Milton Hatoum – Dois Irmãos (e entrevista com Gabriel Bá e Fábio Moon)

Dois irmãosVamos juntar os dois lados do livrada. Literatura e quadrinhos, texto e vídeo, tiozões e novinhos, carne e unha, alma gêmea, bate coração, a metade da laranja, dois amantes, DOIS IRMÃOS! A obra mais bombada de Milton Hatoum (depois, talvez, de Cinzas do Norte) foi adaptada para a nona arte por dois dos melhores artistas do ramo que temos hoje no Brasil, então vamos falar um pouco do romance, e ao final, deixo aqui o vídeo com a entrevista que fiz com os quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon.

Dois Irmãos, vamos lá, sem enrolação. O romance é uma dessas sagas familiares que perpassam décadas, uma coisa que com certeza a nossa literatura nacional faz muito bem, e os exemplos afloram e estão aí pra quem quiser ver, não vou ficar citando, só vou dar uma dica. Pois bem, só que essa história fala de imigrantes libaneses em Manaus. Hatoum é descendente de libanês e manauara, então dá pra ver uma coisa: não é vencedor do prêmio Top-of-Mind, mas libanês em Manaus também é Brasil. Parece que tem uma colonização forte por lá. A história gira em torno de dois irmãos gêmeos: Omar e Yaqub, eles são filhos de Zana e de Halim, um comerciante taradão que quer menos bater ponto do que bater no pandeirão da patroa, como qualquer brasileiro sensato. Essa personalidade ambígua de Halim se desdobra em um maniqueísmo claro como Michael Jackson em fim de carreira: Yaqub é só ambição e seriedade, ao passo que Omar é só desejo e prazer. Moleza, né?

DoisIrmaosSó que a coisa não é tão simples assim: embora com personalidades marcantes e relativamente rasas em comparação ao pai, os irmãos transitam na área cinzenta entre o bem e o mal (que existem e você pode escolher). Os dois tretam desde criança e é claro que tudo começa com mulher. Lívia, a vizinha gatinha deles, é aqui meramente objeto de disputa, e não desempenha papel maior do que esse, mas dá o estopim para uma colisão eterna e constante dos gênios dos gêmeos (aliteração é um troço tão feio, mas não digam isso pro Humberto Gessinger). A partir dessa richa, quando Yaqub tasca um beijo no escurinho do cinema caseiro em Lívia e Omar faz um retalho na cara do irmão com um pedaço de garrafa, o destino dos dois se separa violentamente. Isso começa lá antes da Segunda Guerra Mundial e segue até mais ou menos o começo da década de 90. Esse é todo o escopo temporal do romance.

Falemos de alguns aspectos desse livro. O primeiro: a cidade. A Manaus descrita por Milton Hatoum é fantástica. Parece ser uma cidade viva, pulsante, cosmopolita e cheia das possibilidades que, ao longo da história vai se deteriorando na mesma medida em que a família de Halim. A decadência da cidade e a decadência familiar andam juntas de maneira muito sutil, mas deixa claro o elo entre falibilidade pessoal e coletiva. Manaus hoje é um lugar sujo, acabado, negligenciado pelo resto do Brasil como sempre foi e entregue ao Deus-dará, por razões egoístas que se deram conjuntamente com a degradação familiar presenciada nesse livro, mas também por tantas outras famílias reais. Mas por hora, é uma puta cidade que vale a pena ser vivida, e que de fato é vivida por Omar, que fica lá se engraçando com as moças, gastando todo o dinheiro do pai em brega e forró, enquanto Yaqub, depois de um exílio forçado no Líbano por conta da agressão do irmão, volta para se dedicar a ser arquiteto (olha só, como o próprio Milton Hatoum!) e ir morar em São Paulo (olha só de novo!) e etc outros spoilers que não valem a pena aqui ficar citando. Dois Irmãos também é a história de Duas Cidades: a cidade rica e próspera, representada pela escolha de padres salesianos em que os irmãos estudam, e o pardieiro chamado de Galinheiro dos Vândalos, um liceu porcaria onde se formam as más influências que mais tarde contribuiriam para a degradação urbana. De modo que Manaus, assim como Halim, representam os dois lados dos dois irmãos. A seriedade, a oportunidade e a ambição, e também a preguiça, a violência e a devassidão. Bom, bom.

