Vídeo: Os Abraços Perdidos, de João Chiodini

Vocês já ouviram falar de João Chiodini? Caso a resposta seja não, cá estou eu fazendo a minha parte. Mas ele também fez a dele. Em dois passos simples: primeiro, escreveu um livro interessante. Depois, mandou ele pra minha caixa postal. Demorei pra ler, mas li. Está aqui algumas palavras sobre este romance catarinense, um drama familiar forte.

Os Abraços Perdidos

Vídeo: Entrevista com Paulo Venturelli

Voltamos à nossa programação normal no Livrada!, senhoras e senhores. Particularmente, até eu já estava meio querendo que acabasse logo a leitura coletiva para ter outros tipos de vídeo por aqui, mas o Bom Soldado Svejk me consumiu o mês e tomou bastante tempo.

Para o retorno, pensei em algo que fosse muito legal e que já estava aqui prontinho. E é claro que o mais legal é essa entrevista com o Paulo Venturelli sobre seu novo romance, Madrugada de Farpas. Não quis esperar nem um dia a mais. Vai hoje mesmo, espero que gostem e que fiquem conosco 🙂

Clica na imagem.

Paulo Venturelli

Pedro Bandeira – A Droga da Obediência (e um pouco sobre A Droga da Amizade)

Antes de começar, só uma informação inútil que sei que não faz a menor diferença para vocês, caros leitores, mas não deixa de ser um marco: cheguei, no documento de word em que escrevo esses textos mal bolados, à página de número 300. Isso teria acontecido muito antes se eu não tivesse escrito em viagem ou se começasse uma resenha nova a partir de uma página nova, mas como é tudo colado um no outro e só escrevo nesse arquivo quando estou em casa, fica por isso mesmo e celebramos agora a efeméride efêmera de 300 páginas de literary bullshit yeah!

Pedro Bandeira foi o meu escolhido para o Desafio Livrada! 2015 na categoria de livro Infanto-Juvenil (e como vão vossos desafios, falando nisso?). Já havia lido ele anos atrás, e o reli meses atrás, mas só agora estou escrevendo sobre ele, para comentar um pouco sobre um tempo de literatura infanto-juvenil que não volta mais (e não sem razão). E atenção: tem spoiler. Mas se você se ofende com spoiler de livro infanto-juvenil, talvez não esteja tão preparado para discutir literatura aqui com a gente, os caras legais.

Para quem não conhece a história, o livro é a primeira aventura da turma autointitulada Os Karas, “o avesso dos coroas, e o contrário dos caretas”, como segue o bordão (voltaremos a ele mais tarde, guarde essa informação). Os Karas são uma turma de estudantes de um colégio de classe alta chamado não por acaso de Elite. Miguel, Cadu, Crânio e Magrí, posteriormente anexando o menorzinho apelidado de Chumbinho se envolvem em uma conspiração para dominar o mundo quando descobrem que crianças de colégios chiques estão sendo raptadas, e para fins maléficos: testes com uma tal Droga da Obediência, um remédio capaz de eliminar o livre arbítrio da mente humana e transformar qualquer pessoa em um robô de carne e osso, sempre pronto para atender ordens e nunca capaz de discutir qualquer atitude. Dominação mundial, o pinky e o cérebro o cérebro e o pinky, vocês já conhecem as premissas para esse tipo de coisa. Por meio de deduções lógicas, códigos secretos e disfarces, e um pouco de ajuda da polícia, os amigos eventualmente conseguem desmantelar um esquema sinistro desses. Louco, né?

Pois bem, um pouco sobre o background da Droga da Obediência: o autor conta em diversos debates e entrevistas que teve a ideia para o livro a partir de uma enxaqueca infernal que não o deixava a menos que um remédio específico fosse tomado. Quando o laboratório fabricante anunciou a retirada do produto do mercado, Bandeira se revoltou e se viu, pela primeira vez, à mercê de farmacêuticos, de quem seu bem estar físico dependia bem mais do que gostaria. A partir disso, criou algo que remotamente dialoga com a questão da censura e do medo disfarçado de paz durante o período da ditadura militar ( o livro foi lançado em seus últimos anos). A partir daí, A Droga da Obediência vem alimentando um circulo vicioso de adoção escolar. A coisa funciona assim: as crianças que leram a Droga da Obediência na época em que foi lançado se tornaram professores de ensino infantil e, quando chega a hora de indicar algum livro infanto-juvenil pra molecada começar a gostar de ler, bate a nostalgia e esse livro aparece. Algumas crianças dessa segunda geração crescem para também se tornarem professores do ensino fundamental, e o ciclo se repete. De maneira que Pedro Bandeira hoje é um best-seller de adoção escolar e praticamente um anônimo nas livrarias, e resiste aos anos alheio ao boom de literatura infanto-juvenil fantasiosa, jovem-adulta ou o que quer que você queira chamar essas porcarias com capas super produzidas que abarrotam os expositores das megastores Brasil afora. De maneira que pode-se dizer sem muito medo de errar que o sucesso de A Droga da Obediência tem méritos muito mais sentimentais do que literários.

