Vídeo: Sobre a reedição do Mein Kampf

Fiz um vídeo correndinho ontem à noite pra comentar sobre esse lance de Mein Kampf aí. Sei que o debate está incompleto e eu sou só um maluco meio bosta comentando sobre coisas além da minha capacidade mas hey, não é disso que vive a internet?

Clica na imagem aí pra ver o vídeo.

mein kampf livrada

Minhas Escolhas para o Desafio Livrada! 2016

Nunca tive um blog em que as pessoas se importavam se eu postava algo ou não. Por isso, não estava esperando a enxurrada de gente me cobrando um vídeo com as minhas escolhas para o Desafio Livrada! 2016, que eu espero que vocês estejam participando. A ideia original era só voltar com o blog em fevereiro e lançar a minha lista lá pelo meio do ano, quando a maioria delas já estivesse publicada em vídeo e no instagram, mas eis que chega a roda viva e faz este humilde bloguinho parecer um samba de uma nota só, porque não tenho falado de outra coisa nesse ínterim. Bom, para deixar todo mundo mais tranquilo, solto já esta carambola, que você pode ver se clicar na imagem abaixo. Até a próxima, amigos!

Desafio Livrada 2016

Cinco calhamacinhos pra ler em janeiro (se quiser, se não quiser não faz nada fica peixe no sapatinho sossegado na moral tranquilidade rapaz)

Olá, queridos leitores do Livrada!

Tenho recebido muitos leitores novos nos últimos tempos, então pode ser que muita gente ainda não saiba que durante o mês de janeiro, o Livrada! não trabalha. Quer dizer, trabalha em termos de leituras, acumulando material para fazer os vídeos do resto do ano, porque eu não sou um leitor tão rápido e, pra piorar, tenho uma porção de coisas para fazer no meu tempo livre (tenho dois empregos, quem sabe como é sabe como é). Mas isso não quer dizer que eu não possa vir aqui conversar com vocês nesse meio tempo. Enquanto não arrumo uma hora pra sentar e responder os comentários do Desafio Livrada! 2016 (acho que vou fazer um vídeo só pra isso), resolvi deixar aqui dicas de leituras para esse mês de férias e de descanso para a maioria dos leitores novinhos ainda em calendário escolar. Não são clássicos desafiadores nem nada do tipo, são só livros meio grandes que eu gostei muito de ler e que faço sempre muita propaganda para que as pessoas leiam. Ora, longe de mim passar o ano aqui do alto da minha masmorra atochando desafio em vocês. Então lê quem quer, quem não quiser não lê. E quem sabe algum desses livros se encaixe em uma categoria do Desafio Livrada! de vocês.

 

1- Yu Hua – Irmãos

12443_gg

 

Eu não sei o quanto vou ter que indicar Yu Hua pra vocês pra alguém ler, mas aqui vai mais uma tentativa. Irmãos é um livraço. É grande, mas muito, muito difícil de deixar de lado sem ler umas 80 páginas de uma vez só. É triste, engraçado, comovente, patético, alarmante e odioso, e narra a história de dois meio-irmãos que crescem durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural na China, mas falar mais do que isso é spoiler. Para quem quiser saber mais, resenhei ele aqui.

 

2- Daniel Defoe – Moll Flanders

page_1

Quem gosta de Robinson Crusoé sabe que o mérito do livro está, em grande parte no jeito como Defoe conduz a narrativa, viciante pra caramba, elaborada a partir de poucos elementos. Moll Flanders também é assim. Lançada pela já finada Cosacnaify, o livro tem um bom tanto de páginas mas é igualmente delicioso. O título completo do livro já dá uma ideia da saga:

As venturas e desventuras da famosa Moll Flanders & Cia., que nasceu na prisão de Newgate, e ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Escrito com base em suas próprias memórias.

Para quem se interessar, falei dele em vídeo aqui.

3- João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

grande-sertão

 

Ler Grande Sertão: Veredas não é apenas um privilégio que todo brasileiro tem à sua disposição: é um dever ler esse livro e, ao final dele, constatar que o português é uma das línguas mais incríveis que a humanidade poderia conceber. Eu sei o que vocês vão dizer: que é complicado, que não dá pra entender porra nenhuma e que é muito grande, como os outros livros que eu coloquei aqui, e eu tinha prometido que não ia jogar grandes catataus desafiadores nessa lista. Amigo, o único desafio aqui é você perder seu medo e encarar o melhor livro já escrito em língua portuguesa. Vai por mim e me manda uma caixa de bombom depois pra agradecer, porque eu mereço. Foi o primeiro livro que resenhei nesse site, há seis anos atrás, mas nem leia porque eu era muito bobão e ainda mais raso naquela época. Ou leia, a internet é livre.

