Vídeo: Cine Privê, de Antonio Carlos Viana

Vamos falar de uma das melhores descobertas literárias pessoais dos últimos tempos? Minha mãe me mandou esse livrinho do Antonio Carlos Viana e ficou um tempo fazendo um lobby pra eu passar ele na frente da fila, até que por fim cedi (por favor, não façam como a minha mãe). Foi uma boa e feliz decisão, eu percebi, enfim. Clica na imagem, é uma resenha curta e, até certo ponto, bem repetitiva. Por isso não vai tomar muito do seu precioso tempo, ilustre pessoa.

cine prive

Alejandro Zambra – Formas de Voltar para Casa (Formas de volver a casa)

formas de volver a casaToda semana tem post, todo mês tem vídeo, todo ano tem Zambra! Vamos a um post curto nessa semana porque, sei lá, porque sim. Aliás, vocês reparam quando um post é mais curto do que o outro se eu não avisar? Acho que não, né? Não vou mais falar nada sobre esse assunto.

Vamos falar do livro do Zambra, que comprei numa promoção da Cosac, porque promoção da Cosac é igual meia-entrada em show: Tem toda hora, todo mundo pode, e quem não aproveita claramente tem problemas. Peguei o livro e o livro pegou uma chuva desgraçada num compartimento da minha mochila em que tinha esquecido o setlist de um show que a minha banda fez de modo que a tinta do pincel atômico do papel se diluiu na água e manchou meu exemplar inteiro, que por si só já estaria bastante arruinado só pelo toró. Mas a estante é feita de livros ferrados também, então vamos aguentar que nem homem e falar direto do conteúdo, que é o que importa, muito embora alguns blog se vlogs no youtube estejam tentando te fazer pensar o contrário.

Minha história com a literatura do chileno Alejandro Zambra começou, como para muitos, com Bonsai. Fiquei estupefato pela criatividade e pelo quanto o sujeito conseguiu dizer com tão poucas palavras (o livro é minúsculo). De modo que quando a Cosac lançou A Vida Privada das Árvores (que também fala de plantinha no título), resolvi adquirir num escambo maroto no Skoob. Li e achei muito fraco em comparação ao outro, mas mesmo assim resolvi pegar esse Formas de Voltar pra Casa porque Zambra tem a vantagem de escrever livros extremamente curtos, o que facilita uma segunda ou terceira chance caso você não tenha gostado de um dos livros dele (tente ter essa benevolência com o Thomas Pynchon). E gostei disso, porque Formas de Voltar Pra Casa é melhor que A Vida Privada das Árvores, mas menos melhor que Bonsai.

O romance parte de um terremoto que aconteceu em 1985 em Maipú, quando o narrador, que também é escritor, era uma criança de nove anos e se aproxima de uma menina chamada Claudia, que lhe incumbe a estranha missão de vigiar seu estranho tio Raúl, sem saber exatamente o porquê. A história então dá saltos no tempo e mostra o narrador em meio a uma vida amorosa conturbada, em meio ao processo de escrita do livro que estamos lendo e tentando passar em revista a história de sua infância e o relacionamento com seus pais. E entre as divisões do livro e esses elementos brotam questões: somos protagonistas de nossas próprias vidas quando somos crianças? Passamos a ser protagonistas de nossas próprias vidas em algum momento? O que é ser adulto e o que é ser criança, por que temos a necessidade de revisitar alguns episódios de muitos e muitos anos atrás e por que somos essas bolas de dúvidas? Aliás, a orelha do livro é assinada pelo Alan Pauls, e abre assim: “O que é voltar pra casa? Uma saída ou uma condenação? Esse é o dilema que dilacera esse romance triste e perfeito”. E não posso concordar com o escritor que o livro é pontuado por esse dilema, no meu entendimento ele é sobre uma coisa completamente diferente.

Alejandro ZambraÉ bem verdade que os livros do Zambra parecem dizer muito mais do que realmente dizem, muito embora a gente na maioria das vezes não saiba especificar o quê, exatamente. Mas acredito que essa volta para a casa, que se apresenta durante o romance em vários contextos e com vários significados diferentes, não pode ser resumida a uma só questão. Existem diversos motivos para se voltar para casa, inclusive para se voltar para a casa dos pais depois que a deixamos em definitivo para construirmos nossas vidas. Enquanto é criança, saber voltar para casa é uma prova de orgulho, uma demonstração de maturidade necessária para se perceber um pouco protagonista de sua própria vida; já enquanto adulto, voltar para a casa dos pais é um gesto de humildade, de tolerância e de verdade. Quando o narrador confronta o pai sobre seus ideais políticos durante o regime de Pinochet podemos ver como pode ser dolorosa a volta a casa e ao passado, e ao mesmo tempo como o gesto se faz necessário. Voltar pra casa é se redefinir.

Sobre ser protagonista na infância, o autor faz uma brincadeira com as divisões do livro. Uma delas se chama “A literatura dos pais”, quando o narrador já é adulto e percebe o quanto não tinha importância enquanto personagem quando criança, razão pela qual precisa reatar essa ponta da vida para enfim dar protagonismo a seu eu criança, e outro se chama “A literatura dos filhos”, quando ele sai de casa e começa a se tornar protagonista de sua própria literatura. A primeira parte, sobre a infância em Maipú e o terremoto, se chama “Personagens Secundários”, por essa mesma razão. E acho que com isso o que ele quer dizer é que é preciso maturidade para ser protagonista, que meramente agir, como a criança que espiona um tio de outra criança, não é o bastante. O protagonista precisa ter uma história, um background, e sem isso não é possível ter consistência. Achei legal.