650x375_pedro-bandeira-escritor_1442936Convenhamos que, ao mesmo tempo que existe um processo de infantilização geral da juventude em andamento, a inocência é muito pouca, e uma história de aventuras desse tipo, tão simples e tão linear, pode ser muito pouco atrativo para um adolescente hoje que lê três ou quatro livros de 300 páginas (de pura bosta, mas vá lá) por semana. Temos aqui falas heroicas, recursos narrativos manjadíssimos de Cliff hanger e coisas do tipo, e, ulteriormente, uma inocência comovente, reforçada particularmente no último livro da série d’Os Karas, a Droga da Amizade. Escrito 14 anos depois da última história da série, Bandeira mostra Os Karas já adultos e fazendo coisas absurdamente irreais, como ganhando prêmios Nobel, curando epidemias e a fome na África, ganhando Oscars e, revelação máxima do final do livro, descobrimos que Miguel se tornou presidente do Brasil, o que é uma coisa que faz completo sentido para leitores norte-americanos, mas não conheço nenhuma crianças que aspire o cargo executivo hoje em dia, muito menos atribuindo significado tão grandioso para a faixa presidencial em um sistema de coalizão que já deixa claro quem é que manda nessa bagaça e qualquer criança que consegue ler um romance pode muito bem saber disso. Presidente do Brasil, ora essa…

Não é de estranhar que o slogan d’Os Karas tenha um significado arcaico impossível de ser resgatado hoje com os mesmos valores. Primeiro porque ser “o cara” já não é muito mérito em épocas de feminismos e afins, segundo porque ser o avesso dos coroas e o contrário dos caretas pode sugerir a imagem de uma praia com a natureza fornecendo subsídios para a construção de arte natural a ser comercializada entre um baseado e outro. A frase pode ser tão pervertida pelo sentido que as palavras têm hoje em dia que não há como não questionar a inocência nos livros do Pedro Bandeira. Aí alguma professorinha nostálgica de sua época de jovem leitora vai dizer que é justamente a inocência de nossas criancinhas que precisa ser resgatada no Brasil. Não, dona, a senhora está errada e se alguém começar um movimento de resgatar a inocência pode ficar com o pé atrás que existe um significado oculto de retrocesso nesse resgate de inocência a qualquer custo. O mais irônico é que a mensagem que a Droga da Obediência passa é que inocência e obediência não são valores a serem preservados, pelo contrário: “só a desobediência é capaz de transformar o mundo. A obediência só perpetua os mesmos erros de sempre”, diz em certa altura o protagonista do livro, mas estou parafraseando.

O que ficou para mim de lição da releitura dos livros do Pedro Bandeira é essa ideia de que clássicos são clássicos porque nunca terminaram de dizer algo sobre um assunto, e esse não é o caso aqui. A Droga da Obediência é um clássico porque o sistema atual de ensino assim o quer, da mesma maneira como obras literárias clássicas de valores altamente discutíveis (mas não entremos nesse mérito por agora) perpetuam leituras chatérrimas e fazem um desserviço à leitura em geral. Minha mãe, que é professora, deu de presente um A Droga da Obediência para um priminho meu, pra ver se ele começava a gostar de ler. Ele nem se ligou. Mas por outro lado, demos um Lemony Snicket e ele tampouco se importou, então não esperem conclusões de nada disso. O que queria dizer é que existem coisas que fazem sentido durante um certo período de tempo e que são alçadas a condição de clássico por fatores outros que não o mérito literário da coisa. Por outro lado, o que as professorinhas fazem com Pedro Bandeira, muitos críticos afetuosos fazem com outras obras sem quem conteste, mas alguns são mais referendados do que outros e a coisa fica por isso mesmo. Mais uma vez, deixo a questão no ar.download

A Droga da Obediência já foi publicada em trocentas edições, mas a edição que eu tenho é da editora Moderna, que fez uma capa que, me disseram, já foi chupada de Marvel Comics – a História Secreta, publicada pela Leya, e vou até deixar a foto aqui pra vocês tirarem suas próprias conclusões. Nada de muito notável para adicionar sobre o projeto gráfico, exceto que ele mantém ilustrações muito antigas feitas a lápis que até servem para ilustrar eventos dos capítulos sem, contudo, revelar os rostos dos personagens. Acho que isso tem a ver com o fato de que Pedro Bandeira jamais determinou a idade dos Karas, tentando deixar a obra a mais aberta possível para a identificação com o leitor. Acho que é isso, já falei demais, falem vocês aí.

Comentário final: 150 páginas de inocência perdida. Yeah!

Milton Hatoum – Dois Irmãos (e entrevista com Gabriel Bá e Fábio Moon)

Dois irmãosVamos juntar os dois lados do livrada. Literatura e quadrinhos, texto e vídeo, tiozões e novinhos, carne e unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja, dois amantes, DOIS IRMÃOS! A obra mais bombada de Milton Hatoum (depois, talvez, de Cinzas do Norte) foi adaptada para a nona arte por dois dos melhores artistas do ramo que temos hoje no Brasil, então vamos falar um pouco do romance, e ao final, deixo aqui o vídeo com a entrevista que fiz com os quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon.

Dois Irmãos, vamos lá, sem enrolação. O romance é uma dessas sagas familiares que perpassam décadas, uma coisa que com certeza a nossa literatura nacional faz muito bem, e os exemplos afloram e estão aí pra quem quiser ver, não vou ficar citando, só vou dar uma dica. Pois bem, só que essa história fala de imigrantes libaneses em Manaus. Hatoum é descendente de libanês e manauara, então dá pra ver uma coisa: não é vencedor do prêmio Top-of-Mind, mas libanês em Manaus também é Brasil. Parece que tem uma colonização forte por lá. A história gira em torno de dois irmãos gêmeos: Omar e Yaqub, eles são filhos de Zana e de Halim, um comerciante taradão que quer menos bater ponto do que bater no pandeirão da patroa, como qualquer brasileiro sensato. Essa personalidade ambígua de Halim se desdobra em um maniqueísmo claro como Michael Jackson em fim de carreira: Yaqub é só ambição e seriedade, ao passo que Omar é só desejo e prazer. Moleza, né?

