Abbie Hoffman – Steal This Book


E aí, meus queridos! Antes da gente começar os trabalhos de hoje, uma rápida pesquisa de opinião: o que vocês acham de abrir o espaço aqui para vocês, leitores, resenharem alguns livros ocasionalmente? Afinal, isso aqui é uma brincadeira e, até que se prove o contrário, todo mundo pode brincar. Digam aí o que vocês acham…

Pois muito bem. O livro de hoje é um clássico da literatura (tá na tag), mas não pelo valor literário (e manual tem lá valor literário?), mas pela geração e pelo movimento que ele representou. Sim, chegou a vez de Steal This Book, do lendário Abbie Hoffman! Pra quem não sabe, Abbie era um militante político e um dos criadores do chamado movimento Yippie, que é mais ou menos como o movimento hippie, só que com propensão a fazer paradas radicais, como coquetéis molotovs e envenenamento das fontes de água. A verdade é que ele era loução. Diagnosticado como bipolar, a doença da moda e queridinha das novelas e do mundo da música norte-americana, ele participou ativamente nos protestos e atentados da década de 70, em especial durante a guerra do Vietnã, o Brasil X Itália de 82 lá dos Estados Unidos. Morreu em 89, enchendo a cara de boleta, suicida safado. Antes disso, porém, escreveu este livro, um manual da resistência Yippie.

Steal this book é, basicamente, um guia da malandragem americana — o que, como deve ser fácil de supor, não é nada malandra. Gringo não manja de falcatruas e pequenos golpes. É por isso que o nome da parada não é “jeitinho americano”. O livro é dividido em três partes, após um breve e incrivelmente coeso manifesto, ainda que pouco pé-no-chão.

“Survive!”, a primeira parte, dá dicas de como conseguir dinheiro, móveis, roupas, comidas, transporte e outras coisas de graça, e até como comprar, vender e plantar sua própria maconha (com ilustrações ensinando a enrolar o cigarrinho do capeta e tudo!). Claro que tudo ali é adaptado à realidade estadunidense da década de 70. Então dicas como “ofereça seu corpo para estudos médicos após a sua morte e você receberá 25 dólares após fazerem uma pequena tatuagem no seu dedão do pé” e “pegue carona nesses pontos aqui” hoje em dia não valem de mais nada. Ainda bem, eu acho.

“Fight!”, logo em seguida, ensina técnicas básicas de luta corporal (inclusive o invencível chute no saco), luta com armas brancas, fabricação de todo tipo de bombas e timers, imprensas clandestinas, rádios piratas (com ilustrações), roubo de lojas (a chamada mão leve), primeiros socorros para os amigos que caem e algumas pílulas de direito estadunidense pra você, cabeludo maluco, poder berrar “Eu conheço meus direitos!” quando o sargento Peçanha te meter o big stick. Alguns tópicos descritos nessa parte são ainda válidos para a sociedade de hoje, e inspiraram outros livros semelhantes, como o Anarchist Cookbook, talvez o primeiro e-book de todos os tempos. Fala sério hein, se você tinha acesso a internet com 16 anos, você leu esse livro.

A última parte, intitulada “Liberate!”, é a menor de todas, e seus quatro capítulos, Fuck New York, Fuck Chicago, Fuck Los Angeles e Fuck San Francisco, dão dicas específicas sobre os tópicos de “Survive!” em cada uma dessas cidades, além da programação cultural, os buracos quentes de música e poesia underground. Meio sem graça se você não conhece os Estados Unidos, como eu. E nada é aproveitável hoje em dia. “Tem um poeta chamado fulano de tal nessa esquina”. Vai nessa, amigo, você vai encontrar no mínimo um McDonald’s.

As ilustrações e fotos do livro são um capítulo a parte. Cartuns e quadrinhos do Gilbert Shelton, pai dos Fabulous Furry Freak Brothers, que de repente TODO MUNDO conhece, só porque o cara vai estar na Flip, ora essa (aliás,  e o Lou Reed na Flip, hein? Precedente perigoso pra transformar a bagaça numa espécie de bienal do livro. Zero de literatura); fotos do próprio Abbie Hoffman e sua gangue, simulando algumas de suas dicas; e ilustrações para ensinar algumas das coisas mais complicadas no livro. Não se pode esquecer que ele foi escrito para este povo inteligente que é o norte-americano, em especial, o norte-americano adolescente hippie e drogado até as orelhas. Pensando bem, me admira que o livro tenha letras.

