Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)


Devo confessar que minhas expectativas sobre esse livro quase foram a sua ruína antes da hora. Foi preciso que eu parasse, refletisse sobre a intenção dele, para então começá-lo de novo e dessa vez, sim, entender a proposta da jovem escritora Chimamanda Adichie com Meio Sol Amarelo. A escritora foi minha porta de entrada para a literatura nigeriana (não posso fazer nada se resolveram publicar um livro do Chinua Achebe só no ano passado), e por isso, esperava que o livro não só me apresentasse o estilo da literatura do país, mas também a identidade nigeriana. E foi burrice minha, já deveria saber que literatura nenhuma tem obrigação a buscar esse tipo de coisa para o leitor.

Por outro lado, como J.M. Coetzee muito bem colocou na segunda palestra do romance Elizabeth Costello, o romance africano é escrito quase que exclusivamente para estrangeiros, visto que a população de leitores no continente é muito baixa. Sendo assim, o romancista africano deve construir, em todo livro, uma imagem da África que seja coerente com a idealização que nós, não-africamos, temos do continente, seja ela qual for. E não que Adichie não tenha feito isso. O problema (para mim, em um primeiro momento, pelo menos) era que esse não fosse o foco da obra.

Meio Sol Amarelo conta a história de um grupo de pessoas — mais especificamente duas irmãs, Olanna e Kainenne, que, no final da década de 60, separaram-se ideologicamente por conta da guerra civil que culminaria com a fundação de Biafra, o estado independente do povo ibo que existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970. Enquanto o grupo, que é formado também por um jornalista inglês e um menino do interior do país, luta para sobreviver, rolam umas brigas familiares e um troca-troca de casais que eu achava que não tinha nada a ver com a história.

Acontece que justamente a briga familiar e o troca-troca de casais é a verdadeira história do livro. A guerra civil foi o momento histórico que costurou todo o enredo e foi responsável pelo desfecho de cada um dos personagens, mas não era a intenção da escritora entrar em muitos detalhes sobre o episódio (embora haja sim, algumas discussões políticas). Para fazer um comparativo de fácil compreensão, eu estava irritado como um alemão que pega o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, para ler, e espera tomar conhecimento de cem anos de política nacional. Foi aí que percebi o porquê de Meio Sol Amarelo ser um Best-seller da língua inglesa (mais de 320 mil exemplares, se não me engano). Quem lia esse livro, o lia como um romance de amor em tempos difíceis, como um desses dramas de guerra ou algo assim. Um evento histórico que muda a vida de algumas pessoas. Mas nunca como uma análise sobre o episódio.  E assim, entendida essa questão, preciso dizer que a leitura da moça não é capaz de pegar na veia.

Talvez esteja fazendo uma leitura muito simplória desse livro, mas acredite, já tentei fazer a leitura mais difícil dele também. Traduzido para 27 línguas, ganhador de alguns prêmios (entre eles o Orange Prize, que só dá prêmio pra esse tipo de livro, quase), uma belíssima publicação da Companhia das Letras que — pasmem vocês — não teve a capa feita pelo João Baptista da Costa Aguiar (foi uma artista chamada Mayumi Okuyama, que fez algumas outras capas, como o do livro A Outra Vida, do escritor Rodrigo Lacerda), tudo isso não fez a obra bater no coração. Mas tudo bem. Não deixa de ser uma boa leitura só porque não é especial.

Comentário final: Pesadas 502 páginas pólen soft. Quebra umas costelas facilmente.

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8 Respostas para “Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)

  1. É, eu sei como é essa coisa de começar a ler um livro com uma esperança em mente e bater de cara com algo diferente. Difícil ser uma boa surpresa.

    “Quebra umas costelas facilmente” heh =D

    • Tem inclusive um livro chamado “Se um Viajante Numa Noite de Inverno”, do italiano Ítalo Calvino, que lida com esse choque entre a expectativa de leitura de um livro completamente diferente daquele pelo qual você pagou. Obrigado pelo comentário, Bruno!

  2. Eu tô lendo esse livro agora, ainda não cheguei na metade e, ao contrário de ti, eu não tinha expectativa nenhuma quanto a ele. Até aqui, a leitura me envolveu e muito, hein? A meu ver, a autora (que é linda!!!) teve uma capacidade incrível de deixar acessível uma realidade muito diferente da nossa, e na minha opinião, um livro que consegue te transpor com gosto pra uma outra alternativa de realidade já é um livro que vale a pena. Vamos ver se até o final eu mantenho essa minha opinião. Gde abraço!

    • Eu li Something around your neck, da autora e me surpreendi com a capacidade que ela tem de envolver o leitor. Depois li Half of a yellow sun e acabo de encomendar o Purple Ibiscus, e minha expectativa com relação a esse é que ela me leve de mãos dadas à sua narrativa, como fez com as outras obras. Realmente chamar o Meio sol amarelo de um romance de troca troca de casais e apontar esse “deslize” como o plot principal da obra é lastimável. A descrição que Chimamanda faz da guerra e suas consequências, a maneira como se aprofunda no humano de cada personagem, conduzindo o leitor a identificações pessoais com este ou aquele sentimento é maravilhoso. Enfim, a sensibilidade de Chimamanda é algo real, ela conta suas histórias como quem as viveu (embora declare no final do livro que escreveu com base em relatos e leituras e não na própria experiência – o que nem seria, dada sua idade). Lamentei que os igbos tivessem perdido Biafra – torcia por eles, por sua vitória. É emocionante como ela descreve a fome e a miséria com tanta poesia e dor, assim como descreve o amor com a intimidade de quem o conhece bem. Adorei a leitura e vou presentear alguns amigos com essa obra, por julgar a leitura imperdível.

  3. bem eu também tô lendo esse livro ! na minha opinião este é um livro envolvente por que não expõem aspectos apenas de uma cultura pobre da Africa muito pelo contrario este contagia pela miscegenação entrelinhas existente narra vida cotidiano é cultura diferenciada. Expõe os problemas sociais é creio como caracteristica a irônia viva nos personagens que tenta nos transmitir a sensação de ei aqui não somos sempre mais nós mesmo.

    • Oi Carlos, pensando por esse lado, você tem toda razão. O charme dele está justamente em deixar os clichês africanos em segundo plano, uma coisa típica de quem escreve sobre uma realidade que conhece bem e que não quer mostrar para os outros com o único propósito de chocar.
      Um abraço!

  4. Pingback: Wole Soyinka – O Leão e a Joia (The Lion and the Jewel) | Livrada!

  5. Engraçado, minha impressão final sobre esse livro foi bem diferente da tua. Pra mim ficou sendo mais um livro sobre a guerra civil (que não a explicou, claro, mas mostrou várias dimensões de situações que um evento assim pode gerar), do que sobre um romance de amor. Até porque a relação entre as duas irmãs tem mais foco do que as relações entre elas e o love de cada uma. Gostei demais de ver a autora mostrar situações extremas pelas quais os personagens jamais imaginaram passar antes da guerra e de vê-la desenvolver a humanidade de cada um, sobretudo de Ugwu.

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