Chinua Achebe – O mundo se despedaça (Things fall apart)

O mundo se despedaçaE aí galera, como vocês estão? Eu tô um bagaço, preciso começar a ganhar dinheiro com esse negócio de crítica, senão to ferrado. Ficar fazendo isso no contratempo é ruinzão. Mas hey, vocês não vieram aqui para me ouvir reclamar da vida, né? Então vamos ao que interessa.

Um dos mais requisitados “termos de motor de busca”, ou seja, as palavrinhas que trazem os leitores ao meu blog (e que de vez em quando me surpreendem com coisas bizarras que eu, volta e meia, jogo lá no twitter para divertí-los também por lá) é “literatura da Nigéria”. Isso acontece porque, logo quando eu estava começando o blog, resenhei um livro da autora Chimamanda Ngozi Adichie chamado Meio Sol Amarelo (aliás, o nome da moça e o título do livro são bem requisitados também). Senti que não tava com essa bola toda pra falar de literatura nigeriana e resolvi ir atrás de mais um livro. Mas não dou passo em falso. Li lá na Gazeta do Povo uma resenha ixperta do camarada Irinêo Netto sobre o livro O mundo se despedaça, do bambambã da literatura nigeriana, Chinua Achebe e pensei que esse seria um bom livro para se inteirar mais sobre o assunto.

Já ouviu falar de Chinua Achebe? Bom, se você foi um bom fã de Sepultura, deve ter percebido que o clipe de Roots Bloody Roots (a melhor fase do Max, é ou não é?) começa com uma citação do autor. Êta metaleirada culta da gota! Curiosamente, a maioria dos clipes da música disponíveis no Youtube limaram esse começo, mas o papai aqui achou um para vocês verem que eu não to de brincadeira. E sério, gente, vocês podem não curtirem muito metal, mas se vocês não gostam do Roots do Sepultura, é bom dar uma conferida no seu senso de humor porque esse disco é o ouro. E não me venha com esse papo de que o Arise ou o Chaos A.D. são outros quinhentos porque não tem música nenhuma com o Carlinhos Brown, podicrê?

Bom, O mundo se despedaça é uma viagem bacana e consideravelmente profunda for a white guy ao universo Ibo. Os guerreiros ibos, suas mulheres ibas, seus filhos ibinhos, todos moravam na Ibolândia, região da Nigéria que, no final da década de 60, virou a república de Biafra, que, como Ícaro, voou, voou, subiu, subiu e se espatifou bonito no chão pelas mãos das tropas da Onu, dos hauçás maloqueiros e de todo o resto do mundo que não tava a fim de ver pobre feliz. Como bom ibo que é, Achebe conhece a fundo as tradições do povo e pôde, a partir desse conhecimento, sangrar a história de Okonkwo, uma espécie de Eric, o Vermelho da Ibolândia, guerreiro temido e respeitado que é gente que faz. As tradições do povo são muitas para eu ficar aqui contando pra vocês, só adianto que é uma galera tarada num inhame e num vinho de palma (eca!).

Chinua AchebeBom, o livro demora para entrar no assunto principal (igual a esse blog, hã? Hã?), que é a seguinte: Okonkwo mata, sem querer querendo, um membro do seu clã e é obrigado a viver no exílio por sete anos, tempo que sai de Umófia, sua aldeia, cheia de boi de bota, para ir para Mbanta, terra de nego ponderado igual paulista. O problema de contar mais do que isso é que é contar quase o fim do livro. O que dá pra falar, porque isso a orelha já fez o favor de contar mesmo, é que o garotão deveria engolir o orgulho e baixar a bola, mas o cabra quando é ignorantão e cabeça dura, não tem jeito, pisa na bola quando pode. E isso é, mais ou menos, uma metáfora do porquê a civilização rachou no meio igual melancia na roça quando tá boa. Vocês vão entender o que eu estou dizendo se lerem o livro.

A história é muito boa, mas convenhamos: o sujeito se explica demais.  Bom, tudo bem, nesse sentido ele até que foi esperto: usou uma historinha de fantoche para entreter a gente enquanto ele ensina sobre seu povo. Engraçado que, nesse livro, do qual eu esperava história, ganhei explicação e no outro, da Chimamanda Adichie, esperava explicação e só ganhei história. Vamos deixar de reclamar então, que acho que o problema é comigo.

