Luiz Alfredo Garcia-Roza – Vento Sudoeste


Mais um mês de existência, moçada! Já disse, o Livrada! não é mano, mas também tá aí, contrariando as estatísticas, morô? Neste último mês, o número de visitas não parou de subir e os comentários também. A promoção está de pé, e, agora, muito perto do fim também. Sei que anunciei essa porra lá atrás e até agora não saiu um ganhador. Isso é explicado em parte pela minha falta de tino para números de promoções e em parte porque muita gente lê, mas não comenta. Se bem que a surpresa de descobrir que tenho leitores é legal. Outro dia mesmo…

Mas enfim, agradeço bastante a todos vocês que leem, comentam ou não comentam, divulgam, apóiam e tudo mais. Espanto-me de ver a popularidade deste humilde espaço crescer, e faço votos e empenho para que continue assim.

Também tenho novidades. Como disse ali na parte “Sobre Livrada”, isso aqui é só uma brincadeira, um lado B da minha crítica. Pois agora, é com orgulho que digo que estou desempenhando o lado A também (quem sabe um dia o lado A vire lado B e vice-versa, né?). Minhas críticas sérias podem ser vistas na Revista Paradoxo, na parte de literatura, e quem quiser me visitar lá, pode ler um artigo sobre o all-mighty Coetzee e uma crítica sobre O Dia da Coruja, do Leonardo Sciascia.

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Vento SudoesteSem mais, vamos à resenha de hoje. Claro, um livro especial para uma comemoração especial (sim, eu tô ligado que hoje é dia dos pais, parabéns a todos os pais do mundo, mas a comemoração aqui é mais forte). Resolvi escolher o Luiz Alfredo Garcia-Roza, esse velhinho com vozeirão que tem uma trajetória literária espetacular: começou a escrever depois de velho. E quando eu digo “depois de velho”, quis dizer depois de bem velho. Acho que a estreia do cara na literatura foi aos 63 anos. Eu ia falar bem do primeiro romance dele, O Silêncio da Chuva, que é super original, mas não o bastante: todas as pessoas para quem eu indicava a leitura não retornavam dela tão impressionadas assim. Então, escolhi o Vento Sudoeste, um romance policial com um mote dos mais inusitados.

Vento Sudoeste é um livro da série do Detetive Espinosa (posteriormente Delegado Espinosa), um policial da Civil amante da literatura e detentor de uma ética impecável (daí o nome inspirado no holandês magrelo). Falemos dele mais tarde, vamos tratar do mote do livro. Em Vento Sudoeste, um sujeito entra na delegacia para falar com Espinosa a respeito de um crime que ainda não foi cometido. Desconhece-se a vítima e o motivo, mas sabe-se que o assassino será o próprio delator da contravenção. E resta a Espinosa, que poderia ficar vendo Fórmula 1 em casa, levar a história do moço à sério e arregaçar as mangas para entender a maluquice. E aí, no resto, é aquela fórmula dos romances policiais que o cinema holywoodiano tão bem soube estragar: suspeitos, pessoas que vão morrendo, mocinhas, sexo às vezes, etc. Dentro do que é possível se esperar de um policial propriamente dito, a história é original, vai vendo.

Vamos lá: tirando Rubem Fonseca, quem mais é o fodão no policial brasileiro? Jô Soares, amigo? Não mete essa. Patricia Melo? Pra cima de moi? Não tem ninguém, e a razão é muito simples: como é que alguém vai fazer uma história aqui no Brasil em que o herói é puliça? Me diz? Me diz, quero ver? Aliás, se alguém fosse escrever um policial do jeito que as coisas são, arrisco a dizer que o livro, caso o poder de síntese do autor não seja muito bom, teria pelo menos umas 2000 páginas só de enrolação. Prevejo: “Capítulo 52 – o caso muda de jurisdição (pela oitava vez)”, “Capítulo 89 – o processo emperra na papelada” ou algo do tipo. E, no fim das contas, o livro ia acabar por falta de saco do escritor, porque ninguém ia ser preso nem condenado. E, diante desse senso-comum, Garcia-Roza se meteu a fazer um policial honesto e corretíssimo em tudo o que faz, na dificílima missão de reverter um pouco desse quadro. Mesmo que ele não consiga, palmas para ele pelo intento. Clap clap clap.

