Vídeo: Um rolé pela Flip 2015 (parte 1)

Finalmente! Eis aqui a primeira parte do nosso passeio pela Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip!

Gostaria de agradecer muito ao Murilo, que topou fazer essa trip com sua câmera e seu tripé para fazermos essa cobertura maneira pra vocês. Sem ele isso não seria possível!

Clica aí na imagem:

flip parte 1

John Williams – Stoner

Capa_Stoner_Rádio_LondresEita que o vídeo da Flip tá demorando mais pra ser editado do que eu gostaria, ou eu estou menos tempo do que eu gostaria, ou eu só acho que estou tendo menos tempo do que gostaria, o que importa é que não importa, hoje é segunda e vocês merecem uma resenha nova na falta de um vídeo bobo que levamos muito a sério pra fazer e que deve sair muito em breve.

Bom, estamos aí essa semana com o Stoner, esse que é aparentemente um clássico moderno esquecido – o que, aliás, parece muito estranho em se tratando de tão pouco tempo para esquecer um livro, será que isso vai acontece com a Profecia Celestina daqui a uns dez anos? Stoner foi publicado na década de 60 nos Estados Unidos e, de acordo com o texto didático escrito para fazer você entender por que esse e por que agora, ele foi republicado em 2003 pelo New York Review of Books e considerado um sucesso editorial e entrou na lista dos mais vendidos em alguns países da Europa, o que não é lá muito animador pra quem, como eu, costuma ler a lista dos mais vendidos dos lugares (agora a maioria é livro de colorir, sabiam?). Também não anima muito o fato da contracapa ter comentários elogiosos de escritores medíocres como Bret Easton Ellis (que acha que ainda estamos nos anos 80) e de Tom Hanks que, é bom que se lembre, achou que Forrest Gump foi uma boa. E a cereja do bolo é o primeiro parágrafo da história, que basicamente resume a coisa toda ao dizer:

“William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até a sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no ‘Acervo de Livros Raros’, com a seguinte inscrição: ‘Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de Inglês, por seus colegas’”.

Como bem apontou o posfaciador desse livro, o escritor americano Peter Cameron (e foi só isso de bom que ele teve pra apontar em sete páginas de pura especulação literária sobre coisas que CLARAMENTE não estão no texto), para que continuar a leitura de um livro que já está todo resumido ali, né mesmo, geração spoiler? E talvez esteja aí a beleza da coisa e a lição pra vocês que gostam dessa vibe de ler 43 livros sobre uma escola de vampiras do bem que precisam de namorados e ficam muito enfezados se alguém te conta que a Zoey virou a líder das Filhas das Trevas — o que, aliás é algo que seu tio vida loka que teve a vida marcada pelo filme Easy Rider já tentava lhe dizer: o que importa não é o destino, mas o caminho. Ou não exatamente isso, mas vamos devagar.

EscritorDe fato, William Stoner, o personagem principal desse livro (e eu achando que era sobre drogados roqueiros que ouvem Stoner Rock) não é quase nem protagonista da própria vida, de tão prosaico. Não é um bom professor, não tem uma personalidade forte, não fez absolutamente nada de memorável nem algo que merecesse figurar em um livro como nós o conhecemos. Digo como o conhecemos porque a televisão, assim como a literatura, já teve uma certa ânsia por protagonistas, até que começou a apostar suas fichas em personagens reais, limitados, patéticos, falhos e coadjuvantes. E as pessoas que estavam assistindo essas coisas realmente gostaram porque, geralmente, eram programas engraçados, mas também sensíveis no trato a reles mortais. E aí a gente vê que o mistério não tem mistério, o cara salva no texto – e nem é um texto rebuscado, é só um texto realmente sensível.

Stoner é um personagem um tanto inoperante, na verdade. Leva várias porradas da vida e não faz quase nada a respeito. Tem um professor rival, um aluno metido a besta, uma mulher que não gosta dele, uma filha distante, amigos mortos e a coisa toda para deixar o romance enevoado com uma melancolia infinita, e ainda assim não deixamos de nutrir uma certa ternura por ele. Sim, Stoner é um desses romances em que, não tendo muito a se agarrar textualmente – floreios ou grandes digressões – o leitor acaba se aproximando demais dos personagens, que são tão misteriosos quanto parecem. Há coisas sobre a vida de Edith, mulher de Stoner, que nunca saberemos, nem a relação do professor Lomax com seu aluno aleijado Charles Walker, e essas coisas reforçam a tangibilidade do personagem principal, inserido em um mundo aberto em que coisas acontecem de maneira não relacionada a sua vida com começo, meio e fim.

E no fim, é isso: a sensibilidade. Ela é que está salvando tudo quanto é produto que você possa inventar no mundo de hoje porque há uma impressão geral de que as pessoas se acostumaram com os absurdos da vida e ficaram insensíveis a certas coisas. Recuperar essa sensibilidade em uma obra escrita como essa não só faz com que o mundo fique um pouco mais sensível como também faz com que você se sinta bem por conseguir sentir empatia por uma história tão sutil.

