O Livro dos Camaleões


livro dos camaleõesPoesiaaaaaaaaaa! E dessa vez é pra valer. Sempre bom ver esse vídeo do Bial, mas não é todo dia que podemos colocar o dedo na origem dele, que é justamente o livro de hoje. Eis que meu prédio fez há pouco tempo atrás uma biblioteca comunitária para fazer alguns livros detestáveis circularem entre os condôminos que não têm critério nenhum sobre o que ler. Vamos falar a verdade, já tentou achar alguma coisa que preste nessas bibliotecas comunitárias? As pessoas geralmente colocam ali livros que não servem nem pra jogar fora, e isso não é exagero. Na biblioteca do meu prédio é a mesma coisa, só que um pouco diferente – de vez em quando aparece coisa boa. Vi uma vez um tomo gigantesco de As Vinhas da Ira que logo desapareceu e agora tem um Não Verás País Nenhum dando sopa, o que há de ser uma coisa boa. No meio desses, apareceu essa raridade que vamos discutir hoje. Desde já agradeço aos senhores condôminos por jogarem suas porcarias ali para alimentar esse recôndito esquecido da deepweb que se ergue em meio aos buzzfeed da vida.

O Livro dos Camaleões é, veja bem, o livro de um grupo de poesia que existiu na década de 80 chamado Os Camaleões. Parece que na época era uma coisa meio comum fazer grupos de poesia, algo como uma Legião Urbana feita por três Renatos Russos e nenhum Dado Villalobos, e você pode imaginar a hecatombe que isso era. Eles saíam por aí em bares e em eventos recitando poemas e fazendo performances. Ugh. Os Camaleões, no caso, eram três: o apresentador Pedro Bial, o repórter Claufe Rodrigues, que hoje faz as matérias do Globo News Literatura (e que ganhou a antipatia dos curitibanos por ser o mala que foi lá bater na porta do Dalton Trevisan com um câmeraman a tiracolo), e o editor do Fantástico Luiz Petry. Todos eles tinham pseudônimos, respectivamente: Peter Pane, Baby the Billy e Patrick Jack. Eu sei, eu sei, os caras não são bons de pseudônimo, mas falemos um pouco de poesiaaaaaaaaa.

Os poetas, para nós leigos, podem ser divididos em dois grandes grupos: os laureados e os de rodoviária. Prêmio literário é algo que serve exatamente a esse propósito, porque se não tem um zé mané pra dar um trofeuzinho pro seu Zé das Couves, a gente nunca vai enxergar o lirismo dele com os nossos próprios olhos. E não é só ganhar um prêmio pro sujeito cair nas graças do povo não, amigo. É um caminho árduo e tortuoso, e é por isso que os poetas – os de rodoviária, principalmente – gostam de fazer poemas sobre as agruras de ser poeta, essa coisa bela e trágica para se ter como destino. Baseado nisso, os Camaleões se assumiram marginais e, nas palavras deles, pop-descartáveis. Por que, claro, a aura de marginal é muito importante pra um poeta de rodoviária, porque parece que ele não tá se esforçando muito na coisa ou parece que ele tá mais empenhado em tomar porres e transar do que fazer poesia, mas a gente que é macaco velho sabe que é o contrário.

bial, petry, claufeAssim, o livro é dividido em várias partes: os Camaleões Pop-Descartáveis, os Camaleões de Fogo, os Camaleões na Derrota e os Camaleões Amigas, entre outros. Aliás, nesses últimos dois imperam o tom da tal da estética da derrota e da estética homossexual criadas pelo Patrick Jack. Na primeira, todo mundo é derrotado, coitadinho, marginal e a partir daí renasce como poeta (ou algo assim), e na segunda todo mundo é boiola sem nenhum motivo aparente.

Fora isso, o livro nos brinda com versos como “entre a mulher e o que ela quer/ o fim e o começo… / existe uma ponte que sou eu” (Pane), “Ainda há no ar o aroma do nosso amor/ renascendo renitente como o capim” (Billy) e “Mais tarde, soube que Paloma Jack foi abatida a tiros como uma galinha d’Angola/ Daí saí pelo mundo escrevendo os versos do meu martírio/ e buscando Paloma Jack em todas as mulheres/ Foi assim que nasceu Patrick Jack, o coiote solitário” (Jack) Quanta coisa absurda tem nesse livro! E pensar que eles escreveram esses versos quando tinham 27 anos! E publicaram! Bom, não sei o que foi que aconteceu na dissolução dos Camaleões, mas olha, esse lance de poesia não é muito a praia de ninguém ali, pelo que eu sei. Todos eles tão na TV hoje, bem sucedidos e de acordo com a própria filosofia deles, não existe pior poeta do que gente bem sucedida, então melhor que o passado fique no passado. É claro que o Pedro Bial ainda arrisca uns poemas aqui e acolá, e dá vazão à sua verborragia quando precisa anunciar uma eliminação no Big Brother Brasil, então tá tudo mais ou menos bem.

Esse livro foi editado por uma editora chamada Anima, teve zero de cuidado no projeto gráfico, uma capa horrorosa, não tem padrão na formatação dos poemas nem na assinatura, mas tem ilustrações estranhíssimas de Chico Caruso e outros ilustradores sobre os quais eu nada sei. Chega desse livro.

O Livro dos Camaleões cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

7- Um livro de poesia

8- Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos.

Comentário final: 140 páginas de pura POESIAAAAAAAA.

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6 Respostas para “O Livro dos Camaleões

  1. Que faaaase a sua, hein Yuri! haha Acho que essa foi das piores capas de livro que já vi na vida! Medonha! E eu não leria isto nunca. Mas no fim a resenha saiu hilária. Nunca ouvi falar desse grupo, talvez eles tentassem um pop-marginal naquela época. haha (não consigo parar de rir com essa capa horrível).

    abs

  2. Capa feiosa, credo! Aqui em Brasília ainda tem um bar pro pessoal recitar poesias! É só chegar e começar a falar! Tem um tablado imitando um palco mas ninguém respeita… a cerveja é muito barata, então vale a pena!!

  3. Deve haver alguma coisa muito errada comigo, porque eu nunca dei a menor importância às capas dos livros. E quando leio uma resenha que ARRASA literalmente com o conteúdo, aí me dá aquela vontade irreprimível de comprar e ler. Talvez, inconscientemente, queira ser diferente da maioria (Freud explica). Antes de terminar este comentário, achei a capa camaleoa uma obra-prima do kitsch. A cinturinha 58 da moça, os olhos petrificados de medo dos três sombras na parede, os brincos de pérola descombinando com o cinto de plástico vermelho e com as luvas longas, negras como a noite, puxa vida! deve ser um primor. O fato de gostar de poesia de qualquer época e esquecer o que fazem hoje os poetas daquele tempo (eterno 27), quase me obriga a sair de minha zona de conforto e passar na livraria, para pegar ou encomendar. (Se esse era justamente o efeito que pretendia o resenhista, acredite que conseguiu…).rs.

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