 

4- Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras

Capa Pantaleao e as visitadoras - Ponto de Leitura.indd

 

What? Esse livro nem é um calhamaço. É só divertido pra caramba. A menos que a ideia de um milico CDF do exército escalado para uma missão secreta de levar prostitutas até os soldados da fronteira do Peru que estavam muito precisados e que acabou desenvolvendo um esquema gigantesco de prostituição na selva amazônica, tudo contado por meio de cartas, não pareça divertido pra você. Mas só pra constar: você é um quadradão. Resenhei ele aqui.

 

5- Don Delillo – Ruído Branco

Ruído Branco

 

Sério, eu não sei mais o que eu faço pra convencer vocês a lerem Ruído Branco. Não sei, juro. Vou colocar ele nessa lista como a minha última tentativa (dessa semana). Porra, você ainda não está lendo Ruído Branco? Resenhei aqui.

Desafio Livrada! 2016

Mais um ano, queridos leitores. Estamos aqui seguindo firme e forte nessa brincadeira de ler livros e falar sobre eles na internet. Como é tradição todo ano há uns quatro anos, abro a temporada 2016 com o Desafio Livrada! Mais uma vez com 15 categorias, 14 das quais você escolhe e uma delas quem escolhe sou eu porque alguém precisa salvar um desavisado de encher o ano com Danielle Steel e afins.

Todos os anos o Desafio Livrada! tem por trás de suas categorias uma intenção geral. A do ano passado, carinhosamente e oficialmente-não-oficialmente batizada de Highway to the Danger Zone, tinha como objetivo fazer o leitor sair de sua zona de conforto e entrar em uma zona de perigo, com leituras desconfortáveis, pouco usuais. A desse ano, como pode-se perceber (ou não pode-se perceber), é aquela mesma daquela plaquinha que dizia γνωθι σεαυτόν, ou “Conhece-te a ti mesmo” em letras não-escrotas.

Mais do que isso, gostaria de propor ao leitor desse ano um mergulho não só um ano de auto-conhecimento, mas um ano de conhecimento literário um pouco mais erudito. Temos entre as categorias um prêmio Nobel, um cânone da literatura, um livro russo e algumas outras que podem fazer com que o leitor adentre 2017 tendo vencido alguns traumas de sua vida de leitor iniciante ou experiente. As outras categorias fazem parte do processo de conhecimento interior. Com elas você vai descobrir por que comprou um determinado livro que lhe pareceria ilógico de comprar, quais os guilty pleasures que lhe fazem bem, qual é a literatura produzida na sua terra e qual o seu trauma de nunca ter lido nada que seus amigos já leram.

E o que você faz com tudo isso, você pode estar querendo me perguntar. Nada, amigo. Faz quem quer, quem não quer não faz. Fica peixe. Mas quem quiser brincar como centenas de pessoas que já toparam a brincadeira pelo instagram, é só fazer sua lista de livros que se encaixe em cada uma das categorias, botar a leitura pra frente e, se quiser, compartilhar com a gente, seja em forma de vídeo, seja em forma de foto no insta, usando a hashtag #desafiolivrada2016, como você pode ver alguns exemplos já postados. Seguem as categorias:


1- Um prêmio Nobel
2- Um livro russo
3- um cânone da literatura ocidental
4- uma novela
5- Um livro que você não sabe por que tem
6- Um autor do seu estado
7- Um livro publicado por uma editora independente
8- Uma ficção histórica
9- Um livro maluco
10- Um livro que todo mundo já leu menos você
11- Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta
12- Um livro bobo
13- Um romance de formação
14- Um livro esgotado
15- As aventuras do bom soldado Svejk

Dúvidas sobre as categorias? Segue o vídeo explicativo. É só clicar na imagem abaixo. Ou pode deixar sua dúvida nos comentários do vídeo que eu respondo também :)

Desafio Livrada 2016

Ainda não sabe do que eu estou falando? Veja aqui os outros:

Desafio Livrada! 2015

Desafio Livrada! 2014

Desafio Livrada! 2013

Desafio Livrada! 2011

Pedro Bandeira – A Droga da Obediência (e um pouco sobre A Droga da Amizade)

Antes de começar, só uma informação inútil que sei que não faz a menor diferença para vocês, caros leitores, mas não deixa de ser um marco: cheguei, no documento de word em que escrevo esses textos mal bolados, à página de número 300. Isso teria acontecido muito antes se eu não tivesse escrito em viagem ou se começasse uma resenha nova a partir de uma página nova, mas como é tudo colado um no outro e só escrevo nesse arquivo quando estou em casa, fica por isso mesmo e celebramos agora a efeméride efêmera de 300 páginas de literary bullshit yeah!

