Art Spiegelman – Maus

Eu duvido que tenha algum literato conservador que visite esse blog (pelo menos periodicamente) e vá se ofender agora por tratarmos de uma graphic novel (que é uma forma fresca de chamar gibi. Como chamar roceiro de camponês e morro de colina) ao invés de um livro propriamente dito, feito de nada mais que palavras e prepotência. Em defesa da obra, é preciso dizer que Maus não é uma graphic novel qualquer. É um dos poucos (não é o único, né?) quadrinhos que venceu o exaltado — pelas pessoas, o prêmio em si é tranqüilo —prêmio Pulitzer, dado a escritores que ficam felizes e jornalistas que tendem a morrer logo depois por explosão do ego. E o pior, ganhou um Pulitzer especial (que aqui pode ter os dois sentidos de “especial”), pois não sabiam se o premiavam como ficção ou biografia. O que é uma dúvida muito da imbecil, pois tá na cara que Maus é pura biografia.

O quadrinista Art Spiegelman desfiou por páginas e mais páginas a história de seu pai judeu nos campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Ele faz isso narrando também suas visitas ao pai, de nome Vladek, para entrevistá-lo. No livro, os personagens tem feições animalescas para apontar cada nacionalidade: judeus são ratos, alemães são gatos, poloneses são porcos, estadunidense são cães, et cætera. Essa característica marcante do livro se baseou nas propagandas nazistas que tratavam os judeus como ratos. Maus foi publicado inicialmente em 1986, aos pouquinhos,  numa revista mutcho loka que o Art Spiegelman editava, e depois foi lançada em dois volumes, apenas para depois ser compilada e chegar às nossas mãos brasileiras (porra, como eu odeio quem fala “tupiniquim”). A edição da Cia. Das Letras — selo da Companhia das Letras destinado ao público infanto-juvenil — foi lançada em 2005, apenas, ou seja, demoraram exatos dezenove anos até que uma edição nacional do livro surgisse. E tudo bem, já que Breakdowns apareceu só em 2009, não vamos reclamar, dezenove anos não está muito atrasado. Ah, o Pulitzer em questão foi ganho em 1992.

Bom, tirando os nazistas, os poloneses (que não curtiram muito serem palmeirenses no livro), meio mundo que não gosta de judeu e aqueles malucos que acreditam que o holocausto nunca existiu, quero ver alguém ler esse livro e não gostar, não se emocionar. Maus é sensacional! E acho que o mais legal do livro é o clima kafkiano com que Vladek e sua esposa Anja são conduzidos de maneira tranquila rumo ao surrealismo de Auschwitz. É como assistir ao Nó na Garganta, do Neil Jordan: de repente só tem absurdo na história e você não consegue definir onde foi que as coisas começaram a ficar daquele jeito. Por meio de Anja, mãe de Spiegelman, e de seu suicídio o autor consegue dar ao público o impacto do holocausto ao longo das gerações das famílias judias. O livro também contém (em uma versão ridiculamente reduzida) a história Prisioneiro do Planeta Inferno, sobre a ocasião do suicídio de Anja. Essa graphic novel foi publicada primeiro em uma revistinha qualquer, mas ficou famosa em seu livrão Breakdowns, e é visualmente muito bonita por tentar transpor para os quadrinhos algumas formas e ângulos do expressionismo alemão. Por isso garanto que vale mais a pena conhecê-la em seu tamanho original. De qualquer jeito, Maus é um livro que é preciso ter em casa, então por favor, trate de providenciar.

E claro, o livro tem seu lado engraçado. No caso, a persona caricata de Vladek, o típico judeu pão duro e preconceituoso, que briga no supermercado para devolver meio pacote de sucrilhos já aberto, e acusa sua namorada de estar com ele pelo dinheiro. Com isso acho que Spiegelman provou que não se meteu nessa para fugir da realidade. E não é isso que todo mundo espera?

Comentário final: 296 pesadas páginas de offset. Como diz a música, bate feio maionese.