Leonardo Sciascia – O dia da coruja (Il giorno della civetta)

Il giorno della civettaChega de feriado, né, pessoal? Todo mundo deu aquela enforcadinha na segunda? Fico apreensivo com esses feriados, neguinho faz muita barbeiragem na estrada e acabam matando quem não deve. O feriado de Finados é o feriado menos legal que tem no ano, porque é em homenagem a gente morta. E como aqui a gente não faz nada parecido com El Dia de Los Muertos, é algo meio triste e bucólico. Se bem que, se dependesse de uns moderninhos que tem aí, estaríamos abarrotados de caveirinhas da festa comemorativa mexicana. Sério, de onde saiu essa adoração pelo México? De repente é tequila, nachos, guacamole, Dia de Los Muertos, cactos pintados nas paredes dos butecos, Nossa Senhora de Guadalupe ganhando um zilhão de devotos, zapatistas pleibas, Deus na Céu e Chespirito na Terra, gente dizendo “cabrón” como se fosse muito cool… Gente, na moral, mas de subdesenvolvimento, gente feia, comida apimentada que gera peido fedorento e cultura brega, já basta o Brasil. E os mexicanos que me desculpem. Tenho que pedir desculpa adiantado agora porque apareceu uma albanesa no post do Ismail Kadaré reclamando que eu era preconceituoso com o país dela. Por isso, um recado para a cultura das nações de uma maneira geral: gente, muito cuidado com os estereótipos que vocês exportam. Depois não adianta a Rio-Tur processar os Simpsons, no Brasil tem taxista sequestrador e apresentadora infantil peitura MESMO. Enfim, vamos ao que interessa.

 

Olha só, analisando a minha tabelinha de acessos, percebi que o Leonardo Sciascia é um dos posts menos procurados, e olha que resenhei A Cada um o Seu quando este blog estava começando e os posts eram diários (era uma loucura). Então pensei que talvez o livro não tivesse o apelo necessário para fazer o Sciascia ser mais lido porque, acreditem-me, o cara é muito bom! Sendo assim, vamos falar de outro livro dele, que toca um tema muito mais interessante vindo dos italianos: a máfia!

O dia da coruja foi publicado originalmente em 1960 e parte de um acontecimento real, que é o assassinato, em 1947, de um sindicalista chamado Accursio Miraglia, que, como todo bom sindicalista que se preze, era um comuna, mais vermelho que cabeça de fósforo Fiat Lux. Como a parada foi a mando da máfia, então ficou por isso mesmo porque é tutto Cosa Nostra (hã? hã?). Sciascia começa o romance então com um rapazote assassinado no bonde, na Sicília. Para investigar, vem lá do continente um Protógenese Queiroz da vida. O capitão Bellodi, parmesão (de Parma) convicto e apaixonado pelo próprio país, começa a incomodar todo mundo na cidadezinha do assassinato, e constata a coisa mais cruel sobre a máfia: sua invisilidade. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém sabe de quem é o bagulho que acharam no banco de trás da bumba. (fala sério, “bumba” é uma gíria pra ônibus que existiu por duas semanas, tempo em que o Virgulóides fez sucesso).

A tensão que o livro cria pode ser de livro policial, mas não tem muito mistério. A parada rola mais nos interrogatórios e nos baculejos que o capitão Bellodi dá nos vagabundos. Máfia não é brincadeira, afinal, e não ficam lá botando as caras para se permitirem perseguições de coche e troca de tiros na avenida. A história é muito bem escrita e, principalmente, muito bem narrada, e dá mesmo a convicção de que Leonardo Sciascia é um dos melhores escritores italianos do século XX. E chega, né? Resenha curtinha porque ninguém tá com saco de ler nada depois do feriado! E se quiserem mais informações sobre o livro, acho que a minha OUTRA resenha, mais séria, que fiz pra Revista Paradoxo, ajuda. Para ler, clique aqui.

Essa edição da Alfaguara deu um pequeno upgrade com relação ao outro livro do autor lançado pela editora: a capa passou a ser fosca (a outra era brilhante) e o papel ganhou uma gramatura um pouquinho maior. No resto é o mesmo projeto. A foto em preto e branco da capa (que se eu não me engano foi pega do CORBIS, mas não sei, não estou com o livro à mão aqui) é muito mais tchananã do que aquela outra foto, vamos combinar. O livro tem ainda uma cartinha do Sciascia pra galeraê, então vale a pena, ok? Ah, a tradução desse livro não é do MESTRE Nilson Moulin, mas da Eliana Aguiar, que traduziu nada mais nada menos do que Umberto Eco para o português.

