Leo Frobenius e Douglas C. Fox – A Gênese Africana (African Genesis – Folk Tales and Myths of Africa)


Em época de Copa do Mundo, nada existe e nada funciona de verdade, certo? Errado, campeão. Continuamos com a obstinada missão de comentar e trazer ao conhecimento do público livros da boa literatura, sem necessariamente recair em maneirismos críticos.

Vou ser sincero: Escolhi aleatoriamente um livro na minha estante. Calhou de ser esse. Tem culpa eu se a Copa do Mundo está rolando na África e nós aqui estamos falando de cultura africana? Tenho nada a ver com isso não, hein? Esse blog é isento de dinheiro, bom senso e não mama nas tendências desse mundo fashionista, moro? O livro em questão é A gênese africana – Contos, mitos e lendas da África, escrito por Leo Frobenius (já falo dele) e organizado por Douglas C. Fox (não vou falar nada dele, nunca ouvi falar nesse gajo). O livro busca, como diz o título, realizar um apanhado de lendas e mitos formadores da cultura africana em seu primórdio, ou seja, ver o que esse povo pensava quando não estavam preocupados pensando em comida (ô, maldade!).

Leo Frobenius — agora sim, vamos lá — é uma figuraça, como vocês podem ver nessa foto biíta dele. Antropólogo e etnólogo alemão (por isso, além de encaixar em literatura africana, também vai ganhar a tag de literatura alemã, para estrear a categoria), percorreu, no começo do século XX, as grandes savanas e desertos africanos em expedições dignas de um Indiana Jones comedor de chucrute para resgatar a origem das tradições de alguns dos principais povos de lá, em especial os cabilas, povo que morava onde hoje é a Argélia. Mas além disso, cavucou alguns mitos soniqueses, fulas, mandeses, nupes e hauçás (sim, hauçás, aquele povo zangado da Nigéria). Ah, e rodesianos do sul também, onde hoje é o Zimbábue. Sabe aquele povo que fala estalando os dentes? Pois é. Baseado nisso, fez um dos maiores compêndios sobre mitos africanos já reunidos, que depois deu origem a uma infinidade de livros charlatães que se propuseram a fazer o mesmo com outras civilizações, dignando-se a reescrever as lendas com algumas variações. Duvida que exista gente tão pilantra nesse mundo? Teste rápido para os folcloristas: já ouviram aquela lenda do crânio falante, que faz o guerreiro iludido trazer o rei para vê-lo e, diante da mudeza súbita da caveira, resolve matá-lo? Pois é, amigo, é uma lenda nupe, sim senhor, e você passou a vida achando que era angolana, ibo, até mesmo dos escravos brasileiros que vieram de Angola. Inclusive virou uma novelinha daquele “Casos e Causos” da Revista RPC. Pra quem não sabe o que é Revista RPC, considere-se afortunado.

O grosso do livro, realmente, é o material cabila coletado por Frobenius. Muito legal ver que a ideia que eles tem do gênesis, além de ser muito diferente da Bíblia (mantendo-se alguns aspectos como o do primeiro pai e primeira mãe), não fazem o menor sentido. Anacronicamente, é muita falta de noção desse povo, hein? Mas também, amigo, queria o quê? Poesia homérica nascendo ali no meio do pessoal que vive correndo de leão? Salmo 23 escrito por um negão entre uma matada de mosquito e outra? Você sabe que não rola. Ainda assim, vale a leitura se você conseguir sacar como essa tigrada pensava no começo da raça humana. Vou dizer: não é muito diferente de um sonho ou uma bad trip. E os mitos e fábulas deles são engraçadíssimos porque, além de não fazer o menor sentido, como já disse, também não tem aquela preocupação de moral da história que fez tão famosa a literatura xinfrim européia (européia ainda tem acento? Ajudem aí, linguistas, tô sem a gramática por perto). Pérolas do tipo: A raposa queria comer uma galinha. Aí o leão disse: ‘vai lá e se finge de galinha’. Aí vem um cara e mata o leão. Inevitável aquela cara de “what the fuck?” nessas horas.

E vamos ao projeto gráfico do livro. Olha, pra uma editora mais lado B como essa Landy Editora, esse livro está bem decente. Tem um prefácio do Alberto da Costa e Silva, que eu não conheço e já não gosto (nada pessoal, Sr. Costa e Silva, mas, além do seu sobrenome nada amigável, o senhor é imortal da ABL e, até vocês me chamarem pro grupinho, tô torcendo contra, hein?) Apesar do maldito papel offset, a fonte não é das piores e o cabeço é, pelo menos criativos. Ah, e não faltam ilustrações bonitas e toscas, feitas por uma tal de Kate Marr, funcionária do Forschungsinstitut für Kulturmorphologie in Frankfurt-am-Main (quer saber o que é isso? Faça como eu e comece a frequentar as aulas de alemão). Além disso, alguns retratos desenhados durante as expedições, feitos para você saber que seu senso de beleza e estética está completamente engessado por modelos magrelas, branquelas, que são só titela (pra rimar). Uma capa bacaninha, como vocês podem ver, e folhas de respiro no começo e no final do livro todas pretas e em papel cartão, pra ficar mais tchananã. Ah, e por incrível que pareça, não é difícil achar esse livro. Só não lembro ainda por que foi que eu o li. Tinha uns 16 ou 17 anos na primeira lida. Bom, nem Deus sabe o que passa na cabeça da gente quando a gente é adolescente, né verdade?