DoisIrmaosSó que a coisa não é tão simples assim: embora com personalidades marcantes e relativamente rasas em comparação ao pai, os irmãos transitam na área cinzenta entre o bem e o mal (que existem e você pode escolher). Os dois tretam desde criança e é claro que tudo começa com mulher. Lívia, a vizinha gatinha deles, é aqui meramente objeto de disputa, e não desempenha papel maior do que esse, mas dá o estopim para uma colisão eterna e constante dos gênios dos gêmeos (aliteração é um troço tão feio, mas não digam isso pro Humberto Gessinger). A partir dessa richa, quando Yaqub tasca um beijo no escurinho do cinema caseiro em Lívia e Omar faz um retalho na cara do irmão com um pedaço de garrafa, o destino dos dois se separa violentamente. Isso começa lá antes da Segunda Guerra Mundial e segue até mais ou menos o começo da década de 90. Esse é todo o escopo temporal do romance.

Falemos de alguns aspectos desse livro. O primeiro: a cidade. A Manaus descrita por Milton Hatoum é fantástica. Parece ser uma cidade viva, pulsante, cosmopolita e cheia das possibilidades que, ao longo da história vai se deteriorando na mesma medida em que a família de Halim. A decadência da cidade e a decadência familiar andam juntas de maneira muito sutil, mas deixa claro o elo entre falibilidade pessoal e coletiva. Manaus hoje é um lugar sujo, acabado, negligenciado pelo resto do Brasil como sempre foi e entregue ao Deus-dará, por razões egoístas que se deram conjuntamente com a degradação familiar presenciada nesse livro, mas também por tantas outras famílias reais. Mas por hora, é uma puta cidade que vale a pena ser vivida, e que de fato é vivida por Omar, que fica lá se engraçando com as moças, gastando todo o dinheiro do pai em brega e forró, enquanto Yaqub, depois de um exílio forçado no Líbano por conta da agressão do irmão, volta para se dedicar a ser arquiteto (olha só, como o próprio Milton Hatoum!) e ir morar em São Paulo (olha só de novo!) e etc outros spoilers que não valem a pena aqui ficar citando. Dois Irmãos também é a história de Duas Cidades: a cidade rica e próspera, representada pela escolha de padres salesianos em que os irmãos estudam, e o pardieiro chamado de Galinheiro dos Vândalos, um liceu porcaria onde se formam as más influências que mais tarde contribuiriam para a degradação urbana. De modo que Manaus, assim como Halim, representam os dois lados dos dois irmãos. A seriedade, a oportunidade e a ambição, e também a preguiça, a violência e a devassidão. Bom, bom.

M-HatoumOutro aspecto: a narrativa. O livro é narrado em primeira pessoa por Nael, um menino índio com mais ou menos a idade do autor e que mora na casa e é filho de Domingas, a cunhatã que o casal adota em troca de trabalho. Escravidão acabou no Brasil, gente, mas mais ou menos, viu? A gente só demora para sacar quem ele é e qual é o nome dele, mas no geral ele é uma presença constante no romance, e muito do que acontece não é necessariamente presenciado por ele, mas relatado a ele por Halim no fim de sua vida. De modo que é uma narrativa pessoal-impessoal cheia de charme por dizer só o necessário e não muito além disso. Ah, e o narrador é filho de um dos gêmeos, mas não deixa claro qual, e a relação dos irmãos com Domingas é dúbia o bastante para deixar isso no ar, mas fico com a opinião de que ele é filho de Omar porque só isso pra ele e a mãe aguentarem a presença dele por tanto tempo. Ainda assim, as passagens mais emocionalmente marcantes são quase todas relatadas por Halim do que por Nael, à exceção de uma ou outra, o que mostra uma quase imparcialidade do narrador no peso da narrativa no que diz respeito ao seu testemunho. Rebolation é bom, bom, bom.

Por fim, os personagens. Sempre que irmãos gêmeos aparecem na literatura ou no cinema, segue-se, uma regra. Se são coadjuvantes, são idênticos em tudo. Se são protagonistas, são opostos completos. Nenhuma grande criatividade aí, mas o autor conseguiu conferir com muito pouco traços de uma humanidade rara na literatura brasileira contemporânea, marcada notadamente por autômatos da narrativa. Algumas reações dos dois são imprevisíveis, e não há como não se decepcionar com ambos em vários momentos da narrativa. Um trabalho de profundidade que Erico Verissimo conseguiu muito bem em dois volumes de O Retrato, por exemplo, Milton Hatoum conseguiu com pouco menos de 300 páginas, e com duas pessoas. Não tão a fundo assim, mas vá lá, bom pra caramba.

E enfim, o livro é um best-seller até hoje, diz que vai virar mini-série, diz que vai virar filme, mas a verdade concreta é que virou uma HQ nas mãos dos quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon, os mesmos responsáveis por Daytripper, já resenhado aqui. Segue abaixo a entrevista com os dois, um pouco antes da mediação na Itiban Comic Shop. Não ficou como eu gostaria que ficasse, mas foi falha minha mesmo e o lance é tentar melhorar sempre. CLICA NA IMAGEM!

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Bernardo Kucinski – K. – Relato de uma busca

Bernardo KucinskiNão sei quanto tempo faz que a gente não comenta um romance nacional aqui, e isso tem mais a ver com a minha pré-disposição para ler brasileiros contemporâneos do que propriamente com a qualidade da produção atual, embora saibamos desde já que nem um nem outro andam despontando exatamente pela excelência. Aí que uma leitora comentou aqui ainda ontem que tava sentindo falta desse tipo de livro por aqui e pensei, ora, por que não? Vamos ao que interessa, mas aviso desde já que tenho opiniões muito parciais sobre esse livro, e explico o porquê.

