Anthony Bourdain – Cozinha Confidencial (Kitchen Confidential)


Kitchen ConfidentialAntes de começar o post de hoje, gostaria de pedir a todos que toparam fazer o Desafio Livrada! 2013 que me contassem o progresso para as metas estabelecidas. Meu palpite é que ninguém se lembra, brasileiro não tem memória de compromisso que assume, blá blá blá, em quem você votou pra deputado blá blá blá, vocês já conhecem o papo. Enfim, pode ser por comentário e pode ser também pelo e-mail bloglivrada@gmail.com, combinado?

Bom, o livro de hoje, parece bem óbvio, é uma não ficção. É um livro de memórias do cozinheiro nova iorquino Anthony Bourdain. E fazer resenha de livro de memórias é a coisa mais fácil pra acabar escrevendo um release involuntário (se bem que a maioria do povo que anda comentando livros na grande mídia já anda flertando com esse lance de release requentado). Mas vou tentar dar umas pinceladas gerais antes do comentário para ver se escapamos dessa cilada.

A ideia básica de Cozinha Confidencial é: cozinheiro é tudo porra-louca, a vida na cozinha é pior que a vida de boia-fria no sertão de Pernambuco e manter um restaurante, como diz a Barbie sobre a matemática, é “difííííícil”. É assim que o autor resume suas experiências. Ele começa contando como despertou seu paladar em uma viagem à França em que comeu sopa fria e mariscos crus. Eu sou meio fresco pra maioria das coisas e já teria parado por aí, mas bem, esse não é um livro sobre as minhas aventuras gastronômicas (até porque se fosse, teria umas dez páginas apenas). E a partir daí, desgarrou-se de sua família para ser um jovem cocainômano, maconheiro e alcóolatra numa cidade do litoral, onde arrumou um emprego de lavador de pratos para se manter. E seguem capítulos sobre a sua formação, os restaurantes em que trabalhou, seu envolvimento com a máfia e as grandes lições da cozinha que tirou da própria experiência.

Mas o cara é mais cozinheiro do que escritor. Prova disso é que ele não faz ideia de quem seja o seu leitor ideal, uma coisa que teria resolvido se desse uma lida nuns caras teóricos aí tipo Umberto Eco e Walter Benjamin que, olha, tão fazendo falta pra essa galera beletrista, viu. Ao mesmo tempo em que ele usa um linguajar cheio de jargão, o que dá a entender que o livro é feito para quem manja das putaria, intercala capítulos para totais iniciantes no assunto, do tipo “então você cozinha e quer impressionar as visitas num jantar? Olha aqui a lista de materiais que você precisa comprar”, “eis aqui a divisão dos trabalhos na cozinha” e “veja bem o que acontece por causa da difícil manutenção de um restaurante”. O palpite que extraio disso tudo é que Bourdain escreveu esse livro pra algum tipo de fooder hardcore que leu muito livro sobre o assunto mas não faz ideia de como a coisa se resolve na prática. Mas vai saber, às vezes o cara só queria abranger o maior público possível, e se você já sabe de alguma coisa que ele está falando, é só pular o capítulo.

Cozinha ConfidencialE embora o estilo de escrita dele seja meio cheio de coisas chulas e linguagem informal (parecido com esses malditos blogs literários da internet, hãn, hãn?), as histórias que ele conta são bem legais! E ele não idolatra a comida fazendo você salivar por cada coisa que ele descreve, mas antes de tudo, traz tudo para o plano terreno. É uma pegada bem realista e desglamurizada de tudo, eu acho, e isso é bom porque os cozinheiros mais midiáticos que eu conheço, tipo esse Jamie Oliver e a Nigella Lawson são muito entusiasmados com tudo. Entusiasmados demais, chega a cansar. Bom, não que ele não se empolgue em algumas partes, mas nada imperdoável também. Acho que se o cara não gostasse do que ele faz, não escreveria um livro sobre o assunto, principalmente um em que basicamente se resume a ele queimando o próprio filme com descrições insólitas de seus hábitos desregrados na cozinha.

Aliás, essa é outra coisa boa. Apesar dele ser o autor do livro, e, na sua condição de autor, mandar a real, Bourdain não se coloca como o detentor da verdade nem se pinta como o grande cozinheiro de nossa época. Pelo contrário, o cara fala “eu faço assim, mas se você for aprender com tal pessoa, esqueça tudo o que eu falei, porque ele manda melhor do que eu” com a maior tranquilidade. E acho que essa mínima falta de vaidade que seja é benéfica, principalmente em se tratando de profissionais vaidosos como cozinheiros e chefs de cozinha.