Pedro Bandeira foi o meu escolhido para o Desafio Livrada! 2015 na categoria de livro Infanto-Juvenil (e como vão vossos desafios, falando nisso?). Já havia lido ele anos atrás, e o reli meses atrás, mas só agora estou escrevendo sobre ele, para comentar um pouco sobre um tempo de literatura infanto-juvenil que não volta mais (e não sem razão). E atenção: tem spoiler. Mas se você se ofende com spoiler de livro infanto-juvenil, talvez não esteja tão preparado para discutir literatura aqui com a gente, os caras legais.

Para quem não conhece a história, o livro é a primeira aventura da turma autointitulada Os Karas, “o avesso dos coroas, e o contrário dos caretas”, como segue o bordão (voltaremos a ele mais tarde, guarde essa informação). Os Karas são uma turma de estudantes de um colégio de classe alta chamado não por acaso de Elite. Miguel, Cadu, Crânio e Magrí, posteriormente anexando o menorzinho apelidado de Chumbinho se envolvem em uma conspiração para dominar o mundo quando descobrem que crianças de colégios chiques estão sendo raptadas, e para fins maléficos: testes com uma tal Droga da Obediência, um remédio capaz de eliminar o livre arbítrio da mente humana e transformar qualquer pessoa em um robô de carne e osso, sempre pronto para atender ordens e nunca capaz de discutir qualquer atitude. Dominação mundial, o pinky e o cérebro o cérebro e o pinky, vocês já conhecem as premissas para esse tipo de coisa. Por meio de deduções lógicas, códigos secretos e disfarces, e um pouco de ajuda da polícia, os amigos eventualmente conseguem desmantelar um esquema sinistro desses. Louco, né?

Pois bem, um pouco sobre o background da Droga da Obediência: o autor conta em diversos debates e entrevistas que teve a ideia para o livro a partir de uma enxaqueca infernal que não o deixava a menos que um remédio específico fosse tomado. Quando o laboratório fabricante anunciou a retirada do produto do mercado, Bandeira se revoltou e se viu, pela primeira vez, à mercê de farmacêuticos, de quem seu bem estar físico dependia bem mais do que gostaria. A partir disso, criou algo que remotamente dialoga com a questão da censura e do medo disfarçado de paz durante o período da ditadura militar ( o livro foi lançado em seus últimos anos). A partir daí, A Droga da Obediência vem alimentando um circulo vicioso de adoção escolar. A coisa funciona assim: as crianças que leram a Droga da Obediência na época em que foi lançado se tornaram professores de ensino infantil e, quando chega a hora de indicar algum livro infanto-juvenil pra molecada começar a gostar de ler, bate a nostalgia e esse livro aparece. Algumas crianças dessa segunda geração crescem para também se tornarem professores do ensino fundamental, e o ciclo se repete. De maneira que Pedro Bandeira hoje é um best-seller de adoção escolar e praticamente um anônimo nas livrarias, e resiste aos anos alheio ao boom de literatura infanto-juvenil fantasiosa, jovem-adulta ou o que quer que você queira chamar essas porcarias com capas super produzidas que abarrotam os expositores das megastores Brasil afora. De maneira que pode-se dizer sem muito medo de errar que o sucesso de A Droga da Obediência tem méritos muito mais sentimentais do que literários.

650x375_pedro-bandeira-escritor_1442936Convenhamos que, ao mesmo tempo que existe um processo de infantilização geral da juventude em andamento, a inocência é muito pouca, e uma história de aventuras desse tipo, tão simples e tão linear, pode ser muito pouco atrativo para um adolescente hoje que lê três ou quatro livros de 300 páginas (de pura bosta, mas vá lá) por semana. Temos aqui falas heroicas, recursos narrativos manjadíssimos de Cliff hanger e coisas do tipo, e, ulteriormente, uma inocência comovente, reforçada particularmente no último livro da série d’Os Karas, a Droga da Amizade. Escrito 14 anos depois da última história da série, Bandeira mostra Os Karas já adultos e fazendo coisas absurdamente irreais, como ganhando prêmios Nobel, curando epidemias e a fome na África, ganhando Oscars e, revelação máxima do final do livro, descobrimos que Miguel se tornou presidente do Brasil, o que é uma coisa que faz completo sentido para leitores norte-americanos, mas não conheço nenhuma crianças que aspire o cargo executivo hoje em dia, muito menos atribuindo significado tão grandioso para a faixa presidencial em um sistema de coalizão que já deixa claro quem é que manda nessa bagaça e qualquer criança que consegue ler um romance pode muito bem saber disso. Presidente do Brasil, ora essa…

