Gonçalo M. Tavares – Matteo Perdeu o Emprego

Gonçalo TavaresO post de hoje é para provar pra vocês de uma vez por todas que se vocês me indicam um livro e eu realmente me interesso por ele eu leio. Mesmo que demore dois ou três anos pra isso. O processo é lento e o bagulho é loko, jão. Fato é que o leitor Sueliton leu Matteo Perdeu o Emprego, do tuga Gonçalo Tavares e resolveu me indicar com muita insistência para que eu lesse e desse minha opinião. Acho que era isso que ele queria: minha opinião. Sim, porque a análise da obra propriamente dita o próprio Gonçalo já fez no posfácio do livro. De certo que ele ficou com medo de ninguém entender o livro com a profundidade que ele escreveu de modo que encheu o fim de notas filosóficas e analíticas sobre o que acabamos de ler. E depois vocês acham que piada de português é algo criado a partir da cabeça imaginativa dos brasileiros.

Bom, vejamos o que pode ser dito sobre Matteo Perdeu o Emprego, ficando aqui livre da obrigação de comentar coisas profundas sobre a obra (thanks, Gonçalo). O livro é um híbrido de conto e romance. Híbrido porque é um romance em que cada capítulo desenvolve uma história com um protagonista diferente. Um chama o outro, em ordem alfabética, e assim a história vai. Aaronson é um corredor que corre em volta de uma rotatória até que é atropelado por Ashley, que precisava entregar uma encomenda a Baumann no número 217 de uma rua que é composta apenas por números 217; Baumann que limpava o lixo e era observado por Boiman, que é interrogado por Camer, que pergunta sobre o homem dos tiques chamado Cohen, que é convidado por Diamond para uma viagem, e por aí vai. Isso até chegar no tal Matteo, que perdeu o emprego e é contratado por uma jovem chamada Ana, que não tem braços, para fazer as paradas por ela. O fato do título do livro fazer referência a Matteo sugere que precisamos percorrer tudo isso para chegar nele, e isso é dito no meio da história, o que é deveras bizarro, mas enfim. Fato é que a história toda até esse ponto é um exercício de conexão e hierarquia, ao que parece, numa mensagem clara de que algumas coisas seguem uma ordem que não podem ser desconsideradas. E tudo volta ao começo quando Matteo se encontra com Nedermeyer – descrito no capítulo “Nedermeyer e a primeira rotunda”, que é um capítulo marcado no índice sem paginação e sem uma divisão na história (esses portugueses não têm mais o que inventar mesmo) que fala a ele sobre o atleta Aaronson que acabou de ser atropelado. Meio furada porque na história de Diamond a narrativa dá saltos de décadas no futuro, desde que precisou dar aulas a uma classe primária do lado de um montão de lixo. Não sei como a história voltou, mas vamos supor que nesse livro a coisa se trata de mágica. Sim, porque na capa do romance, tem um suposto elogio do Le Figaro que diz que Matteo Perdeu O Emprego é um Kafka português. Bom, gente, o Le Figaro não é exatamente um expert em Kafka como se pode perceber por esse comentário, mas por outro lado, acho que qualquer coisa que pareça desnecessária, sem sentido e aparentemente muito mais profunda do que se supõe é chamada de kafkiana. Há que se acabar com esses adjetivos, manolo. Há que se acabar com eles. Já deu o que tinha que dar. E o que pensaríamos sobre essa condução narrativa que usa personagens como elos de uma corrente para chegar a uma ponta e contar dez páginas de história? Existe uma história única? Existe uma história, afinal de contas? Sei lá, vou deixar a análise pro posfácio do Gonçalo, acho que ele já disse o que queria dizer sobre a obra. Da minha parte, cativou como Gonçalo M Tavaresexercício, mas não como livro. Broder, na boa, não encerre um livro maluco com um posfácio que começa citando Musil que não vai dar pra levar em consideração. Eu posso ser um cara raso, mas pelo menos eu sei disso, e não vou ficar citando Musil na tentativa de dizer o contrário. E na verdade eu tava gostando bastante da coisa toda até chegar a essas notas. Sério, pra quê isso? Argh, cara, tô indignado. Por quê, mano? Por quê???? Pra quê? É um livro, cara! Um livro que seria bom se não me metessem uma porção de análise goela abaixo. Isso me irritou e pode não ter sido essa a intenção e a coisa toda – as notas – podem ter uma razão de ser dentro do romance, e podem ser parte do romance apenas divididas em um capítulo chamado “Posfácio” só pra te enganar. Mas isso é dar muito crédito pra coisa. Minha sugestão: leiam o livro, não leiam o posfácio. Leiam o Posfácio, o site, mas não leiam o posfácio de Matteo Perdeu o Emprego, porque não fez nada a não ser me aborrecer. É o mesmo tipo de irritação que senti quando assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e percebi que o filme não tava me dando margem pra não gostar dele sem parecer um velho rabugento mal amado. Ao contrário do povo do Facebook, eu gosto de ter minhas próprias análises e minhas próprias opiniões a respeito das coisas. Mas esse sou eu, né? Eu entendo como as pessoas podem se encantar por esse livro, porque afinal é um livro verdadeiramente autêntico e esse mérito ninguém lhe tira, mas acho que o lugar dele na história é algo para ser decidido pela própria história, e o Gonçalo não é nenhum poeta bobo de esquina pra ficar falando pras pessoas porque é um sujeito ímpar. Ele ja é consagrado, respeitado e talentoso, não precisa desse troço aí.