E que belo projeto gráfico esse da Companhia das Letras. Simples, mas bem bonito. Não é do feitio da editora fazer livros muito estampados e com letras muito grandes, mas até que a variação ficou boa. Tem essa foto assustadora da capa, de um negro se vestindo de branco, tipo aquele filme O Cantor de Jazz no Mundo Bizarro (sério, quando eu falo mundo bizarro, eu quero dizer o mundo bizarro do super-homem. Por que ninguém saca essa referência e acha que eu tô falando daquela coluna do G1?). Acho que seria algo como “O cantor de (insira aqui o seu gênero musical caucasiano de preferência)”. A foto é do rapazote G.I. Jones, um bonequinho do Comandos em Ação que viu uns três filmes do Woody Allen e resolveu se dedicar à fotografia, expondo seu acervo no Museu de Arqueologia & Antropologia da Universidade de Cambridge (puta nome pomposo esse “Cambridge”, só de pronunciá-lo você já se sente mais fresco). Fonte Electra é sempre bem vinda e papel pólen soft é fundamental. A tradução foi feita pela Vera Queiroz da Costa e Silva e a introdução pelo Alberto da Costa e Silva, ou seja, ninguém mete a colher. Tem uma epígrafe linda, linda, linda do Yeats, donde vem o título da obra. Aliás, repararam que “things” foi traduzido como “mundo”, né? Tradutores de poesia do meu Brasil, saquem suas defesas do bolso. Mentira, assunto encerrado.

Bom, é isso por hoje, minha gente. Tão afim de ler o lado A da crítica? Já sabe, é lá na Revista Paradoxo. Essa semana, um livro do Italo Calvino pra galeraê!

Ah, vai, vou terminar com a epígrafe do livro, que realmente vale a pena. Lá vai:

“O falcão, a voar num giro que se amplia,

Não pode mais ouvir o falcoeiro;

O mundo se despedaça; nada mais o sustenta;

A simples anarquia se desata no mundo”

Vê que com a tradução, aparece “mundo” duas vezes. Fazer o quê, né?

Comentário final: 236 páginas pólen soft. Pof pof pof!

Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)

Devo confessar que minhas expectativas sobre esse livro quase foram a sua ruína antes da hora. Foi preciso que eu parasse, refletisse sobre a intenção dele, para então começá-lo de novo e dessa vez, sim, entender a proposta da jovem escritora Chimamanda Adichie com Meio Sol Amarelo. A escritora foi minha porta de entrada para a literatura nigeriana (não posso fazer nada se resolveram publicar um livro do Chinua Achebe só no ano passado), e por isso, esperava que o livro não só me apresentasse o estilo da literatura do país, mas também a identidade nigeriana. E foi burrice minha, já deveria saber que literatura nenhuma tem obrigação a buscar esse tipo de coisa para o leitor.

Por outro lado, como J.M. Coetzee muito bem colocou na segunda palestra do romance Elizabeth Costello, o romance africano é escrito quase que exclusivamente para estrangeiros, visto que a população de leitores no continente é muito baixa. Sendo assim, o romancista africano deve construir, em todo livro, uma imagem da África que seja coerente com a idealização que nós, não-africamos, temos do continente, seja ela qual for. E não que Adichie não tenha feito isso. O problema (para mim, em um primeiro momento, pelo menos) era que esse não fosse o foco da obra.

Meio Sol Amarelo conta a história de um grupo de pessoas — mais especificamente duas irmãs, Olanna e Kainenne, que, no final da década de 60, separaram-se ideologicamente por conta da guerra civil que culminaria com a fundação de Biafra, o estado independente do povo ibo que existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970. Enquanto o grupo, que é formado também por um jornalista inglês e um menino do interior do país, luta para sobreviver, rolam umas brigas familiares e um troca-troca de casais que eu achava que não tinha nada a ver com a história.

Acontece que justamente a briga familiar e o troca-troca de casais é a verdadeira história do livro. A guerra civil foi o momento histórico que costurou todo o enredo e foi responsável pelo desfecho de cada um dos personagens, mas não era a intenção da escritora entrar em muitos detalhes sobre o episódio (embora haja sim, algumas discussões políticas). Para fazer um comparativo de fácil compreensão, eu estava irritado como um alemão que pega o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, para ler, e espera tomar conhecimento de cem anos de política nacional. Foi aí que percebi o porquê de Meio Sol Amarelo ser um Best-seller da língua inglesa (mais de 320 mil exemplares, se não me engano). Quem lia esse livro, o lia como um romance de amor em tempos difíceis, como um desses dramas de guerra ou algo assim. Um evento histórico que muda a vida de algumas pessoas. Mas nunca como uma análise sobre o episódio.  E assim, entendida essa questão, preciso dizer que a leitura da moça não é capaz de pegar na veia.

Talvez esteja fazendo uma leitura muito simplória desse livro, mas acredite, já tentei fazer a leitura mais difícil dele também. Traduzido para 27 línguas, ganhador de alguns prêmios (entre eles o Orange Prize, que só dá prêmio pra esse tipo de livro, quase), uma belíssima publicação da Companhia das Letras que — pasmem vocês — não teve a capa feita pelo João Baptista da Costa Aguiar (foi uma artista chamada Mayumi Okuyama, que fez algumas outras capas, como o do livro A Outra Vida, do escritor Rodrigo Lacerda), tudo isso não fez a obra bater no coração. Mas tudo bem. Não deixa de ser uma boa leitura só porque não é especial.

Comentário final: Pesadas 502 páginas pólen soft. Quebra umas costelas facilmente.