K. – Relato de uma Busca, o romance de estreia do jornalista Bernardo Kucinski, junta duas temáticas que eu, particularmente, odeio: história da ditadura militar e história de judeu. E odeio ambas não por uma falta de empatia com os protagonistas, pelo contrário, gosto deles, mas por uma overdose do gênero, já que são dois casos em que os sobreviventes são, hoje, o poder estabelecido no mundo. De qualquer forma, é meio complicado pra mim falar disso porque preciso ser sensível ao fato de que o romance de Kucisnki é, em grande parte, real, já que sua irmã desapareceu durante o período do regime burocrático-autoritário que vigorou neste país durante duas décadas, de modo que me perdoem desde já por ser insensível e analisar o livro como criação ficcional. Porque é a partir deste caso que o autor cria uma ficção que tem como protagonista seu próprio pai, que sai em busca da filha desaparecida e é enganado até se perder no labirinto engendrado da guerra psicológica militar contra os familiares dos subversivos.

É assim que ele sai e começa a receber pistas falsas de que sua filha está presa e depois não está mais presa, e ninguém nunca ouviu falar dela, e quem se propõe a ajudar na verdade é informante dos militares, e as notícias de que sua filha está na verdade em outro país ou em outra cidade começam a chegar pelo correio e todo mundo que se propõe a ajudar não consegue ou não quer mesmo ajudar e ele fica maluco tipo um personagem do Kafka – acho que é inclusive por isso que o protagonista do romance chama K., como os Kas do Kafka, perdidos em uma engenhoca burocrática kafkiana sem nenhuma esperança de sair dela algum dia. Ao mesmo tempo, lida com os sentimentos de culpa por ser um escritor meia-boca que escreve em íidiche, a decadente língua dos judeus pré-Estado de Israel e que por conta disso se afastou da família e não viu os filhos crescerem direito. O espanto de saber que a filha se envolvera com a luta armada e o desgosto por ser estigmatizado como parente de uma subversiva – até mesmo pelo rabino, que o impede de comprar um túmulo simbólico pra ela, e o pessoal da gráfica que não o deixa imprimir um livrinho em memória a ela.

Crédito: Carolina Ribeiro

Crédito: Carolina Ribeiro

Embora interessante, o livro traz muito pouca coisa nova na literatura da ditadura militar – bom lembrar que esse não é a primeira narrativa que parte do ponto de vista do familiar que busca o parente desaparecido. Além disso, há de se desconsiderar pensamentos extremados do autor, que em dados momentos insinua que a ditadura militar é pior do que o holocausto porque pelo menos os nazistas faziam registro de seus mortos, e dosar boa parte do maniqueísmo dos personagens, que são ou pobres vítimas do sistema dos militares ou sádicos que trabalham nessa por pura vocação e vontade imensa de fazer mal aos outros. Cada capítulo apresenta uma parte da engrenagem ou um tipo de personagem, e não posso dizer que a grande maioria deles é natural é bem construída.

Ainda assim, o livro se salva pela vida interna do protagonista e pela naturalidade com que expressa a angústia do pai que não sabe onde a filha está, e como a coisa é muito mais complicada do que parece. E pela coragem do autor em transformar um caso real e sofrido de sua história familiar em uma ficção.

A edição desse livro é uma beleza que só. Tem capa gráfica em papel cartão, umas fontes chamas Leitura e Tungsten, que não até que são boas à exceção dos itálicos, que deixam tudo muito ruim de ler, e um papel pólen soft de baixa gramatura pro miolo não ficar mais duro que a capa. O romance é cheio de notas de rodapé que explicam bastante o que não está ao alcance do leitor leigo, ou do leitor não-judeu, e de maneira geral, o texto é bem preparado. Ê!

Comentário final: 185 páginas em papel pólen soft. Ks do mundo, uni-vos!

Manoel Carlos Karam – Pescoço Ladeado Por Parafusos

Manoel Carlos KaramAno novo, blog velho. Sejam bem-vindos ao Livrada – Ano V! Tecnicamente ainda não é o aniversário do seu querido blog de comentários literários, mas é quase. Vejam só, cinco anos falando se um livro é bom ou é ruim por meio de critérios altamente discutíveis, e ainda assim arrematando multidões. O segredo para o sucesso? Persistência diante das adversidades, seriedade diante dos haters, muito alface e muita água mineral. De mais, olho de lince e olho no lance, como diz um amigo meu.

O livro de hoje contempla a grande e desconhecida produção literária da cidade onde eu moro. Muito embora tenhamos o recente case de sucesso do livro de poesias do Paulo Leminski, que vendeu justamente por ser uma poesia baseada na estética da sacadinha, algo ao alcance de todos, e tenhamos alguns outros escritores premiados e reconhecidos internacionalmente, a literatura curitibana – fazendo aqui o recorte geográfico que todo mundo da cidade, e por que não dizer do estado, adora fazer – possui espécimes literárias para todos os gostos e cabeças. Mas o que talvez pouca gente saiba é que a inventividade e a literatura fantástica, subgêneros pouco representados no Brasil, tem um de seus maiores representantes nessa cidade. O escritor Manoel Carlos Karam (1947-2007).

Karam tem uma escrita dispersa, fragmentada. De certa maneira, todos os seus livros são coletâneas, já que as pastinhas em que guardava seus originais tinham planos para mil combinações de textos em livros diferentes. Pescoço Ladeado Por Parafusos, reeditado pela belíssima editora Arte e Letra, não foge à regra. O livro contempla trechos distintos de livros distintos. Alguns muito bons e outros, que não dá pra entender patavinas.