O livro foi publicado pela editora Foz, que achava que era portuguesa, mas na verdade é de Ipanema. Que coisa. De qualquer jeito, a editora caprichou bem no formato e no projeto gráfico do livro, com papel pólen de gramatura 90, o que é algo fortíssimo pra um livro hoje em dia, fonte Celeste, que é um pouco mais arredondada do que eu estou acostumada, mas boa tamém, uma capa meio bizarra e meio assustadora de um boneco segurando um jornal e um cigarro e ah! O livro acaba ainda com uma citação do Giorgio Agamben. Já dá pra puxar a alcunha de pedante pra esse livro ou tá cedo ainda? Tem Musil, Agamben, Burroughs na epígrafe do posfácio, “Um Kafka português” assinado pelo Le Figaro na capa e uma orelha escrita por alguém que entendeu tanto desse livro quanto eu, e na contracapa ainda tem o Saramago falando que o cara vai ganhar o Nobel um dia! Calma, galera, segurem suas vadjáinas aí que assim eu não aguento!

Ps: Mas a história do cara com o macaco no final é legal pra caramba. Realmente gostei.

Comentário final: 156 páginas em papel pólen 90. O maior, o mais magnífico, o mais inteligente livro já escrito está aqui!! Corram antes que a profecia do Saramago se concretize!

Alejandro Zambra – Formas de Voltar para Casa (Formas de volver a casa)

formas de volver a casaToda semana tem post, todo mês tem vídeo, todo ano tem Zambra! Vamos a um post curto nessa semana porque, sei lá, porque sim. Aliás, vocês reparam quando um post é mais curto do que o outro se eu não avisar? Acho que não, né? Não vou mais falar nada sobre esse assunto.

Vamos falar do livro do Zambra, que comprei numa promoção da Cosac, porque promoção da Cosac é igual meia-entrada em show: Tem toda hora, todo mundo pode, e quem não aproveita claramente tem problemas. Peguei o livro e o livro pegou uma chuva desgraçada num compartimento da minha mochila em que tinha esquecido o setlist de um show que a minha banda fez de modo que a tinta do pincel atômico do papel se diluiu na água e manchou meu exemplar inteiro, que por si só já estaria bastante arruinado só pelo toró. Mas a estante é feita de livros ferrados também, então vamos aguentar que nem homem e falar direto do conteúdo, que é o que importa, muito embora alguns blog se vlogs no youtube estejam tentando te fazer pensar o contrário.