Luiz Afredo Garcia-RozaPor fim, o Espinosa tem algo que todo mundo comenta: a tal da estante sem estante, que consiste em empilhar os livros de uma maneira que pareça uma estante, até o teto. Vou dar meu parecer sobre isso: Garcia-Roza, meu velho, isso até seria possível se o protagonista fosse frequentador de livrarias. Mas não, Espinosa alimenta a estante com esculhambados exemplares de sebo. Gente, quem conhece sabe que livro de sebo mal para em pé, o que dirá sustentar colunas e mais colunas de livros. Então, pensem nisso.

Essa coleção policial da Companhia das Letras é bem legal, mas o papel offset denuncia que o gênero é fast-paste mesmo. Nada contra, quem é que não gosta de um policial de vez em quando? Quem é que não curte ver um filme bobo, ou pior, assistir um seriado, quem é que não curte comer um Mc Donald’s, ou pior, uma coxinha de buteco, quem é que não curte… enfim, deu pra entender. Acho legal isso da lateral das páginas ser pintada, cada uma de uma cor diferente, mas não curto muito livros estreitos. E por último, gosto bastante dessas fotos da capa, mas reconheço que é um gosto duvidoso. A propósito, pela primeira vez, o livro retratado ali em cima não é a mesma edição que eu tenho. Isso porque ficou difícil achar uma foto da versão original.

Comentário final: 210 páginas offset. Ah…

25 Respostas para “Luiz Alfredo Garcia-Roza – Vento Sudoeste

  1. Olááá Yuri! Tenho acompanhado sempre seu blog, mas nem sempre comento. Entonces, li o Silêncio da Chuva em um acampamento de ano novo em duas ‘sentadas’ como dizem. Um livro ótimo que te prende da primeira a ultima linha. Já fiquei em dúvida em ler o Vento Sudoeste, pq essa coleção da Companhia das Letras me dava preguiça.
    Vou deixar a preguiça de lado e ler, com certeza!
    Beeeeijo!
    =D

    • Oi Lálika! Obrigado por acompanhar o blog, esses dias li um post engraçadíssimo no seu também sobre uma festa sertaneja com ex-presidiários hahahaha. Adoro o Silêncio da Chuva também, foi o primeiro dele que eu li. Tomara que você goste desse, não deixe de passar aqui para dar o seu parecer.
      Beijo!

  2. Oi, querido!
    Também li o Silêncio da chuva, que não tem silêncio nem chuva… E, como te disse na época, matei o livro na metade (mas isso é porque tenho alma de detetive).
    Eu gosto de livros policiais. E deveria ler mais Garcia-Roza.

    Beijos, bom domingo 😀

    • Oi querida, realmente, o título desse livro é um mistério enorme pra mim também. Eu já desconfiava do final, mas não tenho alma de detetive e me preocupo mais em me deixar levar pela história do que tentar decifrá-la. Acho que isso é uma das coisas legais do policial: há várias maneiras de encarar a história, depende do leitor. 🙂
      Beijo!

  3. Esse eu li, por indicação sua! Gostei muito, semana passada quase comprei o Silêncio da Chuva, mas acabei comprando um outro, estou meio arrependida agora.

    Eu sou uma das pessoas que sempre lê, mas nem sempre comenta, haha! Mas também, justamente o livro da promoção eu já tenho! Não dou sorte mesmo 😦

    Beijo e parabéns por mais um mês de blog!

    • Oi Cami, você pegou esse livro emprestado de mim? Não lembro de emprestar-to (porra de ênclise escrota, eu sei). Qual foi o outro que você comprou, que causou esse arrependimento hahaha, você e esse seu gosto… 😛
      Ah, pelo menos você leu o Plataforma, né? Se você ganhar a promoção, pode presentear alguém, ok?
      Beijo e obrigado!

