William Kennedy – Ironweed


Hoje eu to sem saco pra enrolar vocês por três parágrafos. A verdade é que toda vez que eu vou falar desse livro meu senso de humor se escoa pelo ralo como resto de miojo que fica na panela. Vamos direto ao ponto, então.

Ironweed é um livro que compõe o tal “Ciclo de Albany”, do escritor estadunidense William Kennedy. O “Ciclo” é uma série de sete livros até o momento (atualmente o escritor está finalizando o oitavo) sobre a cidade de Albany (e você achando que fosse sobre aquele sabonete com cheiro esquisito), capital do estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Já viu estado em que a capital é menor do que outra cidade de seu interior? Pois é, só Santa Catarina e Nova Iorque mesmo. As histórias dos livros têm Albany como pano de fundo para diversas histórias, mas eu não sei dizer quais são porque até agora a Cosacnaify só lançou dois títulos: O grande jogo de Billy Phelan e Ironweed. No primeiro, um rapaz meio viciado na jogatina que se recusa a ser X-9 mas ninguém acredita e começam a lhe fechar as portas.

Já em Ironweed, o protagonista é Francis Phelan, pai de Billy. Francis é um ex-jogador de beisebol que já não era lá essas coisas. Alcoólatra, pobre, devendo as calças pra venda e corno manso que só ele, volta à cidadela onde cresceu e fez fama pra confrontar seus fantasmas. E quando digo “fantasmas” não estou falando em sentido metafórico. Ele realmente fala com os mortos da lembrança dele, pessoas que tiveram seu fim de alguma forma relacionado à sua experiência. Isso aí de falar com fantasminha irritou muita gente que eu sei, mas falemos disso depois.

Francis tem uma mulher chamada Helen Archer, uma ex-cantora que, agora decadente, vive de favor dos outros. E também um amigo chamado Rudy, que além de ser pobre e dever as calças pra vendinha, tem câncer e vai morrer. É, amigo, como diz o Marcelo D2, “tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Os três vivem fazendo uns bicos na época da Grande Depressão (não, não é o show do Los Hermanos, é a consequência da crise da bolsa de 1929), matando um leão por dia em uma época em que o Ibama não pegava no nosso pé por isso. Então, passando pela humilhação, pela a bebedeira, pelo desbarrancadeiro, pela grana curta e pelos ectoplasmas inconvenientes, Ironweed é o clássico romance de bebum que Charles Bukowski explorou ad nausea, e por isso tem tudo para fazer o maior sucesso entre aquela raça de pessoa com o prazo da adolescência vencida que se passa nos bailinhos e curte óculos de sol maior que a própria cara.

Encanei com uma coisa nesse livro, que foi a linguagem. Mesclando vários estilos, o livro foi comparado ao Retrato do Artista Quando Jovem, do Joyce, mas eu, na humilda, acho que é inconsistência de quem não se planejou nesse sentido. Vamos combinar que se você é foi um cara com metade da sagração bovina de um Joyce o seu direito de pirar o cabeção nas suas escrivinhaduras não está exatamente legitimado. Mas calma, todas as oscilações de estilo ao longo do livro não são capaz de provocar a mesma fúria que causa um único parágrafo do Lobo Antunes, aquele xarope.

Ah sim, Ironweed foi adaptado para o cinema por Hector Babenco, aquele diretor que parece famoso, mas que na verdade nunca fez nada que você tenha visto, a não ser Carandiru. O filme tem estrelas do naipe de Jack Nicholson no papel de Francis, Meryl Streep no papel de Helen e Tom Waits no papel de Rudy. É praticamente um NBA de atores no mesmo filme. Eu comecei a ver, mas não terminei porque comecei a babar na gola da camisa. Ô filmim chato do caraça. Sempre dizem que o livro é melhor do que o filme, e até dá pra entrar numa discussão sobre o assunto em alguns casos, mas nesse não. Comparado com o filme do Babenco, o livro Ironweed é um porrilhão de vezes melhor. Quem viu, tá ligado.

Preciso mesmo falar do projeto gráfico? É da Cosacnaify, gente, não tem o que discutir. Tem até um alto-relevo na capa, foto sensacional, fonte ótima, papel ótimo, tudo nos trinques. Os livros do “Ciclo de Albany” seguem o mesmo projeto, e, putz, vou parar de falar pra não ficar babando ovo.