Comentário final: 238 páginas compridas em offset. SHHHHPAW!!!

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14 Respostas para “Leo Frobenius e Douglas C. Fox – A Gênese Africana (African Genesis – Folk Tales and Myths of Africa)

  1. É um prazer ler este blog, que encontrei por acaso quando procurava não me lembro mais o que da literatura sueca. O texto flui, não cansa. É evidente que as muitas leituras acumuladas permitiram ao autor formar já, em em tenra idade, um arcabouço crítico considerável.

    Parabéns pelo blog, e grato por compartilhar suas leituras. Você é nota 10.

    Eine schöne Start in die Woche wünsche ich Ihnen

    • Oi Juvenal. Para mim, é sempre um prazer ler seus comentários, e os elogios são só alegrias que alimentam esse trabalho ingrato de escrever sobre literatura num espaço tão anti-literário como é a internet. Apareça sempre!
      O segredo deste blog é, na verdade, a memória para os livros e o fato de eu ser um raro leitor de biblioteca e comprar todos os livros que eu leio. Assim, posso pegá-los na estante, relembrar porque eu gostei ou não deles e escrever sem embasamento algum, mas na sinceridade.
      Abraço! E boa semana pra você também!

    • Hahaha não é uma lenda exatamente. Estava só exemplificando com algo que eu me recordo ser muito parecido com o que eu li nas lendas cabilas. Abraço!

  2. Interessante! Tantos livros interessantes na sua estante que ainda não li…

    O blog, sempre, muito bacana! Continue com ele. Sempre um prazer (para nós que gostamos de literatura) e uma diversão para todos que curtem ler textos bem escritos.

    Beijos!

  3. E se eu lhe contar que estava procurando um livro sobre mitos africanos? Pois é, vamos ver do que fala o alemão, então. É muito interessante sair desse mundinho de duplicidade em que vivemos (obrigado Moisés, Jesus, Platão, Pelé), para encontrarmos novas formas de ver o universo e nos relacionarmos com o mundo.
    Não vou ficar lhe elogiando porque isso já ficou piegas.
    Abraço.

    • Fala, Lucas! Que vacilo, nem foi lá ver o show da minha banda.
      Então, eu já li alguns livros sobre mitologia africana, mas esse é o único que eu vi que presta de verdade. Que você tenha sorte na sua pesquisa, seja lá ela qual for.
      “Você é piegas, cara!” – Me lembrei do filme “Droga de Amigo”, que um pessoal lá da faculdade fez. Procure no Youtube depois.
      Valeu pela visita. Um abraço!

  4. Olá! Me diverti lendo seu post. Tbém gosto de livros sobre a África, principalmente os do Kapuściński (joguei no google, nome do capeta!) Lendas são legais em qualquer país, aqui temos umas bem loucas, mas já estão caindo no esquecimento. Enfim…
    Continue firme! =D
    Bjs!

    • Oi Lálika!
      Agora me senti muito ignorante porque nunca li nada do Kapuściński, nem tinha ouvido falar dele. Ou tinha, sei lá, nome de polonês é tudo igual, ou igualmente ininteligível. Acho válido que algumas lendas brasileiras estejam caindo em desuso, como a do Boto cor-de-rosa, por exemplo. Vi uma vez na internet esse negócio de golfinho transando com as pessoas, e, francamente, não gostaria de ter visto.
      Beijo e obrigado pela visita!

  5. Olá! Leo Frobenius é citado na história da África organizada pela Unesco:

    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espécie esconderam do
    mundo a real história da África. As sociedades africanas passavam por sociedades
    que não podiam ter história. Apesar de importantes trabalhos efetuados
    desde as primeiras décadas do século XX por pioneiros como Leo Frobenius,
    Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande número de especialistas não
    africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades não
    podiam ser objeto de um estudo científico, notadamente por falta de fontes e
    documentos escritos.
    Se a Ilíada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
    essenciais da história da Grécia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
    à tradição oral africana, essa memória dos povos que fornece, em suas vidas, a
    trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a história de grande
    parte da África, recorria-se somente a fontes externas à África, oferecendo
    uma visão não do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
    que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a “Idade Média”
    europeia como ponto de referência, os modos de produção, as relações sociais
    tanto quanto as instituições políticas não eram percebidos senão em referência
    ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
    de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, através dos séculos, por…

    Arquivos em PDF:
    http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/ResultadoPesquisaObraForm.do?first=50&skip=0&ds_titulo=&co_autor=&no_autor=&co_categoria=132&pagina=1&select_action=Submit&co_midia=2&co_obra=&co_idioma=&colunaOrdenar=DS_TITULO&ordem=null

  6. Pingback: Wole Soyinka – O Leão e a Joia (The Lion and the Jewel) | Livrada!

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