M-HatoumOutro aspecto: a narrativa. O livro é narrado em primeira pessoa por Nael, um menino índio com mais ou menos a idade do autor e que mora na casa e é filho de Domingas, a cunhatã que o casal adota em troca de trabalho. Escravidão acabou no Brasil, gente, mas mais ou menos, viu? A gente só demora para sacar quem ele é e qual é o nome dele, mas no geral ele é uma presença constante no romance, e muito do que acontece não é necessariamente presenciado por ele, mas relatado a ele por Halim no fim de sua vida. De modo que é uma narrativa pessoal-impessoal cheia de charme por dizer só o necessário e não muito além disso. Ah, e o narrador é filho de um dos gêmeos, mas não deixa claro qual, e a relação dos irmãos com Domingas é dúbia o bastante para deixar isso no ar, mas fico com a opinião de que ele é filho de Omar porque só isso pra ele e a mãe aguentarem a presença dele por tanto tempo. Ainda assim, as passagens mais emocionalmente marcantes são quase todas relatadas por Halim do que por Nael, à exceção de uma ou outra, o que mostra uma quase imparcialidade do narrador no peso da narrativa no que diz respeito ao seu testemunho. Rebolation é bom, bom, bom.

Por fim, os personagens. Sempre que irmãos gêmeos aparecem na literatura ou no cinema, segue-se, uma regra. Se são coadjuvantes, são idênticos em tudo. Se são protagonistas, são opostos completos. Nenhuma grande criatividade aí, mas o autor conseguiu conferir com muito pouco traços de uma humanidade rara na literatura brasileira contemporânea, marcada notadamente por autômatos da narrativa. Algumas reações dos dois são imprevisíveis, e não há como não se decepcionar com ambos em vários momentos da narrativa. Um trabalho de profundidade que Erico Verissimo conseguiu muito bem em dois volumes de O Retrato, por exemplo, Milton Hatoum conseguiu com pouco menos de 300 páginas, e com duas pessoas. Não tão a fundo assim, mas vá lá, bom pra caramba.

E enfim, o livro é um best-seller até hoje, diz que vai virar mini-série, diz que vai virar filme, mas a verdade concreta é que virou uma HQ nas mãos dos quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon, os mesmos responsáveis por Daytripper, já resenhado aqui. Segue abaixo a entrevista com os dois, um pouco antes da mediação na Itiban Comic Shop. Não ficou como eu gostaria que ficasse, mas foi falha minha mesmo e o lance é tentar melhorar sempre. CLICA NA IMAGEM!

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Vídeo: Entrevista (com choque) com Melina Souza

A Mel é hoje uma das blogueiras mais famosas do Brasil, mas eu conheci ela antes dessa vida, quando estudava com o irmão dela, que era meu calouro na faculdade. Fiquei amigo da família e, anos depois, quando entrei nessas de Youtube, ela resolveu me convidar pra gravar um vídeo com ela, e assim fui apresentado para o mundo virtual. Achei a ideia legal e resolvi gravar um vídeo para o meu canal também.

O resultado é essa entrevista pingue-pongue em que de quebra, tanto entrevistado quanto entrevistador levam choques elétricos provocados por uma bolinha manufaturada no inferno pelo capeta em pessoa. O resultado você confere clicando aqui na imagem abaixo.
Mel

E caso alguém por acaso não conheça a Mel e se interesse por fotos bonitas e dicas de coisas fofas, siga-a nessas redes sociais:

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E mais uma vez preciso agradecer à Mel pelo carinho e pela receptividade nesse lance youtubístico. Aprendi muito com ela e espero aprender mais sobre dominação mundial mediante vlog. Beijo, Mel!

Nikolai Gógol – O Capote e outras histórias

gogolVamos ao livro de contos do Gógol que eu deveria ter comentado ano passado e acabei deixando pra esse ano. Quem não gosta de spoiler, troca logo de post ou de site ou de computador porque aqui vai ter alguns porque a gente vai falar sobre a obra do Gógol e não dá pra fazer omelete sem quebrar uns passarinhos na mão.