Encomendei esse livro da amiga Manuela que foi visitar os esteites, e já esperava algo meio thrash. Publicação de livro nos Estados Unidos é de chorar mesmo. Pólen Soft? Chamois Fine? Mesmo o horroroso Offset você vai ter dificuldade em encontrar. Lá, amigão, ou é papel de bíblia ou é papel de jornal, você escolhe. Nesse caso, papel jornal, aquele que começa a apresentar manchas após cinco meses na estante e te dá uma rinite gostosa pra ficar espirrando o resto do dia. Uma tal de editora Thunder’s Mouth Press publicou a obra. Aliás, chamar de editora é elogio. Nem a própria Martin Claret teria a sagacidade de fazer algo tão capenga. E impresso no Canadá, ainda por cima. Na certa, uma sweatshop de livros, se é que existe uma. Uma fonte horrorosa que eu não sei qual é e uma capa minimalista que a gente não sabe se é um projeto gráfico elaboradíssimo ou preguicite aguda. Ainda assim, vale pelo registro de ter um livro importante como esse na estante. Acho que aqui no Brasil ele não existe pra vender, então, se quiserem passar os olhos por um, já sabem.

Comentário final: 318 páginas de jornal. O som que faz quando você bate em alguém com ele é “Puf!”.

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21 Respostas para “Abbie Hoffman – Steal This Book

  1. Cara, quando eu tinha 16 anos a internet nem existia no Brasil. Eu fazia trabalhos escolares em papel almaço, copiados da enciclopédia Barsa, e os orelhões eram vermelhos e funcionavam com fichas de metal!
    Bom, como você sabe, tenho lido pouquíssimo ultimamente, mas não deixo de acompanhar o blog toda semana. O Livrada! é sempre uma boa pedida, tanto pelas dicas como pelo texto afiado.
    Abraço.

    PS: Parabéns a você e a Carla pelo TCC. Sempre soube que vocês fariam um trabalho de alta qualidade, e tô na fila pra ler o livro.

    • HOOOOHOHOHO, olha só quem deu o ar da graça por aqui! Grande Cássio!
      Ah, olha só, não é só porque você não tinha internet aos 16 que você não possa ler o Anarchist Cookbook, ele está disponível para Download em vários sites. Aqui vai um: http://www.anarchistcookbookz.com/download-the-anarchist-cookbook-for-free/
      Eu também tenho lido muito pouco, principalmente por conta do fim da monografia. Vamos ver se agora voltamos à programação normal. Valeu pelos elogios, o livro está lá em casa, apareça lá!
      Abraço!

      • Ih, rapaz, eu não leio em inglês, mas valeu a dica. Você ainda tem aula aos sábados? Senão, poderíamos almoçar juntos, ou fazer alguma outra coisa.
        Quando é que você vai resenhar O Estrangeiro, do Alberto? Essa não perco de jeito nenhum!

        Abraço

  2. Pingback: Tweets that mention Abbie Hoffman – Steal This Book « Livrada! -- Topsy.com

  3. Lá, amigão, ou é papel de bíblia ou é papel de jornal, você escolhe.

    Brasileiro compra livro pra colocar na estante. Assim, tem que ser bonito. Americano ou inglês compra livro pra ler. E como em papel jornal o custo é significativamente menor, não se incomodam com isso. É uma questão de cultura.

    • Oi Juvenal!
      Acho que, mais do que uma questão cultural, colocar algo tão perene como um livro em um suporte tão fuleiro como papel jornal chega a ser um desrespeito com a obra. É como se dissessem: “Essa bosta aqui não vai durar mais do que cinco anos mesmo…”. Bom, não é preciso explicar que eu sou um defensor ardente do livro de papel e do livro bem feito. A própria proposta do nome do blog sugere o livro como algo físico, concreto, que pode inclusive ser usado como arma. Claro que a gente coloca o livro na estante (depois de lê-lo, é claro), se não fosse assim, valeria mais a pena pegar na biblioteca ou pedir emprestado. Pode ser anacronismo meu, mas acho que deveria haver espaço tanto para o livro fuleiro quanto para o livro bonitinho. Aqui no Brasil, pelo menos, os livros impressos em papel jornal são os fast-pace, Harlan Coben e companhia. Aliás, qualquer dia resenho o livro dele que eu li para entrevistar o autor.
      Abraço e apareça!

      • O mais importante é perceber que o livro-arte em uma situação de público pequeno por desigualdade social e perda de valor simbólico do livro não é comprado.

        As pessoas POBRES (tá, classe C-) tem coragem de pagar 150 200 reais num pacote de ingressos para uma festa qualquer mas não tem coragem de pagar 40 num livro.

        Se tivessemos mais livros no formato sabrina (livros de verdade. Sabrina não é livro) (papel jornal, capa couche 160 sem laminação) acho que teríamos maisconsumo cultural.

        Depois comento a resenha.