Essa edição da Cosac segue o mesmo projeto dos outros livros, com capa texturada, uma cor diferente para a capa, papel pólen e fonte Arnhen, mas com uma diagramação com muito menos margem que o Bonsai, o que faz de Formas de Voltar pra Casa um dos maiores livros do Zambra publicados aqui no Brasil, com suas 157 páginas. Ah, e a tradução é do José Geraldo Couto, que é um cara massa, e tem uns poemas revisados pela Josely Vianna Baptista, que também é super competente. Essa galera, viu… só agregando valor.

Comentário Final: 157 páginas em papel pólen soft. Bate nas quiança, ensina as quiança, as quiança aprende tudo na marra…

Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем)

nikolai gogolDeutschland übber alles. Copa do Mundo no Brasil hoje já é parte do passado. Bora se concentrar no assunto que interessa? Obviamente que estou falando dos nossos queridos livrinhos a quem nós, nerdões, recorremos quando o mundo parece demasiadamente douchebag, o que é quase sempre. Antes de falar do livro de hoje, porém, gostaria de começar comentando a coleção que ele integra. Trata-se da Arte da Novela, um projetinho originalmente criado pela Melville House Publishing com enfoque em novelas! Sim, novelas! Novelas, novelas, novelas! Basicamente é uma coleção como a da Penguin, mas ainda mais minimalista e ainda mais bem selecionada. Aqui no Brasil foi publicada pela Grua, essa editora tão simpática que já lançou gente do naipe de Hansjörg Schertenleib (já resenhado aqui), e eles mantiveram o projeto gráfico da coleção original, então é as real as it gets. Eu, que não vim nesse mundo a passeio, pedi pros simpáticos editores me enviarem uns exemplares dessa coleção quando vi que ela saiu porque queria dar uma olhada nessa beleza e olha, vou dizer que não me arrependi.

O livrinho é pequeno, bonitinho, extremamente gráfico, com cabeço e paginação lateral, boa fonte e bom papel. Mandaram pra mim quatro deles: Freya das Sete Ilhas, do Joseph Conrad, A Lição do Mestre, do Henry James, Bartleby, o Escrevente (já resenhado aqui), do Melville, e este A Briga dos Dois Ivans, do Gogol, que foi o que eu escolhi pra ler primeiro por razões óbvias, né, galera? Aqui no Livrada! russo, gordinha, idoso e gestante têm assento preferencial sempre, e olha, quer me deixar feliz, me dá um livro do Gogol de presente. Desde que eu li o Tarás Bulba (já resenhado aqui), conheci um dos meus grandes novos autores favoritos, por uma série de razões que dizem mais respeito ao meu coração do que necessariamente a seus méritos literários, embora esses também sejam bem válidos pra todos os efeitos. Mas deles já falei em outros posts. Neste, vou falar porque Gógol é um autor também divertido.

A Briga dos Dois Ivans é uma novela, gente, já falei isso? Pois é. É uma história curtinha que não se pretende nada além do que está contando. É claro que a gente pode encarar a coisa toda como uma parábola moral ou uma metáfora pra outras coisas, mas pra quê? Vamos pelo menos uma vez na vida aproveitar o livro pelo que ele é, e no caso, é uma história divertidíssima sobre dois vizinhos que se chamam Ivan. Um chama Ivan Ivanovitch (pra vocês que não tão familiarizados com a língua russa, esse segundo nome, que é sempre o segundo nome dos russos, chama patronímico, e é dado a partir do nome do seu pai. Tipo, se você chama Euzébio e seu pai chama Jacinto seu nome vai ser Euzébio Jacintovitch, ou algo assim. Tá explicado, continuemos), e o outro chama Ivan Nikíforovich. O primeiro é falastrão e gosta de causar boa impressão, o segundo é calado, curto e grosso. A briga a que o título se refere acontece quando o Ivanovitch vai na casa do amigo interessado numa arma velha que ele viu a empregada pendurar no varal (é isso mesmo, não me pergunte por que essas coisas acontecem), e o sujeito falastrão acaba insistindo mais do que deve em comprar a tal arma que acaba emputecendo o outro, que manda uma grosseria que o desestabiliza emocionalmente ao ponto de cortarem relações de décadas. A partir daí começa uma disputa judicial e um joguinho de sabotagem estilo Pica-Pau e Zeca Urubu, até que a cidade inteira se envolve na parada e as pessoas se mobilizam para tentar reconciliar os amigos.

Микола ГогольViu só? Simples. Temos aí dois personagens, com um único traço marcante da personalidade de cada um, e a partir daí é possível desenvolver uma novela completa. Uma novela de menos de 100 páginas, mas uma novela. E o que é uma novela senão isso? Um conto de mais fôlego, uma coisa que se resolve em si, mas tem começo, meio e fim muito bem definidos, divididos em capítulos se for possível, e que não guarda maiores ambições do que ser uma boa história, via de regra. Assim é A Briga dos Dois Ivans, uma historia singela e engraçadinha. E Gógol, nessa levada, aproveita para esmiuçar aspectos da vida no interior – no caso, Mírgorod, a ciadade onde se passa a história. Lembram que comentei sobre Mírgorod quando resenhei Avenida Nievski? Mírgorod não só é a coletânea de histórias que ele escreveu (das quais Avenida Nievski e essa Briga dos Dois Ivans fazem parte, sendo esta a última história da coletânea) mas também uma cidade na Ucrânia, e sempre é mencionado nas novelas dele como a típica cidadezinha ucraniana, em oposição a Poltava, que é uma espécie de metrópole em eterna ascensão no imaginário das histórias, ou, sei lá, uma cidade maior a qual as pessoas do interior recorrem, tipo a relação entre Videira e Chapecó.