Minha história com a literatura do chileno Alejandro Zambra começou, como para muitos, com Bonsai. Fiquei estupefato pela criatividade e pelo quanto o sujeito conseguiu dizer com tão poucas palavras (o livro é minúsculo). De modo que quando a Cosac lançou A Vida Privada das Árvores (que também fala de plantinha no título), resolvi adquirir num escambo maroto no Skoob. Li e achei muito fraco em comparação ao outro, mas mesmo assim resolvi pegar esse Formas de Voltar pra Casa porque Zambra tem a vantagem de escrever livros extremamente curtos, o que facilita uma segunda ou terceira chance caso você não tenha gostado de um dos livros dele (tente ter essa benevolência com o Thomas Pynchon). E gostei disso, porque Formas de Voltar Pra Casa é melhor que A Vida Privada das Árvores, mas menos melhor que Bonsai.

O romance parte de um terremoto que aconteceu em 1985 em Maipú, quando o narrador, que também é escritor, era uma criança de nove anos e se aproxima de uma menina chamada Claudia, que lhe incumbe a estranha missão de vigiar seu estranho tio Raúl, sem saber exatamente o porquê. A história então dá saltos no tempo e mostra o narrador em meio a uma vida amorosa conturbada, em meio ao processo de escrita do livro que estamos lendo e tentando passar em revista a história de sua infância e o relacionamento com seus pais. E entre as divisões do livro e esses elementos brotam questões: somos protagonistas de nossas próprias vidas quando somos crianças? Passamos a ser protagonistas de nossas próprias vidas em algum momento? O que é ser adulto e o que é ser criança, por que temos a necessidade de revisitar alguns episódios de muitos e muitos anos atrás e por que somos essas bolas de dúvidas? Aliás, a orelha do livro é assinada pelo Alan Pauls, e abre assim: “O que é voltar pra casa? Uma saída ou uma condenação? Esse é o dilema que dilacera esse romance triste e perfeito”. E não posso concordar com o escritor que o livro é pontuado por esse dilema, no meu entendimento ele é sobre uma coisa completamente diferente.

Alejandro ZambraÉ bem verdade que os livros do Zambra parecem dizer muito mais do que realmente dizem, muito embora a gente na maioria das vezes não saiba especificar o quê, exatamente. Mas acredito que essa volta para a casa, que se apresenta durante o romance em vários contextos e com vários significados diferentes, não pode ser resumida a uma só questão. Existem diversos motivos para se voltar para casa, inclusive para se voltar para a casa dos pais depois que a deixamos em definitivo para construirmos nossas vidas. Enquanto é criança, saber voltar para casa é uma prova de orgulho, uma demonstração de maturidade necessária para se perceber um pouco protagonista de sua própria vida; já enquanto adulto, voltar para a casa dos pais é um gesto de humildade, de tolerância e de verdade. Quando o narrador confronta o pai sobre seus ideais políticos durante o regime de Pinochet podemos ver como pode ser dolorosa a volta a casa e ao passado, e ao mesmo tempo como o gesto se faz necessário. Voltar pra casa é se redefinir.

Sobre ser protagonista na infância, o autor faz uma brincadeira com as divisões do livro. Uma delas se chama “A literatura dos pais”, quando o narrador já é adulto e percebe o quanto não tinha importância enquanto personagem quando criança, razão pela qual precisa reatar essa ponta da vida para enfim dar protagonismo a seu eu criança, e outro se chama “A literatura dos filhos”, quando ele sai de casa e começa a se tornar protagonista de sua própria literatura. A primeira parte, sobre a infância em Maipú e o terremoto, se chama “Personagens Secundários”, por essa mesma razão. E acho que com isso o que ele quer dizer é que é preciso maturidade para ser protagonista, que meramente agir, como a criança que espiona um tio de outra criança, não é o bastante. O protagonista precisa ter uma história, um background, e sem isso não é possível ter consistência. Achei legal.

Essa edição da Cosac segue o mesmo projeto dos outros livros, com capa texturada, uma cor diferente para a capa, papel pólen e fonte Arnhen, mas com uma diagramação com muito menos margem que o Bonsai, o que faz de Formas de Voltar pra Casa um dos maiores livros do Zambra publicados aqui no Brasil, com suas 157 páginas. Ah, e a tradução é do José Geraldo Couto, que é um cara massa, e tem uns poemas revisados pela Josely Vianna Baptista, que também é super competente. Essa galera, viu… só agregando valor.

