Milan Kundera – A Ignorância (L’Ignorance)


E aí, meus queridos, como vocês estão? Já superaram a derrota do Brasil na Copa do Mundo ou não? Já estão conseguindo tomar suco de laranja, calçar um tamanquinho sem chorar, ir pra marcha da maconha sem pensar naquele país baixo (de baixeza) que já está vivendo no futuro faz tempo? Quem precisa da Holanda, não é mesmo? E, se serve de consolo, pensem que vocês, caros leitores, foram privilegiados com um alfabeto de 26 letras diferentes, enquanto o alfabeto de lá é igual o seu álbum da copa: cheio de figurinha repetida. Só tem A E E E E J J J J L K K K K V V V O N N N T e acabou. Agora enxugue essas lágrimas e torça para o próximo técnico montar uma seleção com mais moleques e menos caveiras, meu capitão.

Em homenagem ao herói dessa copa, Felipe Melo (que, junto dos vilões das outras copas, como Ronaldo em 98 e Roberto Carlos em 2006, há de se reunir com os da sua laia no Corinthians), o livro de hoje tem um nome sugestivo: A Ignorância, do velho tcheco metido a rapazote Milan Kundera. Sim, o cara é da República Tcheca, aquele país que até hoje só conseguiu exportar escritores orelhudos e atrizes pornôs. Mas também, amigo, com aquele visu alucinante de Praga, quem iria querer trabalhar?

Milan Kundera, para quem precisa ter a memória refrescada, é o autor de A Insustentável Leveza do Ser, um dos livros favoritos das patricinhas metidas a inteligentes. Juro que não me entra na cabeça como garotinhas cujo filme favorito é Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças podem entender o que Kundera escreve. Tudo bem que ele é considerado um escritor lúdico (na linguagem acadêmica, literatura lúdica quer dizer “bobeirinhas”, e não venham me corrigir nessa), mas ele tem alguns pontos — pelo menos cinco em cada livro — onde ele se debruça em pensamentos profundos e cuja referência cultural exige muito do leitor. Talvez a garotada leia pelas frases e pensamentos de efeito, afinal, e não pela história toda, mais ou menos como acontece com o Oscar Wilde.

A Ignorância é o último romance publicado pelo autor. Um livrinho muito mixuruca perto da obra dele, com pouquíssimas páginas, então dá pra encarar sem medo, ok? Fala de dois sujeitos, um homem e uma moça, que, depois de um tempão no exílio, cada um no seu canto, se reencontram por acaso no país natal. Eles tinham começado uma relação amorosa quando eram jovenzinhos, mas, tentando reatar, descobrem que as lembranças de cada um daquela época são meio diferentes, e aí se desenrola umas paradas sinistronas que só lendo pra saber, afinal, não sou escroto a esse ponto.

Acho que, mais do que tratar a questão da relevância da memória na nossa vida, o livro dá uma pincelada boa no que é o exílio, baseado mesmo na sua experiência. Ele, que vive na França hoje, considerado cidadão francês (não viu que o título original do livro tá fazendo biquinho pra você?), é um cara desses sem pátria, ou, pelo menos, sem o conceito de pátria que nós, pessoas normais que crescemos sem essas mordomias de “tchau, vou morar na França agora” temos. Tudo bem o cara começar a falar outra língua, mas deixar de escrever na língua mãe é assinar atestado de clandestinooooo (bateu saudade de ouvir Manu Chao, malandro?). É inclusive um mal do escritor tcheco, não escrever em tcheco pra sempre. Acho que é uma dessas coisas que acontece quando você mora num país do tamanho de um ovo e o resto do mundo não entende seus acentos circunflexos de cabeça pra baixo, nem o que eles estão fazendo em cima de letras inocentes como o S. Tem que facilitar o caminho da sua literatura pro mundo, bicho. Pensa nisso.

E, como bons exilados, querem fazer bonito ante os conterrâneos que permaneceram na terrinha. Grande sacada essa que tem no livro. Acredita-se tanto na experiência de vivência que nêgo que viaja começa a se achar muito mais esperto do que quem fica. Quem já viu aquele filmeco da Lisbela e o Prisioneiro há de lembrar do cearense que foi pro Rio e voltou todo metido, falando chiado. Memorável é a cena, em A Ignorância, que a fulana chega lá pros amigos tchecos e fala “e aí, vamos beber um vinho?”. Justo pra quem senão o maior bebedor de cerveja da face da terra! Vai ser jeca assim no inferno!