Entre os bons, cito aqui o “Jornal da Guerra Contra os Taedos”, uma verdadeira ode à literatura de humor e à inventividade narrativa. São comentários breves sobre uma guerra travada contra um povo imaginário que é inacreditavelmente idêntico ao povo que o combate. A guerra contra os taedos é cheia de absurdos humanísticos, de tréguas e de estratégias burras que de alguma forma fazem sentido no contexto do livro. A coisa é tão engraçada e absurda que Borges não teria escrito melhor, caso ele tivesse um senso de humor menos esquisito.

Também tem o “Divagações sobre números”, que é uma porrada de sacadinhas (uma constante entre a geração dele, ao que parece) sobre números. Coisas que caberiam num tuíte, e que não deixam de ter um fundo obsessivo pela coisa.

Manoel Carlos KaramMas aí tem o “Projeto de Bestiário”, que, ao que tudo indica, é um contraponto do Jornal da Guerra Contra os Taedos, mas é um texto tão solto e tão desconexo que demora até que alguma conclusão desse tipo possa ser tomada. Começa com alguém tentando bolar um nome e associando características a cada nome. Um troço meio despropositado, mas divertido durante os cinco primeiros minutos.

No fim, Pescoço Ladeado Por Parafusos é uma confusão que só, e é um desses livros que você lê para se perder em meio a tanta maluquice, como é com os livros do Valêncio Xavier e do manuscrito Voynich. Não dá pra dizer que eu apreciei cada página da leitura, mas também não dá pra dizer que poderia ter passado minha vida de leitor sem essa. Porque se ler é imaginar, então ler Karam é extrapolar os domínios da mente. Caraca, que frase bonita, espero que me citem em alguma orelha de livro com essa.

O projeto gráfico da Arte & Letra é demais. Sou um pouco suspeito pra falar, não só pela minha proximidade com a editora e livraria, mas também porque a capa é do ilustrador André Ducci, o melhor de Curitiba e, quiçá, um dos melhores do Brasil. A mesma editora publicou outro livro dele, Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca, num esforço louvável para resgatar a literatura desse cara das profundezas dos catálogos de editoras miudinhas – algumas já extintas – que ainda ganham dinheiro com copyright sem fazer nada pelo acervo. A diagramação do livro é boa, o papel é pólen de gramatura grande e o formato do livro é pequeno, quase quadrado. Enfim, um bom produto.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Tente imaginar isso!

Paulo Scott – Habitante Irreal

paulo scottTinha algumas metas de leitura esse ano, que até estipulei para mim mesmo no Desafio Livrada 2013 (como estão vocês com os seus?), mas se dissesse que consegui cumprir algum deles, estaria mentindo. O que não quer dizer que não tenha conquistado outros objetivos com os livros que me passaram pelas mãos ao longo do ano (e devo dizer que este ano foram poucos, em comparação com anos anteriores. Vida que freia, sabe como é, todo mundo precisa parar e respirar mais). Conheci mais dos russos, descobri autores novos muito bons e, mais do que isso, realmente me empenhei em encontrar autores brasileiros contemporâneos que valem a pena ler (e valer a pena ler já é demais pra grande maioria da produção atual). Paulo Scott, com esse Habitante Irreal, foi uma descoberta surpreendente. Jamais imaginaria tanta profundidade cultural, temática e literária em um romance escrito em 2011. Recado pros mau-amados da área: tem spoiler.

O romance tem como ponto de partida o final da década de 80 e um protagonista chamado Paulo, portoalegrense descontente com os rumos que o PT tomou depois de conquistar a prefeitura na capital do Rio Grande do Sul e com seu trabalho numa firma de advocacia. Ele resolve pedir a desfiliação do partido, as contas no emprego e fica meio perdido na vida até que encontra uma indiazinha de 14 anos na beira da estrada pedindo carona. Ao dar carona pra ela, ele começa a se envolver com a vida de Maína, que é o nome da indiazinha, numa espécie de compensação político-cultural pela opressão colonial e pelo descaso do seu partido com as minorias marginalizadas. Pelo menos foi isso que eu entendi. Só que, obviamente a parada pega mal, porque se esse negócio de “estupro de vulnerável”, como costumam chamar, já é complicadíssimo, com uma índia dimenor, rapaz, a turma dos direitos humanos cai matando. O sujeito vai pra cadeia depois de uma merda com a polícia e passa um tempo em Londres porque, sei lá, passar a pior em Londres não é coisa só de Orwell. Enquanto isso, no Brasil, Maína, que tinha engravidado do Paulo, dá a luz ao Donato, um rapaz índio que acaba sendo adotado por um casal de assistentes sociais, ou algo assim. E a partir daí, começa uma história sobre passado, cultura, política, erros e acertos cujo teor preciso generalizar para esse blurb sob pena de entregar mais do livro do que já entreguei.

por Renato ParadaO pior de tudo é que está justamente nesse desenrolar a maravilha do texto do Scott, de modo que fica bastante complicado fazer uma resenha adequada desse livro só com essa sinopse geral, mas vou deixar assim mesmo. Se você ainda não teve vontade de ler esse livro pelo que eu falei aqui, leia pelo que eu ainda não falei. O jeito como o autor conduz a obra é de uma maturidade literária jamais vista nessa geração de escritores, e lembra gente do naipe de Don DeLillo e Philip Roth. E a temática – isso de discutir a geração que atualmente está no poder no Brasil, e debater as relações delicadas com nossas raízes – é igualmente sem paralelo na nossa atual literatura. Scott sabe separar bem os estilos, e se resolve ser prosador poético em um capítulo, o faz distintamente da prosa geral do livro, que é densa e sem maiores floreios.