E aí vocês me perguntam: “Mas Yuri, e aquela crítica séria, engravatada, sóbria, que não enrola a gente e — essa sim — parece inteligente?” Meus caros, já sabem, é lá na revista Paradoxo. Nessa semana, o livro de Haruki Murakami que pôs todo mundo pra correr. Passa lá!

Comentário final: 272 páginas em capa dura. Quebra os óculos de sol maiores que a cara e revela o que tem por baixo deles: horror! Horror!

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9 Respostas para “William Kennedy – Ironweed

  1. Eu vi o filme, inteiro!!!
    E a melhor parte é aquela que Rudy – Tom Waits- com as mãos nos bolsos da calça e bebaço diz pro amigo: “Sabe, finalmente, tenho alguma coisa… Câncer!!!” Humor negro total…rsrsrsrs

    • Oi Kris, valeu por aparecer aqui.
      Essa parte eu cheguei a ver, é bem no comecinho, mas o diálogo no livro é um pouco mais extenso e engraçado também, apesar de ser bem triste hehe.
      Bjs

  2. fala Yuri, blz?
    Acabei de ler esse livro esses dias! O Ironweed. E achei espetacular! No começo demorei para engrenar mas de um momento para outro, a hora que comecei a entender mesmo o que era aqueles personagens tão sórdidos, desalmados e ao mesmo tempo em busca de uma saída, achei o livro maravilhoso. Não consegui assistir o filme, achei um na net mas estava com uma qualidade muito baixa. Não gostei da crítica que vc fez ao Lobo Antunes, ele é o maior! hehe O maior na língua portuguesa! Tenho sentimentais apreço pelo Saramago, mas confesso que de uns tempos para cá o velho lobo é o fodão! Na Flip do ano passado fiquei emocionado com a palestra dele, tem uns trechos no youtube, procure depois. O velho é genial!
    Não sabia que o ciclo de Albany eram 7 livros, tomara que a Cosac lance todos por aqui!

    Abraço

    • Oi Raphael!
      O Ironweed realmente é um livro muito bom por extrapolar o gênero da literatura de bebum da qual falei. O filme que vi também baixei da net, mas nem fiz muita questão da qualidade, queria mesmo ver qual é que era.
      Quanto ao Lobo Antunes, bom, é só ver que ele chama o Saramago de “antípoda”. Sério, quem vai querer ser antípoda daquele simpático velhinho? Esse lance da Flip foi uma cachorrada das grandes. O sujeito ganhou o coração de todo mundo declarando seus amores pelo Brasil, e hoje, até quem nunca passou o olho por uma frase que ele escreveu defende o gajo. Pô, sacanagem! ahahah
      Então, parece que a Cosac vai lançar em breve o terceiro livro, chamado Velhos Esqueletos, se não me engano. Vamos aguardar, né? Até lá, esperamos que o Kennedy termine seu oitavo livro e nos brinde com o ciclo completo.
      Abraço!

      • Haha, pode até ter sido uma cachorrada mas que foi uma bela forma de se mostrar para a vida e desfazer o estereótipo que todos tinhamos dele lá naquela hora, com certeza ele desfez. Mas eu já o conhecia há um bom tempo e fui para a Flip só para vê-lo e ainda o agradeci pela visita ao país! hehe

        Tomara que a Cosac lance todos os livros do ciclo de Albany!

        abs

    • Ó Fausto, vem aqui só para defender o conterrâneo? Sentimos falta de suas opiniões aqui!
      A entrevista está muito boa mesmo, esse sujeito é mestre em xavecar o público. Praticamente um ursinho carinhoso. Mas ainda estou de má vontade com seus alfarrábios incompreensíveis! 😀
      Abraço!

  3. Pingback: Vencedor da Promoção – A estante do Sr. Raphael Pousa « Livrada!

  4. Livro espetacular! Achei sua crítica um tanto reducionista: “romance de bebum?”. Faltou sensibilidade aí. Faz parecer que o livro é uma jornada sobre o alcoolismo, quando é mais sobre vidas despedaçadas, desesperanças, em um país igualmente sem esperanças.

    Os diálogos, vale ressaltar, são muito bonitos, sem qualquer forçação.

    Parabéns pra Cosac pela série.

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