Peguem A Briga dos Dois Ivans e leiam numa sentada quando quiserem dar uma desopilada na cabeça. Afinal de contas, Gógol é um dos russos, e não é todo dia que você pode dar uma desopilada na cabeça lendo um russo. Primeiro que as pessoas fazem tudo menos ler quando querem dar uma desopilada, e segundo que, quando leem, preferem coisas estúpidas e muito mais levianas, e isso aqui é um Gógol. Isso é o equivalente a sofrer com o fim do relacionamento na Ilha de Caras. É coisa fina, pra gente fina. Pra quem pode, digamos. Faça como os famosos da Ilha de Caras e refresque a cuca com coisas finas. Falei, tá falado.

A Briga dos Dois Ivans cumpre a seguinte modalidade do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito em um alfabeto diferente do seu.

Comentário final: 91 páginas em papel pólen. Skavurska!

Nikolai Gógol – Avenida Niévski (Niesvki Prospiekt Невский проспект)

GógolE você veio aqui todo feliz em pleno feriado de Tiradentes e não achou nenhuma novidade, gritou “Ó senhor Nego Dito, por que nos abandonastes?”, e eu, calmamente, vos respondo: tava descansando. Também sou filho de Deus e também tenho direito a relaxar e eu não preciso de mais nada além do meu surf, minhas bongadas, meu dinheiro, meu fileto, meu skank e a minha gata, pra citar aqui o falecido Gabriel García Marquez. Mas vim aqui correndo no dia seguinte entregar um novo comentário, ou resenha, ou crítica, ou do que quer que você queira chamar essa conversa solitária que travo aqui com um livro na mão toda semana.

E o da semana é curtinho, mas instigante. Avenida Niévski, do Gógol, esse cara porreta que não nega fogo. A gente sabe que tá cheio de blog aí comentando nicholas sparks e meg cabot (em minúsculas) e adjacentes porque as pessoas têm medo de falar desses livros de gente grande. Mas aqui a gente não tem medo dessas coisas e, ainda que quebre a cara aqui falando merda, vou tecer um comentário de substância sobre esse conto que faz parte da série petersburguesa que Gógol escreveu entre 1832 e 1842.

Bom, a Avenida Niévski, para quem não sabe, é a Rambla, a Rua XV, a Champs Elyseés, a Unter den Linden de São Petersburgo, a cidade quente da Rússia e então, à época da escrita, em 1835, capital do império Russo do czar Nicolau I, aquele que fez miséria no Cáucaso e na Anatólia pra mostrar que não tava de brincadeira. São Petersburgo já havia sido capital do império Russo antes, e apenas por um breve período de quatro anos, entre 1928 e 1932, perdeu o posto pra Moscou, por conta de um certo Pedro II que não é o nosso, mas que também fez lá suas merdinhas por aí. Fato é que foi durante capital durante duzentos anos não consecutivos, de 1713 a 1918 – um ano em que a única coisa que continuou de pé naquelas bandas foi o idioma e a birita. De modo que, quando Gógol escreveu sobre sua principal via, São Petersburgo já era o point do império, que inspirava modernidade agitação e artificialismos, enquanto Moscou ficava com aquela aura do Rio de Janeiro, dominando a cultura mas ressentido da importância perdida. Essa edição, aliás, vem com um caderninho chamado Notas de Petersburgo de 1836, em que Gógol mais ou menos ilustra isso. Mas falemos disso depois.

Mesmo assim, o autor faz o elogio à Avenida Niévski como um lugar falso, rápido, místico e cosmopolita. Começa narrando o que se observa na via desde suas primeiras horas até o final da noite e, quando você menos espera, aparece um personagem aí, um pintor que morre de amor por uma mulher mimada e rica que não quer saber dele, a quem encontra por acaso na Avenida Niévski. A partir dessa história, emenda-se outra, sobre o policial que se apaixona pela esposa de um ferreiro alemão. E a coisa fica por aí, e termina com mais uma crônica pedrobialesca (não é pra ficar se achando não, Bial, tô só tirando uma com a sua cara) sobre o aspecto ilusório da rua. Isso é o que posso adiantar sem estragar parte da diversão pra vocês, e talvez seja o suficiente para comentarmos.