E essa também não é uma história bonita, muito pelo contrário. A literatura dele, comumente suja, chega atropelando em tabus e vira para lados que o leitor não necessariamente quer ler, mas é confrontado com um mundo sujo e amoral à força. E as conexões que o livro sugere são ainda mais assustadoras, mas isso é trabalho para o leitor e não para o comentador do livro.

O projeto gráfico da Alfaguara é demais, e essa capa é meio engraçada e meio assustadora, mas, no geral, não foge muito dos outros livros da editora. À exceção de alguns capítulos, que o autor escreve inteiramente no formato de nota de rodapé, pra dar a entender que a história ali não está sendo narrada, mas meramente comentada e preparada paras as próximas páginas. No mais, é um livro sombrio, delicado e raivoso. Gostei

Comentário Final: 260 páginas de papel pólen. Uma porrada na cabeça do PT.

Fábio Moon e Gabriel Bá – Daytripper

daytripper_capaAcho que a essa altura todos já conhecem a regra de ouro da resenha de quadrinho no Livrada!, certo? Caso alguém tenha chegado agora, a regra tem um nome que parece prêmio de televisão: major achievement in graphic novels only. Tradução: só os quadrinhos mais bolados do pedaço, e quem não acha e quem não gosta não faz nada, fica peixe aí. Obviamente que Daytripper, dos gêmeos Bá e Moon, não é diferente, e gostaria de comentar este livro aqui em um post mais curto. Não porque o livro não valha mais do que cinco parágrafos, mas é que eu estou é com pressa. Perdão por isso. Ah. Pode ter spoiler. Perdão por isso também.

Daytripper conta a história de Brás de Oliveira Domingos, um jornalista que escreve obituários, vive à sombra de seu pai, um escritor badalado, e colhe os frutinhos miúdos e esparsos de um único livro publicado, só pra não dizer que não se enveredou pelos mesmos caminhos do velho. Em sua profissão, ele precisa resumir a existência de pessoas a meros parágrafos enquanto passa por transformações marcantes. Dá pra inferir daí que a grande questão do livro é: o que, exatamente, define a sua existência? Os livros que você publicou, as amizades que fez, as mulheres que comeu, o dia em que você nasceu, ou nenhuma das afirmativas anteriores? É esse tipo de questão existencial que é discutida no livro.

Cada capítulo é um número, que corresponde à idade em que Brás morre. É, a cada capítulo ele morre e a vida dele, cortada naquele ponto, é definida em dois parágrafos de obituário escritos no último quadro. É dessa forma não-linear que os autores procuram explicar esse ponto de vista e também a efemeridade da vida quando alinhada à imprevisibilidade da morte. É, acho que é isso. Tô escrevendo muito bonito hoje.

gabriel-ba-fabio-moonE é claro, os desenhos são de arrepiar. Não é à toa que esses caras já paparam todos os prêmios de quadrinhos possíveis e imagináveis. O tratamento das cores e as splash pages não só enriquecem a experiência de conhecer a história de Daytripper como arrisco dizer: se não fosse um quadrinho, não teria metade do impacto que tem. Se a coisa fosse tratada como literatura strictu sensu provavelmente sairia algo meio piegas, meio auto-ajuda, meio Martha Medeiros. Aqui, a imagem e o texto se ajudam e criam uma experiência singela na medida. Por isso é que é legal.

O livro foi lançado pela editora Vertigo, que é uma editora especializada mais em quadrinhos de fantasia, e tem duas versões: uma de capa dura e uma de capa mole que custa a metade do preço mas detona mais rápido também. Então, não sei, vai da sua vontade de gastar e do seu ímpeto de colecionador. Sei que de qualquer jeito a edição é lindíssima pelo trabalho dos dois. Ah, e tem prefácio desenhado pelo Craig Thompson, que escreveu Retalhos, o que atesta que os sujeitos são referendados por gente referendada, e quer mais o quê?

Comentário final: 256 páginas em papel couché. Quase um obituário da vítima que levar uma livrada desse aqui na cabeça.

Michel Laub – Diário da Queda

Michel LaubQuem lê esse blog há tempos (e creio que esse número vem aumentando constantemente), sabe que eu sou um eterno amargurado com a nossa literatura brasileira contemporânea e saio errantemente procurando algum livro que me faça mudar de ideia ou que me dê a cetelha de esperança de que preciso pra não ir na do sujeito lá que deu entrevista pro Globo falando que o Rubem Fonseca não faria sucesso nos dias de hoje. A sorte é que volta e meia esbarro com um desses exemplares. O Diário da Queda é um deles. De longe o melhor e mais maduro livro do Michel Laub. Vamos a ele que atrás vem gente. (putz, acho que não era assim o ditado, tenho que parar de tomar tanto chá de fita).

Num resumo bem simplista, o livro é narrado em primeira pessoa em pequenos fragmentos (como em O Gato Diz Adeus) por um judeu, neto de um sobrevivente de Auschwitz, que estuda num colégio só pra judeus, onde ele e seus amiguinhos fazem um bullying pesado com o único gói do pedaço. Porém, como esse é um romance de formação, a coisa não pára por aí e vai até a vida adulta do protagonista, que se transforma em um escritor e sai de Porto Alegre para morar em São Paulo. Como o próprio Michel Laub, que, aliás, também é judeu. Para usar aqui uma palavra apropriada, tai um escritor que deve ter sido judiado até não poder mais com perguntas do tipo “Qual o teor autobiográfico de Diário da Queda?” e “Você tem um avô que é sobrevivente de Auschwitz?”, etc, etc. Sinceramnete, se você não tem o que perguntar para um autor que escreve um livro desses, só lamento, porque aqui há muito mais questões propostas do que a eterna ponderação sobre invenção e memória.

