Stieg Larsson – Os homens que não amavam as mulheres (Män som hatar kvinnor)


Pode parecer, mas este blog não está morto. Como prometi no último post, continuaria a postar aqui independentemente das agruras do cotidiano. E pode crer, tá agruradasso. Mas enfim, o conselho se reuniu, deliberou e decidiu que doravante as postagens aqui no livrada serão como a fé cristã de 99% da população: dominical. Por isso, espalhem a mensagem, assinem o RSS e fiquem ligados porque muito provavelmente ler isto aqui vai ser uma das únicas coisas divertidas no seu domingo.

E que volta por cima, minha gente! Esse é o retorno mais oportunista da história brasileira desde Fernando Collor no senado graças aos alagoanos burros, desde RPM graças ao Big Brother, desde Los Hermanos graças ao Radiohead, desde Marcelo Tas graças à Band, desde sua mãe graças à drenagem linfática! Pois estou aqui justamente hoje para falar de um livro está bombando neste fim de semana, quando sua adaptação para o ecrã cinza estreia majestosamente nos cinemas de todo o Brasil. Senhoras e senhores, eis o primeiro volume da trilogia Millennium: Os homens que não amavam as mulheres!

Stieg Larsson, o sueco que é a cara do Bill Gates no corpo do Elton John, fez fama com muitas coisas: seu trabalho jornalístico militante, que denunciou os grupos fascistas na Suécia, sua revista tchananã que era promessa de jornalismo verdade no continente dos The Suns, sua obra policial megalomaníaca do tamanho de três Montanhas Mágicas e, mais recentemente, sua morte misteriosa e repentina, que gera especulações totalmente justificáveis na cabecinha da legião de pequenos detetives que ele formou. Desta vez, vamos nos concentrar na obra megalomaníaca. A trilogia Millennium, não se sabe ao certo, poderia ser na verdade uma decalogia. Isso mesmo, há quem diga que o plano inicial do sujeito eram fazer uma Barsa recheada de histórias policiais ao invés de cultura inútil. E vamos combinar que ainda bem que parou no terceiro, porque os livros estavam crescendo assustadoramente a cada novo volume. É como aquela bruaca que escreveu o Harry Potter: escreve um livro de umas duzentas e tantas páginas, faz aí um sucessinho e quando você vê, tem mais seis livros depois desse sendo que o último é maior que o Dom Quixote! (E o pior é que a garotada lê). Por isso, para quem for se aventurar a ler Millennium, não se espante com pontas soltas deixadas para trás: pode tudo ter feito parte um dia de um plano maior (ou não).

Os homens que amavam as mulheres é um policialzinho muito do sem vergonha se você for parar para pensar. É o feijão com arroz, afinal. Está tudo lá: mocinhos obstinados, mocinhas desajustadas, vilões ocultos, pistas conseguidas a muito custo, revelações ao acaso e por aí vai. E o livro nem é tão bem escrito assim, em termos de estilo e erudição. Mas o mérito do sujeito é justamente o talento em fazer você grudar no livro mais grudado do que Eng e Chang. A história flui que é uma beleza e a narrativa te empolga que quando você vê, as quinhentas páginas que te separavam do final do livro viram trezentas, duzentas, cem e acabou. Deve ser esse o segredo de outros best-sellers sem consciência ecológica, tipo Stephen King.

Ora, não vou aqui ficar gastando meia hora para dar a sinopse do livro quando há por aí um filme que lhe conta a história inteira em três horas (três horas, Charlie?). Leia lá o resuminho tosco do Cinemark para se inteirar que eu quero falar de outras coisas.