Микола ГогольBom, em primeiro lugar, qual é a do Gógol em descrever esse lugar que todo mundo já conhece há tempos como sendo tão especial assim? Bom, podemos parar aqui e traçar um paralelo com um dos grandes livros do autor, Tarás Bulba, que resenhamos aqui em algum dia do ano passado (provavelmente nessa mesma época, aliás). Acho que consegui entrever um elo de ligação entre essas duas histórias e isso pode fazer sentido pro comentário. Bom, em Tarás Bulba, temos um velho inconformado com a bunda-molice das novas gerações e resolve pegar os filhos recém-formados na universidade, montar uma milícia e começar uma guerra santa aí porque sim. Não é preciso nem ler o livro pra saber que uma ideia dessa só pode terminar em merda, e Gógol conta isso de uma maneira a ilustrar que o que fez o império russo não se sustenta mais na modernidade por razões civilizatórias altamente necessárias para o bom funcionamento de um império grande como aquele. Em Avenida Niévski, a própria avenida é um personagem (aí, me amarro quando a galera intelectual fala que o cenário é um personagem pela insistência do autor em descrever o lugar. Parece algo tão profundo e misterioso dizer que um lugar é um personagem, aposto que os críticos e os mediadores que falam isso comem muita mulher depois), e é uma avenida que promove encontros aleatórios entre pessoas diferentes, cria problemas e resolve problemas também. A Avenida é então símbolo do caos dos grandes centros e isso é assustador para o narrador. Mas, ao mesmo tempo, ele se mostra algo como compreensivo com as loucuras da Avenida, um lugar maravilhoso. Gógol se mostra então um cara que gosta dos tempos antigos, mas sabe que eles acabaram e que devem ficar no passado. Ele é um tipo nostálgico pé no chão, que não quer desenterrar as coisas, mas que também não deixa de ter medo dos novos tempos.

Os desencontros da Avenida Niévski estão representados nas duas histórias malfadadas de amor que o conto traz. A beleza e sabedoria do lugar é descrita no final da segunda história. O cosmopolitismo, no começo da narrativa. E, por fim, o medo que a cidade deixa na impressão do narrador, em seu comentário final. É bem impressionante esse caráter híbrido do livro, que é meio crônica, meio narrativa, principalmente porque é um livro bem curtinho. Por isso acho que ele capta bem o espírito que Gógol queria com seu tempo e com seu lugar. E acho que nessa descrição, ele conseguiu dar movimento pra um cenário estático para todos os efeitos. Bom, hein?

Agora, bom mesmo é o bagulho que os designers da Cosacnaify fumaram pra criar esse projeto gráfico. É uma das coisas mais ousadas que já vi em termos de livro, e olha que já li algumas coisas da Cosac bem diferentonas no formato. Bom, esse livro vem embrulhado em um jornal russo do ano em que o livro foi publicado (As notícias falam de um Duque da Áustria que quer viajar pra não sei onde e outras abobrinhas do tipo), e vem com a crônica anexa em um caderninho todo verde, em que Gógol fala sobre São Petersburgo em contraposição à Moscou, e mete o pau em umas coisas culturais da cidade. Não achei muito divertido de ler, mas talvez isso seja porque eu não conheço nenhuma das cidades, não sei. O livro em si tem o texto das páginas divididos em duas metades horizontais, uma laranja e outra azul, espelhada a essa primeira. A ideia é que você leia a metade de cima das páginas até o final, vire o livro de cabeça pra baixo e siga lendo a parte azul até o começo de novo, que é ilustrado com litogravuras dos dois lados da avenida em questão. Li no site da Cosac que isso é para ilustrar o fluxo de mão dupla da avenida, como se fosse uma caminhada até o seu final, ida e volta. Bom, eu é que não vou ficar azedando a trip dos outros, então vou falar que a ideia é maneira mesmo e achei divertido ler assim. O livro tem 134 meias páginas, ou seja, 67 páginas. Mas uma coisa me incomodou profundamente, que é a numeração invertida das páginas: as ímpares ficam na esquerda! Que mundo maluco é esse? Não gostei, não façam mais isso, por favor.

Ah, e o mais importante sobre o cuidado com o livro que a editora geralmente tem com suas obras é que ele tem tradução do Rubens Figueiredo, um cara de quem eu queria muito ser amigo pra poder conversar sobre essas coisas (quem sabe ele me ensinasse a não falar tanta besteira nesse blog). Por isso, queria começar aqui a campanha RUBENS FIGUEIREDO: SEJA AMIGO DO LIVRADA! Vou deixar uma imagem aqui embaixo pra vocês postarem nos seus respectivos Facebooks pra ver se a mensagem chega até ele. Quem sabe ele me escreve, me convida pra comer um pão de queijo da próxima vez em que eu estiver em Copacabana e é o começo de uma linda amizade? Só depende de vocês, gente, vamos lá!

Livrada

Avenia Niévski cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

Comentário final: 134 meias páginas em papel munken pure rough. Espalhando papelzinho pela avenida, todo mundo, vai!

Sérgio Sant’Anna – O Livro de Praga

Hoje é domingo, pé de cachimbo, dia das mães, todo mundo enchendo a pança em família e fazendo as mesmas piadas de “é pavê ou pá cumê” e “afinal, avó é mãe duas vezes”, enquanto têm-se a ligeira impressão de que mais um domingo acaba, mais um final de semana chega a seu ocaso e mais uma vez, os objetivos alcançados foram mínimos. Suspira conformado e vai para a cama esperar o começo de mais uma melancólica semana. Mas não tema, homem moderno e exemplo patético da herança orgânica da Terra, cá está o livrada para colocar mais miolos nos seus miolos e mais tutano no seu tutano. Sente-se, relaxe e aproveite mais esse livro do dia, quem sabe quando você chegar ao final você se anime a visitar uma livraria e comprar algo bonito para a sua estante e seu cérebro.