Comentário Final: 157 páginas em papel pólen soft. Bate nas quiança, ensina as quiança, as quiança aprende tudo na marra…

Milton Hatoum – Dois Irmãos (e entrevista com Gabriel Bá e Fábio Moon)

Dois irmãosVamos juntar os dois lados do livrada. Literatura e quadrinhos, texto e vídeo, tiozões e novinhos, carne e unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja, dois amantes, DOIS IRMÃOS! A obra mais bombada de Milton Hatoum (depois, talvez, de Cinzas do Norte) foi adaptada para a nona arte por dois dos melhores artistas do ramo que temos hoje no Brasil, então vamos falar um pouco do romance, e ao final, deixo aqui o vídeo com a entrevista que fiz com os quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon.

Dois Irmãos, vamos lá, sem enrolação. O romance é uma dessas sagas familiares que perpassam décadas, uma coisa que com certeza a nossa literatura nacional faz muito bem, e os exemplos afloram e estão aí pra quem quiser ver, não vou ficar citando, só vou dar uma dica. Pois bem, só que essa história fala de imigrantes libaneses em Manaus. Hatoum é descendente de libanês e manauara, então dá pra ver uma coisa: não é vencedor do prêmio Top-of-Mind, mas libanês em Manaus também é Brasil. Parece que tem uma colonização forte por lá. A história gira em torno de dois irmãos gêmeos: Omar e Yaqub, eles são filhos de Zana e de Halim, um comerciante taradão que quer menos bater ponto do que bater no pandeirão da patroa, como qualquer brasileiro sensato. Essa personalidade ambígua de Halim se desdobra em um maniqueísmo claro como Michael Jackson em fim de carreira: Yaqub é só ambição e seriedade, ao passo que Omar é só desejo e prazer. Moleza, né?

DoisIrmaosSó que a coisa não é tão simples assim: embora com personalidades marcantes e relativamente rasas em comparação ao pai, os irmãos transitam na área cinzenta entre o bem e o mal (que existem e você pode escolher). Os dois tretam desde criança e é claro que tudo começa com mulher. Lívia, a vizinha gatinha deles, é aqui meramente objeto de disputa, e não desempenha papel maior do que esse, mas dá o estopim para uma colisão eterna e constante dos gênios dos gêmeos (aliteração é um troço tão feio, mas não digam isso pro Humberto Gessinger). A partir dessa richa, quando Yaqub tasca um beijo no escurinho do cinema caseiro em Lívia e Omar faz um retalho na cara do irmão com um pedaço de garrafa, o destino dos dois se separa violentamente. Isso começa lá antes da Segunda Guerra Mundial e segue até mais ou menos o começo da década de 90. Esse é todo o escopo temporal do romance.

Falemos de alguns aspectos desse livro. O primeiro: a cidade. A Manaus descrita por Milton Hatoum é fantástica. Parece ser uma cidade viva, pulsante, cosmopolita e cheia das possibilidades que, ao longo da história vai se deteriorando na mesma medida em que a família de Halim. A decadência da cidade e a decadência familiar andam juntas de maneira muito sutil, mas deixa claro o elo entre falibilidade pessoal e coletiva. Manaus hoje é um lugar sujo, acabado, negligenciado pelo resto do Brasil como sempre foi e entregue ao Deus-dará, por razões egoístas que se deram conjuntamente com a degradação familiar presenciada nesse livro, mas também por tantas outras famílias reais. Mas por hora, é uma puta cidade que vale a pena ser vivida, e que de fato é vivida por Omar, que fica lá se engraçando com as moças, gastando todo o dinheiro do pai em brega e forró, enquanto Yaqub, depois de um exílio forçado no Líbano por conta da agressão do irmão, volta para se dedicar a ser arquiteto (olha só, como o próprio Milton Hatoum!) e ir morar em São Paulo (olha só de novo!) e etc outros spoilers que não valem a pena aqui ficar citando. Dois Irmãos também é a história de Duas Cidades: a cidade rica e próspera, representada pela escolha de padres salesianos em que os irmãos estudam, e o pardieiro chamado de Galinheiro dos Vândalos, um liceu porcaria onde se formam as más influências que mais tarde contribuiriam para a degradação urbana. De modo que Manaus, assim como Halim, representam os dois lados dos dois irmãos. A seriedade, a oportunidade e a ambição, e também a preguiça, a violência e a devassidão. Bom, bom.