Vou dizer: um pecado que a Companhia das Letras não publique os outros livros do Kundera no formato normal. É mó ruim ficar lendo livro pocket, e comprá-los é mais ingrato ainda. Parece que você tem uma biblioteca de anão em casa. Salvo o preço, não vejo vantagem no formato, nem pelo tamanho. Só é uma coisa mais rentável pra editora. Mas essa coleção do autor é muito linda, com umas litografias de nada mais nada menos que Lasar Segall (se você não conhece a peça, saia deste blog agora, vá pesquisar esse nome no Google e depois volte aqui pra pedir desculpas por ter precisado interromper a leitura). Tudo montado pelo genial João Batista da Costa Aguiar, que prepara algumas de minhas capas favoritas da editora. No mais, glorioso papel pólen soft e fonte Sabon, uma fonte que, verdade seja dita, é um pouco antiquada para os dias de hoje. Tá valendo mesmo assim.

NEWSFLASH! Galera, agora o Livrada! tem um twitter! Sigam @bloglivrada e acompanhem as novidades, já que vocês cismam em não assinar o RSS (tem exceções). Vou procurar adicionar informações importantes ou não sempre que possível, ok?

Comentário final: 156 páginas em pólen soft. Machuca o viadinho que usa Gillete Mach 3 para um barbear macio e delicado pra você, mocinha delicada.

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22 Respostas para “Milan Kundera – A Ignorância (L’Ignorance)

  1. Então, Milan Kundera. Eu adoro a Insustentável leveza do ser mas não sou uma pati ein? Ainda não li A ignorância, mas já li o Livro do Riso e do Esquecimento q é bem legal tbém. Agora, atualizar o blog as 9h da manhã de domingo é coisa de nerd ein? hahaha brincadeirinha! =D

    • Hahaha não se preocupe, Lálika, os posts são agendados. Meu sono é sagrado no domingo. Não li o Livro do Riso e do Esquecimento, mas a Insustentável Leveza do Ser é top entre os gentios.
      Apareça!

  2. Pingback: Tweets that mention Milan Kundera – A Ignorância (L’Ignorance) « Livrada! -- Topsy.com

  3. Tá, quer dizer que eu sou uma pati? Eu sempre desconfiei de meus gostos afrescalhados e uma insistência em algumas coisas, mas sério, nunca pensei que a leitura de um livrinho fosse me sacanear tanto assim… Enfim, besteiras à parte; gosto do autor, sinceramente gosto do autor. Tenho lá minha implicância com o fato que ele fala de coisas meio parecidas. Isso de não ter pátria, do país dele ter ficado zoado pelo comunismo, pela leitura de Nietzsche e de outros caras; que nem sempre é uma boa leitura. Mas beleza, gosto realmente dele. Pela prosa que flui, pelas colocações pontuais e pelos personagens marcantes. Agora, ao invés do “A insustentável leveza do ser”, que é o xodó de todo leitor dele, eu gostei muito do “A Lentidão”. É um livro sobre o qual faço referência direto e fiquei muito contente ao encontrar um autor maduro em questões tão presentes. Isso só.
    Abraço.

    • Oi Lucas,
      A repetência de certos assuntos por certos autores me dá certas certezas de que é preciso dar uma variada, tanto no autor quanto no estilo de literatura. Imagino que ler algo sobre biologia pode fazer bem nessas horas. Não li a Lentidão, mas prometo me informar sobre o livro pra ver se é bom mesmo.
      Ah, quanto às patricinhas e sua predileção pela A Insustentável Leveza do Ser, preciso fazer uma investigação pra saber como isso aconteceu. Suspeito que seja graças àquele horroroso filme “Alta Fidelidade”, onde o igualmente horroroso John Cusack cita a obra como uma leitura madura de sua parte. Vai entender o que a meninada tira dessa informação….
      abraço!

  4. Yuri,gosto muito dos seus comentários,além de terem embasamento,também são bem espontâneos. Tudo bem, que as vezes espontâneos até demais … rsrs.
    Suas análises são totalmente descompromissadas e bem descontraidas. Tenho certeza que quem não leu a obra analisada, depois de ler seus textos corre para a livraria mais próxima rsrs. Parabéns.
    Livrada… Li … gostei… aprovei….e indico. Bjs

    • Oi Matilde! Que legal você passar por aqui!
      É isso aí, uma nação de leitores se constrói com comentários espontâneos e chulos, e a impressão necessária de que livros são legais. Como disse o rapaz aí de cima, num comentário que me deixou muito feliz, se as pessoas começam a ler um autor por que leram sobre ele aqui no blog, então é lucro. No mínimo, lucro pras editoras heheheh
      Beijo!

  5. Sim, o cara é da República Tcheca, aquele país que até hoje só conseguiu exportar escritores orelhudos e atrizes pornôs.