Muito se falou em Lisbeth Salander desde que o livro caiu nas graças do povo. Caiu sim, claro, nada melhor pra fazer um sucesso com as gatinhas que carregar um livro tão grosso quanto Moby Dick embaixo do braço, com a diferença de ser um livro que você de fato lê. Lisbeth é isso, Lisbeth é aquilo, será Lisbeth uma feminista? Será Lisbeth uma anarquista? Será Lisbeth a bola esquerda do meu saco? Então chega de falar de Lisbeth, foda-se a Lisbeth, vamos falar aqui do coadjuvante que mais parece protagonista desde Michael Madsen em Cães de Aluguel: Mikael Blomkvist, o jornalista empenhado em ganhar uma bolada para resolver o mistério da família de um velhus decreptus magnata. Mikael é pura obstinação: não tem nenhum talento em especial, não é necessariamente inteligente, ou bonito, ou engraçado, ou o que for. Ele é só um cara que se dedica. E, veja bem, você conhece alguns romances policiais escritos nos últimos dez anos? Essa é a matéria primordial de qualquer protagonista do gênero. Chega de Sherlocks Holmes com suas observações precisas, o fim da era Conan Doyle coincide com o fim da era de Peixes e, seguindo em frente, estamos entrando na era de Aquário e Agatha Christie, com seus Hercules Poirots e Miss Mays. Menos 007 e mais Tintin, clamam as massas. Contanto que o rapazote faça seu trabalho e consiga comer sete oitavos do elenco feminino, ninguém está reclamando de nada.

Claro que em Millennium ninguém está reclamando de nada por enquanto porque todo mundo só presta atenção em Lisbeth Salander, mas repare só quando ler o livro: Mikael Blomkvist é tudo o que você sempre quis ser, com a diferença que você pode. É só fazer a porra do seu trabalho direito. Sim, mais ou menos como quando seus atletas favoritos dizem que o segredo do sucesso é comer verdura e fazer lição de casa. A que ponto um escritor precisa chegar para criar a devida conexão com o homem moderno?

E enquanto a Salander, bem, todos gostam dela porque ela sim tem os talentos, ela é o Sherlock na história de um Poirot. Mas, basta um olhar detalhado ante a irrealidade da personagem para o leitor juntar-se a mim no lado negro da força e advogar a favor de Blomkvist. Mas hey, Larsson quis ser melhor que Jesus e agradar todo mundo, colocando uma criação de Conan Doyle e uma de Agatha Christie no mesmo livro. E agora ele está morto. Pense nisso.

Comprei o livro nesse mesmo mês no ano passado junto com o livro do J.M.G. Le Clézio que dei para a Carlinha de aniversário. Tava barato, era uma promoção da livraria que dizia “conheça a Trilogia Millennium, compre um livro maior que você por vinte reais”. Ora, por que não? Todo mundo falando desse cara, vamos ver qualé que é. No final do ano já tinha lido todos e inclusive resenhei o último volume lá na Gazeta do Povo (atenção: contém spoilers), El Dorado particular. Tudo bem que hoje em dia tem aquelas edições “econômicas” da Companhia das Letras, que na verdade, só tem uma capa diferente e sem orelhas, o que só ajuda a danificar o livro mais rápido. Ainda assim, conseguiu adquirir todos os volumes em promoções vantajosas de maneira que todas as edições foram econômicas para mim. Só não está sendo econômico para a parede daqui de casa, que está quase cedendo com o peso da estante. Fazer o quê?

Ah, ainda não vi o filme. O quê? Acha que eu ia fazer uma coisa dessas e misturar crítica de cinema aqui nesse espaço inconspurcável? É muito querer jogar água no chope, pimenta no seu, e etc. Nada disso, estou indo ver o filme hoje. Vamos ver quantas voltinhas Stieg Larsson vai dar no caixão.

Comentário final: 510 páginas pólen soft. Se jogar no prédio do lado, também é terrorismo!

PS: não sei o que houve com o tamanho da letra nesse post. Malz aí!

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12 Respostas para “Stieg Larsson – Os homens que não amavam as mulheres (Män som hatar kvinnor)

  1. Eu, fã de romances policiais e jornalista por causa do Tintin, amo a Trilogia Millennium. Mikael Blomkvist tem lá seus charmes e imagino ele sendo interpretado pelo Kiefer Sutherland (Jack Bouer!!!) na versão americana do filme.

    Mas a minha heroína para sempre é a Lisbeth Salander!

    Beijos, Charlie!
    P.S.: Vc não está mais lendo “Infância”.

  2. É, eu ia falar do tamanho da letra. Ainda não tenho uma opinião por livros policiais, gosto e desgosto, depende do autor.