Não é de estranhar que o slogan d’Os Karas tenha um significado arcaico impossível de ser resgatado hoje com os mesmos valores. Primeiro porque ser “o cara” já não é muito mérito em épocas de feminismos e afins, segundo porque ser o avesso dos coroas e o contrário dos caretas pode sugerir a imagem de uma praia com a natureza fornecendo subsídios para a construção de arte natural a ser comercializada entre um baseado e outro. A frase pode ser tão pervertida pelo sentido que as palavras têm hoje em dia que não há como não questionar a inocência nos livros do Pedro Bandeira. Aí alguma professorinha nostálgica de sua época de jovem leitora vai dizer que é justamente a inocência de nossas criancinhas que precisa ser resgatada no Brasil. Não, dona, a senhora está errada e se alguém começar um movimento de resgatar a inocência pode ficar com o pé atrás que existe um significado oculto de retrocesso nesse resgate de inocência a qualquer custo. O mais irônico é que a mensagem que a Droga da Obediência passa é que inocência e obediência não são valores a serem preservados, pelo contrário: “só a desobediência é capaz de transformar o mundo. A obediência só perpetua os mesmos erros de sempre”, diz em certa altura o protagonista do livro, mas estou parafraseando.

O que ficou para mim de lição da releitura dos livros do Pedro Bandeira é essa ideia de que clássicos são clássicos porque nunca terminaram de dizer algo sobre um assunto, e esse não é o caso aqui. A Droga da Obediência é um clássico porque o sistema atual de ensino assim o quer, da mesma maneira como obras literárias clássicas de valores altamente discutíveis (mas não entremos nesse mérito por agora) perpetuam leituras chatérrimas e fazem um desserviço à leitura em geral. Minha mãe, que é professora, deu de presente um A Droga da Obediência para um priminho meu, pra ver se ele começava a gostar de ler. Ele nem se ligou. Mas por outro lado, demos um Lemony Snicket e ele tampouco se importou, então não esperem conclusões de nada disso. O que queria dizer é que existem coisas que fazem sentido durante um certo período de tempo e que são alçadas a condição de clássico por fatores outros que não o mérito literário da coisa. Por outro lado, o que as professorinhas fazem com Pedro Bandeira, muitos críticos afetuosos fazem com outras obras sem quem conteste, mas alguns são mais referendados do que outros e a coisa fica por isso mesmo. Mais uma vez, deixo a questão no ar.download

A Droga da Obediência já foi publicada em trocentas edições, mas a edição que eu tenho é da editora Moderna, que fez uma capa que, me disseram, já foi chupada de Marvel Comics – a História Secreta, publicada pela Leya, e vou até deixar a foto aqui pra vocês tirarem suas próprias conclusões. Nada de muito notável para adicionar sobre o projeto gráfico, exceto que ele mantém ilustrações muito antigas feitas a lápis que até servem para ilustrar eventos dos capítulos sem, contudo, revelar os rostos dos personagens. Acho que isso tem a ver com o fato de que Pedro Bandeira jamais determinou a idade dos Karas, tentando deixar a obra a mais aberta possível para a identificação com o leitor. Acho que é isso, já falei demais, falem vocês aí.

Comentário final: 150 páginas de inocência perdida. Yeah!

Vídeo: Entrevista com Diego Vecchio

Estava na Flip e me foi oferecido uma entrevista com o convidado argentino Diego Vecchio, que publicou o livro “Micróbios” pela Cosacnaify, uma proposta bem interessante e um livro bem resolvido depois de um começo meio decepcionante.

Como expliquei na descrição do vídeo, ia ter legenda, mas acabou que não teve porque não tô mais com tanto tempo livre assim, e essa máquina não para. Mas ele fala direitinho e devagar, não acho que alguém vá ter problema para entender o castelhano do cara.

Clica na imagem aí!

vecchio.Still001