Esse livro foi lançado pela editora Rádio Londres, uma das mais novas parceiras do Livrada! Eles são uma editora nova e me procuraram pelas redes sociais e me mandaram esse livro. Por causa do nome, eu achei que fosse uma editora que só lançasse livro de hipster londrino, mas que bom que não é assim. Não li nenhum outro romance publicado pela editora ainda, mas parece que eles estão com um acervo bom de títulos não-babacas – o que já é uma grande coisa em se tratando das grandes casas editoriais de hoje em dia. O projeto gráfico desse livro é primoroso e respeita tudo o que há para se respeitar em um projeto gráfico que se preze. Papel pólen, uma fonte boa (chamada Calluna, que eu não conheço, mas tá beleza também), uma capa bem bonita que parece que compartilha a foto da edição original, ou de alguma edição gringa pelo menos, e uma certa identidade visual com a colocação do título e do autor numa bolinha colorida, atrás do nome da editora (o que reforça que a coisa parece tudo menos o nome da editora. Parece tipo uma coleção ou algo assim). Enfim, um livro bonito também.

Ps: parece que muita gente comentou que a primeira edição de Stoner tinha muito errinho no texto, e que a tradução dava umas trombadas com a realidade da língua em algumas horas, mas eu recebi aqui a segunda edição e, fora uma coisa ou outra muito rara, tá tudo bem.

Comentário final: 314 páginas em papel pólen. Quebra uma perna com osteoporose (lembra quando os comentários finais eram só sobre o poder destrutivo do livro? Ah, o Livrada! de antigamente…)

Vídeo: Tag das princesas da Disney

YAAAAAAY! TAGS E PRINCESAS DA DISNEYS! É o Livrada! aderindo às coisas que a molecada mais gosta hoje em dia. A gente é sem vergonha mesmo, e fez o vídeo com a tag literária criada pela Mel (já viram a minha entrevista com a Mel?) e quem quiser pode fazer também e linkar o vídeo original.

Ah, e não pense que a coisa tá mole pro nosso lado, porque enquanto você se diverte com esse vídeo, a gente tá se matando com a cobertura da Flip! Mas por hora, assistam aí, tem várias dicas de livros bons no meio. Clica na imagem!

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Flip 2015

Flip 2015

É isso, amigo. O Livrada! vai estar muito ocupado essa semana fazendo a cobertura da Flip 2015. Para quem não sabe ou chegou no mundo nos últimos quinze minutos, a Flip é a Festa Literária Internacional de Paraty, que toma conta da minha cidade natal por uns bons cinco dias e gente bonita e diferenciada vem prestigiar escritores que ninguém nunca viu na vida e comprar livros caros. Paraty fica um inferno e é para lá que nós – eu e o Murilo, cinegrafista e amigo de todas as horas – vamos.

Nossa meta na flip é: 1- Entrevistar escritores 2- Falar com a galera e cobrir o evento em geral 3- Zoar o barraco 4- Participar da lendária suruba secreta que acontece durante o evento 5- Travar contato com algum milionário filantropo que queira dar dinheiro pra gente fazer o que a gente já tá fazendo de graça. Fora isso, só diversão.

Como vamos fazer a cobertura em vídeo, ela deve sair depois que o festival acabar, mas tá valendo. Em tempo real, peço que fiquem de olho no instagram do Livrada!, que terá fotos toda hora para vocês não perderem muito mais do que já estarão perdendo por não comparecer a essa bagaça histórica. Temos credenciais, temos tempo livre, temos uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. O chão vai tremer, o tempo vai fechar, os lisos vão correr e as cocotas, rebolar.

A propósito: devo levar para a Flip alguns exemplares da coletânea Livro dos Novos, antologia de novos contistas da qual eu participei, e venderei de bom grado pra qualquer curioso que se interessar por essas coisas e marcadores de página do Livrada! feitos pelo Estúdio Invertido. Então, se me virem por lá, me peçam!

A Flip começa na quarta-feira dia 1, e vai até domingo, dia 5. Acompanhem!

Ah. e mandem sugestões sobre o que fazer por lá. Escritores que vocês acham que vale a pena conhecer, eventos legais, pessoas em geral, enfim, dêem pitacos :D

Vídeo: A literatura que produzimos

O post de hoje é um vídeo, e o vídeo de hoje é sobre um caderno, e o caderno de hoje traz uma reflexão. Não sei se esse vídeo vai ser muito assistido (eu acho que não), mas acho importante ter um espaço desses para discutir esse tipo de assunto, que no caso é sobre a literatura pessoal, e o que nos motiva a ler.

Clique na imagem para ver o vídeo.