    Tenho lido mais sci-fi e fantasia, além de livros pra faculdade…

    Chega de internet, de volta a leitura. Porque quando acaba a luz da casa, você não vai querer ser um dependente do Google =)

  3. Não li o livro, mas vi o filme para matar as saudades da Suécia, onde passei uns 25 dias entre abril e maio de 2007. Conheci Västerbotten, onde o autor foi criado, e morei em Umeå, onde ele conheceu sua companheira. O filme é magnífico, absolutamente sueco.

    Os personagens de mais idade, que têm papel relevante no filme, talvez sejam resultado da impressão que lhe ficou no espírito do avô antifascista, por quem foi criado até os nove anos.

    Todavia Noomi Rapace, que interpreta Lisbeth Salander, foi quem me impressionou vivamente por me parecer mais islandesa que sueca. Qual não foi minha supresa, ao ler sua biografia na Internet, quando soube que ela, dos 5 aos 8 anos, viveu na Islândia, tendo sido lá o país em que estreou sua primeira peça, sob a batuta de um diretor local.

    • Oi Juvenal! Sempre legal ter gente nova comentando aqui no blog…
      Fiquei muito feliz com a informação que você adicionou ao filme, legal ter essa visão de quem morou na suécia. Tenho um amigo que morou em Umea também (desculpa aí, não sei fazer esse a maluco que você fez). Mas, engraçado, o filme não me agradou tanto, achei ele muito longo e tosco em algumas atuações. Contudo, os atores do filme (gente, a indústria cinematográfica sueca não conhece maquiagem?) são realmente mais velhos do que eu supunha que eles fossem no livro. Ah, e também achei que a Suécia fosse um país de gente bonita… Ledo engano, pelo visto… Boa essa do avô dele, percebi que conheço muito pouco sobre a vida do autor.
      Aí fiquei curioso: como é uma pessoa islandesa comparada com uma sueca? Você realmente parece conhecer a cultura GELAAAAAAADA!
      Um abraço e apareça mais!

  4. Oi! Esse post me interessou porque eu tenho uma colega que só lia Gossip Girl e O Diário da Princesa, daí ela me apareceu com esse livro, dizendo que era muito bom, que não conseguia parar de ler e bla bla bla. Eu, que nunca tinha ouvido falar do livro (sou um et?), pensei que fosse mais um best-seller estadunidense (é, eu tenho um certo preconceito bem chatinho). Quanto a primeira parte, eu não me enganei – é um best-seller, mas… sueco? Isso me pareceu curioso. Pensei em algo como ‘O Caçador de Pipas’, por ser best-seller não-estadunidense.
    Eu não li ainda, porque mesmo estando na minha lista de livros, ele sempre vai ficando para depois (ó o preconceito aí), mas quando tu disse que esse autor consegue misturar Conan Doyle com Agatha Christie, eu pensei: ‘eu preciso ler isso’ e eu vou fazê-lo em breve. Obrigada pela dica.
    OBS. Tu é do RS?
    Até mais!

    • Oi Aline,
      É, best-seller é uma raça meio chata mesmo mas, infelizmente, necessária. Afinal, são eles que dão grana pra editora poder bancar livros de menos apelo comercial e intelectualmente mais edificantes, se é que você me entende.
      Agora, todo romance policial é um best-seller em potencial por ser de consumo rápido, leitura fácil e foco na narrativa. Com esse não é diferente, a diferença é que é um policial moderno e muito bem contado. Sugiro ir atrás da história deste escritor, o Stieg Larsson, que é bem legal. Recomendo a trilogia! 😀
      Não sou do RS não, moro em Curitiba, mas sou do Rio de Janeiro.
      Até!

  5. Ei galera ,meu amigo me falou desse livro, e quando ele falou que parece com o estilo da Agatha Christie fiquei muito afim de ler.
    Pena que no Brasil a leitura ainda custe caro, mas enfim, quando conseguir vou compra um para ler. Até tentei consegui um emprestado mais a galera não e cooperativa.

    • Oi Natalia! A Companhia das letras lançou uma versão economica da trilogia. Os livros não têm orelhas, e isso barateia muito. Recomendo procurar. São capas coloridas, ao contrário da coleção antiga, que eram todas pretas com detalhes de fogo.

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