Gógol, que já resenhamos por aqui em Tarás Bulba, Avenida Niévski e A Briga dos Dois Ivans, deve ser hoje um dos meus russos favoritos (tecnicamente ucraniano, mas não estamos levando em conta tecnicalidades hoje), e a razão disso é, em grande parte, pela prosa fluída e extremamente fácil de ler que ele desenvolveu, aliada a um senso de humor que, sei lá, deve ser muito parecido com o meu, porque rio alto lendo ele às vezes. Não é difícil perceber, pela leitura deles, que as preocupações que ele tem em sua literatura são basicamente duas: os burocratas da cidade grande e os contadores de causo e cabras macho do interior. Por essa razão, o Capote e outras histórias – que, caso você ainda não tenha percebido pelo título, não é um romance – é tão bom para resumir esse aspecto da obra dele. E como diziam os dinossauros do Polishop: Mas não é só isso!

Capote e outras histórias é, ao que tudo indica, uma das únicas amostras da versão russa do realismo fantástico, que chegou na Rússia um pouquinho antes por lá do que na América Latina, tipo uns 150 anos, mas quase não conhecemos ele por aqui porque não chegou muita coisa dessa época da década de 20 e 30 do século 19. Em muitos elementos ele se aproxima do “nosso” realismo fantástico. É fantástico para explicar o real, e o real explica a crítica. É simples e eficaz, só tá um pouco demodê, mas ainda assim é demais.

Em O Capote, por exemplo, o protagonista é Akáki Akakievitch, um sujeito burro, pobre com um nome escroto e o pior dos cargos públicos na Rússia Czarista, zoado pelo escritório inteiro. A vida complica drasticamente pra ele quando o capote que usa pra se proteger do frio se encontra num estado de depauperação incontornável, ao que ele se obriga então a comprar outro. Juntando grana, deixando de comer, espremendo daqui e dali, consegue finalmente comprar o bendito capote. O pessoal do escritório comemora, dá uma festa pra ele, mas eis que na volta pra casa roubam o maldito capote, ele pega uma friagem mortal e vai pra caixa de brita (se você não sabe o que é caixa de brita, essa metáfora não vai te servir pra muita coisa. Mas paciência, não vou explicar também). Só que aí, eis a grande reviravolta: o morto se levanta da tumba e começa a tirar o capote dos alto oficiais, e só depois volta pra tumba. Temos aí a morte como sublimação da vida, o destronamento dos altos oficiais simbolizando o desejo das classes populares contra o regime czarista, etc, etc. Mas temos também uma puta história engraçada, dessas que não se leem hoje em dia em lugar nenhum nesse nível de sofisticação. Coisa da boa.

GógolTemos também “Diário de um Louco”, que se trata de uma narrativa em primeira pessoa de um cara que está claramente louco e acha que está roubando cartas de amor da namorada do seu cachorro e que eventualmente acha que é o rei da Espanha, algo tão ousado até pros dias de hoje que eu não sei se já vi algo parecido. E temos ainda “O Nariz”, um clássico do Gógol. Nele, o major Kovaliov, que sempre está tentando ser promovido, acorda um dia sem o nariz no rosto, e descobre que o nariz tá em outro lugar, e já foi até promovido! Bom lembrar que essa separação do homem em dois iria acontecer de forma semelhante, mas com outros debates, em O Duplo, do Dostoievski. Aqui a coisa é mais pra rir e discutir as aspirações burguesas da cidade grande. Afinal, Kovaliov se desespera diante da ideia de ficar sem promoção por estar sem nariz, e não poder frequentar as altas paneladas da alta sociedade sem ele. E a busca pelo nariz é de matar também.

E aí temos os dois últimos contos, que são da esfera rural do universo do escritor. “Noite de Natal”, que achei o mais fraco dos cinco, é um quadro tipicamente folclórico, no qual o diabo rouba a lua pra se vingar de uma galera que tava zoando ele, mas a lua fica presa na bolsa que fica presa na chaminé quando o diabo tá saindo de uma casa em que entrou sem ser convidado e a luz da lua escapa e ilumina tudo de novo. Ao mesmo tempo, o ferreiro quer casar com a mocinha, mas ela coloca como condição para o casamento ter as botinhas da czarina. Aí ele faz um trato com o diabo pra pegar as benditas botinhas, só que dá uma enganada dele, subjuga o mochila de criança e o usa para voar até o castelo e pegar a porcaria da bota. Todos os elementos de um conto de fadas meio crítico, que utiliza o humor da desdemonização do diabo pra dar uma reanimada nas tropas e nas massas descontentes com o poder malévolo dominante, se é que você me entende.