Eu acordei em um belo sábado querendo ler esse livro porque alguma amiga do Murilo certa vez me chamou de Anthony Bourdain dos hambúrgueres, em referência aos textos meio ensaísticos do meu outro blog, o Good Burger, que é basicamente igual a esse, só que mais afetado e sobre hambúrgueres. Li e não me arrependi, e me senti até meio lisonjeado. O projeto gráfico da Companhia das Letras é aquele pacote basicão de livros não tão importantes assim, mas que ainda assim, é uma beleza. Fonte Minion (a fonte usada para editora para a maioria dos livros de não-ficção), papel pólen e uma capa mutcho loka e psicodélica que deve querer passar uma ideia de cozinha e drogas, ou talvez apenas o movimento frenético dos cozinheiros. Essa capa aí da foto é o meu livro, que tive que escanear porque não tinha nenhuma foto em alta dessa capa na internet. Livrada! também é banco de imagens, rapá.

Comentário final: 376 páginas de papel pólen.  Dá pra tacar na cabeça do garçom quando ele traz um misto quente com queijo e presunto quando você pede um sem queijo, sem presunto, com ovo, salada e frio no lugar.

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5 Respostas para “Anthony Bourdain – Cozinha Confidencial (Kitchen Confidential)

  1. Leio muito menos nao ficçao que ficçao, as vezes me sinto um alienado buscando fuga do mundo nas hostorias de pessoas que nunca existiram. Esse ano comecei umas tres nao ficçoes e terminei duas (uma delas ainda vou terminar, espero).
    Em relaçao a minhas metas, comecei infinite jest em fevereiro, li ate março e nao leio desde entao. O idota comecei em abril, aos poucos vou lendo, passei da metade dia desses e o mason e dixon nem comecei. Haahaahah fico feliz se terminar o idiota. Desfoquei de todas as minhas metas do ano. Acontece…

  2. Mais um da minha lista.
    Curiosamente comecei a ler o Bourdain pelo “Ao Ponto”, que funciona como uma continuação do “Cozinha Confidencial”. Ainda que muito se fale sobre o tipo de escrita do cara, vejo tudo isso como uma grande bobagem. Quando comecei a leitura eu conseguia ouvir a voz do cara na minha cabeça, tamanho era a semelhança com seu estilo ao falar, visto em entrevistas e em seus próprios programas (diferentemente da biografia do Lobão, mas isso é outro assunto). E isso, ao menos para mim, não é nenhum defeito. Muito pelo contrário. Suas experiências e “causos” ficam ainda mais interessantes e divertidos. Dia desses comentei com um amigo sobre o livro, sabendo de seu apreço por programas de TV que abordam comida, e pouco depois ele vem me dizer que decidiu comprar de vez e ler após ver uma declaração do Bourdain sobre um prato em um país X. Quando perguntado se ele já sentira algo algo tão bom quanto aquele momento ao apreciar uma iguaria, ele responde algo como “Sim, com crack”. E isso se encaixa perfeitamente nessa não vaidade mencionada no texto do Sr. Livrada. Creio que ele não faz firulas, nem falsos discursos e tão pouco tem pinta de bonitinho pra estampar a programação da GNT, ainda que eu também goste dos programas do Jamie Oliver e do Olivier. Mas a gastronomia vai muito além desse glamour falso e escolas caras, ela se baseia em necessidades de contexto e história, algo que o Bourdain sabe tratar muito bem.

  3. Por que não estou participando do Desafio do Livrada?
    Acho que exigir que Bourdain escreva bem é um pouco demais, afinal, o conhecimento dele está voltado à cozinha, não à literatura. Pelo o que li aqui na resenha, o cara estava com vontade de contar suas histórias. E que mal há nisso, se há leitores ou telespectadores para tal?

  4. Assisti a alguns episódios do “no reservations” e gostei muito da abordagem que ele faz da cozinha/comida, especialmente agora que se idolatra muito os chefs e a cozinha (até peixe cru virou moda…!): mas a verdade é que a vida na cozinha é um perfeito inferno. Gosta de determinado aroma combinando com perfume de não sei o quê? óptimo, se prepare para repetir essa linda receita até à exaustão dezenas de vezes por dia, infinitos dias por semana…., e não é um de cada vez, nem só essa receita, é… loucura mesmo! e tem mais: vai chegar muito cliente com pedido especial tipo “bolonhesa sem a carne”, acredite que tem gente burra a esse ponto, e mais burro o garçon que aceita e pedido e te obriga a espancá-lo. Servir o próximo é bom pra crente! e é verdade, nessa pressão, o álcool e demais jorra por todo o lado, caso contrário vc fica louco – aliás, só conheci dois tipos de chef: alcoólatra ou doido varrido! e é muito questão de moda, disposição do cliente, monte de coisa: vc pode estar fazendo coisas maravilhosas, como manda a regra, e não ser apreciado porque não tá no bairro bom, a decoração não é boa…Dou muito valor a um cozinheiro, mas os caras da TV, excepção feita ao Bourdain, acordam em mim tendências muito ruins!
    Continuo consultando regularmente seu blog, “aunce no comente”. E vou ler esse sim, depois de terminar meu Carpentier (saiu a tradução do Sagração da Primavera, tradução pobre e revisor no mínimo míope: não fosse o génio do escritor e era uma edição perdida!.

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