Bom, este é o penúltimo post antes das minhas tão merecidas férias, e fala logo sobre Praga, cidade que estarei visitando daqui a exatamente um mês. Por isso achei conveniente e vamos lá, é livro nacional, sempre uma boa pedida!

O Livro de Praga é obra do escritor Sérgio Sant’Anna, que obviamente já viu dias melhores na hora de bolar um título criativo. Sant’Anna fez parte do time da coleção Amores Expressos, do almighty Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora paulistana de qualquer coisa. Pra quem tá de bobeira, vou explicar: dezesseis autores viajaram bancados pela empresa para passar um mês em alguma cidade do mundo com a missão de voltar e escrever uma história de amor situada nessa cidade. Primeira consideração: vida chata, hein galera? Fala sério, ser chegado do Teixeirão aí é a maior jogada (me liga, cara, vamos jogar uma bola qualquer hora!) E isso prova que eu não teria o menor tino pra coisa, o santo aqui ia desconfiar dessa esmolada toda e não ia arredar o pé com medo de ter a alma roubada depois. Sério, gente, não me ofereçam dinheiro, morro de medo… Bom, de qualquer jeito, até o momento, sete livros já saíram pela Companhia das Letras: esse, o Cordilheira do Daniel Galera (Buenos Aires), , Estive em Lisboa e Lembrei de Você do Luiz Ruffato (Lisboa… dã), Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Cairo), O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente, do João Paulo Cuenca (a vírgula se faz necessária aqui… Tóquio), Nunca Vai Embora, do Chico Matoso (idem… Cuba) e O Filho da Mãe, do Bernardo Carvalho (ibidem… São Petesburgo). A coleção prevê ainda livros do Lourenço Mutarelli sobre Nova York e um livro rejeitado de um gaiato de Goiânia que foi para São Paulo (o azarento da turma, provavelmente), entre outros. Olha, já vi ideias melhores para coleções literárias, e essa me parece a Paris Hilton das coleções literárias: perdulária, superficial e altamente desejada por fashionistas antenados nas tendências. Isso enquanto coleção, o que não quer dizer que, individualmente, a parada não guarde boas surpresas, como é o caso desse livro. Vamos a ele.

Sérgio Sant’Anna teve muito culhão pra fazer o que fez no Livro de Praga: pegou a grana que lhe foi dado, passou um mês usufruindo sabe-se lá de quais serviços do Leste Europeu e voltou não com um romance, mas com um livro de contos mascarado de romance e com um roteiro de filme pornô mascarado de história de amor, usando como pano de fundo a maior parte dos clichês da capital checa – coisa que uma semana na cidade ou duas semanas na Wikipedia resolveriam de forma igualmente eficaz.

O protagonista é um sujeito chamado Antônio Fernandes, um cara que guarda grandes semelhanças com o autor do livro à exceção do excesso de swag que lhe permite passar o rodo em Praga. Fernandes – olha só! – também está passando um mês em Praga a pedido de um ricasso para uma coleção literária. É, a imaginação do cara voou longe pra bolar essa história… O “romance” é dividido em vários contos e em cada um deles o herói Antônio Fernandes (que também poderia ter sido batizado Dirk Diggler) se envolve com alguma peripécia artística e sexual: numa hora é precisa desenbolsar uma bolada para ver e trepar com uma pianista reclusa e seleta, noutra descobre que um sujeito cafetina a irmã que tem tatuado um manuscrito inédito de Kafka no corpo, noutro compra uma boneca no teatro que ganha vida na cabeça dele, noutro ainda transa com uma santa fictícia num altar. Tudo no maior delírio, na maior loucuragem, na maior psicodelia libertina. O sujeito está em alfa, em nirvana, pra lá de Bagdá, viajando na maionese enquanto essas coisas acontecem nos seus sonhos diurnos. Cada uma das aventuras é um tipo de tara e um tipo de arte: felação e música, penetração e escultura, literatura e donkey show, sei lá, o cara vai misturando as taras da cabeça dele com as artes que vai encontrando.

E aí vai aquela coisa, aquela ambiguidade onírica gostosa: é sonho ou é realidade? É sexo ou é amor? É romance ou é conto? É arte ou charlatanismo? Você decide, você julga e você escolhe, porque a minha opinião está guardada na minha cabeça e se eu intercedesse nesse ponto eu interferirira da pior maneira na sua leitura: limando a sua imaginação e sua capacidade de julgamento e discernimento. Como eu não tenho cara de televisão, jogo pra galera.

Esse projeto gráfico é uma maravilha, faz todo mundo querer fazer a coleçãozinha, porque vem com um carimbinho e o público gosta disso: gotta catch ‘em all, mr. Pokémon. Essa capa é mais bonita que as outras, na minha modesta opinião, por ser menos pop, menos teen e menos hype. Papél pólen, fonte Electra e todo mundo fica feliz. Alright!

Eis os meus recados:

1-    Essa é a última quinzena para mandar seus autógrafos. Tô querendo fazer uma parada massa aqui e a galera não colabora. Não adianta nada ter dez mil acessos no mês e receber quatro e-mails, sejam participativos, colaborativos, sejam mais Che Guevara e menos “com 5 mil ‘curtir’ o médico vai fazer um transplante de rim pro labrador dessa garotinha com câncer”. Vamos lá, vai ser legal: envie fotos ou imagens scaneadas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com

2-    Não sei se já viram, mas agora além de criticar livros, também critico hambúrgueres – um trabalho bem mais gostoso, vá lá. Se não conhece ainda, passa lá no Good Burger a qualquer hora e procure os meus textos, mas leia também os do Murilo, meu camarada que tampouco foge à luta.

