Hábitos de leitura 3 – Cintas e adesivos promocionais


Negócio é o seguinte: tentei fazer uma enquete pra colocar nesse blog, mas não rolou porque sou muito ogro pra entender de computador e enquetes eletrônicas. Então resolvi transformar a enquete em um post. Vamos a ele.

Cintas de livro, moçada. O que fazer com elas? Essa questão atormenta a humanidade desde que os publicitários acharam por bem estender seus suportes de anúncio além do rádio, jornal, revista e outdoor (ó, citei um trecho do Racionais MC’s, esse blog é muito versátil). Eventualmente eles descobriram que a forma mais eficaz de propaganda é aquela colocada nos peitos da Larissa Riquelme, mas, como a literatura ainda é um mercado financeiramente muito baixo calibre, não vai ser tão cedo que será visto, durante um jogo de futebol, o resultado do prêmio Jabuti quicando ao lado de um celular vagabundo. Felizmente, existem maneiras mais econômicas de se vender um livro. E as cintas são, nesse ponto, eficazes.

Ao mesmo tempo, é com a cinta que a gente percebe em que pé anda nosso país em termos de público literário. Vi outro dia na livraria a edição das Viagens de Gulliver, do Jonathan Swift, lançado pelo selo Penguin Companhia das Letras, com a tenebrosa cinta: “O livro que deu origem ao filme”. Putz, que vergonha. Tudo bem colocar uma cinta dessas em um livro não muito clássico, como o Reparação, do Ian McEwan, que deu origem ao filme Desejo e Reparação. Afinal, ninguém precisa saber quem é Ian McEwan. Agora, Viagens de Gulliver é um clássico da literatura, pô! Imagine a seguinte situação e imagine também se você ia gostar: Um belo dia você resolve ir na livraria se enturmar mais com os clássicos, e resolve comprar um belo exemplar de Romeu e Julieta, do Shakespeare. Aí você encontra uma cinta verde limão com a frase “O livro que deu origem ao filme”, entre as caras de pato do Leonardo di Caprio e a Claire Danes, empunhando pistolas semi-automáticas. É ou não é pra acordar no meio da noite, gritando, sentado, empapado em suor? Tudo bem que os caras lá da editora precisam vender o livro, e o selo é relativamente novo mas, amigo, se você não sabe que As Viagens de Gulliver é um livro, e não um roteiro inventado em pleno 2010 pro Jack Black fazer suas palhaçadas, shame on you! Os pais da gente compram livrinhos de clássicos adaptados pro público infantil quando a gente é criança, e se seu pai só te deu DVD dos Backyardingans, o problema é seu e do monstro negligente que te pariu, e vocês vão resolver isso algum dia no futuro, na frente de um psicólogo freudiano, que vai olhar vocês dois, franzir as sombrancelhas, falar “hummm…” e cobrar 300 reais a hora. Então pais, por favor, bora dar educação pra esses rebentos que já estão crescendo rodeados por brinquedos pra lá de tentadores (como aqueles NERF, meu Deus, como eu queria ser criança e ter uns desses). Não adianta deixar seu filho crescer igual mongolóide e colocar um adesivo no carro de “eu tenho vergonha dos políticos em Brasília” como se a parada não fosse contigo.

Divaguei, desabafei, voltemos à questão central. Dizia que as cintas podem ser muito vergonhosas, e nesse caso é melhor jogar fora. O problema é quando nem dá pra tirar. A editora Lua de Papel, por exemplo, editou O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë, uma das irmãs superpoderosas Brontë, e colocou um adesivo falso — que é, na verdade, impresso na capa — com o seguinte chamado: “O livro preferido de Bella e Edward da série Crepúsculo”. Caramba, que chute nos bagos! Imagine você, meu amigo, minha amiga, que quer saber de que livro vem aquela música irritante da Kate Bush gravada pelo Angra no abominável disco Angels Cry, e chega na livraria pra comprar esse livro, tenta arrancar o adesivo pra não apanhar na escola e vê que é em vão. Essa edição tá marcada pra sempre, e todo mundo vai saber que você é um fã de vampiro que brilha, caso contrário, por que esperou 164 anos pra ler esse livro? Então corre, Bino, porque é cilada.

Agora, a cinta também pode ser bem usada. O livro Política, do Adam Thirlwell, lançado pela Companhia das Letras, contem uma cinta com uma crítica elogiosa do The Guardian e do Le Monde, e um chamado em letras garrafais: “Uma comédia sobre a etiqueta sexual”. Traduzindo: “Esse livro chama-se Política, mas é de sacanagem, então pode ler porque é legal”. Ótimo! Eu, você e a torcida do Flamengo nunca ouvimos falar em Adam Thirlwell. Vai que o cara escreve mesmo sobre política? Mas, graças à poderosa cinta, você está a salvo de ler um livro xarope e livre para ler um livro de mulé pelada.