E por último tem Viy, que é meio que um causo misturado com uma lenda urbano-rural misturado com sei lá o que, mas conta a história do filósofo Khomá Brut, que é contratado pra fazer uma espécie de extrema-unção póstuma que não sei como se chama mas parece que rola de monte entre os ortodoxos, e aí no meio da viagem a filha do morto morre e todo mundo fala que ela é uma bruxa e no meio da extrema-unção ela levanta da tumba e traz um monte de espíritos pra pegar o sujeito. Achei esse conto sinistrão e fiquei com medo e sem saber muito o que pensar, mas no final entendi. Os amigos do filósofo estão conversando num bar e começam a relativizar a morte dele. Um deles fala: “Ele morreu porque tinha medo. É só não ter medo, se benzer e cuspir no rabo da bruxa que ela não faz nada”. Então vejam, amigos: não está se discutindo aqui a veracidade da fantasia, mas sim, os seus efeitos. E dizer “É só fazer isso e aquilo”, como “é só pisar no rabo da bruxa”, é uma lição simples de sublimação do medo e da situação presente. É um afrontamento direto às forças superiores, que podem ser entendidas aqui principalmente como as forças políticas absolutistas da Rússia de então. A alegoria vai longe, mas a intenção passa muito perto para que a mensagem seja entendida. Acho que é uma coisa comum recorrer a elementos fantasiosos quando a liberdade de expressão é muito tolhida, então fica a dica aí para os ditadores de plantão: se o seu país tá produzindo muita obra maluca, é porque as massas estão descontentes.

Sou meio sucinto para falar desses livros que acho super maneiros porque o espaço aqui tem que ser respeitado e tenho certeza que se vocês vem aqui, é porque querem ler algo bobo e curto, porque se quiserem ler coisas quilométricas e sagazes podem ir facilmente lá no Livros Abertos. Mas o que eu queria dizer é que o livro é bom e a prosa suave, ágil e engraçada do Gógol fazem desses contos uma leitura que é  ao mesmo tempo obrigatória e deliciosa, e que portanto é bom aproveitar. E além de ser publicado pela maravilhosa Editora 34, ainda por cima tem tradução do Paulo Bezerra, que traduziu o Crime e Castigo e deu origem a época de ouro das traduções do russo. Gosto das traduções dele também pela nota de rodapé e pelo posfácio. A ideia é que ele tá conversando contigo. É como se você, mongolão, estivesse lendo ele com um amigo inteligentão. No mais, papel pólen, fonte Sabon e uma capa massa de uma xilogravura de um tal Oswaldo Goeldi.

Comentário final: 220 páginas em papel pólen soft. Pimba em geral.

Cinco anos de Livrada!

Vocês imaginavam que chegaria até aqui? Eu não imaginava. Mas chegou. Sejam bem-vindos ao ano VI do Livrada! Clique na imagem para ver a minha mensagem de aniversário, com um pouco da história do blog e algumas reflexões importantes.

Cinco anos!

Hermann Broch – Esch ou a anarquia (Esch oder die Anarchie)

esch ou a anarquiaRound two na trilogia dos sonâmbulos, mais de um ano depois da publicação do texto sobre o Pasenow ou o romantismo. Até que tá bom, levando em consideração que entre a publicação de um livro e outro, Hermann Broch levou quinze anos. E estou lendo esses livros espaçadamente por um bom motivo: caí de amores pela literatura deste senhor e não quero que acabe logo. Hermann Broch foi a minha grande descoberta, e essa trilogia lançada pela Benvirá tá muito subestimada no que diz respeito à recepção da crítica. Quando pesquisarem no google, a única resenha que encontrarão deste livro em específico será a minha, então EXCLUSIVO! Livrada! conta tudo sobre o segundo livro da trilogia sinistrassa do austríaco mutcho loko. É até um pecado que um livro da magnitude de Os Sonâmbulos caia apenas na minha humilde e pesada mão para comentar, mas vou fazer o possível para fazer algo à altura.

Em primeiro lugar, e não custa reiterar isso, se vocês não conhecem Hermann Broch, tão marcando. O sujeito tem senso de humor e ainda por cima escreve bem pacas. Ele está na divisão dos grandes: Thomas Mann, Robert Musil, Proust e Joyce, de acordo com o grosso da crítica mundial, mas quase ninguém conhece because… NAZISMO. A obra do sujeito foi apagada do mapa durante um período e redescoberta tempos depois. Por quê? JUDEN! NEIN NEIN NEIN! Moleza, explicação pra tudo que aconteceu de ruim na Alemanha naquela época. Bom, vamos ao livro em si.