3-    Já que nunca é pedir demais: curtam o Livrada! no Facebook e sigam @bloglivrada for more.

Comentário final: 144 páginas pólen soft. Voando daqui até Praga, uma porrada no orelhão do Kafka.

Fernando Mantelli – Raiva nos Raios de Sol

Feliz ano novo, povão! Quer dizer, feliz ano novo pra quem é de Curitiba, quem for de fora deve estar boiando com minha saudação. É que ontem à noite Curitiba – ou parte dela – celebrou o réveillon fora de época, uma invenção do povo das internetcha que pode ser classificado no jargão americano de “white people jokes”. Eis que as pessoas brancas, tipicamente classe-média, resolveram por bem continuar as festanças mesmo depois do carnaval. Maaas, ao contrário do resto do Brasil, Curitiba não gosta de carnaval pra fazer micareta fora de época ou qualquer coisa do tipo, então resolveram criar um ano novo de mentirinha pra tomar champagne, abraçar os outros e participar de uma aglomeração. Isso vindo de uma cidade que historicamente não dá nem bom dia pro porteiro, mas, como diria Avril Lavigne, life’s like this.

Chega disso agora, nem sou curitibano e tô aqui gastando meu latim pra explicar piada de branco pra vocês. Bom, fevereiro acabou, o ano começou de verdade, e 2012 não é um ano como qualquer outro, e não digo isso por causa daquela bobagem do fim do mundo (embora saiba que não vou resistir à tentação de um dia mostrar o filme “2012” pro meu filho e dizer pra ele que eu sobrevivi àquilo tudo). É que 2012 é um ano bissexto, com 366 dias. O dia a mais no caso é o dia 29 de fevereiro, última quarta-feira, e eu, assim como Luísa Marilac, resolvi fazer algo de diferente e ler um livro desses de um dia. A bola da vez foi Raiva nos Raios de Sol, do gaúcho Fernando Mantelli (cuja foto não temos hoje, paciência, Iracema, paciência). Parafraseando o que o leitor Raphael Pousa comentou no penúltimo post, o conto tem seu valor e a gente precisa ler mais. E que bela surpresa tive com esse livrinho de 90 páginas.

Raiva nos Raios de Sol é o tipo de coisa que eu escreveria com 18 anos. Não, não estou diminuindo o livro nem dizendo que eu sou digdindigdindigdin, mas é que naquela época, quando eu escrevia meus contos, tinha uma mentalidade similar a do autor, razão pela qual meu professor de texto da época (o Cristóvão Tezza) me deu umas notas baixas e umas anotações preocupadas nas minhas redações. A minha ideia era a seguinte: se você vai escrever algo curto, de uma página ou duas, é preciso ser pungente, é preciso dar porrada na boca do estômago, é preciso ser desagradável, é preciso chocar e fazer o leitor não se esquecer daquelas poucas linhas traçadas. Caso contrário, o máximo que você vai alcançar vai ser uma leitura agradável facilmente esquecida que o leitor dedicou por boa vontade não esperando muita coisa além de passar o tempo. E foi isso que Mantelli fez. Com seus vinte continhos (faça as contas: a média é de 4 páginas de livro cada uma. Isso sem contar que o começo é sempre em página ímpar, então vão-se aí algumas brancas no meio), o autor criou um universo hediondo, distorcido, perturbado, doentio, cheio de morte, sexo, ódio e nenhum resquício de bondade.

Tomemos como exemplo o primeiro conto, intitulado “De repente um verão”: o rapaz tá andando no carro, vê uma gatinha numa bicicleta, chama num chamego, oferece cocaína, diz que tem em casa e, como a bicicleta não cabe no carro, resolve dar um bonde pra ela, que vai segurando na janela. Claro que o sujeito passa num montinho de areia, o carro dá um solavanco, a mina vai pra baixo da roda e ganha aquela bela fratura exposta, caindo de boca no aslfalto e deixando os dentes lá, pra desespero do cachorrão que larga a loirinha sangrando e chorando pra trás e vai cuidar da própria vidinha. Isso tudo em menos de duas páginas. Conciso, contundente e ainda assim se permite uma poesia de leve, umas metáforas bregas bagarai que, felizmente, ele vai melhorando ao longo do livro.

Esse conto meio que exemplifica a podridão do universo de Raiva nos Raios de Sol. Um cross-over entre Nelson Rodrigues e as paixões criminosas do Marquês de Sade. Digo que parece Nelson Rodrigues e não é à toa. Quer dizer, o quanto se pode inventar dentro desse universo meio restrito? Alguns chegam a ser variações do mesmo tema: uma traição que dá errado, uma ninfetinha rosadinha empinadinha e cheirosinha que dá chave de cadeia, esse tipo de coisa. Lembra muito o Nelson mesmo, só que um Nelson mais brutal, mais conciso e menos dramático – veja bem, não disse que é melhor, veja bem.

Mas o sujeito tem mérito próprio. Não só por reunir esse cosmos muito particular, pessimista e sombrio, mas por criar uma voz própria, que mistura um lirismo à lá Lygia Faguntes Telles quando quer fazer suspense com Lourenço Mutarelli quando quer fazer coda. Os louros são dele. Currupaco. Enfim, é um bom livro.