Estou quase acabando. Por penúltimo, existem os adesivos colados nos livros que indica seu potencial best-seller. Alguns são possíveis de serem arrancados e outros, mais uma vez, são impressos juntos com a capa. É o caso de A Possibilidade de uma Ilha, do Michel Houellebecq, cuja capa diz que a obra em questão vendeu mais de 300 mil cópias na França. Considerando que a França é um país pequeno que deve ter uns, hã, 500 mil habitantes mais ou menos, 300 mil exemplares é pra estourar a champanha (se bem que nada faz o Houellebecq feliz, não adianta). E, como todo bom apreciador de arte sabe e parafraseia o senador Juraci Magalhães, o que é bom para a França é bom para o Brasil (isso valeu 2 anos intermináveis da minha infância escutando Jordy, mas tudo bem). Então, sei lá, pode ser que ajude se você for do tipo maria-vai-com-as-outras, se amarra no Diogo Mainardi e curte repetir umas verdades de almanaque, do tipo “sabia que a maioria das pessoas num incêndio morrem sufocadas pela fumaça ao invés de queimadas?”. Existem públicos e públicos.

Por último, existem as cintas que anunciam os prêmios que o livro ganhou. Também funciona se você é um desses que acha que premiação não é uma parada política e baba-ovo, e acredita que a quantidade de prêmios que o livro leva é diretamente proporcional a sua qualidade. Eu confesso que acredito ainda em alguns prêmios, mas o Jabuti e o Nobel não são eles. Essas cintas de prêmio são facilmente descartadas, porque, uma vez que você já sabe que o livro ganhou tal prêmio, pode jogar ela fora. É o caso do livro Ironweed, do William Kennedy, já resenhado aqui inclusive. Veio com uma tarja azul com um único dizer “Vencedor do prêmio Pulitzer”. Ótimo, ganhou o Pulitzer, levei pra casa, li, gostei, e a cinta tá no lixo. Vê-se que a Cosac não se preocupou em fazer algo muito estiloso, com papel bacana e etc. É efêmero e é isso aí.

E você, caro leitor, o que faz com as cintas de seus livros? Joga fora se estiver muito detonada? Guarda com carinho porque curte umas listras? Usa pra remendar o papel de parede que descolou? Dobra e faz um recorte daquelas menininhas de mãos dadas? Forra a gaiola do canário? Diz aí, aqui você é livre. Passando da moderação de comentários, pode tudo!

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17 Respostas para “Hábitos de leitura 3 – Cintas e adesivos promocionais

    • Verdade, Iasa, esqueci da opção de usá-las como marcador! Se bem que às vezes não é tão legal, porque as dobras da cinta deixam um relevo que impossibilita de você enfiá-la no sulco perto da dobradura da brochura, e aí ela vive caindo. Algo que se resolve com o tempo!
      valeu pela visita, legal que você curtiu o blog!
      Beijo

  1. Marcador, é para isso que serve. Isso e as falecidas notas de um real, que agora já não posso usar como marcador, dada a raridade. Mas falando sobre o conteúdo dessas coisas todas. Normalmente é lixo. Se eu for na livraria e tiver que comprar algo pela propaganda é porque a coisa vai bem mal. Tenho para mim que a publicidade só existe para que os otários comprem um produto que é uma porcaria, porque se fosse bom não precisava de publicidade e coisas semelhantes. Infelizmente algumas editoras insistem em meter isso com os livros, alguns bons inclusive. Lembro que meu “2666” veio com uma cinta, que eu não li, devia ter um comentário de um crítico do New York Times, que é o mesmo que comer coisas gostosas enquanto se está gripado. Enfim, prêmios não contam, críticos não contam, números de livros vendidos menos ainda.

    • Marcar livro com dinheiro é alguma superstição, amigo Lucas? Ah, nunca fiz isso, e agora só é possível com as notas de 2 reais (que é, incrivelmente, mais barata que um marcador que você compra na loja.
      Quanto às mensagens cretinas nas cintas, acho que o público leitor do Brasil ainda está se formando, o que obriga os manolos da editora a colocarem certas frases que não seriam levadas a sério em outro contexto. Ah, gostei do “comer coisas gostosas enquanto se está gripado”, uma boa alegoria!
      Abraço!

  2. Olá, parabéns pelo blog, ri muito neste post.

    só guardo as cintas dos livros em japonês, que são lindas, como qualquer livro publicado no japão.

    as daqui vão pro lixo mesmo (a única que me senti tentado a guardar foi a do 2666 – pela cor, mas como o amigo aí em cima citou, as palvaras vãs não me deixaram).

    até o próximo post!

    • Oi Renato, valeu pela visita!
      Quer dizer então que, de todas as coisas em que o Japão é superior ao Brasil, as cintas de livro estão entre elas? Agora chega, vou embora desse país! hahaha Se você puder, me mande no e-mail do blog algumas fotos das cintas dos livros em japonês que você guardou, seria legal compararmos aqui!
      Abraço!