No segundo volume da trilogia, o protagonista é August Esch, um empregado de uma empresa em Colônia que é demitido e resolve arrumar um emprego em uma companhia de navegação em Manhein, chefiada por quem, por quem? Bertrand! Sim, amigos, o antagonista de Pasenow é o chefe de Esch neste livro. Esch deixa então seus amigos de Colônia, em particular a viúva Frau Hentjen, e se muda para um quarto na casa do inspetor aduaneiro Balthasar Korn, que divide a casa com sua irmã solteirona Erna. É em Manhein que ele conhece também dois húngaros circenses: Gerneth e Ilona. Também encontra o amigo Martin, preso durante uma greve na empresa em que trabalha, e Lohberg, judeu que topa investir dinheiro quando Esch e Korn resolvem montar um negócio de luta livre feminina. E no meio de tudo isso, o cara quer se mudar pros Estados Unidos, pela sua liberdade de expressão, em resposta à repressão covarde da greve que prendeu Martin.

Hermann Broch

CUMA??

Então vamos à primeira questão: O Esch a gente já conhece, agora que anarquia é esta de que fala o título? Hermann Broch é um cara velho, e o que significa anarquia pra qualquer pessoa velha? Bagunça, obviamente. Broch queria falar aqui, mais uma vez, dos muitos elementos do período transitório para a nova ordem mundial (pós-Grande Guerra) e da falta de hierarquia entre eles. Sim, porque a perda de valores é também a perda do peso exato que cada elemento deve ter na sociedade. Assim, Esch está tentando achar seu norte moral no meio da bagunça: se revolta com a prisão de Martin e despreza Bertrand por ele ser patrão ao mesmo tempo em que intenciona se tornar um empresário ele mesmo. E o trabalho é encarado apenas como uma função social da qual só é possível extrair respeito, e esse respeito apenas para duas funções: colocar um senso de ordem e retidão no mundo a sua volta e tirar uma onda com os antigos empregadores que o rejeitaram. Tem essa mesma relação confusa com as mulheres: tenta corromper Frau Hentjen, que nem bonita nem jovem é, apenas pela atração que sente por sua retidão moral; tenta trazer Ilona para um mundo mais regrado – resgatá-la — depois que ela começa a ter um caso com Balthasar Korn, e rechaça Erna depois de ter um caso furtivo com ela, mas ao mesmo tempo, sente um desejo profundo de arruinar a relação dela com o judeu Lohberg depois que os dois se aproximam. Obviamente que o final disso não é muito bonito pra ninguém, afinal de contas, ninguém escreve um livro pra dizer que os tempos estão mudando, faz um personagem desprezível de protagonista e terminam dizendo que o mundo tá mudando é pra melhor.

Esch, o rapaz que não sabe se casa ou compra uma bicicleta e acaba comprando uma esposa e casando com uma bicicleta, é o símbolo da confusão que o século 20 representava para aqueles loucos germânicos. Seu mundinho se abalando, ele trabalha só pra ganhar dinheiro, sai comendo todo mundo que vê pela frente e tenta ganhar dinheiro da maneira mais improvável possível. Soa familiar? De certa maneira, Broch estava antecipando a vida sem roteiros que vivemos hoje em dia. Alguns lidam melhor com a anarquia do que outros, e agora estamos vivenciando um momento tenebroso de volta às origens e tradições e ao conservadorismo em resposta à “anarquia”, então o sujeito é um profeta da literatura. E ainda faz uns caras engraçados e perdidos pra gente dar risada deles.

Essa edição é igual á anterior, tem tradução e posfácio do Marcelo Backes e capa do Ernst Ludwig Kirchner, que é um expressionista alemão que manjava das xilogravuras também e que era todo errado e cheio de problema e acabou se matando, e é sempre legal ver obras de arte de gente assim.

Se recomendo? Ora, se você ainda não sabe a resposta pra isso, amigo, leia esse texto de novo!

Comentário final: 312 páginas em papel de jornal. Anarchy in the Livrada!

Vídeo: O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon

Estamos de volta com mais um vídeo, e dessa vez com um livraço do Solomon. Em O Demônio do Meio-Dia, o autor explora os vários aspectos da depressão, essa doença tão misteriosa e tão presente nessa vida loka. E como as pessoas reclamaram muito da minha barba, dei uma repaginada no visual e fiquei bonitão. Então clica no bonitão aí embaixo.

vlog solomon