro, mas, se a necessidade chamar, saco alguma parte da trilogia tebana aí pra falar, beleza?
      Abraço!

      • foi a primeira vez q acessei o livrada; gostei muito do comentário sobre o infância; acabei de ler agora e concordo com a sua análise; eta livro triste e bom! vc gosta do infância do Graciliano? eu adoro. abr. Leda

  3. Oi Leda, obrigado por passar aqui no blog, bem-vinda!
    Não li o Infância ainda, mas tá há tempos na lista das obras nacionais fundamentais que eu preciso ler. Depois da sua indicação, vou correr atrás.
    Abraço!

  4. Pingback: J. M. Coetzee – Desonra (Disgrace) | Livrada!

  5. me tira uma duvida? estou lendo uma edição de Cenas da vida mas n é divida assim, é uma antiga dai n sei se estou lendo algo compactado ou se dividram assim depois, e só tem 178, é da editora bestseller? o coetzee ja publicou em partes?

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