  3. Bem, faltou falar da nova mania de algumas editoras (leia-se companhia das letras) que agora botam o título e o autor na cinta do livro, como na edições mais recentes de uns liros do Coetzee e do Nabokov. Apesar de achar bacana uma capasem nada, só uma foto ou uma ilustração, que na minha opinião dão um ar enigmátivo pro livro, tenho dúvidas quanto a praticidade de se fazer isso..vai q se perde a tal da cinta…

    pra ilustrar:
    http://www.travessa.com.br/FOGO_PALIDO/artigo/e7bb018b-3fa5-467e-ab61-4236648080f6

    http://www.travessa.com.br/VERAO/artigo/db359a4c-9ab7-47cc-9513-9946b2bc6051

    • Oi Fábio, obrigado pela visita!
      Olha, não conheço essas edições do Nabokov, mas sei que fizeram o Verão, o Juventude e o Desonra (já é a segunda vez que o Desonra muda de capa, o meu exemplar deve tá valendo no mercado de colecionadores) com uma espécie de cinta, mas que vem presa ao livro. Veja, não é bem uma cinta como qualquer outra, ela faz parte do projeto gráfico da capa e faz muito pouco sentido sem ela. O problema aí, que eu acho que eles não consideraram, foi que a tal cinta atrapalha a leitura da orelha. Enfim, ficou um pouco estranho, mas tem que deixar os caras experimentarem coisas novas também. Vamos ver se esse tipo de capa vinga, né?
      Abraço!

  4. Fala Yuri, eu faço das minhas marcador de livro, mesmo as ruins, nunca consegui jogar fora! rs
    Tem aquelas fitas eternas, do tipo Dan Brawn que em todos os livros que ele escrever na vida sempre será citado como “o autor de O código Da Vinci” hehe.
    Olha o que está escrito na fita de 2666 do Bolaño:
    “O melhor livro do ano” – TIME
    “A obra-prima de um dos maiores e mais influentes escritores modernos” The NY Times
    “A vida toda contida nestas páginas incandescentes.” – The Independent
    “Não somente o grande romance em língua espanhola da década, mas também um dos pilares que definem toda uma literatura” – La Vanguardia
    “Se Os detetives selvagens foi considerado uma obra-prima, é preciso cunhar um superlativo para este 2666.” – The observer

    Isso sim é um bom marketing, mesmo sendo apenas para os apreciadores de uma boa literatura.

    Abração!

    • Fala Raphael! Valeu por tomar nota da propaganda do 2666. Realmente, é pra encher o ego do chileno defunto, se defuntos tiverem egos. Eu já joguei algumas cintas fora sim, mas agora tô custando em jogar a do política. Prefiro meus livros sem elas, mas aí guardo-as dentro do livro (não como marcador, pra isso tenho um muito especial).
      Abraço!

  5. Olá Yuri!

    Muito legal o artigo, agora sei que não sou o único doido que se preocupa com esse tipo de coisa. rsrs

    Mais do que as cintas, o meu grande dilema como colecionador de livros são as caixas, que geralmente são feitas de papel cartão bem fino e têm vida muito mais curta do que os livros que contêm, seja porque já chegam amassadas dos correios ou porque sofrem no lugar dos livros os pequenos choques durante arrumação da estante, manuseio, etc. Isso sem contar que, reza a lenda, guardar os livros nas caixas pode acelerar o processo de acidificação do papel, o terror de quem sonha em chegar à velhice com mais livros na estante do que dinheiro na poupança.

    O pior é que está ficando mais frequente a utilização dessas caixas como atrativo para o leitor. A Cosac Naify principalmente. Comprei edições especiais lindas de Anna Kariênina, Trilogia Autobiográfica e Alice no País das Maravilhas, todas acondicionadas em caixas que já percebo que não resistirão a duas mudanças.

    O que pensa sobre as caixas? É importante mantê-las ou é melhor jogá-las fora na primeira oportunidade, pra não ficar com dó depois?

    • Oi Fábio, valeu a visita, que bom que gostou do texto.
      Sobre as caixas, vamos lá: realmente, deixar as páginas em um local pouco arejado acelera o processo de envelhecimento do livro. Mas não é por isso que os livros que não tem caixas sejam mais imunes (para essas dicas, recomendo o meu primeiro texto, sobre como cuidar dos livros).
      Agora, convenhamos que comprar um livro com caixa pelo correio, caso você seja um colecionador, é furada. Se você espera qualidade no seu exemplar, ao invés de preço baixo proporcionado pela divulgação do e-commerce no Brasil, recomendo ir até uma livraria boa e analisar os melhores exemplares. Para isso, verifique as pontas, se não estão gastas, a capa com a luz refletida, por arranhões e marcas de caneta (tem uns cabras que escrevem usando o livro como apoio ANTES do livro ser comprado), encadernação e o estado da cola da brochura ou da linha da encadernação artesanal. Mas chega de falar nisso porque aí parece que a gente é maluco.
      Minha palavra final então: compre um bom exemplar, com uma caixa boa, guarde-a, mas faça a ventilação das páginas de tempos em tempos!
      Abraços!

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