M-HatoumOutro aspecto: a narrativa. O livro é narrado em primeira pessoa por Nael, um menino índio com mais ou menos a idade do autor e que mora na casa e é filho de Domingas, a cunhatã que o casal adota em troca de trabalho. Escravidão acabou no Brasil, gente, mas mais ou menos, viu? A gente só demora para sacar quem ele é e qual é o nome dele, mas no geral ele é uma presença constante no romance, e muito do que acontece não é necessariamente presenciado por ele, mas relatado a ele por Halim no fim de sua vida. De modo que é uma narrativa pessoal-impessoal cheia de charme por dizer só o necessário e não muito além disso. Ah, e o narrador é filho de um dos gêmeos, mas não deixa claro qual, e a relação dos irmãos com Domingas é dúbia o bastante para deixar isso no ar, mas fico com a opinião de que ele é filho de Omar porque só isso pra ele e a mãe aguentarem a presença dele por tanto tempo. Ainda assim, as passagens mais emocionalmente marcantes são quase todas relatadas por Halim do que por Nael, à exceção de uma ou outra, o que mostra uma quase imparcialidade do narrador no peso da narrativa no que diz respeito ao seu testemunho. Rebolation é bom, bom, bom.

Por fim, os personagens. Sempre que irmãos gêmeos aparecem na literatura ou no cinema, segue-se, uma regra. Se são coadjuvantes, são idênticos em tudo. Se são protagonistas, são opostos completos. Nenhuma grande criatividade aí, mas o autor conseguiu conferir com muito pouco traços de uma humanidade rara na literatura brasileira contemporânea, marcada notadamente por autômatos da narrativa. Algumas reações dos dois são imprevisíveis, e não há como não se decepcionar com ambos em vários momentos da narrativa. Um trabalho de profundidade que Erico Verissimo conseguiu muito bem em dois volumes de O Retrato, por exemplo, Milton Hatoum conseguiu com pouco menos de 300 páginas, e com duas pessoas. Não tão a fundo assim, mas vá lá, bom pra caramba.

E enfim, o livro é um best-seller até hoje, diz que vai virar mini-série, diz que vai virar filme, mas a verdade concreta é que virou uma HQ nas mãos dos quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon, os mesmos responsáveis por Daytripper, já resenhado aqui. Segue abaixo a entrevista com os dois, um pouco antes da mediação na Itiban Comic Shop. Não ficou como eu gostaria que ficasse, mas foi falha minha mesmo e o lance é tentar melhorar sempre. CLICA NA IMAGEM!

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Vídeo: Entrevista (com choque) com Melina Souza

A Mel é hoje uma das blogueiras mais famosas do Brasil, mas eu conheci ela antes dessa vida, quando estudava com o irmão dela, que era meu calouro na faculdade. Fiquei amigo da família e, anos depois, quando entrei nessas de Youtube, ela resolveu me convidar pra gravar um vídeo com ela, e assim fui apresentado para o mundo virtual. Achei a ideia legal e resolvi gravar um vídeo para o meu canal também.

O resultado é essa entrevista pingue-pongue em que de quebra, tanto entrevistado quanto entrevistador levam choques elétricos provocados por uma bolinha manufaturada no inferno pelo capeta em pessoa. O resultado você confere clicando aqui na imagem abaixo.
Mel

E caso alguém por acaso não conheça a Mel e se interesse por fotos bonitas e dicas de coisas fofas, siga-a nessas redes sociais:

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E mais uma vez preciso agradecer à Mel pelo carinho e pela receptividade nesse lance youtubístico. Aprendi muito com ela e espero aprender mais sobre dominação mundial mediante vlog. Beijo, Mel!