O acontecimento principal em O Diário da Queda é quando o menino Bruno (acho que é esse o nome, que preguiça, o livro tá a dois passos de mim, mas levantar a bunda gorda dessa cadeira pra pegar que é bom, nada) (agora levantei e vi que o nome do menino é João), quer dizer, quando o menino João, o gói da parada e eterna bola da vez da judeuzada cruel resolve fazer uma festa de aniversário de 13 anos, o que corresponderia ao Bar-Mitzvah dos colegas. Incorporando alguns elementos da festa judaica (êta, João antropofágico da gota serena!), os meninos fazem aquele lance de jogar o aniversariante pra cima com um pano gigante esticado por todas as mãos possíveis. Só que na última vez que jogam o menino pra cima, deixam ele se esborrachar no chão de propósito, só pra ver qualé. O João fica seriamente ferido e isso coloca a vida do protagonista em uma direção diferente da de seus colegas. Ele muda então de escola junto com o João e vai para uma escola não-judaica, onde agora quem sofre bullying é ele. Bom, essa é a primeira discussão do livro, então: a inconsciência da crueldade coletiva, o empoderamento da maioria e outras coisas tais que os judeus gostam de jogar nas costas da alemãozada. E principalmente a inversão dos papéis, algo que é comumente descartado pela suposta índole cândida dos judeus.

Mas aí também tem a questão do pai dele, que vive à sombra do avô, sobrevivente de Auschwitz e autor de cadernos completamente insípidos sobre a chegada no Brasil. O pai é bitolado na questão judaica e bota a culpa de tudo o que pode acontecer em Auschwitz e no holocausto. O confronto com o pai e suas ideias é também o confronto com seus amigos e o confronto com Auschwitz. Quer dizer, ignorar o holocausto é, para ele, amenizar a pancada sem ter o direito para isso. Como argumentar contra Auschwitz, afinal? Esse é um dos aprendizados do protagonista enquanto descendente de judeus questionador. E ele vai jogando essas e outras ideias, embora não consiga dar conta de metade delas dada a curta extensão do livro e a escassez de ensaio do narrador.

diário da quedaAliás, tai uma coisa legal do Laub, que são essas ideias discutidas não sob a forma de ideias sendo discutidas, mas sob a forma de fluxo de consciência, memória e seletividade narrativa. É só dessa maneira que a gente consegue perceber um padrão hegeliano nas gerações tratadas no romance (o livro é dividido em capítulos como “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai” e “Algumas coisas que sei sobre mim”). Sabe, aquela coisa: tese, antítese e síntese. Um exemplo da relação: O avô nunca escreveu uma palavra sobre Auschwitz, o pai, por outro lado, sobrepesou a coisa e se tornou um obcecado. O filho, então, precisa balancear a vida e sair da sombra e da forma do holocausto para viver seus próprios dramas, filtrar as duas pontas de uma formação literária e concreta sobre o caso e avaliar o que pesa mais na sua vida: o legado do holocausto ou o próprio pai obcecado com o holocausto. Entre outras coisas.

Como vocês podem ver, esse é um livro complexo, maduro e relativamente bem resolvido, dado sua limitação de páginas e a extensa bibliografia, ficcional e não-ficcional, sobre o assunto. Acho que o cara conseguiu o que queria e foi bem sucedido nessa árdua missão do escritor brasileiro de fazer um livro que não seja só mais um livro. E acho que boa parte da minha simpatia foi ganha na linguagem. Sinceramente, ando cansado dessa onda de escritor nacional escrever que nem adolescente em absolutamente todos os livros. Ninguém se trata como adulto, e isso é chatão. O pessoal pode argumentar que geralmente são livros mais voltados para adolescentes, mas eu digo que a psicologia já provou que se você quer ser respeitado pela mocadinha, não fique falando Gugu-dadá pra sempre. E se alguém contra-argumentar dizendo que Gugu-dadá é exatamente isso o que este querido blog balbucia, eu digo que isso só vale para as coisas sérias, não para blogueiros literários absurdamente lindos e maravilhosos como eu.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é um dos mais bonitos que já vi para livros nacionais. Fonte Electra, papel pólen de grande gramatura, e a foto de capa, meio prateada, é uma das melhores que já vi por aqui, na minha opinião.

Comentário final: 151 páginas de papel pólen soft. Ia contar uma piada de judeu aqui, mas são tempos perigosos de dedos apontados para todos os lados, então vou deixar quieto.

Daniel Pellizzari – Digam a Satã que o Recado Foi Entendido

Daniel PellizzariDeixe me começar dizendo que eu nunca havia lido nada do Daniel Pellizzari e que também não acho que esse livro seja parâmetro para julgar a obra dele. Por quê, vocês me perguntariam, se basicamente tudo o que a gente faz aqui é essa crítica metonímica de quem tá com pressa e não vai perder tempo com quem seja minimamente medíocre? Ora, porque Digam a Satã que o Recado Foi Entendido faz parte da coleção Amores Expressos. Aquela em que os escritores vão todos para um canto do mundo passar um mês com a missão de voltar com um romance que fale de amor e que seja ambientado nessa cidade. Deixe-me dizer que não acredito nem um minuto nessa premissa, e não acredito que algo de bom possa sair disso. Afinal, pode a expressão ser encomendada? Pode um sujeito receber uma missão limitadora como essas e voltar com algo genuinamente relevante? Eu duvido muito, até porque já li outros livros dessa coleção e ainda não vi nada que fosse realmente digno de nota. E isso não tem, objetivamente, a ver com a qualidade dos escritores, pelo contrário, gente respeitadíssima deu com os burros n’água nessa aí. A diferença da coleção Amores Expressos para outras coleções que deram certo, como a Plenos Pecados, por exemplo (bom, é bem verdade que só uns quatro livros daqueles prestam, mas são quatro de sete, então a média é boa), é que enquanto ele é geograficamente limitado, é tematicamente genérico. Pensar cada um dos pecados capitais, ou mesmo algo aparentemente mais leviano, sobre os dedos da mão (como na coleção Cinco Dedos de Prosa), é algo infinitamente mais produtivo do que pensar em histórias de amor situadas em diferentes partes do mundo. A boa coisa é que a pancada é amortecida, em boa parte, pelo fato de metade dos escritores incumbidos da missão desrespeitarem essa lei e acabarem trazendo uma história sobre absolutamente qualquer coisa. Senão a coisa ia ser pior ainda, imaginem vocês!