Esse projeto da Não Editora condiz bem com o universo do livro e foi muito bem pensado. A capa, que mostra uma família na praia com os rostos rabiscados, representa primeiro o clima dos contos (a maior parte deles tem a ver com o verão) e a raiva de sua literatura, que acaba com o que é belo e memorável. Os rabiscos de caneta (que realmente parecem feitos à mão) continuam nos cabeços dos títulos e vão te deixando aos poucos com vontade de estraçalhar o livro você também. Boa, né? Fontes Dante e Helvética porque todo mundo hoje é hipster pra usar Helvética, papel pólen e tudo mais como manda o figurino. Fica a dica.

A propósito, da última vez, pedi para curtire a página do Livrada! no Facebook e deu mais do que certo. Já somos 140 leitores. Our little group has always been and always will untill the end. Então, reforço o pedido: Curtam a página no Facebook!

Comentário final: 90 páginas em pólen soft. Bom pra tacar feito bumerangue na cabeça do infeliz metido a aborígene que diz que não gosta de Breaking Bad.

Nelson Rego – Daimon Junto à Porta

Bom dia, baixinhos e baixinhas! Enquanto vocês leem este post, eu estarei dando um duro danado num hotel cinco estrelas à beira-mar de copacabana, então aproveitem o dia se puderem porque hoje é dia de Livrada, bebê! E novidades! Agora, a Companhia da Letras é parceira desse blog supimpa, então esperem alguns lançamentos deles por aqui também.

Falando em parceria, o post de hoje é um livro de outra parceira do blog, a editora Dublinense, que nos enviou (“nos”, como se fôssemos uma empresa sinistra. Mal sabem vocês que esse trabalho todo é feito por míseros oito macacos acorrentados a máquinas de escrever) o livro de contos Daimon Junto à Porta, do Nelson Rego, um autor semi-estreante e que merece o tratamento de gente grande da imprensa especializada que só um veículo imparcial e independente como o Livrada pode proporcionar. Então se segura e vem com a gente (“a gente” de novo… vão pensar que eu sou esquizofrênico agora).

Daimon Junto à Porta é um livro curtinho, com contos curtos, que, no meu entendimento, tem como eixo unitário os sacrifícios e os absurdos cometidos e propostos em nome de uma suposta arte que, obviamente, está acima de nós humanos. É assim que começa o primeiro conto, Platero e o Mar, que narra a história de duas mulheres e um homem que posam em cenas de sexo explícito para uma artista desenhá-los no melhor estilo Schiele de pau duro. Coisa que a mulher poderia fazer simplesmente indo num inferninho qualquer na perifa a um preço módico de 30 reais. Mas não,  a moça quer um showzinho particular, ê povo estuporado. A grande sacada do livro foi retomar essa história no último conto, intitulado Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos. Eu sei, parece título de power point cristão, mas acho que essa foi a solução do autor para um título que desse um sentido de grandiosidade e superioridade da vida sobre as histórias.

Aliás, a minha principal crítica ao livro é essa: os títulos. Daimon Junto à Porta, Platero e o Mar, Nihil, Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos… bah, tchê, quanta afetação. Essa parada de jogar palavra em latim no meio das coisas já foi legal na época em que não tinha Wikipedia, hoje parece arroto de erudição mal digerida, vai por mim. A sorte do Sr. Rego é que ele não se propõe tão sabidão assim no miolo dos seus contos, pelo menos na maioria das vezes. Pelo contrário, consegue criar umas historinhas curtas e cativantes com pouca coisa: um diálogo entre dois imigrantes nos Estados Unidos, uma menina que vai buscar um balde d’água pra avó, um médium que é explorado pelo pai da narradora, esse tipo de coisa que deixa passar uma sagacidade em não viajar muito na maionese e não ficar de pompas literárias (até tem umas construções bem óbvias e corriqueiras, dessas meio genéricas que você aprendeu na aula de redação do colégio e escreve no piloto automático).

A coisa do tamanho do livro é outra bola dentro do autor. Provavelmente consciente de sua própria falta de fôlego para escrever algo maior, ele usa o tamanho do livro a seu favor, criando histórias que você já sabe de antemão que são curtas e despertando o interesse do leitor em poucas linhas. Por mais que seja aquele estilo de solução a lá Flaubert, com o crescimento do interesse no passar das páginas, é assim que o mundo gira e é assim que você faz com que a crítica fale algo do tipo “é um autor que sabe contar uma história”. E no final, o livro é bom porque o autor consegue dizer a que veio em poucas páginas, e se isso era uma espécie de teste para ver se rolava escrever um romance, vá fundo, filho! Só não escreva mais umas paradas do tipo “sorrisos, quase risadinhas” e outras breguices do tipo, porque tirando isso, tá no ponto!

Por último, para quem gosta de literatura erótica, é preciso dizer: criar uma boa cena sensual ou erótica em um livro é um trabalho que poucos conseguem fazer com maestria e esse gajo, sei não, me parece que tem o talento, embora tenha explorado pouco esse lado.