Nikolai Gógol – O Capote e outras histórias

gogolVamos ao livro de contos do Gógol que eu deveria ter comentado ano passado e acabei deixando pra esse ano. Quem não gosta de spoiler, troca logo de post ou de site ou de computador porque aqui vai ter alguns porque a gente vai falar sobre a obra do Gógol e não dá pra fazer omelete sem quebrar uns passarinhos na mão.

Gógol, que já resenhamos por aqui em Tarás Bulba, Avenida Niévski e A Briga dos Dois Ivans, deve ser hoje um dos meus russos favoritos (tecnicamente ucraniano, mas não estamos levando em conta tecnicalidades hoje), e a razão disso é, em grande parte, pela prosa fluída e extremamente fácil de ler que ele desenvolveu, aliada a um senso de humor que, sei lá, deve ser muito parecido com o meu, porque rio alto lendo ele às vezes. Não é difícil perceber, pela leitura deles, que as preocupações que ele tem em sua literatura são basicamente duas: os burocratas da cidade grande e os contadores de causo e cabras macho do interior. Por essa razão, o Capote e outras histórias – que, caso você ainda não tenha percebido pelo título, não é um romance – é tão bom para resumir esse aspecto da obra dele. E como diziam os dinossauros do Polishop: Mas não é só isso!

Capote e outras histórias é, ao que tudo indica, uma das únicas amostras da versão russa do realismo fantástico, que chegou na Rússia um pouquinho antes por lá do que na América Latina, tipo uns 150 anos, mas quase não conhecemos ele por aqui porque não chegou muita coisa dessa época da década de 20 e 30 do século 19. Em muitos elementos ele se aproxima do “nosso” realismo fantástico. É fantástico para explicar o real, e o real explica a crítica. É simples e eficaz, só tá um pouco demodê, mas ainda assim é demais.

Em O Capote, por exemplo, o protagonista é Akáki Akakievitch, um sujeito burro, pobre com um nome escroto e o pior dos cargos públicos na Rússia Czarista, zoado pelo escritório inteiro. A vida complica drasticamente pra ele quando o capote que usa pra se proteger do frio se encontra num estado de depauperação incontornável, ao que ele se obriga então a comprar outro. Juntando grana, deixando de comer, espremendo daqui e dali, consegue finalmente comprar o bendito capote. O pessoal do escritório comemora, dá uma festa pra ele, mas eis que na volta pra casa roubam o maldito capote, ele pega uma friagem mortal e vai pra caixa de brita (se você não sabe o que é caixa de brita, essa metáfora não vai te servir pra muita coisa. Mas paciência, não vou explicar também). Só que aí, eis a grande reviravolta: o morto se levanta da tumba e começa a tirar o capote dos alto oficiais, e só depois volta pra tumba. Temos aí a morte como sublimação da vida, o destronamento dos altos oficiais simbolizando o desejo das classes populares contra o regime czarista, etc, etc. Mas temos também uma puta história engraçada, dessas que não se leem hoje em dia em lugar nenhum nesse nível de sofisticação. Coisa da boa.

GógolTemos também “Diário de um Louco”, que se trata de uma narrativa em primeira pessoa de um cara que está claramente louco e acha que está roubando cartas de amor da namorada do seu cachorro e que eventualmente acha que é o rei da Espanha, algo tão ousado até pros dias de hoje que eu não sei se já vi algo parecido. E temos ainda “O Nariz”, um clássico do Gógol. Nele, o major Kovaliov, que sempre está tentando ser promovido, acorda um dia sem o nariz no rosto, e descobre que o nariz tá em outro lugar, e já foi até promovido! Bom lembrar que essa separação do homem em dois iria acontecer de forma semelhante, mas com outros debates, em O Duplo, do Dostoievski. Aqui a coisa é mais pra rir e discutir as aspirações burguesas da cidade grande. Afinal, Kovaliov se desespera diante da ideia de ficar sem promoção por estar sem nariz, e não poder frequentar as altas paneladas da alta sociedade sem ele. E a busca pelo nariz é de matar também.