    Não esqueça dos famosos Skodas e de Dubeck, que não era escritor e brindou o mundo com a “primavera de Praga” – uma ideia muita avançada para o reacionarismo do tempo.

    Em tempo, parabéns pelo número crescente de leitores e comentaristas: é a consequência natural de um blog bem focado como o seu, irreverente, espontâneo e – como disse uma amiga sua acima – bem embasados.

    Seus posts lembram-me o Pasquim da minha juventude voltado para a literatura, mas sem as “sacanagens” (desculpem-me a expressão). É uma resposta, um projeto pessoal contra a pasmaceira geral – mas feito com leveza e elegância.

    Ao “seu” Alhanati, que consegue reunir leitores dos 8 aos 80 (ou dos 20 aos 50), os meus parabéns.

    • Oi Juvenal! Como vai?
      Realmente, não contemplei os Skodas entre os escritores orelhudos e as atrizes pornôs… Mal minha. Agora, para ser totalmente honesto, o Dubček nasceu numa cidade horrorosa chamada Uhrovec, que hoje faz parte da Eslováquia, então ele tá fora pelas convenções geográficas, certo?
      Esse blog tem me dado muitas alegrias por me fazer descobrir que há leitores para o que eu escrevo, dos quais o senhor é um dos mais fiéis. Espero continuar agradando a todos. Isso aqui não é nem a unha encravada do Pasquim, mas lisonjeio-me com a comparação. Obrigado pelos elogios e pela visita!
      Um abraço!

  6. pensei que ” a insustentável” fosse livro de patricinha metida do começo dos anos 90, portanto de quarentonas ou quase – uma idade em que as pessoas não estão mais tão preocupadas em parecer o que não são…. gostei do texto – se eu fosse escrever ia ser muito mais baba ovo – pq adoro esse cara – meu KUNDERA preferido é A IMORTALIDADE.

    • Oi Vinicius! A insustentável leveza do ser é um desses livros que permeiam o imaginário da mulherada de uma certa idade por muitas gerações. É como os moleques de dezesseis anos e Bukowski. Depois todo mundo cresce e, com sorte, acabam lendo outras coisas. Claro que Kundera é muito melhor do que Bukowski, só usei pra comparar a influência sobre uma certa faixa etária. Não li a Imortalidade, vou ver se acho!
      Abraço

  7. Já leu A Imortalidade dele? Umas idéias que são apenas delineadas na Insustentável Leveza são bem desenvolvidas n’A Imortalidade e n’O Livro do Riso e do Esquecimento, sem falar de A Brincadeira. (Sim, sou fã de Kundera).

    Levanto a lebre por causa do que disse sobre escrever em outra língua. Kundera é um expatriado por dois motivos, porque foi expulso do seu país e porque se expulsou das comunidades. Desde que menciona o Kitch na Insustentável Leveza, passando pela afirmação de que não há ninguém que não se ponha conta eme em A Brincadeira ou mesmo a inadequação crônica em A Imortalidade e no Livro do Riso são mostras disso.
    Ele não acredita na comunidade dos homens, nem mesmo na eficácia das boas intenções. Dói ler ele dizendo que os culpados pela desgraça tcheca foram as melhores pessoas do país.

    • Oi Cochise! Novo leitor do blog? Seja bem vindo!
      Seu comentário é pertinente, e aí me falta referência pra poder ter um argumento igualmente interessante (é, mermão, aqui eu assumo minha ignorância mesmo e não é mea culpa não. mea culpa é o caralho!!!). Mas talvez isso contribua para aquela visão do Leste Europeu que eu descrevi na segunda resenha desse blog, sobre o Dossiê H. Quem sabe você concorde comigo.
      Um abraço!

      • “Eu também dancei em roda. Isso foi em 1948; os comunistas acabavam de triunfar em meu país, os ministros socialistas e democrata-cristãos tinham se refugiado no estrangeiro, e eu segurava pela mão ou ossos do ombro outros estudantes comunistas;
        […]
        fazíamos isso quase todos os meses porque sempre tínhamos alguma coisa para celebrar, um aniversário oo um acontecimento qualquer; as velhas injustiças foram reparadas, novas injustiças foram cometidas, as fábricas foram nacionalizadas, milhares de pessoas foram presas, os tratamentos médicos eram gratuitos, os donos das tabacarias tiveram seus negócios confiscados, […]
        depois, um dia, eu disse algo que não devia dizer; fui expulso do partido e tive que sair da roda.
        Foi então que percebi o significado mágico do círculo. Quando nos afastamos da fila ainda podemos voltar a ela […] Ma o círculo volta a se fechar e o deixamos sem retorno.

        O livro do riso e do esquecimento

  8. Pingback: Milan Kundera – A Brincadeira (Zert) | Livrada!

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