      • Não, eu consegui pegar na biblioteca 🙂
        quase comprei o silêncio da chuva, em versão pocket, mas tava em dúvida se eu tinha lido o silêncio da chuva ou o vento sudoeste, por isso não comprei. Mas agora, lendo sua resenha, eu tive certeza de que não tinha lido mesmo. Bom, fica na lista de próximos livros a serem comprados 🙂

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  5. Não li. Confesso que dos brasileiros, nesse sentido, parei no Rubem Fonseca. Talvez esse autor tenha algo de interessante. Afinal de contas, usar um nomezinho tão conhecido é perigoso, ou faz algo legal, ou não. Mas vem cá, já que não li. Explica o nome Espinosa, que você mencionou a semelhança com o holandês e não concluiu nada. Como também, e não estou defendendo ninguém, não acho que devemos confundir judiciário com polícia. O seu comentário sobre a mudança de jurisdição, isso é judiciário. Os coitadinhos e delicados policiais não tem prego nessa cruz. Enfim, policial legal é um sonho, talvez a literatura forneça isso volta e meia.
    Abraço.

    • Oi Lucas,
      Explico o nome do rapaz ali embaixo com citação para encerrar o assunto. A minha piadinha com as jurisdições não tinha a intenção de culpar os policiais por isso também, mas os poderes, todos os três, aqui no Brasil, são essa capenguice, né? E, mesmo o judiciário tem divisões entre o executivo. Claro, senão não seria tão divertido.
      Dentro dos livros policiais, esse é um dos melhores que eu li. Por isso, recomendo vivamenchy. 🙂
      Abraço!

  6. Livro mole mole, nem vermelho deixa. Como policial nacional conta aqueles que a gente lia no colégio, como os dos Karas?

    E era o autor do 25o comentário né? Conta respostas a comentários? Por que assim podemos encadear uma conversa de comentários aqui =D

    • Ahahaha não lembro desse livro dos Karas, Bruno, ainda bem, eu acho. E não, não é o autor do 25º comentário, é o autor do 500º comentário. Por isso, nada de conversa! Abraço!

  7. Já li Espinosa. E a grafia é idêntica à usada nas traduções. Quem sabe a coincidência venha do fato que Espinosa (o filósofo panteísta perseguido) escreveu um grande livro sobre ética e o policial siga, segundo o Yuri, preceitos éticos. Mas isso o wikipédia não responde, né?

    • Pior que o Wikipedia responde isso, no Spinoza’s Ethics: http://en.wikipedia.org/wiki/Spinoza#Spinoza.27s_Ethics
      Sobre o porquê do nome Espinosa, tem aqui um trecho de uma entrevista com o autor, publicado no portal “Com Ciência” (trocadalho do carilho, hein?)
      Diz lá:

      “Com Ciência – O nome do personagem principal dos seus romances, inspetor Espinosa, tem alguma motivação em relação ao filósofo de mesmo nome, ou é mera casualidade?
      Garcia-Roza – Tem uma homenagem ao Espinoza. Eu acho o Espinoza um pensador extraordinariamente íntegro. Então, o inspetor Espinosa vai como uma homenagem, mas pára por aí. Porque o inspetor Espinosa é um sujeito íntegro, é uma pessoa normal como qualquer outra. Apesar de ser um burocrata, um policial pertencente ao aparato de Estado, um homem de gabinete. Um homem normal, um funcionário público. Mas ele é íntegro. Ele, de alguma maneira, diz que é possível ser íntegro. Até na polícia. O policial não tem que ser corrupto, assim como ninguém tem que ser corrupto. Se há uma exigência fundamental ao ser humano, é que ele seja íntegro, que seja ético.”
      Abraço!