  4. Não tenho idéia do que falar sobre o livro, sobre a resenha, sobre o autor. Não conhecia até ler sua magnífica resenha, e digo, bem altissonante, poderia passar sem conhecer um gringuinho revoltado. Isso de ensinar a fazer coquetel molotov é meio clichê. O Truffaut não fez isso em um filme? Até porque, como você disse várias vezes, gringo é tudo bundão, não tem malandragem de verdade. Sobre o livro em si; bem, tenho um amigo que comprou milhões de livros no esteites, sendo todos de paperback, estilo da Editora Penguin. Enfim, também não gosto muito. A tinta sai quando passa a mão, fácil de rasgar, até fácil demais.
    Hey, agora vou dar uma de pentelho, prepara um clássico de verdade pra próxima. Algo literariamente agradável.
    Abraço.

    • E aí Lucas.
      Ensinar a fazer cesta de pão molotov realmente não é das maiores novidades do mundo, mas, para a época, até era. Vamos lá saber se tem gringo malandro ou não tem. Eu vi aquele filme “Medo e Delírio em Las Vegas”, e não pude parar de pensar que se esses gringos viessem desse jeito pro Brasil, iam ficar só de cuequinha no mesmo dia.
      Tá ligado no drama então do papel de jornal. Realmente, como falaram ali em cima, o uso desse tipo de material para fazer livros mais baratos talvez fizesse o povo consumir mais. Talvez.
      Vou pensar num clássico. Não sou leitor de muitos clássicos, na verdade, mas vamos ver…
      Abraço!

  5. Se tivessemos mais livros no formato sabrina (livros de verdade. Sabrina não é livro) (papel jornal, capa couche 160 sem laminação) acho que teríamos maisconsumo cultural.

    Essa é a minha tese, Cochise. Um livro que modificou minha vida, lá pelos vinte e poucos, anos (“The Magus”, do John Fowles), li no original inglês, numa edição em papel jornal: me custou muito mais barato do que uma edição em capa dura.

    Enquanto eu lia John Fowles em papel jornal para me preparar para o Proficiency Examination da Universidade de Cambridge, uma penca de conhecidos lia “As Brumas de Avalon” (e porcarias assemelhadas) em edições bem mais sofisticadas. Talvez por isso não tenha hoje preconceito com o tipo de papel ou a encardenação – ao menos em relação aos livros estrangeiros. O importante é mesmo que a obra tenha valor / impacte minha vida.

    Amo também minha biblioteca, adoro tocar os livros os livros e tê-los a mão a hora que desejar, mas devido ao fato de a vida hoje ser um tanto móvel (hoje se está Curitiba ou Porto Alegre, amanhã em Umeå, na Suécia ou em Nordhorn, na Alemanha), que estou virando fã dos iPads da vida.

    Talvez atualmente leia mais obras na telinha do que em hard copy. A facilidade e rapidez de se adquirir uma obra (ao menos estrangeira) on-line e baixá-la em seu computador é muito grande – isso sem mencionar os preços, mais interessantes.

    Além disso, ferramentas como o iPad, com tela sensível ao toque, permitem que se tenha a sensação física de mudar de uma página para outra, apesar de a mídia ser digital, apenas tocando na tela e deslizando a mão da esquerda para a direita quando se deseja avançar na leitura. Esse e outros recursos diminuem a distância entre o livro impresso e o digital, tornando a migração menos dolorosa.

  6. Aeee! Parabéns pela banca, é tão bom qndo acaba né? Dá tudo certo, vc não precisa reler pela milionésima vez o q escreveu, chegou uma hora q eu não aguentava mais o meu. Tenho q revisar pra colocar na capa dura e até hj estou com preguiça… anyway…
    Bah, mó legal livros ensinando como revolucionar, mas graças a brian – the god – wilson que essa época já passou, pq tenho uma preguiça de revolução que vc não imagina.
    Enfim, estou pensando em te mandar o que eu escrevi sobre Cães Negros, do Ian McEwan, o que vc acha? Vou dar uma editada e te encaminho! Passa o email aí!
    Bjs e parabéns novamente para a dupla! =D

    • Oi Lálika! É verdade, o alívio é tremendo, mas ainda temos planos para o produto da monografia, então o trabalho continua, ainda que mais folgado e sem prazos…
      Manda pra mim no bloglivrada@gmail.com o seu texto, estou bolando coisas…
      Obrigado pelos parabéns!
      Beijo!

  7. Putz!! Esse livro foi uma referência para Steve Jobs (segundo Walter Isaacson) e achei que valia a pena dar uma lida nele. Você destruiu o livro e acho que acredito em você, afinal Steve Jobs foi um filho-da-puta mesmo.

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