De modo que estamos entendidos que este é um livro conceitualmente único na carreira desse senhor Pelizzari, segundo que o livro encomendado é o livro do escritor profissional, aquele que escreve pra ganhar o cheque, não necessariamente para dar vazão à sua expressão literária (embora isso seja até possível). Mas vamos lá: Digam a Satã que o Recado Foi Entendido se passa em Dublin, capital da Irlanda, e cruza algumas histórias de alguns personagens, todos ou quase todos imigrantes no país de Joyce: a história de um sujeito com o inacreditável nome de Magnus Factor (sério mesmo?), que trabalha numa agência de turismo especializada em roteiros mal assombrados pela cidade, e que se apaixona por uma eslovena vida loka, uma garota de 12 anos que quer fazer uma peregrinação suicida, uma modalidade cada vez mais em voga nos dias atuais, e uma seita que louva deuses celtas para os quais ninguém a não ser a Enya dá a mínima. Isso e outros personagens tão bidimensionais quanto as folhas de papel nos quais estão inseridos. A história do livro é a história do cruzamento desses personagens, não havendo um eixo central da história, nem algo relevante para ser usado como fio condutor. O amor exigido pelas regras da coleção? Meramente protocolar, esqueçam. A Irlanda em si? Talvez, mas essa é uma abordagem muito da superficial para um livro tão curto e tão despretensioso. Os fatos relacionados a Dublin, sua mitologia, sua história e seus elementos são meramente citados com conhecimento enciclopédico. Sério, essa viagem a Dublin poderia muito bem ser substituída pela leitura extensa e excessiva de um almanaque sobre a cidade. Esse conhecimento enciclopédico, irreflexivo e meramente descritivo é a tônica do romance, e é amplamente utilizado pelos personagens, como um polonês, coadjuvante na história, obsessivo por listar epidemias. A coisa em si não serve à história e serve poquíssimo ao personagem – quando muito dá um traço da personalidade dele.

Renato ParadaTalvez o ponto central da história aconteça nas páginas finais. É como aquele caseiro do Iluminado que passa o filme inteiro viajando até o hotel onde um pai de família está despirocando e atrás da família e quando finalmente chega, toma uma machadada nas costas e morre. Tudo converge pro final, mas não necessariamente é o final que você esperaria. E tudo então é muito rápido, abrupto, como se o autor estivesse já meio de saco cheio da história e quisesse colocar o ponto final logo.

Falei até aqui da trama, que tem todos os elementos que você aprende numa oficina literária: múltiplos personagens, coadjuvantes minimamente interessantes, digressões sobre temas populares, conhecimento de almanaque e final convergente. O estilo também segue a fórmula: uso excessivo de oralidade, gírias, neologismos se necessário e uma fórmula bem característica de pequeno ensaio temperado na crônica. A linguagem parece muito a da tradução do Trainspotting, do escocês Irvine Welsh, que foi traduzido justamente pelo autor e pelo Daniel Galera, então, sei lá, deve ter ficado essa influência do que seria uma escrita britânica traduzida na cabeça do Pellizzari, essa que ele ajudou a criar. Quem lê esse blog há muito tempo sabe que eu não sou muito de ficar pinçando trechos pra provar meus pontos de vista, porque trechos servem justamente pra isso: provar pontos específicos, e isso é extremamente tendencioso. Essa opinião é a ideia geral do romance, que o permeia do começo ao fim. Particularmente, não é dos meus estilos literários favoritos, mas parece que a garotada gosta muito hoje em dia. Aliás, suspeito que essa coleção Amores Expressos tenha definido um público que fica entre os 17 e os, sei lá, 22, 23 anos. Pra essa galera os romances têm um apelo de descoberta de mundo e de frescor literário, então sempre é uma coisa boa.

Aliás, deixe-me dizer aqui uma coisa que parece que vai contrariar tudo o que eu já disse: ler esse livro não é uma experiência ruim. É uma leitura rápida e não é irritante, de maneira que se torna uma boa opção de fast-pace, pra ler no aeroporto, no hospital enquanto um parente querido é operado, pra quem visita o Detran regularmente, ou simplesmente pra quem tem com livro aquela atitude de frequentador das extintas locadoras de filmes, que pedem “um filme pra não pensar muito”. É um livro que discute alguma coisa? Não. É um livro que vai mudar a sua vida? Provavelmente não. Mas como a produção atual anda nivelando por baixo, esse Digam a Satã que o Recado Foi Entendido pode servir como o gengibre em conserva, o gari da comida japonesa: tira o gosto da boca entre uma comida e outra.

O projeto gráfico da Companhia das Letras, como sempre, é bem impressionante, e o estilo pop e chapado da capa passa bem essa ideia de uma leitura rápida e para jovens. Por dentro, papel pólen, fonte Electra e uma gramatura boa pra fazer o livro parar de pé. Para se ler em um ou dois dias.

Comentário Final: 184 páginas de papel pólen e gramatura alta. Tá ficando cada vez mais difícil fazer um comentário final. Acho que vou parar com essa ideia.