  8. li seu texto lá. é. lá vc está de terno e gravata, aqui de chinelo e bermuda. aqui é muito melhor. então quando ler lá comento aqui. para não dar ibope ao engravatado. rsrsrsrsrsr. ao contrário de vc não tenho boa memória. parece que li algo do dele ( Coetzee ) e abandonei logo no começo. devo tentar ler este DESONRA? vc Agarante?? aproveito para pedir: pode me dizer como se diz Coetzee? tenho vergonha de falar errado na loja. KAKAKAKAKAK. abraço a todos. me sigam no twitter. @vinicius_mq.
    curtiu a pontuação?.

    • Ahahaah pode dar ibope pro engravatado també, Vinicius, ele é gente boa e não machuca ninguém. Como eu disse lá no artigo, Desonra é o mais importante, mas ainda acho que o melhor pra começar seria o Homem Lento.
      Quanto à pronúncia, vamos ver se eu consigo: o nome dele se diz “Côutsia”. Ajudei? Mas nem precisa ter vergonha, dependendo da livraria que você frequenta os vendedores não sabem nem falar “Philip Roth”, acham que a pronúncia é igual ao do Celso Roth (Rôti), técnico (ex) do Vasco.
      A pontuação está uma maravilha! Mas e o texto daqui? não vai comentar?
      Abraço!

  9. vida longa ao Livrada!
    li Garcia-Roza por indicação sua, e alguns dos livros dele foi vc que me emprestou.
    o sujeito escreve bem, tem a manha de prender a atenção do leitor, e isso não é pra qualquer um.
    abraço

    • Oi Cássio! Valeu por passar aqui!
      Realmente ele escreve bem, mas os cientistas ainda estão tentando descobrir qual é o segredo dessa literatura policial. Parece um mistério pra mim, bem maior que descobrir quem é o assassino. enquanto isso, divertimo-nos com esses livros do Garcia-Roza.
      Abraço!

  10. Olá Yuri. Legal sua resenha… esse foi o 2º livro dele que eu li (o 1º foi O Silêncio da Chuva). Eu gostyo bastante dos livros do Garcia-Roza, apesar de, nem sempre, os finais satisfazerem o leitor ávido por um fim…. digamos… ‘nos padrões do Romance Policial’.
    Mesmo assim, se olhar para os livros dele com outros olhos, e ver a construção dos personagens, suas narrativas chamativas e outras coisinhas mais, acabamos por simpatizar com ele =]
    Um livro dele que recomendo (inclusive fiz até resenha numa comunidade do orkut) foi Perseguido. Pra mim, ele se superou nesse…

    Abraços!

    • Oi Amadeu, obrigado pela visita. Também li o Silêncio da Chuva em primeiro, mas li o Perseguido em seguida, o livro que você citou. Ele, junto com Vento Sudoeste são os dois melhores para mim. O Vento Sudoeste tem um mote mais original, ao passo que o Perseguido é excelente em criar uma aura toda especial de sentimento de perseguição, não acha?
      No mais, concordo com tudo o que você disse a respeito de nossa impressão com os livros dele!
      Abraço!

      • Ah sim, Perseguido nos deixa uma sensação de suspense, como se alguma coisa sempre estivesse para acontecer… é legal isso.

        Há uma semana eu terminei de ler todos os 9 livros do Garcia-Roza com o Delegado Espinosa… já to sentindo falta de um novo exemplar, com uma nova aventura do delegado… =D

        Parabéns pela sua resenha… perfeita!

      • Oi Amadeu, obrigado pelo comentário. Apareça sempre que quiser!
        Vou fazer uma resenha do Perseguido algum dia desses, gosto muito desse livro também. E pô, se você tá há uma semana sentindo falta de um novo romance, eu tô esperando desde que saiu o Céu de Origamis… Antes ele lançava um todo fim de ano, agora tá começando a rarear. Vejamos se rola mais, né?
        Abraço!

    • Oi Leando, obrigado por passar aqui e comentar. Espero que goste dos outros textos também.
      Gosto muito do Garcia-Roza também, e li todos os livros policiais dele. O Céu de Origamis é muito bom também, melhor que Na Multidão e que Berenice sem Saída, para citar os mais recentes.
      Abraço!

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