Don DeLillo – A Artista do Corpo (The Body Artist)

the body artistÀs vezes eu paro, penso, reconsidero a decisão de continuar com este blog, de soltar essas palavras no deserto virtual da internet, mas aí lembro que, embora não tenha me dado dinheiro, o Livrada! me deu uma porrada de amigos e algumas boas indicações de livros. Toda vez que venho comentar um livro do Don DeLillo aqui, não esqueço que, sem este blog, talvez demorasse uma eternidade para descobrir este que é um dos meus autores favoritos. Isso porque, nessa rotina de ler um livro atrás do outro, a gente vai se acostumando à linguagem, às estruturas narrativas do contemporâneo, e a verdade é que, no final, pouca coisa é capaz de te sacudir. Felizmente, este nada simpático senhor da foto abaixo não me decepciona a cada livro seu que descubro. Por isso, hoje vamos tratar de A Artista do Corpo, que li depois de uma macarronada que a gente bateu com o Alcir Pécora numa noite. É um livro difícil, sério, sombrio e complexo, mas que eu, do alto da minha pretensão, julgo ter entendido. Então vamos tentar analisá-lo e colocar as coisas em termos simples, porque se eu, que vim da roça praiana da Costa Verde, consegui manjar esse livro, você também consegue.

Bom, A Artista do Corpo não deixa de ser um livro datado pelo tipo de arte exercido pela protagonista. A moçoila, uma trintona-quarentona, pelo que o romance dá a entender, chama Lauren Hartke e é uma adepta da chamada body art, um tipo muito peculiar – peculiar aqui querendo dizer ixcrota – de arte performática que tem como principal objetivo a deformação do corpo, a descoberta de posições desconfortáveis, bruscas e dolorosas que explorem ao máximo a dimensão corporal, seus limites e seus significados. Como diz em um trecho, é como se ela “tentasse sair do próprio corpo”. Uma mandíbula jogada pro lado, um braço que passa por trás da cabeça, uma perna que dá a volta pelas costas, uma coisa não muito bonita de se ver, esse tipo de arte que o pessoal entediado e cool de Nova York paga caro para ver e se julgar inteligente de vez em quando. Esse tipo de arte foi muito popular pelo mundo no final da década de 90 e no começo do século 21, e teve lá seus representantes, tipo a Marina Abramovic, que fazia algo parecido, mas não igual. Umas coisas do tipo comer uma cebola inteira crua. É, isso é arte, mas pode ser falta de uma enxada e um lote para carpir, vocês decidem.

Enfim, essa nossa protagonista nos é apresentada numa cena tediosa de rotina com o marido, com quem toma café da manhã. A coisa toda tem ao mesmo tempo uma normalidade familiar e uma estranheza de fluxo, cheia de diálogos incompletos, ideias que ficam na intenção e frases desconexas, mas não absurdas. Algo muito parecido com os livros do Thomas Pynchon, se alguém me perguntar… A primeira frase do livro: “O tempo parece passar”. Olho no lance!

Logo depois, já sabemos do suicídio do marido, um cineasta aparentemente com um ou dois sucessos que levou um vida de fracassos de público e crítica. O luto recente faz com que ela se isole na casinha de litoral deserto onde passaram seus últimos dias juntos. Algo muito pouco indicado para pessoas em luto, vocês poderiam sugerir. Mas é o que ela faz, fica lá amargando a vida e olhando uma câmera de vigilância de uma estrada da Finlândia que tem streaming ao vivo. Mais uma vez, aqui, a ilusão de tempo real, transposição do espaço e etc. Coisas que entram em evidência…AGORA.

Eis que a mocinha tá lá, trabalhando em suas bizarrices corporais, quando percebe que há um intruso na casa. Um homem, de idade indefinida, que às vezes parece velho, às vezes parece novo. Ele não fala coisa com coisa e é capaz de emular a voz dela e do marido morto, reproduzindo diálogos completos entre eles. É um pouco surreal a pouca atenção que ela dá ao fato, dedicando-se a uma reflexão ou outra sobre a presença do Sr. Tuttle, como ela o chama, mas convivendo de maneira relativamente harmoniosa com ele.

Aqui entra a minha análise da história toda: o Sr. Tuttle é, na verdade, a materialização do deslocamento do tempo e do espaço que a body art propõe. É como se tudo o que ela fizesse com o corpo em sentido figurado se configurasse concretamente na figura dessa entidade. Para o Sr. Tuttle, o tempo não é algo linear, e suas falas afásicas refletem isso. Há uma dificuldade de percepção da passagem do tempo quando se está de luto e isolado no litoral deserto, afinal de contas. É como se a body art deslocasse algo para fora de seu corpo, suas lembranças, seu próprio passado, e a confrontação com esse tempo agora inexistente, já que só o presente existe segundo o Dalai Lama, se dá de uma maneira confusa e embaralhada. O passado, enfim, é tão indecifrável quanto o futuro.

A Artista do Corpo é um livro muito diferente dos outros livros do Don DeLillo que eu conheço. Enquanto Ruído Branco e Cosmópolis são mais engraçados, caricatos e culturalmente críticos, este é mais parecido com seu último romance, Ponto Ômega, um livro mega complicado e curto demais pra sua complexidade. Como esse. Ô sujeitinho que resolve escrever 300 páginas de piada e 100 páginas de espremedor de cérebro! Há diversas aproximações entre Ponto Ômega e A Artista do Corpo: uma teoria a ser desenvolvida (sobre o tempo em um livro e sobre o conhecimento em outro), uma arte estranha a ser apresentada (body art e a instação 24 hour Psycho, que passa o filme Psicose, do Hitchcock em super câmera lenta que faz o filme durar um dia inteiro), uma narrativa curta em formato de tríptico, com o miolo da história emparedado por uma introdução e um epílogo um tanto desconexos, qualquer coisa de surreal levemente abordado, etc etc etc. Parece que a literatura do Don DeLillo é um evento cíclico, que alterna entre a introspecção densa e a extravagância caricata, mas é óbvio que isso é uma boa coisa, mostra que o sujeito tem seus momentos e, como Wander Wildner já disse, não consegue ser alegre o tempo inteiro. Melhor do que querer juntar as duas coisas, como o Houellebecq faz às vezes.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é aquela maravilha de sempre, e a capa, por mais que eu não goste muito de fotografias de corpo, tem seu mérito por casar com o conteúdo. Papel pólen, fonte Meridien, que é tipo a avó da Electra, e o formatinho que vocês já conhecem. Vale a pena a leitura porque é meu autor favorito e porque vai fazer vocês pensarem em alguma coisa. Abraços a todos!

Comentário final: 122 páginas em papel pólen. A verdadeira concussão está no cérebro.

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