Mo Yan – Mudança (Bian)


bianNo ano passado, este blog fez um bolão do Nobel para ver quem iria acertar o ganhador do prêmio literário máximo daquela vez. Muitos apostaram com o coração e outros tantos com a lógica, mas quem ganhou mesmo foi o Guilherme Sobota, que, muito malandro, foi conferir o nome mais cotado nas casas de aposta antes de emitir seu palpite. Como a coisa já faz mais ou menos um ano e como foi aniversário do nosso leitor ontem, vamos falar do até então único livro do prêmio Nobel Mo Yan traduzido para o Brasil.

Sempre acho que um nome mais ou menos obscuro aqui que é laureado com o Nobel, eu encaro a coisa como uma lança no peito da curadoria editorial das casas especializadas do país. É certo que a corrida começa imediatamente depois do anúncio, e poucos conseguem um contrato mais permanente porque a verdade é que os tempos de “O que é bom para os Estados Unidos (ou, o que é bom para Estocolmo), é bom para o Brasil” do senador Juraci Magalhães já se foram há muito, e a verdade é que, com nossa própria literatura nivelando por baixo, se o cara for sisudão, a coisa nem vinga por aqui. Por exemplo, a Elfriede Jelinek, vocês sabem. É claro que o Nobel não é exatamente um bom termômetro da qualidade literária de um autor, já que o prêmio é sempre dado pelo conjunto da obra e por razões outras que não a própria literatura.

Felizmente, Mo Yan é um autor fácil e divertido de ser lido, e confesso que fui parcial na minha pré-avaliação dele porque ainda estou embasbacado com a literatura do Yu Hua, seu conterrâneo que já passou pelo Livrada! em duas ocasiões: aqui e, principalmente, aqui. Mas Mudança, seu primeiro título cá nesta terra de pecadores, não é um romance, é um livro de relatos, o que deixa o primeiro encontro com a literatura dele um pouco imprevisível, porque não dá pra ter uma medida muito certa do tipo de escrita que o sujeito pratica, ainda mais que ele conta na apresentação que escreveu o livro meio contrariado e meio sem saber o que estava fazendo. A ideia era escrever um texto que resumisse as principais mudanças na China maoista até sua abertura. A megalomania do projeto é pra desanimar qualquer um mesmo, ainda mais se você não é exatamente um estudioso da coisa e só tem uma memória prática dos acontecimentos.

Mas é justamente aí que está a graça do negócio. Mo Yan escreveu um livro pequenininho, de tão pequeno que chega a ser uma afronta à proposta original, e escreveu sobre sua própria vida, de garoto apagado e pobre do interior à vida no exército e suas primeiras publicações. É por meio dele que você aprende que tipo de mudanças econômicas a morte do camarada Mao trouxe para a população mais pobre, que pôde sair dos buracos onde moravam para visitar a onipotente Pequim, ou como os caminhões soviéticos passaram de objetos de consumo para velharias imprestáveis, e como o sonho de ser caminhoneiro entre os pequenos chineses morreu com a abertura para novos negócios. Mo Yan mostra como as pessoas que não tinham nada puderam enriquecer muito rapidamente depois da abertura, e como algumas publicações em revistas já alçaram o autor a um patamar gigantesco. Então a gente entende que o título do livro, “Mudança” é uma só, a mudança da China, mas é contado a partir de mudanças, no plural, que são pequenas e entrevistas nos detalhes das vidas narradas, mas significativas no conjunto para a compreensão da conjuntura política e social do país dos amarelos.

MudançaE tudo isso é contado na maior despretensão, como um senhorzinho que conta as memórias da infância dele sem se preocupar em ser dramático ou prender o interlocutor, mas preocupado, antes de tudo, em fazer o leitor entender a lógica diferente daqueles dias diferentes e as preocupações de uma geração que se dividia entre o dever cívico e os sonhos materialistas, como andar de caminhão (a capa do livro é um desenho técnico de um desses caminhões russos) e visitar a capital.

No fim, Mudança é um livro singelo, mas honestíssimo na fidelização do ponto de vista do autor-narrador e que se sabe incapaz de dar conta de explicar todas as transformações da China no século 20, mas que dá sua contribuição empírica pra extensa bibliografia já publicada e a cada dia mais engrossada por tomos novos. E isso, para nós, leitores leigos que não nos pretendemos sábios entendedores da questão chinesa, nos contenta e nos satisfaz. De quebra, ainda conhecemos um autor Nobel novo, o que, por si, só, já torna a experiência da leitura mais reveladora.

O projeto gráfico da Cosacnaify é lindão como sempre e o livro, em seu tamanho, é quase um pocket. Um 19 x 12cm com fonte Milo Serif em cor roxa, papel pólen bold e um texto preparado e revisado por orientais (se isso não agrega valor ao cuidado da editora, eu não sei o que agregaria). E, claro, a famosa cinta promocional pra avisar o leitor desavisado de que sim, é esse o chinês laureado em 2012. Vida longa à literatura da China!

Comentário Final: 125 páginas de papel pólen bold. Não machuca, mas agrada a quem olhar.

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5 Respostas para “Mo Yan – Mudança (Bian)

  1. Acabei de ler o livro da Xinran, as mulheres da china, e praticamente todos os relatos são do período da revolução cultural na china, de td efeito que causou a mudança política e economica antes e depois de Mao, sobretudo, para as mulheres. Fiquei super curiosa para conhecer mais a história de um país tão desgastado pelos sofrimentos.

    • O problema de uma resenha como “Mudança” é que ficou tão atraente quanto uma minhoca saltitante no anzol, num rio de águas claras, pescando trutas. arco-íris (Na Irlanda). ..Acabei de ler e lá vou eu à Livraria, para ter o prazer de comprar com minhas mãos o livro, porque a minha paixão amo de paixão a Literatura, já me fez suficientemente neurótica para ter os rituais. Tenho que ir eu mesma, em pessoa, perguntar ansiosamente se o livro chegou e ouvir, mesmerizada, que chegou e ainda há exemplares à venda. Suspiros de alívio, que, graças a Deus, não são percebidos pelos outros compradores. A quem, claro comento sobre a razão por quê estou adquirindo a obra. Vai que alguém também compra? Consciência não se faz assim? Então, peguei o livro e sem qualquer pudor, cheirei o pólen do papel e me sentei para continuar o imenso prazer de pegar um livro novo. Sei que só vou conseguir ler na madrugada (o silêncio me faz mais convidativa no complexo da primeira leitura). Tenho que pensar que 125 páginas é muito pouco para minha gulodice literária, mas a gente é feliz com o que pode. Na verdade, esta é uma pre-resposta, por conta da excitação provocada pela resenha. Freud explica. Na infância quando alguém queria insultar o outro chamava “amarelo” ou “amarela”, se referindo aos asiáticos. Sempre achei horrível aquilo, porque o que seria de van Gogh sem o amarelo? E de nós sem Sol? Então, minha paixão pela China começou aí. Defendia com gosto meu “inimigo” falando da injustiça com eles, os chineses e a cor amarela. Que não uso porque sou loura e ficaria um ovo frito. Para terminar esse comentário, devo dizer que uma resenha bem feita leva, sim, o leitor à livraria. Na expectativa dos prazeres que a leitura nos reserva. Abraços dourados, como as espigas de milho de meus cabelos na infância. Valmira.

  2. Seu blog tem o dom de me deixar mais pobre. Tenho que ficar me escondendo de mim mesma e fingir que eu não vou querer comprar correndo os livros que você resenha. Adorei o fundo branco.

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