Esse projeto gráfico da Dublinense é o sonho de qualquer escritor iniciante. Um capricho no livro que pouco se vê hoje em dia. Papel pólen, fonte Arno Pro, paginação central coberta em fundo preto, capítulos bem divididos que começam sempre em página ímpar, “desperdiçando” papel para dar mais respiro pros contos, títulos separados em uma única página preta que vai ficando menos preta a cada novo conto (ou pode ser só tinta fraca da gráfica, não sei), e uma capa majestosa que divide fotografia e design de maneira justa, embora margem em capa de livro não seja uma das minhas coisas favoritas, pelo contrário. No geral, um bom livro pra quem quer pegar um pouco do flow dos nossos contistas.

Comentário final: 121 páginas em papel pólen. Pode matar alguém nas mãos de um Ginosaji.

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!

Jorge Luis Borges – O livro dos seres imaginários (El libro de los seres imaginarios)

El libro de los seres imaginariosVish, garotada. Passamos o ano inteirinho sem falar do Jorge Luis Borges, mas não foi por mal. Vieram outros autores na frente, mas a estante aqui de casa está sempre reservada para mais livros desse cabra da peste.

Antes de mais nada, novidades! Agora ali do ladinho fiz uma página de recados para lembrar-lhes de suas obrigações cívicas perante este fescenino blog. E já coloquei lá, para começar, o velho lembrete de mandar as fotos de suas estantes. Então, como diz a Eliana, fiquem ligadinhos, ok? E vamos ao que interessa.

Tirou o cavalinho da chuva quem estava esperando, para começar, um comentário sobre Ficções, ou O Aleph. Se vocês repararem na cronologia do blog, frequentemente começo a falar de um autor por um livro, digamos, Lado B. Isso é resquício dos ensinamentos do professor Polaco, que disse para nunca alimentarmos a conversa de buteco dos outros dando a obra mastigada. Então, filhote, quer pagar de inteligente com teus comparsas entre uma Carlsberg e outra? Vá ler Borges por conta própria, é ou não é?

Bom, apesar de tudo, O livro dos seres imaginários, nosso foco de hoje, também é um grande e importante livro do autor. E se você chegou no planeta agora, trata-se de um compêndio sobre seres imaginários extraídos do folclore do mundo ou pensados por outros escritores, como o bicho esquisito da escada que Kafka conta em um de seus contos, acho que tem no Narrativas do Espólio, se não me engano. E é basicamente isso: a cada capítulo, um animal, com as explicações sobre sua origem, suas particularidades e, quem sabe, um pouco da história de sua criação.

Agora vê só como essa raça chamada argentino é: Borges sempre foi na contramão de toda aquela galera caliente latina que escrevia histórias fantasiosas de viajar na maionese bonito. Não que a literatura dele seja pé no chão, muito pelo contrário. Mas é, antes de tudo, na razão em que ele baseia suas excursões pra fora da casinha. Por isso escolhi esse livro. Ele mostra bem o tipo de rato de biblioteca que o Borges foi, e quase todos os contos tem algum embasamento em história ou literatura alheia. Talvez o mais emblemático seja mesmo o famoso Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, por tudo isso que eu disse, mas deixemos pra falar dele uma outra hora.

O livro dos seres imaginários realmente mexe com a sua cabeça, de ver como as pessoas tem imaginação fértil e você aí, achando que Se eu Fosse Você 2 é o filme mais maluco da história. Talvez o bahamut seja o mais doido que eu tenha visto no livro, mas é difícil dizer, são vários, com nomes estranhíssimos do tipo ‘a bao a qu’ ou ‘abtu e anet’. Alguns já se conhece, outros nem tanto, mas para isso, tá lá o livro do sujeito que, aliás, não é tão fantasioso assim. Nos catálogos do Plínio, o Velho, rapazote naturalista romano que viveu quando os anos só tinham dois dígitos, apareciam muitos bichos que não existiam entre outros, de carne e osso. Acho que o que Borges quis fazer foi pegar o trabalho de Plinio e tirar todos os que já existiam e fazer um compêndio mais completo de seres de mentirinha.

Esse livro faz parte da Biblioteca Borges que a Companhia das Letras está lançando aos pouquinhos. A Biblioteca Borges é a prova viva de que um bom projeto gráfico alavancam as vendas de um autor. Veja só que até bem pouco tempo atrás, antes da editora começar a lançar os primeiros volumes, a editora Globo tinha dois ou três calhamaços com a obra completa do escritor a um preço ridículo, algo como 30 ou 40 reais cada livro. E ninguém nem tchuns pro negócio até que começou a aparecer esses (e o livro dos seres imaginários foi um dos primeiros títulos lançados). Vish, choveu neguinho pra coçar o bolso e adquirir um exemplar. A ideia deu certo e até hoje a editora está lançando esporadicamente volumes da obra completa do autor, com capas que estampam pinturas que não poderiam ter sido melhor escolhidas para casar com a vibe do argentino. Um troço quadradão, de linhas precisas e cores chapadas. Essa no caso é da artista plástica Judith Lauand, uma simpática senhorinha que gosta desse lance de equilíbrio e ritmo sem formas difusas. Com a dona é pão pão queijo queijo, amigo. A tradução é de Heloísa Jahm, uma tradutora muito da versátil, porque já traduziu do inglês, espanhol, francês, italiano, sueco, enfim, a moça é boa e assina a tradução de obras de Marguerite Duras, Conan Doyle, Julio Verne e Apollinaire. Então, respect! No mais, papel pólen soft e fonte Walbaum, usada na Biblioteca Borges toda.

Comentário final: 218 páginas em pólen soft. Hoje tô sem ideia de comentário final. Mas isso não faz diferença mesmo, né?