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Liev Tolstói – Felicidade Conjugal (Semeynoye Schast’ye – Семейное счастье)

Felicidade ConjugalTolstói, senhoras e senhores, esse russo cabra da peste que não nega fogo nunca e que não decepciona nem quando encarna as ideias mais odiosas que uma mente brilhante como a dele pode ter. Vamos mostrar aqui hoje como este Felicidade Conjugal, publicado em 1858, exibe toda a maestria do autor em escancarar paradas tão e atemporais quanto estes tais sentimentos comuns a todos. No caso aqui, o amor. L’amour, aaah, l’amour. Senta aí que lá vem história.

A história é narrada por Mária Aleksândrovna (esses russos e seus acentos impronunciáveis para nós), uma menina novinha do interior. Conhecemos Mária pouco tempo depois dela ficar órfã de pai e mãe, criada por uma irmã e uma governanta. É aí que aparece a figura de Sierguiéi Mikháilitch (posso dizer que to adorando essas transliterações de nomes russos que privilegiam esses “is” que os russos falam muito sutilmente? Porque, olha, tô mesmo), amigo de longa data do pai de Mária incumbido de resolver umas pendências burocráticas em nome da família na ausência de um adulto. É claro que a menina fica toda apaixonadinha pelo sujeito que tem idade pra ser seu pai, e o cara que não é bobo mas tá mais vacinado da vida do que gado pra exportação, cai de amores pela gata também, mas não dá nenhum passo nesse sentido porque sabe que 1- ele é velho e tá precisando de esposa e 2- menina novinha assim se interessa por cara mais velho mas depois de um tempo cansa porque percebe que tem muito pra viver ainda.

Mas eventualmente as partes não se aguentam e partem pro abraço, diante de vários, mas muitos mesmo avisos de Sierguiéi de que a coisa não vai dar certo porque Mária é mocinha do interior e quando conhecer a cidade grande vai querer saber só de badalação e vai esquecer o maridão em casa pra ir festar, e ela jurando que não, que nada a ver, que onde já se viu minha vida, meu tudo, te quero só pra mim, mil e uma noites de amor com você, sou evoluída e não vou pra balada e pois bem. Casam. Termina aí a parte um, sabe por quê? Porque acabou aí o sossego da vida. Logo que a menina casa, o que ela percebe sobre a vida? Que ela quer mesmo é ir pra balada e deixar o maridão em casa pra ir festar. Rá!

TolstoiO desfecho dessa coisa toda é parte da maestria da obra e não me cabe comentar aqui, mas veja só que coisa curiosa. Tolstói no começo de sua carreira já tinha umas ideias meio radicais que se aproximariam muito de outras ideias radicais do final de sua carreira, tipo em Sonata a Kreutzer, de 30 anos depois, a saber: que mulher é um bicho escroto que não sabe o que quer, e que casamento bom de verdade é aquele que não acontece de verdade. Sabe-se que a felicidade conjugal de que fala o título é outra daquela esperada no amor romântico, e cabe ao leitor ir até o final para descobrir do que diabos nós falamos quando falamos de felicidade conjugal.

O que queria falar sobre Felicidade Conjugal é que Tolstói é um cara muito bom em descrever com palavras exatas – mas exatas mesmo, enxugando toda a gordurinha melodramática e deixando só o que é verdadeiro mesmo, e isso dá pra ver no todo – a morte dos sentimentos. Em Sonata a Kreutzer, o marido traído vai narrando a morte da confiança na esposa; em A Morte de Ivan Ilitch, Ivan Ilitch narra a morte de sua esperança em viver e a sua própria morte; e neste Felicidade Conjugal, temos em câmera lenta, muito bem explicadinho para bom e mau entendedor, a morte do amor romântico. Pra mim, esse é o grande mérito dessas novelinhas que ele publica: esmiuçar sentimentos tão complexos que serviram de base para muitas outras novelas, desde as de banquinha de jornal até grandes outras obras, incluindo aqui Anna Kariênina do próprio autor. É tipo um Shakespeare: falar de coisa que todo mundo fala, mas de um jeito que ninguém nunca falou antes. Boa, Tolstói.

Esse é o último Tolstói que vou resenhar da Coleção Leste da Editora 34. Porque não tem mais! Aliás, se essa Coleção Leste tem algum defeito é não ter mais Tolstóizinhos curtos, porque ele escreveu vários desses, mas a editora só publicou três (que foram os três que citei no parágrafo anterior). São excelentes edições comentadas e posfaciadas pelos tradutores, que traduzem direto do russo, e serve bem para conhecer as ideias do sujeito, que é claro que precisam ser conhecidas. A tradução desse é do Boris Schnaiderman, que fez um posfácio que, sei lá, não me acrescentou muita coisa, mas tá valendo, eu suponho. Papel pólen, fonte Sabon, aquela coisa de sempre. (Acho que me apeguei muito a essa Coleção Leste mesmo, quero mais livros dela)

Comentário final: 119 páginas em papel pólen.