Comentário final: 136 páginas em pólen soft. Pof pof pof!

 

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Leonardo Sciascia – A cada um o seu (A ciascuno Il suo)

Gosto muito quando um escritor teórico, sério e cuja literatura é focada em outro assunto se aventura a fazer algo tão literariamente efêmero quanto um romance policial. Opa, peralá camarada! Romances policiais não são efêmeros (pelo menos não o suficiente), mas digamos que são discriminados assim como um gênero menor. Digamos que o romance policial, se fosse uma mulher em um concurso de misses, seria uma loirassa turbinada. Pode agradar aos olhos do público, mas dificilmente agradaria os olhos dos jurados. Enquanto aqueles a elegessem paradigma de beleza (talvez porque a sensualidade para as massas seja traduzida em volume), estes a achariam clichê e visualmente monótono. Isso não significa porém, que a loirassa turbinada e o romance policial não tenham seu valor e seu lugar (provavelmente junto ao povão). Jorge Coli costumava recomendar a seus alunos que lessem romances policiais, imagino com o objetivo de apurar a lógica e a visão para os detalhes. Eu, que durante o ano de 2004 fui seu aluno duas vezes (mesmo que por um curto espaço de tempo), acatei a recomendação.

O policial do italiano Leonardo Sciascia que trataremos, entretanto, é um livro que, dentro de sua categoria, poderíamos classificar como atípico. A primeira irregularidade não é bem uma irregularidade desde que Agatha Christie a consagrou: o investigador não é um policial ou um detetive, mas uma pessoa comum — no caso, um professor. A segunda fica por conta da linguagem: uma vida dedicada a ensaios políticos e livros satíricos (também sobre a política), refinaram sua escrita ao nível do formalismo peculiar de alguns italianos, como Pirandello em Seis personagens a procura de autor ou Ítalo Calvino em livros como Os amores difíceis e Se um viajante numa noite de inverno. Por isso o amigo Cássio — e faço minhas suas impressões — na ocasião que leu esse livro achou-o chato até sua metade e, uma vez terminada a leitura, uma excelente obra. Alguns são assim mesmo, precisamos terminar a última página para perceber a grandiosidade da bagaça.

Um resuminho: Em uma pequena vila da Sicília, um farmacêutico e um médico são mortos enquanto caçavam. Suspeita-se de infidelidade por parte do farmacêutico (e o médico teria morrido de bucha). A partir daí o professor começa a investigar, com pistas sensacionais e algumas reviravoltas. O que salta aos olhos e a impressão que fica é que Leonardo Sciascia é um excelente escritor.

A história de como esse livro veio parar na minha mão é interessante. Minha mãe uma vez disse-nos que tinha lido um livro em que um farmacêutico morria, e que o livro era muito bom, mas que não lembrava o nome nem o título. No mesmo dia, passeando na livraria, a Carlinha saca um livro da prateleira, lê a orelha e pergunta: “Ei, esse não é o livro do qual sua mãe estava falando?” E era. Achei legal, mas li-o na época em que estava fazendo um pequeno estágio na Gazeta do Povo, descobrindo que de ilustrador eu não tenho nada, então li meio na pressa e ele passou meio batido por mim. Até que ontem a supracitada Carlinha terminou de lê-lo e resolvemos conversar sobre ele. E veio-me a ideia de escrever sobre ele aqui, já que agora ele está sendo vendido ao preço módico de 9,90 nas Livrarias Curitiba.

Sobre a edição: É um dos poucos livros da editora Alfaguara lançados no Brasil com capa revestida de papel couché. Tem uma capa bacana com uma foto de um tal de Antoine Gyori, pegada da Corbis (bendita Corbis, hein?) que por acaso ficou fodassa no livro (no canto da parede tem uma escrita em roxo quase imperceptível, tente ver). No mais, é tudo igual, mas acho que essa escolha da Alfaguara de padronizar os livros em uma mesma diagramação não é tão ruim tendo em vista a excelente qualidade do material. Ah, o livro também foi traduzido pelo genial Nilson Moulin, tradutor de Calvino e outros fodásticos. Nilson, a galera aqui te curte, cumpádi!

Comentário final: 135 páginas pólen soft de gramatura alta. Tem que bater muito pra machucar.