E aí temos os dois últimos contos, que são da esfera rural do universo do escritor. “Noite de Natal”, que achei o mais fraco dos cinco, é um quadro tipicamente folclórico, no qual o diabo rouba a lua pra se vingar de uma galera que tava zoando ele, mas a lua fica presa na bolsa que fica presa na chaminé quando o diabo tá saindo de uma casa em que entrou sem ser convidado e a luz da lua escapa e ilumina tudo de novo. Ao mesmo tempo, o ferreiro quer casar com a mocinha, mas ela coloca como condição para o casamento ter as botinhas da czarina. Aí ele faz um trato com o diabo pra pegar as benditas botinhas, só que dá uma enganada dele, subjuga o mochila de criança e o usa para voar até o castelo e pegar a porcaria da bota. Todos os elementos de um conto de fadas meio crítico, que utiliza o humor da desdemonização do diabo pra dar uma reanimada nas tropas e nas massas descontentes com o poder malévolo dominante, se é que você me entende.

E por último tem Viy, que é meio que um causo misturado com uma lenda urbano-rural misturado com sei lá o que, mas conta a história do filósofo Khomá Brut, que é contratado pra fazer uma espécie de extrema-unção póstuma que não sei como se chama mas parece que rola de monte entre os ortodoxos, e aí no meio da viagem a filha do morto morre e todo mundo fala que ela é uma bruxa e no meio da extrema-unção ela levanta da tumba e traz um monte de espíritos pra pegar o sujeito. Achei esse conto sinistrão e fiquei com medo e sem saber muito o que pensar, mas no final entendi. Os amigos do filósofo estão conversando num bar e começam a relativizar a morte dele. Um deles fala: “Ele morreu porque tinha medo. É só não ter medo, se benzer e cuspir no rabo da bruxa que ela não faz nada”. Então vejam, amigos: não está se discutindo aqui a veracidade da fantasia, mas sim, os seus efeitos. E dizer “É só fazer isso e aquilo”, como “é só pisar no rabo da bruxa”, é uma lição simples de sublimação do medo e da situação presente. É um afrontamento direto às forças superiores, que podem ser entendidas aqui principalmente como as forças políticas absolutistas da Rússia de então. A alegoria vai longe, mas a intenção passa muito perto para que a mensagem seja entendida. Acho que é uma coisa comum recorrer a elementos fantasiosos quando a liberdade de expressão é muito tolhida, então fica a dica aí para os ditadores de plantão: se o seu país tá produzindo muita obra maluca, é porque as massas estão descontentes.

Sou meio sucinto para falar desses livros que acho super maneiros porque o espaço aqui tem que ser respeitado e tenho certeza que se vocês vem aqui, é porque querem ler algo bobo e curto, porque se quiserem ler coisas quilométricas e sagazes podem ir facilmente lá no Livros Abertos. Mas o que eu queria dizer é que o livro é bom e a prosa suave, ágil e engraçada do Gógol fazem desses contos uma leitura que é  ao mesmo tempo obrigatória e deliciosa, e que portanto é bom aproveitar. E além de ser publicado pela maravilhosa Editora 34, ainda por cima tem tradução do Paulo Bezerra, que traduziu o Crime e Castigo e deu origem a época de ouro das traduções do russo. Gosto das traduções dele também pela nota de rodapé e pelo posfácio. A ideia é que ele tá conversando contigo. É como se você, mongolão, estivesse lendo ele com um amigo inteligentão. No mais, papel pólen, fonte Sabon e uma capa massa de uma xilogravura de um tal Oswaldo Goeldi.

Comentário final: 220 páginas em papel pólen soft. Pimba em geral.

Cinco anos de Livrada!

Vocês imaginavam que chegaria até aqui? Eu não imaginava. Mas chegou. Sejam bem-vindos ao ano VI do Livrada! Clique na imagem para ver a minha mensagem de aniversário, com um pouco da história do blog e algumas reflexões importantes.

Cinco anos!